O presente dossiê é fruto de reflexões que vêm ocorrendo há quase duas décadas no âmbito do Programa de Pós-Graduação em História Social das Relações Políticas, da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), notadamente a partir da criação do Laboratório de Estudos de Gênero, Poder e Violência (LEG). A institucionalização desse campo de estudos, em especial com pesquisas sobre mulheres, tem contribuído para promover na historiografia capixaba novas perspectivas e novos objetos. Este é um movimento de renovação devedor de muitas fontes. Está atrelado tanto a mudanças de paradigmas nas Ciências Humanas, quanto a uma tradição capixaba de memória e história que começou a ser repensada a partir da publicação de obras pioneiras, como A mulher na História do Espírito Santo, de Maria Stella de Novaes.

Escrito nos idos dos anos 1950, mas publicado somente em fins da década de 1990, a obra de Novaes pode ser lida em diálogo com uma vertente mais testemunhal e memorialística, mas que indica uma busca de espaço pouco discutida até então sobre a urgente necessidade de se narrar as experiências marginalizadas de mulheres. De lá para cá, a historiografia produzida no Espírito Santo vem trilhando um longo caminho, no esforço por consolidar os estudos sobre mulheres e relações de gênero. Nesse ponto, uma crítica é pertinente, pois se houve avanços incontestáveis de abordagem e método, ainda estamos longe de ter uma extensa produção acadêmica pautada nas temáticas de gênero, com pesquisas que privilegiem o enfoque regional.

Interpelações à história tradicional, cega para a presença feminina nas dinâmicas sociais, vêm ocorrendo antes mesmo do surgimento de uma produção escrita sistemática a respeito do silenciamento das mulheres na história. Na verdade, é uma reação materializada também em numerosas biografias de mulheres. São vidas e carreiras que, a exemplo de Maria Stella de Novaes, precursora da História das Mulheres no Espírito Santo, se tornaram representativas de um enfrentamento aos papeis estereotipados e idealmente rígidos definidos para homens e mulheres na sociedade. Inseridas no mundo público, como professoras, escritoras, cientistas, revolucionárias, sindicalistas, artistas e intelectuais, entre outras tantas ocupações, acabaram por escapar, em boa medida, às amarras de gênero e por desafiar o chamado “destino biológico”. Mulheres de origens e classes sociais distintas subverteram identidades e transitaram para além dos espaços estabelecidos como apropriados por imperativos morais, sexuais, raciais, de classe, potencialmente excludentes e opressores.

Embora tenham estado sempre presentes nos vestígios históricos, ainda que pálidas na documentação “oficial” obstinada a ignorar tudo o que não “pertencesse” à esfera da política e da ordem pública, mas mais evidentes nos arquivos privados (descartados por muito tempo como fontes legítimas), essas existências singulares foram apagadas por uma narrativa masculina hegemônica que calava sobre o lugar das mulheres nos processos históricos. Se essa é uma verdade para a chamada história mundial (leia-se europeia), na História do Brasil, incluindo a produzida no Espírito Santo, não foi diferente. Poucas foram as obras na historiografia capixaba que questionaram esse apagamento das mulheres como sujeitas políticas até a última década do século XX. A partir de então, a produção historiográfica regional passou a dialogar com pesquisas que vinham se ocupando, ao menos desde os anos 1980, dos grupos desprestigiados, deslegitimados, esquecidos e silenciados do conhecimento então aceito como universal, dentre os quais as mulheres.

Este dossiê foi organizado com um duplo propósito: reunir trabalhos que dessem uma mostra significativa dos estudos dedicados à problemática de gênero e da História das Mulheres a partir de um recorte regional, e provocar, com essa iniciativa, uma reflexão acerca das persistentes lacunas que fazem com que a História do Espírito Santo seja, nesse sentido, um território vasto em possibilidades de pesquisa. Inclusive de estudos sobre sexualidades, diversidade sexual e movimentos sociais LGBTQIA+ que, no contexto capixaba, ainda são muito incipientes.

Considerando esse posicionamento teórico e o recorte específico proposto, integra o dossiê um corpo de artigos que buscou abranger as múltiplas subjetividades e especificidades que conformam as experiências de mulheres no Espírito Santo. Preocupação ajustada à prerrogativa de que não estamos lidando com um sujeito histórico homogêneo, muito pelo contrário. Ao pensarmos a História das Mulheres e das Relações de Gênero só podemos compreendê-las no plural. Por isso, estudos com enfoques e temporalidades distintos, que vão das mulheres urbanas às mulheres indígenas, da política à cultura, da família à comunidade, da educação à imprensa, com abordagens que, não raro, interseccionam tais leituras.

O diálogo e os embates são inevitáveis, justamente porque os textos aqui presentes não podem e não devem ser lidos como o outro lado de uma “história única”. Isso porque a maior contribuição de uma epistemologia feminista foi e tem sido a ruptura crítica com um ideal neutro de ciência. As mulheres, ao enfrentarem os pressupostos patriarcais fora e dentro da academia, têm conseguido ressignificar as experiências situadas, denunciando a prolongada invalidação das mulheres e de outras minorias sociais por um conhecimento que, para legitimar seu lugar dominante, exerceu como prática de poder o sequestro de outros sujeitos históricos. Os saberes surgidos desse movimento político e epistêmico, radical e revolucionário, são hoje uma das formas de resistência que compõem um projeto de transformação social, no qual a reescrita da história tem profunda importância.

Maria Beatriz Nader

Lívia de Azevedo Silveira Rangel

Organizadoras do Dossiê


NADER, Maria Beatriz; RANGEL, Lívia de Azevedo Silveira. Apresentação. Revista do Arquivo Público do Estado do Espirito Santo, Espirito Santo, v.4, n.7, 2020. Acessar publicação original [DR]

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