BRAIT, Beth; SOUZA-e-SILVA, Maria Cecília (orgs.). Texto ou discurso? São Paulo: Contexto, 2012. 302 p. Resenha de: LEITE, Luci Banks. Bakhtiniana – Revista de Estudos do Discurso, v.8 n.2, São Paulo July/Dec. 2013.

Não há dúvidas de que este é um livro que faltava em nossas bibliotecas!

O título, em forma interrogativa, – Texto ou discurso? – desperta o interesse do leitor, que não encontrará nele, porém, uma resposta claramente formulada dos modos de distinguir texto e discurso. As organizadoras esclarecem, desde o início, que o objetivo é apresentar, discutir e problematizar diferentes maneiras de compreender os vários elementos envolvidos nessa questão. É efetivamente o que se encontrará nos estudos apresentados.

Sabe-se que a temática é de grande relevância e atualidade, uma vez que, nas últimas décadas, o estudo da atividade da linguagem tem-se concentrado em torno de noções de texto e de discurso. No entanto, esses termos são passíveis de abordagens profundamente diversas.

Ao apresentar mais de uma dezena de estudos, em diferentes perspectivas das Ciências da Linguagem – bakhtiniana, foucaultiana, AD Francesa, Linguística Textual, Semiótica, Gramática, Estudos discursivos, Linguística de Corpus -, baseados em exemplos ou em análise de corpora, este conjunto de textos dá uma ideia bastante ampla e diversificada das várias maneiras de se entender discurso e texto, bem como das múltiplas formas de se conceber possíveis entrelaçamentos e relações entre esses conceitos. Ao fazê-lo, possibilita, igualmente, um amplo panorama dos estudos da linguagem, uma vez que, ao discutir as questões centrais, os textos esclarecem e mobilizam noções próprias a cada perspectiva e abordam, de maneira mais ou menos explícita, e em diferentes níveis, outros conceitos que permeiam esse campo: língua, significado e sentido, sujeito, enunciado/enunciação e cenas da enunciação, gêneros discursivos, interação, exterior/interior da língua, funcionamento da linguagem, processos de compreensão-produção de enunciados ou de textos.

Entre os catorze capítulos que compõem o livro, alguns focalizam claramente a distinção entre texto e discurso e sua inter-relação e, por isso, valem ser destacados.

O primeiro – Perspectiva dialógica – é o de Beth Brait que, ao percorrer trabalhos do Círculo de Bakhtin, ressalta uma inter-relação entre texto e discurso, aquele não sendo considerado autônomo, mas inserido em uma perspectiva mais ampla com a qual o texto se liga “ao enunciado concreto que o abriga, a discursos que o constituem” (p.10), bem como a esferas de atividade, produção, circulação, interação. Ao trazer a contribuição do Círculo, mobiliza elementos desse quadro conceitual – enunciado, interação, signo e ideologia – enfatizando a dimensão dialógica de todo enunciado, termo esse mais empregado do que “texto” pelos autores dessa linha. Brait encerra esse denso capítulo, com a análise de uma canção de Zeca Baleiro, “Bola dividida”, um texto constituído por vários discursos, ilustrando bem como texto e discurso se distinguem, mas também se entrelaçam, se confrontam pelo uso, por exemplo, de expressões bivocalizadas.

Tratando igualmente de maneira frontal essa questão, em Da necessidade da distinção entre texto e discursoFiorin ressalta que texto e discurso, ambos produtos da enunciação, “diferem quanto ao modo de existência semiótica” (p.148): o discurso é da ordem da imanência, o texto é do domínio da realização. Assim sendo, o mesmo discurso pode se concretizar em textos diversos; Fiorin traz o exemplo de “A hora da estrela”, romance de Lispector, transposto para o cinema por Suzana Amaral; e pode-se pensar também em vários outros, um deles emblemático – Zazie dans le metro -, romance de Queneau que deu origem ao filme de Louis Malle com o mesmo título. Nesses casos, o mesmo discurso se concretiza em um texto escrito – o romance – e em um filme, que é um texto no qual se mesclam várias linguagens – a visual, a auditiva, a verbal. Para discutir as várias nuances que envolvem as relações texto e discurso, Fiorin salienta os conceitos de interdiscurso, portanto, a dialogia presente nos discursos, e o de intertextualidade, ilustrando esses e outros conceitos através da análise de obras literárias, filmes, quadros. Dessa forma, afasta-se dos que tratam texto e discurso como sinônimos, como, por exemplo, os que situam seus trabalhos na perspectiva de algumas tendências da Linguística Textual.

Em concordância com o anterior, Possenti, em Notas sobre língua, texto e discurso, enfatiza a distância existente entre a maneira pela qual a Linguística Textual trata o texto e a abordagem da Análise do Discurso Francesa (ADF), quadro no qual ele próprio insere seu trabalho. Antes, porém, apresenta os três conceitos em pauta, busca suas inter-relações, ao percorrer os diferentes momentos dos estudos da ADF; levanta questões centrais de ordem teórico-metodológica, tais como a da natureza da língua, lançando mão das formulações de Pêcheux, mas igualmente das de Courtine e de estudos de Maingueneau, lembrando ainda a contribuição do epistemólogo Granger, para quem as línguas naturais são semissistemas simbólicos, e a de Franchi, que considera a língua como um sistema semiestruturado. Assinala ainda que, ao construir o conceito de discurso, a ADF precisou tratar de outros muitos, como fala, texto, léxico, autoria, sujeito/falante, análise, e buscou, acima de tudo, explicitar as relações entre língua e discurso.

Maingueneau, em Texto, gênero de discurso e aforização, lembra que, na perspectiva de Bakhtin, as noções de texto e gêneros de discurso são indissociáveis, porém distintas: “um texto pertence a um gênero de discurso do qual ele é o traço; de forma recíproca, todo gênero de discurso produz um texto” (p.109). Contudo, cabe a questão: pode-se considerar como “texto”, apenas uma frase? Aqui o objeto de estudo é o de frases sem texto, os “enunciados destacados”, privilegiando-se os mais frequentes: slogans, provérbios, máximas, manchetes, sem esquecer, porém, aquelas frases que foram extraídas / destacadas de um texto. Conclui-se que a enunciação aforizante segue uma ordem própria e que as aforizações não constituem um fenômeno marginal, mas ligam-se a textos e a gêneros discursivos.

Em sintonia com os autores ligados à AD Francesa, explorando a Perspectiva foucaultiana, Rocha contribui com um estudo sobre as FD (formação discursiva), tópico essencial, não apenas pela importância dessa noção no pensamento de Foucault, mas também por ser fundamental na AD Francesa. Levando em conta a definição de FD como “um conjunto de enunciados que provém de um mesmo sistema de formação” (discurso clínico, econômico, psicológico, jurídico…), discurso não se confunde com texto. Rocha lembra ainda o que é um enunciado para Foucault e que o sujeito do enunciado não se confunde nem com o sujeito gramatical, nem com a instância que produz o enunciado. Ilustrando essa perspectiva, efetua um ensaio de análise discursiva, à la Foucault, de um texto publicitário – um folder – desses que são distribuídos nos semáforos de nossas cidades, em que se anuncia um investimento imobiliário na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro, incitando o interlocutor a realizar uma “revolução francesa” em sua vida. Texto plurissemiótico constituído por imagens – telas de Delacroix e de David, recortadas/reformuladas -, refrões, textos, além de enunciados em outra língua. Ao trazer um texto com início, meio e fim, geralmente propício às abordagens conteudísticas, o autor ilustra uma forma de procedimento analítico original, distinta das habituais.

Souza-e-Silva, em Texto/Discurso: qual a relação com a leitura? assinala a primazia do interdiscurso sobre o discurso, elegendo-o, então, como unidade de análise. Seguindo Maingueneau, afirma que os discursos “se constituem, de maneira regulada, no interior de um interdiscurso” (p.183), no que concerne a sua gênese. Tendo, portanto, essa abordagem como referência, a autora analisa dois conjuntos de textos cujo tema é objeto de debate público: a participação das Forças Armadas do Brasil na Missão de estabilização das Nações Unidas no Haiti. Um desses conjuntos é o das Forças Armadas, portanto, o discurso oficial, o outro é o da “vulgarização”, ou seja, o que é publicado em revistas, blogs, internet. Ao delimitar esses conjuntos, reúne condições para tratar, interdiscursivamente, a relação texto e discurso, focalizando o discurso como submetido a coerções históricas. Assim, são abordados dois “posicionamentos discursivos” entre os quais há uma divergência: um no qual a presença das Forças Armadas significa Intervenção/Invasão/Ocupação e o outro em que essa presença significa Pacificação/Reconstrução/Estabilização. Decorre dessa análise uma reflexão sobre a leitura concebida como um modo de interpretação discursiva de textos.

Os demais trabalhos tratam de temas importantes para o aprofundamento dos conceitos de texto e discurso sob enfoques diversos: em Cor e sentido, na perspectiva da Semiótica Discursiva francesa, Barros traz uma instigante análise de cores dos esmaltes para unhas; a partir de alguns conceitos elaborados/empregados pela Linguística textual – referenciação, objeto do discurso, intertextualidade – Koch busca apreender alguns flagrantes da construção interacional dos sentidos; por sua vez, em Discurso e produção de conhecimentoVan Dijk concebe o discurso como um objeto complexo e multimodal e trata do processamento do discurso, valendo-se do aporte de modelos de teorias cognitivistas; Boutet, sociolinguista, insere-se em um enfoque anglo-saxão, o da Discourse Analysis, e elege o estudo do discurso como objeto empírico, com exemplos de análises multidimensionais de conversações e interações socialmente situadas. A partir da noção de “fórmula”, elaborada por Krieg-Planque, que enfatiza questões lexicais no âmbito da AD Francesa, Sardinha emprega procedimentos da Linguística de Corpus para evidenciar como esta pode oferecer subsídios para a Análise do Discurso e para o próprio estudo das fórmulas; por sua vez, Zaslavsky trata da midiatização de um caso jurídico por meio da análise de um corpus da imprensa escrita de jornais do México; e Quadros Leite, em Interação, texto falado e discurso, refere-se à “normatividade” que, segundo ela, caracteriza os gêneros discursivos, e examina exemplos para melhor compreensão do que é da ordem do inesperado na interação entre interactantes. Moura Neves, na ótica da teoria funcionalista da linguagem, propõe importantes reflexões sobre gramática e organização discursivo-textual.

Se, há mais de uma década, em nosso país, texto e discurso têm sido objeto de estudos de diferentes linhas teóricas, tais como consideradas por Barros em Estudos do texto e do discurso no Brasil (DELTA. Documentação de Estudos em Linguística Teórica e Aplicada, vol.15. São Paulo, 1999), nota-se que a grande maioria foi contemplada nesse livro. Assim sendo, na medida em que se avança na leitura, destacam-se as possibilidades e limites de cada quadro teórico-metodológico, bem como relações, interdependências, fronteiras entre as diferentes perspectivas em pauta; em suma, inferem-se possíveis articulações e até intersecções, mas também as oposições existentes entre elas. Há um aspecto geral, comum, que consiste, necessariamente, no afastamento de perspectivas voltadas para o estudo de frases tomadas como unidade de análise.

Fica também claro que os temas tratados não se esgotam nos textos apresentados, e o panorama está longe de ser exaustivo. Alguns poderiam lamentar a ausência de abordagens que levem em conta questões de aquisição de linguagem, do ensino-aprendizagem da primeira ou segunda língua ou de problemas relativos à tradução; enfim temas mais próximos do campo da Linguística Aplicada, tendo em vista a relevância desses conceitos – texto e discurso – em pesquisas realizadas por especialistas desse domínio. Nessa mesma linha, poder-se-ia objetar que o tratamento das várias questões focaliza mais o teórico do que o empírico, trazendo pouco material relativo às efetivas práticas socioculturais e/ou didático-pedagógicas.

Entretanto, vale insistir que uma coletânea elaborada nos moldes aqui eleitos, organiza, estabelece uma “ordem” primordial para os interessados em compreender e realizar pesquisas sobre a linguagem – professores, pesquisadores, estudantes e estudiosos de muitas questões que abordam, direta ou tangencialmente, esses dois conceitos centrais. Esses estudos apresentam-se, pois, como de importância essencial, por constituírem um ponto de referência que torna possível inúmeros desdobramentos em várias direções e o aprofundamento de problemas tratados por áreas afins.

Ana Lúcia Trevisan – Professora da Universidade Presbiteriana Mackenzie – UPM, São Paulo, São Paulo, Brasil; [email protected].

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