O cinema brasileiro definitivamente possui uma história, malgrado as gerações já formadas culturalmente na era das mídias digitais e da internet praticamente desconhecê-la. Em termos acadêmicos, a tradição de se pesquisar nossa cinematografia remonta aos anos de 1960, com o surgimento do curso de cinema da Universidade de Brasília (UnB), da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA / USP) e da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO / UFRJ), lugares privilegiados nos quais os pesquisadores submeteram-se às necessidades de maior rigor metodológico e às demandas teóricas sintonizadas ao estudos de cinema no mundo, sobretudo na Europa. De lá para cá muita coisa mudou, pois atualmente já se pode contar com inúmeros Grupos de Trabalho (GTs), revistas especializadas, Programas de Pós-Graduação, Simpósios, Conferências, Congressos, Encontros Científicos, artigos e obras dedicadas à cinematografia brasileira – seus aspectos econômicos, seus historiadores e críticos especializados, seus filmes e cineastas de destaque – espalhados em diversos locais institucionais pelo país.

Tal envergadura intelectual-acadêmica revela que, ao menos na seara universitária, os estudiosos passaram a reconhecer a importância da matéria fílmica nacional em seus respectivos ofícios, contribuindo amiúde para o desenvolvimento de um campo de pesquisa ainda em plena ascensão. Embora ainda esteja longe de alcançar certa solidez no que atine à constituição de um arcabouço teórico-metodológico mais denso, fato que não desprestigia esta promissora e envolvente área, o cinema brasileiro cada vez mais se consolida enquanto objeto importante e recheado de possibilidades exploratórias aos pesquisadores nacionais. É exatamente nesta trilha que o presente dossiê se insere e também procura dar sua contribuição, privilegiando a diversidade de temas, objetos e sujeitos históricos ligados à nossa Sétima Arte, bem como à luz de preocupações originais de cunho histórico, social, político e estético.

Os três primeiros textos que abrem o dossiê versam sobre películas do movimento cinemanovista e / ou que receberam sua influência direta. A contribuição de Cíntia Christiele Braga Dantas, intitulada “Terra em Transe (1967): A Maldição do Poder na República das Bananas”, problematiza o clássico “Terra em Transe” (1967, Glauber Rocha) no fito de identificar o modo pelo qual Glauber Rocha expressa a atualidade de uma “face amaldiçoada” dos falsos profetas e cruzadistas que referendam a liturgia do poder num processo de sacralização que preserva nosso subdesenvolvimento.

Em seguida, Alcides Freire Ramos, com “Da Literatura ao Cinema – Um Estudo de Caso: do Romance ‘Amar, Verbo Intransitivo’ ao Filme ‘Lição de Amor’”, pautado na noção de sensibilidade, promove uma reflexão acerca da adaptação do romance “Amar, Verbo Intransitivo” (1927, Mário de Andrade) para a película “Lição de Amor” (1975, Eduardo Escorel), demonstrando que a adaptação cinematográfica traz consigo uma perspectiva crítica em relação ao curso dos acontecimentos históricos dos anos de 1970, desnudando o processo por meio do qual foram constituídas as condições para a manutenção do poder ditatorial no Brasil.

Por seu turno, Hélton Santos Gomes, em “Cinema e Estado no Contexto de Produção de Xica da Silva de Carlos Diegues”, tendo o filme “Xica da Silva” (1976, Carlos Diegues) como objeto, aborda a relação existente entre Estado e cinema no fito de explicitar uma espécie de “dirigismo cultural” por parte dos governos militares brasileiros, especialmente com propósito de construção de uma identidade nacional.

O cinema experimental piauisense dos anos de 1970 e o chamado “Cinema da Boca do Lixo” em São Paulo, em 1980, também se constituem em temáticas abordadas no presente dossiê. Frederico Osanam Amorim Lima, em “Ocupar Espaços, Eu Digo, Brechas, é por Elas: David vai Guiar e a Luta Contra as Cadeias da Existência Cotidiana”, dialogando com Michel Foucault e Michel de Certeau na problematização do filme experimental piauiense “David vai Guiar” (1972, Durvalino Couto Filho), reflete sobre símbolos, signos e sinais que representavam a contestação por parte de jovens cineastas de um controle social exercido por instituições estatais e civis. Já Fábio Raddi Uchôa, com “Filmes de Carlos Reichenbach e Ozualdo Candeias no Início dos Anos 1980: Sexualidades Tangenciais”, analisando esteticamente os filmes “Amor, Palavra Prostituta” (1981, Carlos Reichenbach) e “A Freira e Tortura” (1983, Ozualdo Candeias), procura identificar uma sexualidade com dimensões humanas e sociais, em oposição à fragmentação fetichista do pornô, realizadas no bojo do cinema erótico paulista.

A temática do cinema brasileiro e seu diálogo preciso com as cidades e o espectro político é abordada nos dois artigos subsequentes. A contribuição de André Carlos Conrado Inácio da Silva, em “A Obra Cinematográfica O Azarento, Um Homem de Sorte e a Temática da Migração na Década de 1970 na Cidade de Goiânia”, tomando como objeto o filme “O Azarento” (1972, João Bennio), se dá no sentido de demonstrar como o cineasta apropria-se da cultura histórica do Estado de Goiás e da cidade de Goiânia para construir uma narrativa cômica enquanto instrumento de análise do processo migratório para a cidade.

Em seguida, Jaílson Dias Carvalho, no texto intitulado “Os Braços da Política e o Edifício Humano do Cinema: Perspectivas de um Estudo sobre a Fundação do Cine Teatro Coronel Ribeiro (1944) em Montes Claros (MG) e a Trajetória Política do Coronel Philomeno Ribeiro”, com base no conceito de representação problematiza as motivações coronelísticas por trás da fundação do Cine Teatro Coronel Ribeiro (1944) na cidade de Montes Claros (MG), demonstrando a dominação simbólica exercida por grupos sociais e políticos por meio dos melhoramentos urbanos, sobretudo efetuados no propósito neutralizar opositores e de conservar liderança política.

O cinema brasileiro contemporâneo e suas múltiplas facetas também recebem tratamento neste dossiê. André Luis Bertelli Duarte, em “O Audiovisual e as Representações dos ‘500 anos’ do Brasil: Estética, Política e Memória em Hans Staden, A Invenção do Brasil e Brava Gente Brasileira”, tendo como objeto os filmes “Hans Staden” (2000, Luis Alberto Pereira), Brava Gente Brasileira (2001, Lúcia Murat) e a minissérie “A Invenção do Brasil” (2000 Guel Arraes & Jorge Furtado), analisa a representação do passado colonial brasileiro no contexto de celebrações, críticas e debates dos 500 anos da chegada dos portugueses ao Brasil, com vistas a demonstrar o modo pelo qual cinema e televisão contribuem para a construção de uma memória pública a partir dos códigos estéticos que lhes são próprios.

Em seguida, Ademir Luiz da Silva, com o texto intitulado “Legião Urbana no Cinema: Cinebiografias em Somos Tão Jovens (2013) e Faroeste Caboclo (2013)”, problematiza a transposição das narrativas acerca da banda de rock Legião Urbana para o cinema nos filmes “Somos Tão Jovens” (2013, Antonio Carlos da Fontoura) e “Faroeste Caboclo” (2013, René Sampaio), desnudando que, no primeiro, o cenário sócio-político brasiliense no anos finais da ditadura civil-militar é suavizado com vistas a estabelecer empatia com o público jovem pela exaltação da personalidade de Renato Russo, e, no segundo, ocorre o estabelecimento das origens negroides para o protagonista, um moralismo na apresentação da personagem feminina e pouca preocupação com a fidelidade aos conceitos-chave da música homônima do filme.

Ítalo Nelli Borges, em “O Paralelismo do Absurdo: 1964 – O Brasil entre Armas e Livros e seus Desserviços Históricos e Sociais”, analisa o recente e polêmico filme documentário “1964 – O Brasil entre Armas e Livros” (2019, Filipe Valerim & Lucas Ferrugem), demonstrando por meio do diálogo com uma bibliografia especializada que, na atualidade, existe um espectro antiacadêmico que deságua na confecção de uma História pública digital, em contraponto a uma invisibilidade da História acadêmica.

Finalizando o presente dossiê, assinamos dois textos que versam, respectivamente, acerca da crítica cinematográfica e da produção historiográfica. No primeiro, intitulado “Paulo Emílio, Crítico de Cinema: Clima, Suplemento Literário e Projeto Cultural”, atribuímos tratamento hermenêutico às críticas redigidas pelo crítico e historiador de cinema brasileiro Paulo Emílio Salles Gomes (1916-1977), defendendo a hipótese de que a atuação do intelectual na revista Clima e no Suplemento literário do jornal O Estado de São Paulo, nos anos de 1940 e 1960, respectivamente, esteve imersa num projeto cultural mais amplo, seguindo os ditames de aspirações de modernização cultural nacional encaminhado pela via paulista.

No segundo artigo, em parceria com Angra Rocha da Silva, nominado Cinema Brasileiro: Propostas para uma História” (1979), de Jean-Claude Bernardet – Reflexões acerca de sua Importância Historiográfica”, problematizamos a obra supracitada de Jean-Claude Bernardet, procurando compreender o modo pelo qual o crítico cinematográfico propôs um realinhamento dos critérios teóricos, metodológicos e temáticos para a escrita da história da cinematografia nacional.

Com efeito, os temas, os objetos e os caminhos investigativos traçados no presente dossiê visam, sobretudo, alimentar o debate acadêmico atinente ao cinema brasileiro, cuja contribuição para o entendimento de nós mesmos é tão rica, porém, ainda demasiadamente desconhecida. Sob este prisma, cada pesquisador que contribuiu neste dossiê, informado pela sua formação específica e à luz dos problemas que lhe são caros, buscou primar pelo rigor analítico e pela urdidura de enredo mais compreensível possível. Destarte, esperamos que o leitor tenha uma excelente experiência de leitura, tal como o processo de pesquisa e escrita dos textos que seguem foi para todos os colaboradores.

Julierme Morais – Doutor em História pela Universidade Federal de Uberlândia (PPGH / UFU). Professor do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Estadual de Goiás. Professor do Programa de Pós-Graduação em Estudos Culturais, Memória e Patrimônio da Universidade Estadual de Goiás (PPGEC / UEG). Pesquisador do Núcleo de Estudos em História Social da Arte e da Cultura (NEHAC / UFU). E-mail: [email protected]


MORAIS, Julierme. Cinema brasileiro: Olhares históricos, sociopolíticos e estéticos. Expedições, Morrinhos, v.10, n.2, mail./ago., 2019. Acessar publicação original. [DR].

Acessar dossiê

Deixe um Comentário

Você precisa fazer login para publicar um comentário.