FORRESTER, Viviane. Uma estranha ditadura. São Paulo: Editora da Unesp, 2001. 187p. Resenha de: CARDOSO, Heloisa Helena Pacheco. Revista Brasileira de História, São Paulo, v.22, n.43, 2002.

Desemprego nos EUA é o maior em 4 anos: 113 mil é o número de postos de trabalho cortados pela economia americana em agosto1. Manchetes como esta continuam a nos assustar. Elas provocam uma sensação de instabilidade, porque questionam aquilo que acreditamos ainda ser vital para a sobrevivência ¾ o emprego. As matérias publicadas na imprensa cotidianamente tentam fazer uma análise da crise econômica que tem afetado o mundo nessas últimas décadas, mostrando os seus reflexos sociais (mesmo porque eles não podem ser negados, dada a sua objetividade) e os caminhos possíveis para a sua superação: a capacidade das empresas de apresentarem produtividade e competitividade no mercado. A lógica deste caminho acena para a possibilidade de uma retomada do crescimento econômico pelas empresas, o que geraria frutos positivos para o conjunto da população, com a diminuição do desemprego e com a melhoria das condições de vida. Questionar esta lógica é o eixo central da análise feita por Viviane Forrester em Uma estranha ditadura, livro escrito em 1999, lançado na França no ano seguinte e publicado no Brasil em 2001, pela editora da UNESP.

Neste livro, a autora retoma reflexões feitas em O horror econômico 2, sobre o momento atual do capitalismo, caracterizado pelo liberalismo absoluto, pela globalização e pela desregulamentação. O modelo que se instala, sob o signo da automação ou das tecnologias revolucionárias, não tem vínculo com o mundo do trabalho, embora esta categoria, sob a roupagem do emprego, continue a ser sustentáculo da sociedade. O trabalho, ou o emprego, transforma-se em mito, em algo constantemente buscado, embora em extinção; e o desemprego ¾ sua negação ¾ continua sendo objeto de promessas de solução, principalmente nos projetos de desenvolvimento e nas plataformas políticas.

Ao trabalhar com temas atuais, como globalização, ultraliberalismo, competitividade, produtividade, Viviane Forrester levanta questões que estão no cerne das reflexões não só de historiadores, economistas, cientistas políticos, mas também nas discussões cotidianas das pessoas que vivem a pressão da mídia, que as conclama para o sacrifício individual na busca de soluções para as economias nacionais, e a sedução das propostas governamentais que, em nome da competitividade nos mercados internacionais, acenam com a flexibilidade dos empregos e dos direitos sociais. Aliás, esta palavra vem adquirindo uma conotação mágica ao ser usada para caracterizar uma pseudomodernidade do capitalismo.

Em Uma estranha ditadura, o conceito de ultraliberalismo é privilegiado. Esse conceito é tratado pelos dirigentes da economia como globalização. Esta identificação tem um sentido político importante, na medida em que o termo globalização, que possui conteúdo histórico, transmite a idéia de um processo irrefutável, que aconteceria de qualquer forma e que, portanto, seria inquestionável. Mas é o próprio estatuto da História, que se constrói na transformação, que nos possibilita resistir a essa idéia:

(…) na verdade, vivemos em um de seus momentos mais efervescentes, que não vêm acompanhados por crises sociais, mas pela mutação de uma civilização até aqui fundada no emprego, o qual está em contradição com a economia especulativa atualmente dominante3.

Vinculando o desemprego às políticas ultraliberais dos últimos decênios, a autora questiona a chamada economia de mercado que se movimenta em um universo virtual, na qual os assalariados e os consumidores não têm importância.

O título do livro ¾ no original Un étrange dictature ¾ é uma referência à nova ordem do capitalismo, identificada com a globalização, um sistema despótico que acredita poder se dar ao luxo, graças à sua força, de suportar a moldura democrática. Essa estranha ditadura, que mais se assemelha a uma ideologia totalitária, assenta-se em uma contradição básica, que se manifesta na diferença entre o discurso que consagra a economia de mercado como modelo único de sociedade e as políticas concretas adotadas pelas empresas, onde se associam lucro e especulação e a acumulação se liga às flutuações virtuais da especulação, de suas apostas alucinantes.

Duas reflexões básicas se destacam neste livro. A primeira diz respeito ao surgimento dos working poors, referência aos que vivem abaixo do nível de pobreza mesmo trabalhando e que, por isso, não aparecem nas estatísticas sobre desemprego. Assistimos hoje à substituição do welfare ( o conceito de bem- estar social) pelo workfare (trabalho forçado), uma tarifa do trabalho só possível depois que os trabalhadores são desprovidos de todos os recursos, gerando a submissão, que os leva a aceitar quaisquer condições de trabalho e de vida. O workfare consiste, sob pretexto de inserção, em forçar as pessoas a aceitar qualquer trabalho. Esse processo expõe a relação, ainda muito forte, que existe entre dignidade e emprego, e seu efeito imediato, visível na divisão entre assalariados e desempregados, o que possibilita a dominação.

Outra reflexão que nos faz repensar em nossos conceitos sobre as relações sociais hoje é a sobre educação dos jovens. Por que formar jovens para profissões julgadas parasitárias e muito dispendiosas? No que empregá-los? O sistema educacional em todos os países está falido. As profissões que não têm vínculo com o mercado especulativo são consideradas supérfluas. Em nome do controle dos gastos públicos, postos de trabalho essenciais, como de professores, enfermeiras, médicos, vigias de museus, entre outros, são suprimidos, anunciando um futuro sombrio para as próximas gerações. Não estaríamos vivendo agora uma nova exploração desenfreada, que a história já registrou para o século XIX, apenas com uma nova roupagem?

Embora o texto apresentado por Forrester tenha o caráter de ensaio, naquilo a que a autora se propôs, ou seja, refletir sobre os caminhos que trilhamos hoje para superá-los, ele cumpre o seu papel. Poderíamos, talvez, cobrar uma análise teórica mais profunda, assentada em uma pesquisa documental mais consistente. Isto significaria desconhecer a trajetória da autora, romancista, crítica literária do jornal Le Monde, atividades que possibilitaram, por outro lado, a comunicabilidade que ela transmite pela escrita. A pergunta inicial proposta no texto, a respeito do ultraliberalismo, já cria um clima de envolvimento do leitor: De onde vem o fato de suas atividades prosseguirem com a mesma arrogância, de seu poder tão caduco continuar a se consolidar e de seu caráter hegemônico ampliar-se cada vez mais?4 Ao analisar esta questão, a autora chama a atenção para a propaganda que, ao indicar falsas premissas, encobre os verdadeiros problemas.

Vivemos hoje no mundo da comunicação acelerada. Recebemos cotidianamente uma avalanche de informações. Ao ler o jornal, ao assistir o noticiário na televisão, somos bombardeados com uma série de dados e eles nos exigem um posicionamento crítico diante dos acontecimentos. Como sujeitos dessa história presente, recebemos uma chuva de notícias, cujos pingos vão nos atingindo de forma isolada, com o objetivo de nos transmitir uma postura positiva a respeito dos despropósitos do mundo atual que, espera-se, possamos assimilar. Ser sujeito desta história é complicado: nossa capacidade de discernimento e análise vê-se prejudicada não só por sermos sujeitos na cena contemporânea, mas também pela velocidade e multiplicidade das informações que nos são repassadas a todo momento, onde se mesclam as imagens do avanço tecnológico e da saúde das empresas com as da pobreza e da violência urbana.

Ao tratar esta realidade, Uma estranha ditadura ultrapassa o objetivo de análise das relações econômicas e sociais contemporâneas e assume o caráter de denúncia. Denúncia das estratégias de convencimento que visam ocultar a realidade das propagandas, que buscam o consentimento para as políticas destruidoras feitas em nome da globalização, esse apanágio para todos os males.

Acompanhando todas as reflexões feitas pela autora, uma pergunta vital não poderia deixar de ser feita: ¾ existe futuro? Ou melhor, existe a possibilidade de um outro futuro? Para enfrentar a ditadura da economia de mercado é necessário desmantelar a impostura, construir formas de resistência, e a opinião pública pode ter um papel fundamental, forçando seus representantes políticos a mudar de direção. Hobsbawm5, em artigo onde analisa a falência da democracia, observa como a opinião pública tem se tornado poderosa, graças aos meios de comunicação de massa, e como ela tem influído nas instâncias decisórias superiores. O poder desta opinião pública é a outra marca deste mundo globalizado, onde os governos têm que conviver com a vontade dos cidadãos, que não avaliam projetos, mas resultados.

Mais recentemente, afirma o autor, as manifestações em Seattle e Praga demonstram a eficácia da ação direta bem dirigida, conduzida por grupos pequenos, mas cientes de como agir diante das câmaras, mesmo quando agem contra organismos erguidos para serem imunes aos processos políticos democráticos, tais como o FMI e o Banco Mundial.

Se a pressão da opinião pública é o caminho, é necessário definir em que sociedade queremos viver. Transformar a sociedade atual é resolver a questão da repartição, jogando por terra as prioridades da economia ultraliberal, centradas no lucro, colocando as pessoas no centro dessas prioridades. Esta é uma operação realizável, como afirma Viviane Forrester, porque afinal o ultraliberalismo nada tem de irreversível.

Notas

1 “Desemprego nos EUA é o maior em 4 anos.” Folha de S. Paulo, 8 set. 2001, p.B1.

2 FORRESTER, Viviane. O horror econômico. São Paulo: UNESP, 1997.

3 FORRESTER, Viviane.Uma estranha ditadura. São Paulo: UNESP, 2001, p.15.

4 Idem, p. 5.

5 HOBSBAWM, Eric. “A falência da democracia”. In Folha de S. Paulo. Caderno Mais!, 9 set. 2001, pp. 4-7.

Heloisa Helena Pacheco Cardoso – Universidade Federal de Uberlândia/ Projeto PROCAD.

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