CASERTANO, G. Venticinque studi sui preplatonici. Pistoia: Petite plaisance, 2019. Resenha de: SANTOS, José Gabriel Trindade. Revista Archai, Brasília, n.30, p 1-7, 2020.

A Obra em apreço é uma coletânea de estudos, publicados entre 1976 e 2015, dedicados aos pensadores habitualmente chamados “presocráticos”, aqui acompanhados pelos sofistas. Precedida de quatro ensaios que abordam temas e questões relativas à Antiguidade, a Obra inclui estudos sobre Escolas filosóficas e pensadores avulsos: Epiménides, Jónicos, Pitagóricos, Parménides, Heraclito, Empédocles, Demócrito e Górgias, terminando com um ensaio sobre “Hegel e os sofistas”.

Deve se advertir o Leitor de que não se encontra perante um trabalho escolástico, de introdução à filosofia grega, pensado para cobrir as problemáticas mais relevantes nas obras dos pensadores da tradição, mas como uma recolha de textos, importantes pela sua qualidade e pela relevância da problemática tratada. Como cada um deles documenta uma empresa original de pesquisa nas temáticas eleitas pelo A., todos guardam ainda hoje uma frescura que os preserva da desatualização. Mesmo os dedicados a Empédocles, anteriores ou contemporâneos da onda de publicações que registram as primeiras conclusões atingidas pelas tentativas de reconstrução do “papiro de Estrasburgo”(2004-2005),  são  aceitáveis,  embora continuem a se referir aos Poeta-filósofo como autor de “dois poemas”.

Por outro lado, o rigor científico que os caracteriza, assinalável n a  riqueza  e  atualidade  das  referências  bibliográficas  que incorporam, não mascara o envolvimento pessoal do A. na pesquisa, revelando não apenas uma prática docente atenta e responsável, mas uma visão genuinamente filosófica, animando o diálogo mantido que r com as fontes originais, quer com a bibliografia secundária.

Dois  aspectos  que  cumpre  salientar  nestes  ensaios  são  o equilíbrio e o bom-senso exigidos a um docente e investigador, quando se sente obrigado a tomar publicamente partido na avaliação de teses envolvidas em controvérsia. Anos passados sobre algumas das muitas polêmicas que nalgum momento dominaram os estudos de Filosofia Antiga em muitas Universidades, a sobriedade dos juízos oportunamente emitidos pelo A. sobre as questões em debate faz a inda hoje prova da sua clarividência. São disso excelente exemplo alguns ensaios, aqui trazidos à estampa, como “Tempo, movimento e morte nella filosofia degli Ionici”(1989), ou “ΠΙΣΤΟΣ ΛΟΓΟΣ ed AΠΑΤΗΛΟΣ ΚΟΣΜΟΣ ΕΠΕΩΝ in Parmenide di Elea”(1976), “Orfismo e pitagorismo in Empedocle”(2000) e “L’ambigua realtà del discorso nel Peri tou me ontos di Gorgia”(1995).

Este traço crítico avulta no debate sobre as interpretações de que tem sido objeto o Poema de Parménides, iniciado pelo primeiro dos estudos citados acima. Neste ponto, a posição do A. é exemplar, pela defesa que fez da necessidade de repensar a caracterização de Parménides como “o filósofo do ser”e levar na devida conta o extenso material coletado, relativo à Opinião (doxa). Resumindo a posição as sumida em Parmenide: il metodo, la scienza, l’esperienza (1978), os argumentos enumerados nas “Noterelle parmenidee”(1989) e espalhados por outros estudos insistem num conjunto de recomendações às quais só muito recentemente (depois de 2012) a Crítica começou sistematicamente a prestar atenção:

  1. é necessário liberar  a  nossa  interpretação  dos presocráticos, em particular de Parménides, das leituras a que são submetidos por Platão e de Aristóteles (este, pouco claro com Parménides e clamorosamente injusto par a com Melisso: ver “Aristotele critico di Parmenide”: 2009), e descontar o peso e a influência que exercem nas tradições doxográfica e historiográfica;
  2. é necessário analisar  e esclarecer o  protagonismo concedido à entidade designada como o “ser de Parménides”, objeto perseguido por dezenas de comentadores, “praticamente como se a segunda parte do Poema não existisse”;
  3. é necessário criticar e superar a liquidação, como ”erro”, “ilusão”, “mera opinião”, do questionamento crítico desenvolvido por Parménides nos fragmentos relativos aos eonta.

Outro texto em que a acurada leitura do A. se revela atual é, por exemplo, “Logos e nous in Democrito”(1980), no qual aponta a profunda coerência entre as teses físicas e as éticas, defendendo a interpretação  de  um  pensador  que  não  pode  ser  considerado “materialista”, nem “racionalista”– no sentido que atribuímos hoje a essas categorizações –, apesar de ter decisivamente contribuído para elas e como tal tenha sido entendido na tradição.

Não se pode, porém, deixar de prestar a maior atenção aos estudos que dedica aos dois maiores sofistas: Górgias e Protágoras. Em “Astrazione ed esperienza: Parmenide e Protagora”(1988) compara duas concepções sobre a doxa, profundamente interligadas pelo nexo entre sensações e juízos, porém, bem distintos nas estratégias que propõem para aceder à realidade.

A Górgias – que, como Parménides, se acha presente em diversos outros ensaios – são dedicados dois notáveis estudos. No primeiro, acima referido, toda a argumentação do sofista, no tr atado Do não-ser, é pacientemente escalpelizada e apontada à epistemologia eleática, contra a qual sustenta as suas três teses capitais: nada é; se alguma coisa é, não é compreensível pelo homem; se alguma coisa é compreensível, é incomunicável e inexplicável.

Mas é em “Verità, errore e inganno in Gorgia”(1999), que é mais profundamente  estudada  a  estratégia  argumentativa  do  sofista. Através da análise do Elogio de Helena, nos são fornecidos dados sobre a lógica dos argumentos por ele usados. Pois, é mediante a análise a que são submetidos os conceitos operatórios dos quais lança mão que se entende a ’verdade’, como ‘ornamento’ e prova do ‘decoro’ do discurso, e o ‘engano’ como em tudo diferente do ‘erro’. Pois, enquanto o primeiro constitui um caso de “boa persuasão”, porque tem o poder de mover a alma, o segundo é utilizado para “enganar a opinião”, induzida pela aceitação de um discurso falso. Finalmente,  é  pela  harmonização  da  relação  dialética  entre  a qualidade e  os efeitos do  discurso – incompreendida já  por Aristóteles –, que pode se ter acesso ao kosmos do discurso gorgiano. Kosmos que é um erro, seguindo Parménides, interpretar pela tácita aceitação da identidade de ser e pensar, uma vez que, Górgias deixa bem claro que uma coisa é o objeto “fora de nós”, outra é “em nós”o objeto do discurso (Sobre o não-ser §84).

Bom  exercício  de  autocrítica  sobre  a  nossa  percepção  do fenômeno sofístico será enfim colhido pelo estudo atento do difícil ensaio “Hegel e i sofisti”(2000), que encerra a coletânea aqui apreciada. Pois, se algumas das concepções do filósofo alemão podem nos fazer sorrir, pelo fato de só se compreenderem na relação que mantêm com o todo da sua concepção da História da Filosofia, como poderá a nossa própria avaliação escapar a essa mesma crítica?

A terminar, dos estudos ainda não abordados aqui, gostaria de salientar dois. O primeiro, intitulado “Piacere e morte in Eraclito (“Una filosofia dell’ambiguità ”: 1983), ultrapassa claramente os contornos e exigências a que deve atender um estudo analítico sobre a filosofia do Efésio, pela sua estatura filosófica e qualidade poética.

Depois de ter relacionado, não menos de quarenta e sete fragmentos do pensador, envolvendo-os nas teias tecidas pelos comentadores que cita, o A. defende que – à semelhança dos outros termo atrás estudados – o filósofo usa o termo ‘morte’ em diversos sentidos:

[… ] intencionalmente  obscuros,  ambíguos,  mas decerto não privados da sua coerência interna [… ] implantando uma lógica do contraste-identidade (e não  uma  da  não-contradição,  como  Parménides) (281).

É então, partir desse momento, que, seguindo os próprios passos do filósofo ao qual dedicou atenção, o A. inicia o seu percurso sobre os sentidos de ‘vida’, para terminar com uma reflexão “filosófica”sobre a morte.

O homem vive num mundo que não foi dado por si e que nenhum deus lhe ofereceu: já organizado nas suas estruturas físicas… constituído por fenômenos e ritmos [… ] como são, eram e serão eternamente [… ], também nas estruturas políticas e sociais.

Lançado nesse mundo, o homem pode viver a sua vida dormindo, ou vivo, no sentido forte, [… ] estruturando a sua vida a partir de regras de conduta éticas e políticas, pelas quais será um aristos [… ] que, ao afrontar a morte, embora thnetos, é como se fosse athanatos: pois, vi vendo a sua morte, é como se morresse a sua vida (281).

Destacado dos outros, vive, de modo a, com o seu phren e o seu noos, se elevar à compreensão do kosmos e do diakosmos em que vivem os outros, até atingir o logos, pelo qual se torna philosophos. Até, no mais alto do seu ser consciente, se tornar consciente da desaparição definitiva da sua consciência (281-282).

É  então  que,  refletindo  filosoficamente  sobre  a ambiguidade e contrariedade do real, que o senso-comum,  tal  como  o  conhecimento  científico consideram simples, linear e não contraditório, chega a compreender que este mundo fugirá sempre em qualquer parte à captura pelo nosso pensamento, porque o significado e valor deste mundo residem numa lei eterna e universal, uma lei que não poderá jamais ser completamente compreendida e dominada, que é a lei da morte (283-284).

O segundo texto que quero destacar culmina a série de três estudos dedicados a Empédocles. Na sua análise da narrativa do poeta-filósofo de Agrigento (“Amore e morte in Empedocle”: 1999; e “Orfismo e Pitagorismo in Empedocle”: 2000), o A. debate-se com o problema motivado pela coexistência, em dois ou num único Poema, de duas cosmologias dificilmente compatíveis. Surpreendentemente, opta por superá-lo projetando o mito na lenda sobre a v ida do seu autor. Todavia, como a tensão que anima o texto se dissolve no comentário, opto por traduzi-lo, não integralmente, como merece, mas me limitando aos seus dois primeiros parágrafos.

Uma vez fui arbusto e mudo peixe no mar Era uma vez um homem que não tinha sempre sido um homem, mas árvore, pássaro, peixe, fera, deus. Era um deus que era também um homem, venerado, amado, bendito. As criaturas infelizes se aproximavam dele, carentes de uma palavra que soubesse lhes fazer sonhar num amanhã de paz e tranquilidade. Por ser esse homem que era também um deus e tinha sido garoto e garota, árvore, peixe, que tinha ainda sido um deus, uma árvore, um garoto, uma garota, um peixe, era capaz de ver aí onde dez e vinte gerações de homens não conseguiam ver, via no passado e via no futuro. Porque a sua mente, que era o seu corpo, que era todas as mentes e todos os corpos que tinham vivido,  que  viviam  e  teriam  vivido,  permanecia solidamente  ancorada  no  seu  seio,  forte  na  sua mobilidade, ágil na sua firmeza.

Esse homem tinha vivido na Sicília, na loura cidade de Ácragas, que em Fevereiro era circundada pela neve e pelas amendoeiras em flor (e brancas eram as mechas que  lhe  cingiam  a  fronte),  que  em  Junho  era circundada pelo ouro das espigas maduras (e douradas eram a s vestes que lhe envolviam o corpo). Esse homem era um mago: sabia acalmar os ventos; era um físico: sabia como e de quais raízes são constituídas as coisas do mundo; era um filósofo: sabia o ser e o não-ser do pensamento; era um médico: sabia curar os mal es do corpo e os da alma. Uma vez, o seu nome era Empédocles (359).

Referências

CASERTANO, G. (2019). Venticinque  studi  sui  preplatonici. Pistoia, Petite plaisance.

José Gabriel Trindade Santos – Universidade Federal do Ceará – Fortaleza – CE – Brasil. E-mail: [email protected]

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