RODRIGUES, Eli Vagner Francisco. Schopenhauer, niilismo e redenção. Campinas: Editora Phi, 2017. Resenha de: SOUZA, Cláudia Franco. Voluntas – Revista Internacional de Filosofia, Santa Maria, v. 8, n.1, p.211-214, 2017.

A partir do século XIX o niilismo se torna um tema central da historia da filosofia. Nietzsche ocupa certamente um lugar de destaque no panorama desta tema tica, principalmente devido ao aforismo 125 da Gaia Ciência, em que o filosofo anuncia que Deus está morto. O livro Schopenhauer, niilismo e redenção apresenta uma nova perspectiva de leitura da questão do niilismo na obra de Schopenhauer, mostrando a profundidade deste tema no pensamento filosófico do pensador em questão, que dialoga proximamente com a crise da razão.

Ao mesmo tempo em que o autor Eli Vagner Francisco Rodrigues utiliza as interpretações do pensamento de Schopenhauer realizadas tanto por Nietzsche quanto por Heidegger, o pesquisador mostra também os limites destas interpretações, como fica claro na seguinte passagem do seu livro:

A tentativa de identificar aspectos da filosofia de Schopenhauer com algumas características apontadas por Nietzsche e Heidegger em suas análises do niilismo se mostra, ao meu ver, produtiva para a compreensão da natureza do pensamento schopenhaueriano. Muitas vezes, porém, as análises de Nietzsche e Heidegger levam a ambiguidades que podem comprometer este trabalho (p. 105).

Salientar os limites da interpretação da filosofia schopenhaueriana que e feita tanto por Nietzsche quanto por Heidegger e de suma importância porque acentua a independência e a relevância da potencia do pensamento filosófico de Schopenhauer, que ocupa um lugar de especial importância na Historia da Filosofia no que toca a questão do niilismo, como esclarece o pesquisador Eli Rodrigues.

Um outro aspecto metodológico importante presente no livro em questão e a utilização do trabalho da Professora Maria Lu cia Cacciola para esclarecer pontos centrais da filosofia de Schopenhauer, como a questão do nada (p. 97). A perspectiva de leitura de Maria Lu cia Cacciola aparece em outros trechos do livro, revelando a importância e a profundidade da pesquisa sobre Schopenhauer que e realizada no Brasil.

Ao longo dos quatro capítulos que compõem o livro Schopenhauer, niilismo e redenção, o Professor Eli Rodrigues vai mostrando como a questão do niilismo encontra-se presente na filosofia de Schopenhauer ainda que este termo na o apareça na obra do filosofo, como esclarece a seguinte passagem, logo no início do primeiro capítulo:

Antes de ocupar-se das considerações sobre a origem do termo “niilismo” ou da derivação “niilista” é necessário esclarecer que os mesmos não aparecem em nenhum momento na obra de Schopenhauer. As considerações metafísicas, estéticas e éticas do filósofo enceram sem dúvida, posições niilistas em relação ao mundo, como aqui é defendido (p. 45).

Ao tratar das origens do niilismo, Eli Rodrigues destaca o aparecimento deste termo tanto na literatura, como aponta Franco Volpi, ao ressaltar a utilização do termo no romance Pais e Filhos de autoria de Turgueniev, quanto na filosofia ao comentar a carta escrita por Jacobi endereçada a Fichte, onde aparece o problema filosófico da “desvalorização dos valores supremos” (p. 47).

O autor de Schopenhauer, niilismo e redenção mostra que no livro Niilismo, de Franco Volpi, a obra filosófica de Schopenhauer na o ocupa o devido lugar:

O aspecto que se mostra pouco explorado na obra de Volpi é o da influência da filosofia de Schopenhauer no contexto da efervescência das ideias niilistas. O autor aponta a importância da reflexão schopenhaueriana como inspiração do enfoque nietzschiano sobre o tema, porém dá maior importância ao desenvolvimento efetuado por Nietzsche do que propriamente à análise da influência (p. 54).

Neste sentido, o livro de Eli Rodrigues acaba por preencher esse espaço vazio deixado por Volpi no que toca a importância da filosofia de Schopenhauer em relação ao tema do niilismo, tornando-se uma leitura imprescindível para todos os estudiosos que pretendem se debruçar sobre esse tema.

Ao tratar da metafísica da vontade e do niilismo no segundo capítulo, o pesquisador Eli Rodrigues mostra como a questão do nada ocupa um lugar de destaque na filosofia de Schopenhauer, como podemos ler neste trecho:

histórica para a humanidade contraria radicalmente a concepção que Schopenhauer tem do mundo. O mundo para o filósofo, não oculta uma ordenação originária de uma inteligência e nem encontra na razão um ponto de partida ou um fundamento para uma possível ordenação que possa estabelecer um sentido de “justificação” para a existência da natureza e dos seres vivos, racionais ou não. A teologia, as teodiceias e as filosofias tributárias de uma justificação da totalidade se opõem radicalmente à concepção de Schopenhauer (p. 88).

Eli Rodrigues mostra que a filosofia pessimista, e ate irracionalista e sombria para alguns interpretes mais radicais do pensamento de Schopenhauer, se constitui como um polo essencial na historia da filosofia no que tange a problema tica do niilismo. E através de suas reflexo es, o autor brasileiro revela quão debitaria e a filosofia de Nietzsche do seu mestre da juventude que foi Schopenhauer.

Ainda no segundo capítulo, ha a discussão sobre a metafísica da vontade e a e tica da compaixão. A e tica, ao ocupar um lugar de destaque na filosofia de Schopenhauer, e a ascese como caminho para a libertação, representaria o desprendimento da vontade (pp. 96-97). E o homem liberto da vontade e um homem de frente para o nada. A posição niilista seria, neste sentido, um caminho para a redenção (p. 97).

Nos dois últimos capítulos do livro, o autor Eli Rodrigues mostra as relações de Nietzsche com o niilismo schopenhaueriano. Todas as reflexo es desenvolvidas ao longo destas paginas são relevantes se considerarmos que o maior discípulo de Schopenhauer foi Nietzsche, e, frente a grandiosidade de Nietzsche, ha o risco de se interpretar a filosofia de Schopenhauer sob a perspectiva nietzschiana. Nestes dois capítulos, fica clara a diferença entre a filosofia, de certo modo niilista de Schopenhauer, e a interpretação nietzschiana do pensamento schopenhaueriano.

Para além destes aspectos, no terceiro capítulo Eli Rodrigues estabelece a relação entre a e tica e a teoria da arte schopenhaueriana, como podemos ler na seguinte passagem:

A ética de Schopenhauer está ligada à sua teoria da arte. Para o filósofo, a contemplação estética tem dois elementos inseparáveis: o conhecimento do objeto considerado, – não como coisa particular, mas como exemplar da ideia platônica, isto é, como forma permanente de uma espécie -, e a consciência do puro sujeito do conhecimento, sem a vontade (p. 113).

O pesquisador brasileiro desenvolve toda uma reflexa o entre sujeito do conhecimento e abandono do princípio da razão, revelando que o artista, de acordo com a visa o de Schopenhauer, se ocuparia da essência do mundo, desconectado do princípio da razão (p. 114).

No ultimo capítulo encontra-se uma importante discussão sobre a questão do suicídio a partir da filosofia de Schopenhauer. O suicida ainda estaria preso a s teias da vontade, segundo o filosofo em questão (p. 138) e, então, o suicídio na o se relacionaria de modo algum com a redenção, que só poderia ser alcançada por meio da ascese, que por sua vez, como sabemos, ocupa um lugar muito próprio nessa filosofia.

O livro Schopenhauer, niilismo e redenção e uma leitura incontornável para todos aqueles que desejam conhecer mais sobre a filosofia schopenhaueriana, mas também para os pesquisadores inclinados ao aprofundamento dos debates em torno da questão do niilismo. Trata-se de uma obra solida, bem estruturada e uma importante referencia para os estudos sobre Schopenhauer e o niilismo.

Cláudia Franco Souza – Pós-doutoranda em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP). Bolsista FAPESP. E-mail: [email protected]

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