MEIRINHOS, J. F. Bibliotheca manuscripta Petri Hispani. Os manuscritos das obras atribuídas a Pedro Hispano. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian – Fundação para a Ciência e a Tecnologia, 2011, 709p. ISBN 978-972-31-1387-7. Resenha de: OLIVEIRA e SILVA, Paula. Veritas, Porto Alegre v. 57 n. 2, p. 213-215, maio/ago. 2012.

Esta obra, que consiste em um volumoso catálogo dos manuscritos das obras atribuídas a Pedro Hispano, é resultado parcial da investigação do autor com vista à elaboração da sua dissertação de doutoramento em Filosofia Antiga e Medieval, apresentada em 2002, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Trata-se da edição de um primeiro tomo da mesma dissertação, da qual, no que se refere ao resultado da investigação codicológica, o autor anuncia ter em preparação um segundo volume (Introdução, p. XXXII). O volume organiza-se do seguinte modo: I – Introdução, II – Compendium e III – Bibliotheca manuscripta Petri Hispani. Contém ainda dois apartados de Índices: A – Pedro Hispano e B – Gerais.

Na Introdução, o autor dá conta do estado da questão acerca do que designa como “questão petrina”, a saber, a que envolve a discussão gerada pelo fato de um amplo conjunto de obras serem atribuídas a um mesmo autor de nome “Petrus Hispanus”. O autor começa por referir o percurso da investigação acerca do espólio atribuído a Pedro Hispano, desde os primeiros repertórios e estudos publicados por M. Grabmann entre 1928 e 1938 (baseando-se em estudos realizados no século 18 e 19), que fazem convergir toda a documentação manuscrita e historiográfica sobre a figura de “Petrus Hispanus” para o Pedro Hispano papa no século 13, sob nome de João XXI; até aos estudos de J. M. Cruz Pontes, que se posicionam de modo mais aberto e flexível sobre a “questão petrina”, no confronto com o legado codicológico e a informação historiográfica (cf. Introdução, p. XX-XXIII). Resultados de investigação mais recente, elaborada já por J. F. Meirinhos, colocariam abertamente em questão a tese da identificação de todos os manuscritos atribuídos a “Petrus Hispanus” com uma e a mesma pessoa, colocando a tese da possibilidade de uma diferenciação de autores. De fato, como nota, o autor já tinha publicado alguns estudos nos quais manifestava a perplexidade perante contradições biográficas e intelectuais verificadas a partir da crítica

interna dos diversos manuscritos, formalizando, em artigo publicado em 1996 na Revista Española de Filosofía Medieval, a hipótese da existência de pelo menos três autores referenciados sob o mesmo nome, e indicando a dificuldade de atribuição de um conjunto diversificado de obras a um só e mesmo Pedro Hispano. (Cf. Introdução, p. XXIV-XXV; XXIV, n. 16 e 17; p. XXV, n. 19). O autor insiste na importância, para a correcta compreensão historiográfica e doutrinal, da elaboração de inventários de manuscritos e de repertórios, como instrumentos heurísticos para o estudo dos autores medievais. Meirinhos inscreve, assim, a sua metodologia do exercício da filosofia medieval na boa prática do exercício da medievística filosófica contemporânea, para a qual é indispensável a edição crítica de textos, o constante apuramento das fontes primárias e a criação de repertórios com vista à identificação dos diversos corpora literários dos autores do período medieval. É nesse contexto que elabora e edita esse repertório dos manuscritos petrínicos, no qual sinaliza e descreve, em toda a extensão possível, os 1.033 códices aqui referenciados, cujo objetivo é permitir “que a investigação prossiga em bases mais sólidas, alargando a análise direta a uma amostra mais significativa de manuscritos, pelo menos daqueles que se identifiquem como mais importantes, quanto ao conteúdo ou data de cada um” (cf. Introdução, p. XXXI). Dado que esse estudo mostra a existência de diversos “Petrus Hispanus” no século 13, essa biblioteca de manuscritos corresponde a obras de qual deles? A resposta encontra-se na Introdução, p. XXXIII: trata-se “do português do século 13, autor de obras de lógica, comentador de Aristóteles e de Dionísio, médico em Siena, comentador da Articella, compilador de receituários, talvez alquimista, conhecido também pela sua carreira eclesiástica tendo sido bispo de Braga, cardeal de Túsculo e por fim papa sob o nome de João XXI, dignidade que Pedro Julião ocupava quando faleceu em 1277”. Nas páginas XXXVIII e XXXIX da mesma Introdução, o autor esclarece quais as obras cujos manuscritos reportará nesse catálogo e apresenta uma lista delas, esclarecendo que excluiu os documentos papais, pois o seu tratamento diz respeito mais especificamente à diplomática, constituindo um gênero literário completamente distinto (cf. Introdução, p. XL). Não obstante, inclui nesse catálogo o Bularium e os Dictamina de Bernardo de Nápoles, justificando os motivos (cf. Introdução, p. XL). No ponto 2. da Introdução, expõe elementos de caráter formal: objetivos do catálogo e metodologia utilizada (p. XLV-L) e os critérios e modelos da descrição. Por fim, indica as partes em que se encontra dividida esta Bibliotheca manuscripta (p. LVIII).

A Parte II desta obra, designada Compendium, subdivide-se em três pontos, desse modo: 1. Siglas de obras citadas (catálogos, repertórios, bases de dados e estudos); 2. Abreviaturas; 3. Sinais e convenções. Uma vez descrita a metodologia e o objeto de trabalho, bem como assinaladas as convenções utilizadas na descrição dos manuscritos, segue-se a Parte III, Bibliotheca manuscripta Petri Hispani, contendo o inventário e a des-crição detalhada dos códices investigados. A Bibliotheca encontra-seorganizada em sete apartados, como segue: 1. Códices com obras atribuídas a Pedro Hispano: descrevem-se 869 códices, 368 dos quais consultados diretamente (p. 3-516). 2. Códices perdidos ou não localizados: descrevem-se 43 manuscritos (p. 517-529). 3. Códices com referências a Pedro Hispano ou às suas obras: descrevem-se 26 manuscritos, dos quais 3 consultados diretamente (p. 531-541); 4. Códices erradamente citados como contendo obras de Pedro Hispano: descrevem-se 48 manuscritos, dos quais 15 consultados diretamente (p. 543-555); 5. Códices com atribuição a Pedro Hispano de obras de outros autores: descrevem-se 5 códices, todos consultados diretamente (p. 557-564). 6. Códices com atribuições equívocas ou por confirmar: descrevem-se 29 códices, dos quais 10 consultados diretamente (p. 565-582). 7. Códices excluídos: descrevem-se 9 códices, 1 consultado diretamente (p. 583-585). A obra inclui ainda dois apartados de Índices: A – Pedro Hispano, contendo: 1. Obras atribuídas a Pedro Hispano (p. 588-594); 2. Comentários a obras de Pedro Hispano (p. 595-604); 3. Incipitário (p. 605-614). B – Gerais, contendo: 1. Autores Antigos e Medievais (p. 615-638); 2. Obras anônimas e não identificadas (p. 639-660); 3. Incipitário (p. 661-686); 4. Códices datados (p. 687-688); 5. Dispersão geográfica dos códices por países (p. 689-690). 6. Índices dos códices (p. 691-709).

Esta obra é um instrumento de trabalho realizado mediante o exercício das mais apuradas e actualizadas técnicas codicológicas, que atualiza toda a informação de base textual de fontes para o estudo de Pedro Hispano e dos manuscritos relacionados com a “questão petrina”. Dada a riqueza codicológica aqui descrita, espera-se que esta obra dê origem à multiplicidade de estudos no domínio da filosofia medieval e nas diversas áreas de estudo que a pessoa e obra de Pedro Hispano abordam, desde a lógica, à filosofia da mente, da filosofia natural à medicina. Esse instrumento agora publicado por J. F. Meirinhos torna agora possível prosseguir sobre Pedro Hispano uma investigação documental fiável, tornando-se desde agora indispensável para o estudo da obra de Pedro Hispano, em qualquer contexto académico, em Portugal e extra fronteiras.

Paula Oliveira e Silva – Instituto de Filosofia. Universidade do Porto.

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