SILVA, Claito. Marcio da. Dos braços do ovo à espada dos militares: os anos de chumbo na Froneira Sul (1964-1970). Fforianópolis: Pandion, 2014. Resenha de: SIQUEIRA, Gustavo Henrique. Ditadura civil-militar, cassações políticas e História em Chapecó. Revista Tempo e Argumento, Florianópolis, v.8, n.17, p.403-408. Jan./abr. 2016.

Passados dois anos do cinquentenário do golpe militar de 1º de abril de 1964 no Brasil, as pesquisas em torno do tema sob variadas perspectivas tomam conta da academia na forma de realização de eventos, publicação de dossiês em revistas e livros. Muito embora o golpe e a ditadura civil‐militar que o sucedeu tenham sido debatidos na academia – e fora dela – desde antes do término do período autoritário, foi no distanciamento temporal do acontecimento que se multiplicaram os estudos e se pluralizaram as vertentes explicativas. Se até pouco tempo atrás a ditadura civil‐militar era pesquisada enfocando‐se quase que exclusivamente os grandes centros urbanos brasileiros, relegando a história do interior nesse período ao segundo plano da historiografia, nos últimos anos ela tem sido levantada por pesquisadores que demonstram a complexidade e a existência de operações repressivas também nas cidades menores do país. Esse é o caso do livro Dos Braços do povo à Espada dos Militares, de autoria de Claiton Marcio da Silva, publicado em 2014 pela editora Pandion.

Claiton Marcio da Silva é natural do oeste do Estado de Santa Catarina e doutor em História pela Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz). Sua área de pesquisa inclui os temas da ditadura civil‐militar em Santa Catarina, a formação de jovens rurais nos Clubes 4‐S e a cooperação de órgãos internacionais na modernização da agricultura. Atualmente, Silva é professor do Departamento de História da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), Campus Chapecó, e vinculado aos Programas de Pós‐Graduação em História da UFFS e da Universidade Estadual do Centro‐Oeste (UNICENTRO), no Paraná.

O título do livro refere‐se a uma fala do ex‐prefeito de Chapecó, Sadi de Marco, cassado em 1969: “subi nos braços do povo e desci tangido pela espada dos militares”. A obra, segundo o autor, foi pensada com base em dois artigos produzidos em 1997 sobre o período que vai do golpe de 1964 à cassação de Sadi José de Marco, e sobre as eleições para o executivo municipal de 1969, revisitados e reestruturados por Silva para a produção do livro. Os dois artigos se tornaram duas partes da obra, a primeira relativa ao contexto político local que envolve as relações entre os atores e partidos políticos a partir do golpe de Estado, contemplando as cassações de Sadi de Marco (PTB) e Genir Destri (MDB), e a segunda relativa às eleições de 1969 que discute os “ecos das cassações” e o processo conturbado pelo qual passou a realização do pleito.

Os primeiros capítulos da primeira parte são reservados à análise do anticomunismo e da legitimação dos Atos Institucionais baixados pelo governo autoritário, passando pelo período em que a Aliança Social Trabalhista (PTB e PSD) esteve vigente e elegeu dois prefeitos petebistas em Chapecó, demonstrando que as relações entre a situação e a oposição consistiam em uma disputa pelo poder local e não em uma disputa de dois projetos de sociedade contraditórios. A partir dessa contextualização, o autor aborda a extinção dos partidos políticos com o Ato Institucional nº 2 (AI‐2) de 1966 e o processo de formação da Aliança Renovadora Nacional (ARENA) e do Movimento Democrático Brasileiro (MDB) no município, tocando, ainda, a composição da Câmara de Vereadores de Chapecó em 1962 e 1965 e a violência ocorrida no município logo após o golpe, deflagrada na forma de prisões temporárias de petebistas e onde alguns políticos relataram sofrer tortura física e psicológica.

Em seguida são reservados três capítulos para a análise do tema que se destaca no livro de Silva: a gestão e a cassação do prefeito de Chapecó, Sadi José de Marco (PTB). Após expor as principais características da administração do prefeito – embelezamento da cidade, a realização da primeira Exposição Feira Agropecuária e Industrial (EFAPI), as impressões do jornal Folha d’Oeste sobre de Marco e a eleição dele pela Associação Oestina de Imprensa e Radiodifusão como “administrador do ano” por dois anos consecutivos –, o autor parte para a análise dos ataques que o prefeito recebeu da oposição representada por Ivo Patussi (PSD e ARENA) e Rivadávia Scheffer (UDN e ARENA) na gestão do executivo municipal, na qual Silva apresenta a “trama” dessa disputa utilizando como fontes o referido jornal Folha d’Oeste, atas de sessões da Câmara de Vereadores de Chapecó e depoimentos de ex‐políticos como Rodolfo Hirsch (ARENA), Rivadávia Scheffer, Ferdinando Damo (PTB e MDB), Odilon Serrano (PTB e ARENA), Félix Trentin (PSD e ARENA) e o próprio Sadi de Marco, realizados na década de 1990 pelo autor e pela socióloga Monica Hass.

Os sucessivos ataques recebidos pelo ex‐prefeito, segundo o autor, se explicam pelo crescimento que Sadi de Marco, com 27 anos na ocasião, apresentava no âmbito municipal e pelas projeções políticas que se faziam do petebista para Santa Catarina, quando era tido como provável deputado estadual. As seguidas derrotas do grupo udenista e arenista (cabe afirmar que os dois últimos prefeitos eleitos pela Aliança Social Trabalhista, João Destri e Sadi de Marco, eram petebistas) ocasionaram uma ofensiva do partido dos militares contra os trabalhistas em Chapecó, atingindo principalmente Sadi e o também petebista e emedebista Genir Destri (deputado estadual e filho de João Destri) na forma de cassação dos seus mandatos. Antes de ser cassado por força do Ato Institucional nº 5, em abril de 1969, Sadi José de Marco enfrentou duas Comissões Parlamentares de Inquérito (CPI), uma solicitada, que não chegou a ser aberta, e outra que obteve prosseguimento e foi arquivada graças ao voto de vereadores arenistas que se dividiram dentro do partido, um acontecimento pelo qual que Silva evidencia para o leitor as relações complexas que permeavam a política local independentemente das determinações das agremiações partidárias, esclarecendo, assim, que a política chapecoense naquele contexto esteve diretamente influenciada por relações e interesses pessoais, além da constante disputa pelo poder no âmbito partidário presente na antiga dicotomia PSD x UDN e conservada dentro da ARENA (formada majoritariamente, no país todo, por antigos pessedistas e udenistas).

Encerrando a primeira parte do livro, o autor discute a cassação do deputado estadual Genir Destri, também em 1969. Nesse capítulo é apresentada a trajetória de Genir e as relações que cultivou no meio comercial e político através de seu pai, João Destri1, além da experiência estudantil e acadêmica, que o influenciaram no início da carreira política. Com um crescimento notável no cenário estadual, Genir Destri foi fundador e presidente do Movimento Democrático Brasileiro de Santa Catarina, popularidade e exposição que também lhe renderam a cassação do mandato. Silva evidencia que as cassações locais tiveram relação mais clara com a ação de opositores que gravavam discursos de petebistas e emedebistas para “denunciá‐los” a instâncias do poder federal em Brasília. Além disso, a presença de informantes da ditadura civil‐militar no município através do Serviço Nacional de Informações (SNI) teve uma considerável parcela de responsabilidade no caso. no mesmo ano, o clima político local era de que o pleito não aconteceria e seria nomeado um interventor para o cargo. A iniciativa emedebista e a confiança arenista na vitória eleitoral terminaram por confirmar a realização da votação. A ARENA, que até então não havia elegido nenhum prefeito em Chapecó, apostou em João Valvite Paganella e Arcizo Barbieri em suas sublegendas, enquanto o MDB apostou em Nelson Testa e João Destri. Para o autor, os cassados Genir Destri e Sadi de Marco tiveram grande reponsabilidade pela vitória do MDB neste pleito, criando em torno de si uma aura de injustiçados pela ditadura, relembrando das atuações positivas que tiveram e da arbitrariedade pela qual tiveram seus direitos políticos suspensos. A vitória do industrialista/comerciante João Destri em 1969, todavia, não representou um projeto de cidade diferente daquela difundida pelos arenistas locais, consistindo na aposta do desenvolvimento local, no comércio e na infraestrutura que visavam facilitar a instalação e consolidação das agroindústrias nascentes do município. Esse aspecto indica, portanto, que a disputa pela prefeitura nesse contexto girava em torno do poder e não por outra concepção de governo. Nem sequer Sadi de Marco representava uma vertente radical do PTB, sendo cassado por causa de uma carreira promissora na política e não pelos seus atos como prefeito.

Por fim, Silva destaca que a participação da sociedade civil nas denúncias contra os emedebistas moderados, acusando‐os de “comunistas”, foi fundamental na concretização das cassações e perseguições políticas. Mesmo sem maiores divergências na práxis institucional, as lideranças do MDB representavam um obstáculo para a ARENA, que até 1973 não conseguiria ascender ao executivo municipal, inclusive durante o período do dito “milagre econômico” (1968‐1973) e com o conjunto de legislações arbitrárias promulgadas pelo governo federal para facilitar a vitória arenista (como, por exemplo, o voto em sublegenda que pretendia apaziguar as rivalidades entre PSD e UDN dentro da ARENA e canalizar os votos para o partido).

Este livro é publicado em boa hora nacional e local. Apresenta claramente as consequências que o país pode enfrentar em momentos de exceção do ponto de vista legislativo e coercitivo, além de lembrar os episódios violentos pelos quais Chapecó já passou (o linchamento de 1950 e o “suicídio” à moda Herzog do vereador petista Marcelino Chiarello em 2011, por exemplo), fazendo‐nos contrariar José Murilo de Carvalho e colocando frequentemente o questionamento sobre a permanência de uma prática coronelista na região. A obra de Silva, portanto, não oferece meras curiosidades de figuras conhecidas da política local, oferece conhecimentos indispensáveis a quem procura entender a lógica política local e identificar, na atualidade, suas continuidades.

Gustavo Henrique de Sigueira – Mestra em História pela Universidade do Estado de Santa Catarina – UDESC. Brasil. E-mail: [email protected]

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