Pesquisar sobre Idade Média, ou outros recortes temporais e espaciais mais distantes da nossa realidade, por muito tempo foi um desafio, uma barreira de difícil transposição.

A chegada de Fernand Braudel e Jean Gagé à USP, na década de 1940, alterou o panorama do pensamento medievalista no Brasil, abrindo a senda necessária para que Joaquim Manoel Godinho Braga Barradas de Carvalho e Eurípedes Simão de Paula caminhassem, naquelas cercanias temporais, com seus estudos.

Acanhado em seu início, os estudos sobre o medievo produzidos no Brasil versavam, mormente, sobre temáticas francesas e ibéricas contribuindo, sobretudo, para aproximar nossos pesquisadores de métodos e teorias mais atuais, alargando também, o leque das abordagens, o panorama dos problemas e o horizonte de perspectivas que viriam a reordenar a medivalística nacional. Ainda assim correram anos até o estabelecimento de uma produção polifônica.

Ainda hoje, aliás, a apreciação plena das múltiplas sonoridades dos estudos acerca do medievo tirados no Brasil, sofre de limitada propagação.

Toda pesquisa carrega desafios, fato! Mas também possibilidades, certo! Infelizmente, naquilo que concerne aos estudos sobre a Idade Média produzidos em nossos centros de investigação, a norma tem sido por lupas sobre os desafios do medievalista sem, contudo, fazer o mesmo com as possibilidades de suas pesquisas. Tal situação se reflete no acanhado desenvolvimento de pesquisas sobre o universo medieval, principalmente em centros de menor relevo, ou destaque, na a área.

A organização do volume História Medieval: Ensino e Pesquisa, trazido à lume nas páginas da Revista Embornal, editada pela Associação Nacional de História – Secção Ceará, é uma resposta àqueles que ainda não creem no pleno desenvolvimento dos estudos brasileiros sobre a Idade Média.

De fato, a edição mostra a força e o fôlego das experiências de pesquisa e de ensino no campo da medievalidade, junto aos espaços de graduação e de pós-graduação estabelecidos no Ceará, no Brasil e além. Grupos de pesquisa como o ARCHEA/UECE (Oralidade e Cultura Escrita na Antiguidade e na Medievalidade), o NEVE/UFPB (Núcleo de Estudos Vikings e Escandinavos), o GERLIC/UFC (Grupo de Estudos em Residualidade Cultural) e o GERAM/UVA (Grupo de Estudos em Residualidade Antigo- Medieval) têm, aos poucos, apresentado importante produção científica verificadas em publicações, Jornadas, Encontros, Simpósios e demais atividades próprias da lida acadêmica.

Faz-se necessário mostrar essa produção, tantas vezes limitada a um grupo restrito de estudiosos. É importante expor as possibilidades da pesquisa em História Medieval; apresentar a viabilidade de constituir essas pesquisas; indicar a multiplicidade das fontes e suas especificidades; noticiar a amplitude de recortes espaciais e temporais que abrangem a Idade Média.

Precisamos mostrar nossos estudos, enfim. Arroubo da historiografia medievalista cearense, a presente edição foi pensada para dar visibilidade a uma demanda investigativa sofreada.

Pensada a partir da transdisciplinaridade proposta por François Dosse, o leitor encontrará, nas páginas seguintes, textos de várias localidades do país e também de Portugal. São estudos das mais variadas temáticas que estão estabelecidos em recortes temporo-espaciais diferentes.

Intencionalmente constituído pela multiplicidade, o volume traça um quadro geral da atual situação dos estudos medievais no Brasil, mostrando sua abrangência temática, teórica, científica e sua originalidade, além de, é claro, reforçar os espaços de pesquisa estabelecidos em solo pátrio.

Abrindo os trabalhos desta revista temos o estudo teórico-filosófico intitulado Filosofia, retórica e poder em De Providentia de Sinésio de Cirene (século V), assinado pelo Prof. Dr. José Petrúcio de Farias Júnior, da UFPI, sobre a produção de Sinésio de Cirene e suas implicações políticas e administrativas na constituição da tardoantiguidade.

Na sequência, escrito a seis mãos e explorando as múltiplas articulações que se pode fazer sobre a questão dos usos da iconografia e memória no medievo, leremos Henry Chichele e sua tumba: sobre imagem, memória e materialidade no medievo.

Ainda espreitando os mistérios da morte medieval, Munir Lutfe Ayoub (USP), em seu Primeiros apontamentos sobre a diversidade nos cemitérios de Nordre Kaupang e Bikjholberget, por meio de um estudo de base arqueológica, leva-nos a refletir sobre as práticas fúnebre e suas relações com a antiga religião nórdica.

Ainda no concernente à Escandinávia medieval, José Lucas Cordeiro Fernandes (NEVE/GERAM) e André Araújo de Oliveira (UFMT), em seu Entre as linhas e sentidos: Estética literária e Imaginário de cristianização na Íslendingasögur e Biskupasögur, convidam-nos para uma apreciação estético-literária de dois subgêneros das sagas islandesas com fins a compreender a relação entre a religião antiga nórdica e os contatos sincréticos com o Cristianismo naquela região.

Da literatura aos estudos de gênero. Chegamos agora a Uma conversa sobre a feminilidade no processo histórico, texto da Ma. Cynthia Maria Valente (UFPR) e da Dra. Elaine Cristina Senko (UFPR/UNIOESTE), que visa perceber a participação da mulher como construtora de sua historicidade. Ainda na vivência dos estudos de Literatura e das questões de gênero, temos a análise desenvolvida por Luan Lucas Araújo Morais (UECE/ARCHEA) e pelo Prof.

Dr. Gleudson Passos Cardoso (UECE/ARCHEA), sobre o amor cortês presente na literatura produzida nas cortes da França e fixada no texto Soredamors e Alexandre: as .

E sendo a mulher importante persona da experiência histórica, perseguiremos mais um tempo à sua volta. Agora num texto de cariz residual, intitulado A Mulher, o Diabo e o Pecado em Gil Vicente e seus aspectos residuais na obra de Suassuna, produto das investigações de doutoramento do Me. Francisco Wellington Rodrigues Lima (UFC/IFC-Sobral), sob a atenta orientação da Profa. Dra. Elizabeth Dias Martins (UFC).

Reforçando a importância da Literatura como fonte profícua para os estudos de História Medieval, chegamos às Cantigas de Santa Maria e sua relação com elementos de hierofania medieval, exposto em Espaço e Paisagem em Cantigas de Santa Maria, de Dom Alfonso X: Texto e Imagem, texto saído da lavra de Carlos Henrique Durlo (UEM) e Clarice Zamorano Cortez. Maria Luisa Tollendal Prudente (UFF), com seu Relação paterno-filial nas Siete Partidas de Afonso X (1252-1284): ordem, retribuição e exercício do poder, nos presenteia com mais uma leitura sobre a produção do Rei Sábio. Agora a análise gira em torno de uma avaliação da relação paterno-filial e dos aspectos de legitimação do poder régio dentro da fonte analisada.

Findando esta edição, de Coimbra, chega-nos Doença e pecado no Flos sanctorum de 1513, texto da Profa. Dra. Ana Maria Machado, no qual a autora discute questões atinentes à saúde e à doença no cotidiano medieval da Ibéria do século XVI.

Esperamos que caminhos teórico-metodológicos apresentados nos artigos ora arrolados, contribuam para revelar sentidos, paixões, desejos e possibilidades do universo medieval e amplificar as experiências nesta área tão plena de possibilidades.

Superar as dificuldades em torno dos estudos atinentes à Idade Média e contribuir com a divulgação da medievalística brasileira, essa foi nossa a proposta.

A Fructibus Eorum Cognoscetis Eos 1 Os organizadores Dr. Gleudson Passos Cardoso (UECE/ARCHEA) Dr. Tito Barros Leal (UVA/GERAM) Me. Lucas C. Fernandes (NEVE/GERAM)

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