JOYCE, Rosemary A.; GILLESPIE, Susan D.. Things in Motion. Objects Itineraries in Anthropological Practice. New Mexico: School for Advanced Research Press, 2015. 284 p.  Resenha de: PACHECO, Daniel Grecco. Revista Arqueologia Pública Campinas, São Paulo, v.9,  n.2, dez-2015, p.116-121.

Este livro deriva de um seminário organizado pela School for Advanced Research em Santa Fé, Novo México, Estados Unidos, realizado de oito a nove de maio de 2012 e que recebeu o título de Things in Motion: Object Histories, Biographies, and Itineraries. Fundada em 1907, no Novo México, a School for Advanced Research é uma organização sem fins lucrativos que desenvolve pesquisas e estudos sobre arqueologia e etnologia do sudoeste americano.

Tal seminário realizado em 2012 reuniu pesquisadores da American Anthropological Association e teve como tema central a discussão do conceito de “itinerário” de objetos para traçar as rotas e as formas pelas quais eles circulam, a relação que mantém com locais participantes desse movimento e quais elementos sociais estão presentes nesse sistema.

A tarefa de materializar as discussões deste seminário num livro coube à Rosemary Joyce, arqueóloga, professora do Departamento de Antropologia da Universidade de Berkley na Califórnia, Estados Unidos, em conjunto com Susan Gillespie, também arqueóloga e professora do Departamento de Antropologia da Universidade da Flórida nos Estados Unidos.

A idéia de traçar e mapear um itinerário de objetos e coisas é uma proposta desses acadêmicos participantes do seminário e deste livro, como um complemento da idéia desenvolvida anteriormente pelo antropólogo norte-americano, Igor Kopytoff, no final da década de 1980, de uma análise que levasse em conta uma “biografia” dos objetos, apresentada no artigo A Biografia Cultural das Coisas: A Mercantilização como Processo. Este artigo fez parte de um livro de outro antropólogo, o indiano Arjun Appadurai, A Vida social das Coisas: As Mercadorias sob uma Perspectiva Cultural, que se tornou um estudo paradigmático dentro da teoria social que procura analisar os objetos em seus diferentes momentos, e sua constante inter-relação com os humanos.

Tanto a proposta de Kopytoff quanto a de Appadurai se inserem numa trajetória de discussões teóricas sobre a cultura material oriundas de uma chamada “virada material” sofrida pela antropologia e suas disciplinas relacionadas durante a década de 1980. Este momento assistiu a um grande número de acadêmicos se debruçando sobre questões relativas à materialidade dos objetos. Inspiradas por questões filosóficas anteriores formuladas por pensadores como o alemão Edmund Husserl na primeira metade do século XX, que propunha uma “volta às coisas mesmas”, com discussões da fenomenologia. Husserl estava interessado em discutir a presença do fenômeno dentro da relação entre sujeito e objeto. Pois seria a partir disso que poderíamos significar o nosso mundo a partir de como as coisas eram vistas por nós, e assim voltar ao próprio mundo da vida, ao mundo das experiências.

Essa discussão filosófica do que “seria uma coisa?” se faz presente também em partes do pensamento do também filosofo alemão Martin Heidegger que explorou as implicações vigentes na ciência e no senso comum sobre as coisas. Em seu texto, “Das Ding”, Heidegger (1971) inspirado por Kant, tenta pensar qual seriam o limite e o sentido de determinar certa coisa. Esses dois estudos pioneiros e o início da exploração filosófica sobre o mundo das coisas serviram como ponto de partida para se pensar as próprias coisas como partes de projetos humanos.

A “virada para as coisas” levou a uma maior atenção por parte dos estudiosos a análises do papel de entidades não humanas dentro da teoria social. Segundo Rosemary Joyce e Susan Gillespie, os novos estudos da cultura material desenvolveram uma vontade de extrair dos artefatos os seus valores sociais e significados, não simplesmente atributos comportamentais ou tecnológicos. Fazendo uso de uma abordagem que privilegiasse as constantes relações entre humanos e objetos, como os estudos propostos por Alfred Gell (1998), Christopher Gosden (1999), Christopher Tilley (2006), entre outros. Numa perspectiva em que pessoas e objetos sejam vistos em uma relação dialética de dependência constante, mutuamente constituídos, num tipo de “entrelaçamento”, presente também no conceito discutido por Ian Hodder (2012) chamado de entanglement.

Joyce e Gillespie chamam a atenção para a presença dessa orientação antropológica de tal inter-subjetividade entre humanos e coisas em obras de autores como Bronislaw Malinowski (1978), e Marcel Mauss (2013) com seus estudos sobre trocas e circularidades de objetos, e pensar como certos objetos fazem parte da pessoalidade de seus manufatores e levam tal pessoalidade imbuída em si próprios.

Para uma melhor compreensão dessa relação entre objetos e humanos e perceber as etapas dos itinerários onde estão inseridos, se faz necessária a utilização de uma ontologia que questione a visão de mundo moderna, moldada pelo Iluminismo que se constitui a partir da separação em distintos domínios a sociedade, a natureza e a religião. Tal separação teria originado a dicotomia entre objetos e pessoas pensados como pertencentes a diferentes domínios antagônicos entre si.

Essa nova ontologia seria o ponto de partida para um novo materialismo, que enxerga as coisas como partes integrais de relacionamentos e subjetividades, em processos ativos de materialização nos quais a incorporação humana é uma parte integral. Com isso, se propõe também uma agência social ampliada aos objetos, como agentes e atores legítimos e não apenas como elementos passivos das dinâmicas sociais (GELL, 1998; LATOUR, 2009; INGOLD, 2011).

Joyce e Gillespie questionam alguns pontos levantados por essas idéias simétricas entre objetos e pessoas, que acabam indo numa direção inversa ao proposto, ao considerar que os significados e a agência dos objetos seriam originários apenas de uma ação humana sobre eles. Isso é colocado também por Gosden e Hodder que consideram a existência de “comunidades de objetos” com suas próprias lógicas e trajetórias de histórias, desconsiderando os humanos como centrais no Processo de mudança social.

Outra questão discutida é a necessidade da utilização de novos modelos analíticos de movimentos ou fluxos dentro da Arqueologia que possam ser utilizados para compreender as inter- relações entre objetos e humanos. Um modelo que consiga capturar todas as dinâmicas que envolvem um objeto. Daí a proposta de uso do termo itinerários. Segundo Joyce e Gillespie, essa nova metáfora conseguiria abarcar melhor as relações dos objetos e suas ações e movimentos, considerando suas mudanças e permanências, usos e re-usos, que acrescentam novos significados aos objetos. Tal proposição não seria algo linear e orientado segundo a vida humana, de nascimento, infância, fase adulta, velhice, morte e desintegração, conforme proposto pelos teóricos da vida social das coisas, ou de sua biografia cultural. Ao apresentar os limites dessas teorias, as autoras do livro defendem que essa nova proposição teria uma abordagem de seguir a própria dinâmica das coisas, e não tentar interpretá-las a partir de parâmetros presentes na vida humana. Esta seria uma forma de se tornar independente da constante presença humana nas interpretações dos objetos.

A organização da dinâmica das coisas por itinerários possibilitaria resistir à imposição da fronteira entre uma coisa e representações dela, possibilitando viagens de coisas via descrições textuais, desenhos ou fotografias. Além disso, o itinerário seria uma parte da produção de uma espacialidade, formaria uma cadeia de operações independentemente ativas, sem um padrão linear, adquirindo também uma unicidade.

Todas essas discussões são apresentadas por Joyce e Gillespie no primeiro capítulo, de uma forma introdutória para se apresentar a discussão e o contexto deste novo conceito utilizado no livro. Os capítulos que seguem, num total de onze, utilizam-se do conceito de itinerário de objetos, e também uma abordagem de história de vida dos objetos, para discutir estudos de caso, com exemplos da aplicação de tais elementos teóricos.

O capítulo 2, “Things in Motion: Itineraries of Ulua Marble Vases”, de Rosemary Joyce, trata de vasos de mármore estilo Ulua feitos em Honduras na época pré-hispânica, e que hoje circulam como objetos de museus e representam um patrimônio cultural. Joyce traça os itinerários desses artefatos, que vai desde a circulação da matéria prima das peças, passando pelo próprio objeto num contexto antigo, e a inserção em circuitos contemporâneos. Este artigo é central para a aplicação num estudo de caso da teoria apresentada pelas autoras na introdução do livro.

Susan Gillespie, no capítulo 3, “Journe‟s End (?): The Travels of La Venta Offering” 4, examina um conjunto de artefatos oriundos do sítio de La Venta na Costa do Golfo do México. Nomeado como Oferenda 4 de La Venta, este conjunto é composto por 16 estatuetas antropomórficas feitas de pedra, e seis lâminas em jade, organizados para formar um grupo de miniaturas. A discussão neste capítulo é norteada pela questão de como esses objetos podem ser “rastreados” arqueologicamente, e serem transformados por seus movimentos e seu posicionamento num depósito. Gillespie utiliza a teoria do itinerário dos objetos como uma forma de investigá-los seguindo seus vestígios historicizados de práticas materiais. E tentar perceber como esses objetos foram tratados isolados de seus grupos originais a partir de suas diversas viagens para exibições em museus, o que acabou acarretando a perda de seu significado original.

No capítulo 4, “Places to Go and Social Worlds to Constitute: The Fractal Itinerarie of Tarascan Obsidian Idols in Prehispanic Mexico”, David Haskell, professor do Departamento de Antropologia da Universidade de Ohio, nos Estados Unidos, trata da circulação de pedras, um conjunto de obsidiana, levando em conta uma permanente conexão entre esses artefatos e o local de onde foram coletados. Haskell faz uso de uma ontologia proveniente dos povos indígenas tarrascos do oeste do México, do tempo pré-hispanico, que considera uma característica relacional entre objetos e humanos, em que ambos são constituídos mutuamente. Além de uma idéia de que cada parte desse conjunto de artefatos levaria dentro de si uma “essência” da divindade dinástica Curicaueri, aproximando ao que Alfred Gell chamou de “ídolos não icônicos”. Haskell trata o movimento de partes desse conjunto como itinerários, utilizando-se de referencias em textos coloniais, para ressaltar a capacidade fundamental de movimento desses elementos como algo para reafirmar a presença da deidade Curicaueri nas diversas partes do estado tarrasco.

O capítulo 5 de Elliot Blair, professor do Departamento de Antropologia da Universidade do Alabama, nos Estados Unidos, chamado “Glass Beads and Global Itineraries” trata da jornada de contas de vidro de oficinas espanholas para locais coloniais, enfatizando a noção de movimentos dessas peças. Blair apresenta as diversas etapas desse itinerário, como a manufatura, distribuição, consumo, a escavação, análises e a curadoria, destacando os importantes papéis sociais dos objetos em cada um desses itinerários, como as interações com as comunidades de produtores e consumidores desses artefatos. O que, segundo o autor, possibilitaria num melhor entendimento dos papéis desses objetos no tempo e espaço.

“Stones in Movement: Tracing the Itineraries of Menhirs, Stelae, and Statue-Menhir in Iberian Landscapes” é o capítulo 6 escrito por Marta Díaz-Guardamino, pesquisadora do Departamento de Arqueologia da Universidade de Southampton, Inglaterra. Díaz-Guardamino traça um itinerário de monumentos de pedra como menires, estelas, e menires-estátuas na Península Ibérica entre os séculos V e VI a.C.. A autora desafia e questiona a idéia de imobilidade de tais pedras, ao apresentar uma interpretação de que esses objetos eram ativos nas relações com as pessoas, objetos e lugares ao longo do tempo. Fazendo uso do conceito de itinerário, Díaz- Guardamino examina as formas como essas pedras mediavam sua produção, reprodução, manipulação, reinterpretação em diferentes tipos de relações sociais com múltiplas temporalidades e espacialidades.

O capítulo 7 “Geologies in Motion: Itineraries of Stone, Clay, and Pots in the Lake Titicaca Basin”, de Andrew Roddick, professor do Departamento de Antropologia da Universidade McMaster, no Canadá, explora o conceito de itinerários de objetos para materiais de origem geológica na bacia do Lago Titicaca na Bolívia. Roddick trata da produção cerâmica nas terras altas bolivianas, e de que forma as fontes dessa argila se mantém conectadas aos materiais já manufaturados, trabalhando as relações entre os objetos e relações sociais em diferentes locais.

Alexander Bauer escreve o capítulo 8, “The Kula of Long-Term Loans: Cultural Object Itineraries and the Promise of the Postcolonial „Universal‟ Museum”. Bauer discute o itinerário de objetos culturais inseridos numa nova ordem museológica com suas práticas e políticas num contexto pós-colonial. O autor trata de empréstimos de objetos e acordos de colaboração entre países sobre a circulação de artefatos, e de que forma o conceito de itinerário de objetos pode ser usado para interpretar a criação de novas relações sociais com esses artefatos e as comunidades e entre as próprias comunidades que cuidam deles.

O capitulo 9, “Healing Space-Time: Medical Performance and Object Itineraries on a Tanzanian Landscape”, é escrito por Jonathan Waltz, curador de Arte Americana do Museu de Arte Sheldon da Universidade de Nebraska-Lincoln, Estados Unidos. Waltz examina a capacidade dos objetos em movimento criar novas formas culturais, ao associar a circulação desses artefatos à culturas em movimento. Waltz discute a montagem de objetos de curandeiros do grupo Zigua da Tanzânia e como curandeiros contemporâneos que levam esses objetos em rotas históricas de caravanas transformam objetos e restauram o equilíbrio social a partir da prática de suas performances.

Heather Law Pezzarossi, doutora em arqueologia pela Universidade de Berkley, Estados Unidos, no capítulo 10, “Native Basketry and the Dynamics of Social Landscapes in Southern New England”, discute o papel dos objetos na prática de construção de locais dos Nativos, e como forma de manutenção da própria comunidade onde se dava essa manufatura. A autora examina a intersecção entre a materialidade e a localidade na montagem de cestas do sudoeste da Nova Inglaterra, seguindo seus itinerários desde a sua manufatura por mulheres nativas Nipmuc, no início do século XIX. Desta forma, os cestos agiriam como mediadores em relações sociais, estendendo-os no tempo e espaço e permitindo a produção material e social de novos espaços, evidenciando o papel dos espaços e negociação e transformação a partir da prática e da circulação dos objetos.

O capítulo 11, escrito por Neil Wallis, curador assistente da divisão de Arqueologia do Museu de História Natural da Universidade da Flórida, “The Living Past: Itineraries of Swift Creek Images through Wood, Earthenware, and Ether”, enfatiza como um itinerário pode ser entendido como constituído por fluxos e paradas. Wallis analisa a circulação de designs específicos da cultura Swift Creek e como eles podem afetar a relação entre a visualização e a construção de conhecimento. Ele justifica o uso do conceito de itinerário, pois trata de objetos hipotéticos como os designs e não apenas objetos físicos, já que o uso do conceito de biografias de objetos com a utilização de termos como vida, morte e vida após a morte, seria insuficiente para discutir os modernos fluxos dos designs de Swift Creek, por exemplo.

Com uma discussão teórica prévia e a apresentação de onze estudos de caso, o livro Things in Motion traz uma interessante ferramenta de interpretação das dinâmicas sofridas por um objeto no tempo e espaço. Ao se apresentar como uma alternativa à proposta colocada por Kopytoff e Appadurai de uma análise que leve em conta apenas uma “vida social das coisas”, Joyce, Gillespie e os outros autores que fazem parte deste livro contribuem para o debate da materialidade dos objetos presente nas ciências humanas nas últimas décadas. Uma abordagem que ajuda a interpretar o “mundo” dos objetos de uma maneira mais complexa e que procure abarcar os diferentes aspectos que o compõe.

Referências  

APPADURAI, Arjan. (Org.). A Vida social das Cosias: As Mercadorias sob uma Perspectiva Cultural. Niterói: Editora da Universidade Federal Fluminense, 2008. GELL, Alfred. Art and Agency. An Anthropological Theory. United Kingdom: Oxford University Press, 1998.

GOSDEN, Christopher; MARSHALL, Yvonne. The Cultural Biography of Objects. World Archaeology, Oxford: n. 31 (2), p. 169-178, 1999. HEIDEGGER, Martin. The Thing. In: Poetry, Language, Thought. p. 165-182. New York: Harper and Row, 1971.

HODDER, Ian. Entangled. An Archaeology of the Relationships between Humans and Things. Malden: Wiley-Blackwell, 2012. HUSSERL, Edmund. A Crise da humanidade Européia e a Filosofia. Porto Alegre: Editora PUC/RS, 2002.

INGOLD, Tim. Being Alive: Essays on Movement, Knowledge, and Description. London: Routledge, 2011.

KOPYTOFF, Igor. A Biografia Cultural das Coisas: A Mercantilização como Processo. In: APPADURAI, Arjan. (Org.). A Vida social das Cosias: As Mercadorias sob uma Perspectiva Cultural. Niterói: Editora da Universidade Federal Fluminense, 2008.

LATOUR, Bruno. Jamais Fomos Modernos. São Paulo: Editora 34, 2009.

MALINOWSKI, Bronislaw. Argonauts of the Western Pacific. London: Routledge, 1978.  MAUSS, Marcel. Ensaio sobre a dádiva. São Paulo: Cosac Naify, 2013.

TILLEY, Christopher; KEANE, Webb; KUCHLER, Susanne; ROWLANDS, Michael, SPYER, Patricia (Ed.). Handbook of Material Culture. London: Sage, 2006.

Daniel Grecco Pacheco – Mestrando em História da Arte pela Unicamp, graduado em História pela PUC/SP. Bolsista CNPQ. E-mail: [email protected]

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