Revisitando o Dossiê Brasil Império

Tendo a acreditar que, dentre os indicadores privilegiados para a compreensão da cultura de uma época, um dos mais formidáveis seja sua produção historiográfica. A História é um saber caracterizado pela reunião de vestígios que trazem aos nossos dias uma presença transfigurada do passado. Esta operação de transfiguração, entretanto, não se faz ao acaso. A evocação dos mortos e sua ressurreição discursiva tem como móvel questões que dizem de nossa contemporaneidade. Os efeitos de real construídos pelos historiadores alimentam certa fome de respostas. Nunca é supérfluo recordar que os passados recompostos pelas mãos que historiam não correspondem a nada mais que uma seleção de vestígios e fontes, baseada em dada quantidade de escolhas. Lidamos sempre, não com reflexos reais de um pretérito presente, mas, antes de mais nada, com nossa capacidade de construir e demandar uma versão a respeito dele.

Assim, recordar o século XIX, reeditá-lo enquanto presença em nossas tentativas de recuperação dos vestígios do passado é tarefa que atrai um crescente grupo de historiadores. No conjunto destes, incluiríamos sem maiores remissões, o Prof. René Rémond, da Universidade de Nanterre / França. Rémond faleceu em abril de 2007 e, dedicou boa parte de sua existência ao estudo das questões políticas dos oitocentos na Europa. Para ele, este século, dada a sua importância para o liberalismo, o capitalismo e a ciência, teria sido dotado de certa dose de “intensidade.” Dever-se-ia, ainda, limitar, de forma bastante tocada de europocentrismo, o interregno entre o Tratado de Viena de 1815 e a primeira guerra mundial, de 1914, como recorte cronológico privilegiado para a sua análise. Ultrapassando o que fora proposto por estes marcos e recortes, este dossiê temático, segundo número de nossa Revista Mnemosine, do Programa de Pós-Graduação em História da UFCG, procura conjugar diferentes regimes de historicidade e percepção da passagem do tempo, marcos cronológicos que não se prendem a um certo ritmo de percepção dos oitocentos muito naturalizado entre nós. Confrontar o tempo da memória e da história dos europeus com o tempo das sociedades colonizadas da América, de forma a destacar suas especificidades é um exercício instigante, para cujo exemplo podemos evocar o trabalho de Ana Lúcia Vulfe Nötzold sobre a representatividade dos discursos das autoridades provinciais frente ao processo de “civilização” e catequese dos Kaingang, habitantes das regiões norte e nordeste do Rio Grande do Sul. Suas reflexões se situam em um momento de intensa entrada de imigrantes europeus e expansão do modelo capitalista de produção agrícola. Em sua análise dos documentos e textos do século XIX sobre a questão indígena, dois momentos de percepção se destacam: um para a representação hegemônica sobre o Kaingang como“selvagens, indolentes e ferozes.” Outro para sua estereotipação como “entes errantes à espera da luz do cristianismo.” “A primeira evidência literária da evolução do verbo civilizer para o conceito de civilization é encontrada, de acordo com descobertas modernas, na obra de Mirabeau, o pai, na década de 1760.”[1]

Como argumentei em um de meus escritos, a ideia antítese de civilização, a barbárie, representação que nasceu na antiguidade greco-romana, receberia sentidos diferentes em cada uma das teorias políticas modernas.[2] Para Hobbes, barbárie designava um estado primitivo, pré- político, no qual o homem era lobo do próprio homem e as garantias individuais básicas estavam ameaçadas. Para Rousseau, a barbárie não estava propriamente no estado primitivo dos homens, mas na degeneração e no desvirtuamento de sua sociedade civil. De forma geral, a herança iluminista que se prolongou no imaginário dos homens da primeira metade dos oitocentos identificava a barbárie com a ausência das luzes. Nas primeiras décadas do século XIX o critério de avaliação das humanidades não européias pelos arautos da civilização ainda era mais filosófico do que científico. Nesse sentido, o artigo de Cláudio Daflon se propõe a estudar os sentidos com os quais Juan Bautista Alberdi usava e modificava o conceito de “civilização”, especificamente através do estudo de sua obra Bases y puntos de partida para la organización política de la República Argentina, de 1852. A pesquisa tem como objetivo explorar as relações do termo e seus vários significados com o tipo de projeto de nação que o autor propunha no momento em que estava escrevendo suas Bases.

Já Edson Silva estuda como, a partir da segunda metade do século XIX, intensificaram-se a afirmações oficiais do desaparecimento dos índios em Pernambuco e da extinção dos aldeamentos. A extinção dos aldeamentos estava baseada na idéia de assimilação dos índios. Com essa idéia de que as aldeias eram fantasias, e que por isso não havia mais razão para existirem, posseiros, senhores de engenho e latifundiários, sobretudo após a Lei de Terras de 1850 ampliaram suas invasões nas terras dos antigos aldeamentos em Pernambuco. Os grupos remanescentes, que se mobilizam desde as primeiras décadas do século XX, colocaram em questão crenças e afirmações sobre o desaparecimento indígena na Região, conquistaram considerável visibilidade política em anos recentes. A partir de uma pesquisa documental e principalmente de relatos de memórias orais de indivíduos Xukuru do Ororubá, Edson procurou compreender como esse povo, a partir das experiências vivenciadas, estabeleceu relações com a história e expressou suas interpretações do passado em diálogo com as situações do presente.

Revisitar a historiografia e as crônicas de viagem sobre os índios de Minas, foi, também, o tema de meu artigo. Para aquém dos recentes esforços de pesquisa arqueológica, que tem revelado dados promissores, não obstante ainda permaneçam sem suficiente conexão entre si, pretendi, nesse ensaio, contribuir para a percepção das especificidades dos relatos sobre as etnias Puri e Coroado da Zona da Mata Central de Minas Gerais nas últimas décadas do século XVIII e nos primeiros treze anos do século XIX. Suspeita-se, por afinidades lingüísticas, que estes índios fossem de etnia Macro-jê, e, sabe-se, por uma seqüência de dados concatenados que sua biologia e cultura foram um dos vetores essenciais para a formação das que hoje se encontra na região do vale de um dos principais afluentes do Paraíba do Sul: o Rio Pomba. Percorrendo listas de documentos dispersos nos arquivos de paróquias ou consultando as seqüências organizadas no princípio do século XX. Na Revista do Arquivo Público Mineiro, procurei abrir campo para a leitura de relatos sobre os primeiros contatos interétnicos e transculturais, na construção do substrato de cultura híbrida que se formou naquela zona de contato, buscando levantar hipóteses sobre sua forma de conceber, promover e ritualizar a guerra.

Indo adiante nos estudos sobre relações de gênero, identidades e diferenças, Harriet Karolina e Juciene Apolinário analisam as relações entre violência e gênero em Campina Grande e seus arredores geográficos e culturais entre os anos de 1866 e 1881. A pesquisa foi conduzida junto à documentação do 1º Tribunal do Júri do Fórum Afonso Campos e busca esmiuçar as relações sociais que permearam crimes de homicídio, lesão corporal, invasão domiciliar e defloramento. Tais incidentes constituíram parte do dia-a-dia feminino e coube às autoras detectar como tais mulheres reagiam culturalmente às mais distintas formas de violência descritas. O trabalho se destaca de uma série de esforços meritórios de pesquisa e catalogação da documentação do referido Fórum, movidas por alunos e professores da Unidade Acadêmica de História e Geografia da UFCG. Dentre estes docentes, reconhecemos, sem dificuldade, a própria Juciene, que, com prazer, tem colhido os frutos de seu trabalho nos programas de Iniciação Científica.

Durante o Império caracterizaram-se uma série de modificações sociais, mais especificamente no âmbito das mutáveis relações identitárias familiares. Em contrapartida a essas mudanças, emergiram, também, diversos discursos literários que tentavam edificar para as moças jovens de então padrões pedagógicos de moral e conduta “honesta”. Dentre os autores e obras engajados nesse tipo de literatura, poderíamos enfileirar Joaquim Manoel de Macêdo com o seu, “A Moreninha,” [3] e José de Alencar, com os seus “Senhora” [4] e “Lucíola” [5] .

Laborando segundo valores peculiares, mas, também, a seu modo, direcionados a este mister, encontramos alguns contos de Machado de Assis pouco abordados pela historiografia. Tais contos machadianos foram enfocados, na sequência, pelo trabalho de Leonardo Farias. Leonardo dialoga com os conceitos certeaunianos de “lugar” e “espaço”, segundo os quais, no contexto social, se distribuem elementos de relações de coexistência. Esses elementos possibilitam as cenas e os cenários literários. Os atores machadianos são, assim, interpretados através de seus contos. Laborando também com discursos, dessa vez jornalísticos, Jucieldo Ferreira Alexandre estudou as caracterizações do cólera morbus, entre 1855 e 1864, partir da leitura do acervo do jornal O Araripe. Esse periódico dedicou mais de uma centena de textos ao cólera-morbo, que ameaçava atingir a cidade do Crato-CE durante aquela década, discursos estes que evidenciavam batalhas políticas de então.

Os embates políticos foram, também, objeto de estudo de Serioja Mariano, que, em seu artigo, discute como, de forma centralizadora, a organização do Estado nacional gerou choques hercúleos entre as lideranças nacionais e os políticos locais paraibanos do Primeiro Reinado. A autora destaca a continuidade da mudança do eixo econômico do Norte para o Sul, o que implicava numa perda de poder para os potentados locais Paraibanos. Estes se sentiam desprestigiadas com as ações do governo do Rio de Janeiro na época dos embates que se seguiram à dissolução da constituinte de 1823 e à outorga da Carta Constitucional de 1824.

Já Elton John, em seu texto, investiu em uma arqueologia dos conceitos de “fama” e “celebridade”, desde o Renascimento até o Iluminismo, laborando a partir de diálogos teóricos surgidos da leitura de diversos escritos de Michel Foucault confrontados com uma extensa pesquisa bibliográfica.

Fechando as discussões desse número, um toque de clássicos. Marinalva Vilar e Michele Cordão, colegas que tem se destacado por enfatizar as recepções e apropriações dos textos Greco-romanos em diversas historicidades, percorrem as produções de historiadores, poetas e retóricos do mundo greco-romano. Sua intenção: problematizar a maneira como se pensava as relações entre o gênero historiográfico e aqueles que a ele se dedicavam por ofício. De um lado, Heródoto, Tucídides, Políbio, Tito Lívio, Tácito, dentre outros; de outro, Aristóteles, Horácio, Cícero, etc. Sua inserção nesse Dossiê temático, acredito, nos direciona a observar como a tradição de que fazemos parte foi sendo elaborada pelos antigos a partir de heranças e rupturas com conceitos dos gêneros poético e retórico. Ocorreu-me, agora, a lembrança grata de um significativo artigo de José Antonio Dabdab Trabulsi, chamado “Liberdade, Igualdade, Antiguidade.” Nele, aquele admirável helenista nos lembra da enorme presença exercida pelas significações imaginárias herdadas da Antiguidade Clássica sobre os momentos revolucionários franceses dos séculos XVIII e XIX.

Como brinde, Claudia Cury, entrevistada pela Mnemosine, nos fala dos caminhos percorridos pelos que nos dedicamos aos estudos de História do Brasil Império, transmitindo, com suas palavras e experiência, valiosa contribuição à formação de nossos jovens historiadores.

Assim, com prazer, cabe-nos desejar-lhes uma excelente leitura

Notas

  1. ELIAS, Norbert. O processo Civilizador. Vol. 1. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994. p. 54.
  2. AGUIAR, José Otávio. A transferência da Corte Portuguesa e a tortuosa trajetória de um Revolucionário Francês no Brasil: Memórias e Histórias de Guido Thomaz Marlière (1808-1836). 1. ed. Campina Grande-PB: EDUFCG, 2008. v. 1. 435 p.
  3. MACEDO, Joaquim Manoel de. A Moreninha. São Paulo: Ática, 1982.
  4. ALENCAR, José de. Senhora. São Paulo. Klick Editora, 1997.
  5. ALENCAR, José de. Lucíola. São Paulo. Ática, 1990.

José Otávio Aguiar – Professor Doutor.


AGUIAR, José Otávio. Apresentação. Mnemosine Revista. Campina Grande, v.1, n.2, jul. / dez., 2010. Acessar publicação original [DR]

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