OVÍDIO. Amores e arte de amar. Tradução de Carlos Ascendo André. Prefácio e apêndice de Peter Green. São Paulo: Penguin/Companhia das Letras. Resenha de: FUNARI, Pedro Paulo A. Revista Archai, Brasília, n.11, p.159-160, jul., 2013.

A  editora Companhia das Letras lançou  uma série de livros, associada à Penguin, voltada  para a divulgação, em formato de bolso, de obras clássicas. Essas edições contam com traduções dos originais em latim ou grego por estudiosos lusófonos e com a versão para o nosso idioma de prefácio,  apêndices e notas dos estudiosos anglófonos da  versão inglesa de origem. Essa iniciativa deve ser saudada, pois contribui para a maior divulgação dos autores antigos, algo já em curso em iniciativas de diversas outras casas editoriais que têm publicado, nas últimas décadas, um número crescente de obras. Isto demonstra a popularidade cada vez mais sentida da Antiguidade clássica e o interesse sempre em  aumento pelos antigos.

Os Amores e Arte de Amar  de Ovídio foram  traduzidos pelo classicista coimbrão Carlos Ascenso André, com adaptação para o português brasileiro a cargo de Carlos Minchillo e com a grafia adotada no Brasil em 2009. O estudioso luso também escreveu introduções a ambas as obras, de forma a  complementar o prefácio britânico original. Esta  apresenta ao leitor a vida e a obra de Ovídio e o faz com posições fortes sobre os principais temas relativos ao personagem e obra. Distancia-se da  interpretação difundida de um Ovídio, como outros poetas antigos, farsista literário e reforça, ao contrário, a importância das experiências amorosas pessoais para a sua produção poética. Em seguida, reforça a interpretação política do autor, perseguido também por sua produção considerada subversiva  por Augusto e seus amigos. Faltou uma revisão mais acurada da obra, na medida em que passaram lapsos (como “o relegatio”, quando a palavra é feminina, p. 36, ou domnatio, por damnatio, p. 423, “período helenista”, por “período helenístico”, p. 443, Varro por Varrão, p. 506). Também nas notas traduzidas do inglês há escorregões, como referir-se, à época romana, à Alemanha! O erro advém de traduzir Germany pelo país atual, quando o correto seria a antiga Germânia (p. 421). O leitor comum ficará perdido e uma revisão resolveria tais aporias.

Tais equívocos não aparecem no texto do  classicista lusitano, claro. Ademais, as notas britânicas são longas e muito esclarecedoras (p. 395- 559), enquanto as portuguesas são breves e mais circunscritas a esclarecimentos ao leitor comum.  Green está preocupado em comentar e interpretar cada obra, assim como seus trechos e trocadilhos intraduzíveis, o que muito beneficia o leitor. Assim, a concisão do original latino não se consegue manter no vernáculo, ainda mais numa versão em poesia, mas Green procura, aqui e ali, mostrar como essa riqueza do latim é, ainda, recheada de sentidos que se perdem. Um exemplo bastará.

Arte de Amar, 398: fructus abest, facies cum bona teste caret. Traduzido por André por: Nenhum fruto se colhe quando a beleza de um rosto não tem testemunhas. Mas, lembra Green, há duas traduções possíveis, no duplo sentido do original: “Um rosto  bonito, sem testemunhas, não obtém resultados”e “uma mulher bonita, se nunca faz sexo, não ficará grávida”!

Neste caso, são os sentidos das palavras  fructus (fruto, resultado) e  testis (testemunha e  testículo), assim como do verbo  abest (está presente, existe), que conformam um jogo de palavras intraduzível. Graças às notas de Green, contudo,  diversos passos deste tipo são elucidados e tornam as duas mais fieis ao original.

Apesar da adaptação brasileira, a tradução  mantém todo o sabor original lusitano e castiço,  algo conveniente, ademais, por ser a tradução em versos. Abundam (termo recorrente na tradução)  termos como “madraça”, “Canícula”, expressões no infinitivo (“a falar”), assim como o uso da segunda pessoa (“se rir, ri-te”) e das ênclises (“tornar-se-á mansa”, p. 318). Isso nos leva à questão da unidade do idioma português, pois apenas o leitor culto poderá haurir (outro termo erudito!) de forma plena o conteúdo vertido pelo coimbrão. Parece-me, contudo, que a despeito disso, traduções lusas como esta possam ser muito úteis e mesmo necessárias, até  como uma contrapartida às escolhas correntes nas versões brasileiras. Estas, tampouco abandonam,  muitas vezes, a linguagem erudita e mesmo cheia de neologismos etimológicos, como o faz a vertente ligada à transcriação de Haroldo de Campos. Por  outro lado, pululam versões pedestres que servem a outros propósitos, não menos necessários ou  válidos. Pode concluir-se, portanto, que esta nova série de clássicos deve ser muito bem recebida e  que a edição de Ovídio contribui para incrementar, ainda mais, o interesse no grande poeta latino.

Pedro Paulo A. Funari – Professor titular do Departamento de História e Coordenador do Centro de Estudos Avançados da Unicamp

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