DARNTON, Robert. Poesia e Polícia – Redes de comunicação na Paris do Século XVIII. São Paulo: Companhia das Letras, 2014. Resenha de: MENEZES, Fernanda Queiroz de. Revista Territórios & Fronteiras, Cuiabá, v. 8, n. 1, jan.-jun., 2015.

Robert Darnton é historiador, formado em Harvard, Estados Unidos, e com doutorado em História na Universidade de Oxford. É especialista em história da França do século XVIII; seus estudos estão voltados para o Iluminismo e para a Revolução Francesa. Em 2007, assumiu a direção da Biblioteca da Universidade Harvard.

Sua última publicação traduzida no Brasil é o livro “Poesia e Polícia – redes de comunicação na Paris do século XVIII”,1 e se trata de uma narrativa histórica que parte de fontes documentais – inquéritos policiais que foram abertos no ano de 1749 – apresentando assim na sua narrativa a existência de uma rede de comunicação que já existia em Paris desde aquele período.

Em uma época como a atual, em que as pessoas passam grande parte do tempo trocando informações, imagens, mensagens, por meio do celular, das redes sociais ou fazendo downloads, a comunicação se tornou a atividade mais importante na experiência da vida moderna, rodeando o curso da política, da economia e do entretenimento.

No entanto, a preocupação com a informação e comunicação não é característica específica da internet, tecnologia e televisão. Os seres humanos, a partir de diferentes usos de códigos e sinais, sempre se comunicaram. Em meio a essa discussão, Robert Darnton em Poesia e Polícia problematiza os usos comunicativos, durante o século XVIII, em Paris, de poesias e canções sobre os acontecimentos da época.

O livro é dividido em 15 subitens onde a narrativa vai-se construindo a partir das fontes documentais, que são uma gama de inquéritos policiais, por meio dos quais o autor pode rastrear e interpretar com base no que os detetives da época conseguiram constatar sobre os poemas que circulavam. Darnton utiliza ainda o diário de um aristocrata, irmão do chefe de polícia do período, “como um guia para o fluxo de informações que chegavam à elite política, semana a semana”,2 e os poemas, canções e alguns panfletos que circularam neste período.

Segundo o autor, o livro tem a sua importância por trabalhar com a oralidade de séculos atrás, investigando como as trocas de informações ocorriam também nessas sociedades, em busca de um elemento central, que até então estava perdido: Este livro é uma tentativa de preencher, em parte, essa lacuna. Em algumas raras ocasiões, trocas orais deixaram indícios de sua existência porque eram ofensivas. Insultavam alguém importante, ou pareciam hereges, ou minavam a autoridade de um soberano. Nos casos mais raros, a ofensa levava a uma investigação completa, conduzida pelo Estado ou por agentes da Igreja, o que redundava em volumosos dossiês, e esses documentos sobreviveram nos arquivos. As evidências que respaldam este livro pertencem à mais abrangente operação policial que encontrei em minha própria pesquisa em arquivos, uma tentativa de seguir a trilha de seis poemas por Paris em 1749, à medida que eram declamados, memorizados, retrabalhados, cantados e rabiscados em papel, em meio a uma enxurrada de outras mensagens, escritas e orais, durante um período de crise política.3 A narrativa inicia-se a partir da investigação do episódio que ficou conhecido como “O Caso dos Catorze”, iniciado com a prisão de um estudante de medicina que havia recitado um poema que criticava Luís XV. Segundo as fontes, ao ser interrogado na Bastilha, ele revelou a pessoa de quem obtivera o poema. Em seguida ocorreu uma série de prisões, pois, cada um que era preso entregava a pessoa que havia lhe passado o poema e, sucessivamente, prenderam-se catorze pessoas por participarem de recitais clandestinos de poesias. Mesmo que a maledicência, a difamação e o ataque ao rei fossem habituais no trabalho da polícia, a quantidade de prisões, os documentos e operações abertas para esse caso chamaram a atenção de Robert Darnton, que então formulou o seguinte problema: “por que as autoridades, as de Versailles e também as de Paris, se mostraram tão interessadas em perseguir os poemas?”.4 Ao seguir as pistas e indícios dessa pergunta, “podemos descobrir uma complexa rede de comunicação e estudar a maneira como a informação circulava numa sociedade semianalfabeta”.5 Esta problemática tornou-se um ponto central para a obra.

O “Grupo dos Catorze” era formado por pessoas que tinham o domínio da escrita, pela qual redigiam os poemas em papeis ou recitavam uns aos outros ou mesmo decoravam. Nesse sentido, a força da memória, o instrumento mnemônico, era algo muito significativo no sistema de comunicação do Antigo Regime, sobretudo as músicas.

Dos seis poemas, dois foram compostos para serem cantados em melodias populares (chansonniers) à luz dos acontecimentos do momento. Ou seja, preservavam a melodia e modificavam a letra à medida que os acontecimentos mudavam. Assim, “as canções proporcionam uma crônica a respeito das questões públicas, e existem em número tão grande que podemos perceber como as letras trocadas entre os Catorze se enquadram em ciclos de canções que levavam mensagens por todas as ruas de Paris”.6 O primeiro mandado de prisão se deu por conta de um poema intitulado “O exílio do M. de Maurepas” (era ministro da Marinha e da Casa Real e havia sido demitido e mandado para exílio meses atrás, por ordem do rei), no qual difamava a realeza e a atacava como “monstro”. Nessa sociedade, “difamar o rei num poema que circulava abertamente era uma questão de Estado, um crime de lése-majesté”.7 A missão da polícia era “rastrear o processo de difusão do poema no sentido contrário, a fim de chegar à sua fonte”.8 Cada uma das prisões trazia várias informações sobre a maneira com que as informações e os comentários satíricos sobre a política circulavam no meio social dos sujeitos. Porém, o que se imaginava até esse momento, por meio das pistas percorridas até aqui, era que se tratava de um ambiente bastante homogêneo, que os poemas circulavam apenas entre os próprios estudantes, padres, escreventes, o que seria o ciclo dos envolvidos no caso.

Todavia, quando a investigação ganhou maior abrangência, encontraram-se mais poemas que se intercruzavam com os seis, que eram “copiados em tiras de papel, trocadas por outras tiras de papel do mesmo tipo, ditados para mais copistas, memorizados, declamados, impressos em panfletos clandestinos e em certos casos adaptados para melodias populares e cantados”.9 Desse modo, a polícia percorria as informações, mas nunca encontrou o autor original do poema, pois se tratava de letras que as pessoas subtraíam, acrescentavam estrofes, modificavam frases. Tratava-se de um “caso de criação coletiva”, poemas que se cruzavam com outros, saltando frases modificadas, uma “cacofonia de sedição adaptada em rimas”.10 O Caso dos Catorze é entendido na obra como um inquérito de “opinião pública” e que, nesse sentido, e pensando no referido período, é fundamental para se compreender como afetou o curso dos acontecimentos pré-Revolução. Assim, uma das questões que o autor lança logo no início da obra é: como devemos entender a opinião pública numa sociedade? Já que esses poemas podem ser entendidos como um caso de opinião pública, Darnton distingue duas possibilidades teóricas sobre os estudos históricos em opinião pública: a posição de Michel Foucault e de Jürgen Habermas.

Porém, dentre as várias possibilidades e maneiras de apresentá-la, sobretudo valendo- se das duas interpretações, Darnton defende a ausência de uma imagem definida para esse conceito, sustentando que, diante do período estudado e da maneira como ele pode perceber o lugar e o modo com que esses poemas e canções circulavam, os dois pontos de vista dos autores citados não conseguem abarcar seu objeto. Portanto, um dos problemas levantados pelo autor, por meio das respostas, são os dados encontrados na pesquisa dos documentos, das fontes, apresentando um ponto de vista que compreenda o que é a opinião pública representada nesses poemas em questão, ou, se realmente se trata de um caso de opinião pública, o que não sabemos.11 Ou seja, Darnton ao adotar uma metodologia própria para análise do seu objeto não se preocupa em buscar uma teoria que dê conta de tal fenômeno (no caso a opinião pública), mas em estabelecer um diálogo a partir das fontes e assim construir a sua narrativa histórica.

Algo importante que o autor ainda destaca é que todos os catorze pertenciam às camadas médias de Paris, “de famílias respeitáveis e educadas, sobretudo de nível superior, embora alguns pudessem ser classificados como da pequena burguesia”.12 Nesse sentido, por conta dos padres e estudantes que foram presos, parecia haver certa homogeneidade entre os integrantes e o meio em que circulavam os poemas, sendo que é importante ressaltar que muitos deles não se conheciam, mas ainda assim detinham os poemas através da rede de comunicação que fora estabelecida. Porém, à medida que a investigação avançava, a polícia passou a se distanciar da igreja; ela se deparou com um conselheiro, com advogado, outros estudantes, enfim, a “transmissão se fez por meio de memorização, anotações e recitações em pontos estratégicos da rede de amigos”.13 Algo que chama a atenção do autor em sua pesquisa é que, mesmo depois de toda a investigação acerca da documentação, não dava para, nesse percurso, descobrir a origem do poema, porque “o rastro do poema 1 se tornara tão rarefeito que já não se podia distingui-lo de todos os outros poemas, canções, epigramas, rumores, anedotas e bons mots que iam e vinham pelas redes de comunicação da cidade”.14 A não distinção entre as pessoas que tinham acesso aos poemas tornou-se uma questão importante para entender a sociedade da época, pois, no caso dos Catorze, eles tinham acesso à leitura, eram de classes médias. Porém, a rede descoberta pela polícia não se limitava só ao mundo das letras, o que demonstrava que ela era composta por boa parte da população, sem distinguir a aristocracia das classes baixas. Por isso, muitas vezes os poemas foram convertidos em músicas para facilitar o recurso mnemônica, muito usado na época não só nos poemas, mas também nas canções.

Com efeito, consideramos como um ponto alto da obra o subitem 10 sobre a Canção. Este chama a atenção, pois, a partir do “Caso dos Catorze” e das investigações empreendidas, descobriu-se que havia naquele momento um descontentamento considerável por parte da população e até da corte de Versalhes em relação à figura do Rei na história da França. E ainda que tal descontentamento não era homogêneo, mas sim resultado de insatisfações diversas que ficaram claras nas alterações que eram feitas nos poemas ou nas canções e, a partir disso, na rede que foi constituída sobre os mesmos, já que “elas variam consideravelmente, porque a canção não parava de se modificar à medida que era transmitida de um para outro e à proporção que os acontecimentos da época forneciam material novo para versos adicionais”.15 Quanto a essa questão, o autor faz uma colocação que achamos muito pertinente sobre tais escritos (canção e poemas) na conclusão da obra: A exemplo de toda expressão simbólica, os poemas eram multivocais.

Eram ricos o bastante para significar coisas diferentes para pessoas diferentes, em todo o seu percurso de difusão. Reduzi-los a uma única interpretação seria interpretar mal seu caráter.16 Para concluir, podemos pensar que a obra se torna relevante pela inovação que traz com o seu trabalho metodológico, além do diálogo com a literatura, que achamos no mínimo inovador. Ao trabalhar com os poemas e canções, trazendo à tona uma série de questões que circundavam tal sociedade e foram importantes para pensar o contexto de uma época que, de alguma forma, expressavam um processo que estava iniciando, evidenciando as insatisfações e a rede de informações que desde já se formaram mesmo nas sociedades do século XVIII é algo que o autor consegue fazer muito bem. E isso, sem cair em teleologismos, pois não as vincula diretamente ao que ocorreu depois em 1789, mas, sim, utiliza suas fontes para demarcar o contexto de uma época e, pois, a importância da comunicação na história.

Com efeito, destacamos, assim, a significância do ofício do historiador na busca por novas fontes e novos problemas como bem coloca Michel Certeau na Escrita da História, além do rigor metodológico que deve ter ao tratar tais fontes para, assim, conseguir fazer, lembrando Marc Bloch, algo que é fundamental para a História: pensar as mudanças que ocorreram com os homens no tempo.

1 DARNTON, Robert. Poesia e Polícia – redes de comunicação da Paris do Século XVIII. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.

2 DARNTON, Robert. Poesia e Polícia. Op. cit., p. 129.

3 Ibidem, p. 8.

4 Ibidem, p. 9.

5 DARNTON, Robert. Poesia e Polícia. Op. cit., p. 9.

6 Ibidem, p. 10.

7 Ibidem, p. 13.

8 Ibidem, p. 16.

9 Ibidem, p. 17.

10 Ide 11 DARNTON, Robert. Poesia e Polícia. Op. cit., p. 19.

12 Ibidem, p. 32 13 Ibidem, p. 26.

14 DARNTON, Robert. Poesia e Polícia. Op. cit., p. 27.

15 DARNTON, Robert. Poesia e Polícia. Op. cit., p. 81.

16 Ibidem, p. 148.

Fernanda Queiroz de Menezes – Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Núcleo de Pesquisa em História – ICHS Av. Fernando Corrêa da Costa, 2367 – Boa Esperança Cuiabá – MT – Brasil. CEP: 78060-900 E-mail : [email protected]

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