MALERBA, Jurandir. A história na América Latina: ensaio de crítica historiográfica. Rio de Janeiro: FGV, 2009, 146 p. Resenha de: GROSSO, Carlos Eduardo Millen. A historiografia na América Latina em questão. História da Historiografia. Ouro Preto, n. 05, p.228-231, setembro 2010.

O livro de Jurandir Malerba, A história na América Latina: ensaio de crítica historiográfica, vem se juntar à escassa bibliografia em português sobre a historiografia latino-americana. A proposta do livro consiste em apresentar, sinteticamente, as vertentes historiográficas do Continente em uma perspectiva histórica, possibilitando ao leitor perceber o processo de mudança da historiografia a partir da década de 1960.

Ainda que o autor classifique esta análise historiográfica como heurística, seu texto é bem mais que um conjunto de hipóteses de investigação a ser testada à luz de pesquisas futuras, não só pelo rigor com que é apresentada, mas também pela perspectiva histórica empregada. Jurandir Malerba, na tentativa de explicar como as grandes linhas da historiografia foram desenhadas nas últimas quatro décadas, argumenta que a história da historiografia da América Latina, entre os anos de 1960 até os dias atuais, é marcada por uma radical transição paradigmática que levou à recusa das histórias de caráter holístico e sintético, em detrimento de novas modalidades analíticas de escrita histórica, centradas em objetos construídos em escala reduzida.

As tendências historiográficas estão agrupadas em dois capítulos cujos títulos já demonstram a abordagem histórica que ultrapassa os enfoques tradicionais, que, normalmente, resultam em “uma classificação estática e não mais que descritiva das vertentes historiográficas do continente” (MALERBA 2009, p. 14): “Décadas de 1970 e 1980 – a história econômica e a história social”; “Décadas de 1980 e 1990 – nova história política e nova história cultural”. No entanto, é preciso sublinhar, o livro de Jurandir Malerba não tem como objetivo abarcar todo o material historiográfico latino-americano produzido no período em questão. Trata-se de destacar as “tendências majoritárias” dessa historiografia, analisando os trabalhos mais representativos.

É justamente na análise das principais obras das correntes historiográficas da América Latina que reside o ponto alto do livro. O autor expõe, com clareza, as referências teóricas, as problemáticas, os temas e os debates que orientaram e vem orientando tais estudos, sem se eximir do contexto histórico local e mais amplo de transformações societais e epistemológicas catalisadas na década de 1960.

A partir dos anos 60, assiste-se à reorganização do modo de funcionamento social e cultural das sociedades de capitalismo central. Salientamse, neste contexto, as contestações ao colonialismo europeu, a rápida expansão do consumo e da comunicação de massa, o enfraquecimento das normas autoritárias e disciplinares e o impulso de individualização. Vê-se, além disso, o abalo dos alicerces absolutos da racionalidade e o fracasso das grandes ideologias da história. Nos termos de Gilles Lipovetsky, tal movimento se deu sob o signo da “descompressão cool do social” (LIPOVETSKY; CHARLES 2004, p. 50). De fato, os neologismos pós-moderno, pós-estruturalista tinham um mérito: evidenciar a grande transformação que se desenvolvia nas sociedades de democracia liberal, caracterizada pela redução das pressões e imposições sociais.

No meio de toda essa ebulição elevam-se novas perspectivas historiográficas, que se alicerçam, essencialmente, em quatro axiomas: a preocupação com o popular, os objetos construídos em escalas reduzidas, a valorização das estratificações e dos conflitos, os socioculturais como objetos de investigação.

Esse movimento é uma reação contra os modelos de se conceber e praticar história que insistiam em seguir abordagens holísticas e totalizantes, promovendo a discussão de temas aos quais as grandes narrativas haviam deixado de fora da disciplina: mulheres, negros, índios, crianças, gays etc.

Com a abertura dessas perspectivas teóricas e temáticas ligadas, basicamente, aos campos da história social e da nova história cultural, foram e estão sendo gestados inúmeros trabalhos em todo mundo. No caso específico da América Latina, o ingresso ocorreu de forma acentuada a partir dos anos 80. Jacques Le Goff (1996, p. 541) descreve uma revolução quantitativa e qualitativa realizada pelos historiadores, na qual o interesse da memória coletiva e da história já não se cristaliza exclusivamente sobre os grandes homens e os acontecimentos. A história que avança depressa, a história política, diplomática, militar, interessa-se por todos os homens, suscita uma nova hierarquia mais ou menos implícita dos documentos.

Por óbvio, o espaço de uma resenha não possibilita esquadrinhar todo caminho analítico percorrido pelo autor. A despeito de todo valor intrínseco dos novos objetos (escravos, índios, mulheres, trabalhadores rurais, população rural) e dos modelos teórico-metodológicos, altamente pertinentes e relevantes, Jurandir Malerba conduz o leitor à reflexão de que certas práticas repetidas, sem muito esforço analítico ao longo dos anos, são merecedoras da atenção dos historiadores. Por exemplo, a excessiva fragmentação do objeto de estudo resulta numa visão setorizada da cultura, de modo a dificultar a obtenção de um panorama cultural de um determinado local com um conjunto de miniaturas etnográficas.

Além disso, Malerba parece tentar mostrar que as problemáticas advindas de sociedades típicas liberais não comportam todas as particularidades históricas da América Latina: Sem entrar no mérito do valor intrínseco daquelas temáticas, cada uma delas altamente pertinente e relevante, desejo aqui apenas destacar o fato de que chegaram à América Latina “vindas de fora”, como problemáticas urgentes, típicas de sociedades liberais desenvolvidas que já não têm as mesmas questões estruturais para resolver, como, por exemplo, aquelas que caracterizam a totalidade das nações latino-americanas em virtude de circunstâncias históricas que as chamadas “teorias da dependência” começaram a denunciar e estudar na década de 1960, vis-à-vis as relações econômicas assimétricas com as economias centrais e as consequentes formas injustas de inserção dessas mesmas nações no mercado mundial como exportadoras de matéria-prima e importadoras de produtos industrializados e tecnologia. (MALERBA 2009, p. 34-35) Na posição do autor, que é questionável, a historiografia da América Latina parece incorrer no erro da mimese. Segundo o qual, “o que há de novo na historiografia latino-americano se encontra no passado, estando o presente pleno de pastiche e cópia” (MALERBA 2009, p. 120). A seu ver, as novas perspectivas teóricas e temáticas ligadas aos campos da história social e da nova história cultural frearam o desenvolvimento de teorias, especialmente a teoria do desenvolvimento, e temas condizentes com os problemas estruturais da América Latina, como a histórica concentração da propriedade da terra e a má distribuição de terras. Ao contrário de muitos autores, que destacam justamente uma série de problemas na teoria da dependência, Malerba tende a enfatizar o caráter genuíno do pensamento formulado na América Latina, para explicar sua história e situação presente.

Enfim, o livro é leitura interessante e provocativa – num universo editorial em que os livros cada vez menos arriscam –, e nos estimula a continuar refletindo sobre a historiografia da América Latina. Na conta dos aspectos negativos mencione-se que, em certos momentos, o autor parece refutar o legado positivo do pós-estruturalismo, refletido nas novas tendências historiográficas na América Latina a partir dos anos 60.

Referências

LE GOFF, Jacques. História e memória. Campinas: Unicamp, 1996.

LIPOVETSKY, Gilles; CHARLES, Sébastien. Les temps hypermodernes. Paris: Grasset & Fasquelle, 2004.

MALERBA, Jurandir. A história na América Latina: ensaio de crítica historiográfica. Rio de Janeiro: FGV, 2009.

Carlos Eduardo Millen Grosso – Doutorando Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) [email protected] Rua Trindade, s/n Florianópolis – SC 88040-900 Brasil.

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