Imprensa, intelectuais e circulação de ideias no Espírito Santo | Revista do Arquivo Público do Estado do Espirito Santo | 2021

As pesquisas dedicadas aos impressos e a circulação de ideias ganham, ano após ano, um lugar de destaque nos debates historiográficos. As discussões que envolvem história da circulação escrita, abrangendo também, evidentemente, os manuscritos, evidenciaram algumas nuances importantes acerca do impacto das letras nas modificações das práticas, políticas, sociais, culturais e simbólicas em diversas sociedades.

Se para McLuhan1, a imprensa de Gutemberg transformou o meio social, indicando a atuação dos impressos como agentes revolucionários e, até mesmo, restringindo o uso dos manuscritos e da oralidade, percepções como as de Roger Chartier2 equilibram o debate, direcionando a perspectiva de análise para os aspectos sociológicos dos textos. Para além disso, outros atores surgem em meio à esta nova abordagem, indicando a importância de figuras como o redator, o editor, o leitor, os livreiros e os intelectuais.

Os impressos, deste modo, são veículos de ideias. É por meio deles que indivíduos, comuns ou não, ganham voz e projetam suas demandas políticas, culturais e sociais. A inserção da publicação impressa em território brasileiro data-se, oficialmente, a partir da chegada da Família Real, em 1808, o que não anula a circulação de ideias e de escritos no período anterior. No entanto, as pesquisas desenvolvidas nas últimas décadas, sobretudo no âmbito dos programas de Pós-Graduação, destacam que os jornais tornam-se espaços de amplo debate político e social em diferentes épocas da história. Assim, na historiografia brasileira, a imprensa, bem como a atuação dos intelectuais e a circulação de ideias, vêm ganhando cada vez mais destaque e ampliam seus objetos e possibilidades de pesquisa. Os estudos que compõem este dossiê abarcam exatamente tal momento de difusão destas análises.

Nesta edição da Revista do Arquivo Público do Estado do Espírito Santo destacamos estudos que se dedicam à história da circulação impressa, a divulgação de ideias, a atuação de intelectuais e de aspectos que traduzem a cultura política capixaba, como o trabalho, a cultura, a dinâmica política local, bem como a preservação destes dados à partir da prática arquivística. Embora o dossiê tenha como foco o Espírito Santo, vislumbra-se nesta edição abordagens que se debruçam sobre a circulação de impressos também em outras localidades do Brasil, visualizando, assim, a produção de jornais em todo o território, a partir da circularidade da informação, e não somente como produções locais estáticas.

Evidenciando a importância da Imprensa no século XIX, e sua utilização como veículo de contestação e difusor de projetos, quatro artigos desta edição centram-se nos impressos oitocentistas. O artigo Um liberal combatente pelas letras: o Manifesto de Padre Marcelino Pinto Duarte Ribeiro e seu projeto de independência do Brasil, escrito por Victor Guasti abre o dossiê temático, a partir do estudo sobre um panfleto escrito por Padre Marcelino Ribeiro em 1822, buscando compreender as nuances acerca da autonomia política, legislativa e econômica brasileira em relação a Portugal defendido pelo autor neste impresso. Dando continuidade às discussões que fizeram da imprensa locus privilegiado de debate no século XIX, voltamo-nos para o contexto do Primeiro Reinado, na localidade de Pernambuco, a partir do estudo elaborado por Christiane Peres Pereira, que acentua a importância política desta região, ao destacar a incidência de movimentos políticos locais desde o século XVII, e identifica os impactos destas discussões regionais na imprensa do Primeiro Reinado.

A análise da imprensa política oitocentista mostra-se também imprescindível para a verificação das linguagens políticas em construção no Império brasileiro. Assim, no artigo intitulado Imprensa maiorista: a construção da identidade política liberal no início da década de 1840 no Rio de Janeiro, no estudo desenvolvido por mim e por Driely Neves Coutinho, enfatizamos as principais características linguísticas presentes no contexto de a formação do Partido Liberal na Corte. Deste modo, procuramos destacar os principais temas e conceitos que permearam a construção do vocabulário desta agremiação política nos anos iniciais do Segundo Reinado, por meio da análise de jornais publicados neste contexto.

Contemplando a imprensa capixaba do século XIX como espaço de discussões e apropriações sociais e econômicas, no artigo denominado A fazenda do centro na imprensa e na historiografia capixaba (1845-1900), Maria Aparecida Stelzer Lozório e Maria Carolina Stelzer Campos, apresentam a importância da Fazenda do Centro no contexto de desenvolvimento do sul do Espírito Santo, sobretudo na região de Castelo. As autoras demonstram por meio da investigação de jornais, a relação entre a fazenda e as atividades econômicas, culturais e sociais da região.

Entrando neste contexto, o artigo A engenharia, o positivismo e a imprensa no Espírito Santo do século XIX, escrito por Nelson Pôrto Ribeiro, evidencia, de forma muito interessante, as relações entre a engenharia civil e o ideário positivista disseminado por meio da imprensa capixaba. O autor destaca o papel destes profissionais no contexto de modernização do Brasil na segunda metade do século XIX, enfocando, mais precisamente, o caso da Província do Espírito Santo. Compondo também a investigação acerca da imprensa nos anos finais do Império, Daiane Lopes Elias aponta os principais conceitos utilizados pelos liberais republicanos no discurso de crítica ao Império Brasileiro no estudo As palavras também são atos: o discurso dos republicanos liberais na queda do Império no Brasil. A autora, deste modo, traz à luz a potencialidade da divulgação do movimento republicano atrelado à ideia de progresso e solução para os problemas da sociedade brasileira do fim do Oitocentos.

O dinamismo da imprensa política e seu papel crucial na composição da esfera de opinião e da cultura política capixaba permanece durante o século XX. É o que demonstra o artigo “As urnas castelenses! para trás, sicários”: O papel do Jornal Tribuna do Sul de Castelo ES na campanha eleitoral de Júlio Prestes à Presidência da República em 1930, de Ademildo Gomes. Este artigo apresenta aspectos preciosos contidos no jornal A Tribuna do Sul, que foi utilizado por políticos locais para a propaganda em prol da eleição de Prestes, evidenciando a dinâmica política local e o jogo de poder do contexto das oligarquias. Corroborando a análise da circulação impressa no cenário capixaba e seu impacto no âmbito político e social, apresentamos o trabalho intitulado Imprensa, Memória e a Ditadura Militar no Espírito Santo (1971-1975), elaborado por Davi Elias Rangel Santos que, a partir de suas pesquisas, aponta as contribuições da imprensa local no contexto de elaboração de uma memória acerca da Ditadura Militar entre os anos de 1971 e 1975.

Na seção de artigos livres evidenciamos estudos primorosos acerca da historio – grafia capixaba com relação à temática da imigração, levantando nuances importantes como, por exemplo, a influência alemã na culinária capixaba, assim como demonstram Marcela Achiamé, Ana Cristina Pitanga e Andréa Ferreira Souto, ao analisarem as origens, mudanças e permanências na alimentação capixaba. A partir da metodologia da história oral, as autoras de Cultura, identidade e gastronomia alemã no município de Domingos Martins/ES, enfatizam conceitos como identidade e cultura, levantando a discussão sobre a representação e a apropriação em meio à história da gastronomia.

A dinâmica social em torno do imigrante, neste caso, imigrantes italianos, também se faz presente no estudo denominado Facciamo l`America: Direito a terra e “Reforma Agrária” no Núcleo Colonial da Fazenda do Centro – Castelo/ES, desenvolvido por Diego Zanete Bonete e Layo Zanete Bonete. O referido artigo analisa a ação de Frei Manuel Simón de San José, membro da Ordem dos Agostinianos Recoletos, em meio às famílias de imigrantes na localidade de Castelo, mais precisamente na Fazenda do Centro, no início do século XX. Os autores, neste sentido, discutem os desdobramentos e consequências de uma primeira “reforma agrária” empreendida em terras capixabas, abarcando ainda o levantamento da compreensão destes imigrantes acerca do trabalho, divisão de terras e contratos estabelecidos naquele período.

Compondo a discussão sobre a concepção do trabalho em meio aos estudos acerca da imigração, Jefferson Ferreira Alvarenga, em seu artigo O imigrante e o trabalho no estado do espírito santo, centraliza a análise no processo de imigração no estado do Espírito Santo, sobretudo no que diz respeito à concepção de trabalho desse europeu nos diferentes tipos de propriedades. O autor, deste modo, destaca o impacto da mão-de-obra do imigrante europeu em meio às transformações sociais e econômicas da cidade de Vitória e do estado do Espírito Santo.

Esta edição também contempla estudos que evidenciam a importância dos arquivos digitais e da preservação de bancos de dados, indicando ainda aspectos inerentes à temática das humanidades digitais, além de nos expor os desafios e possibilidades da pesquisa histórica e da prática arquivística diante da expansão das novas tecnologias da informação. O artigo Do documento armazenado ao documento manifesta – do: preservação de registros digitais de frequência dos servidores na Câmara dos Deputados, escrito por Vanderlei Batista dos Santos e José Raymundo Ribeiro Campos Filho, ressalta o desafio das instituições arquivísticas diante da preservação de documentos digitais autênticos, apresentando em seu estudo as discussões em curso na Câmara dos Deputados para preservação dos registros de frequência em repositórios de preservação digital com requisitos arquivísticos.

Na seção documento desta edição, intitulada A Guerra do Paraguai na Imprensa Capixaba: o conflito para além do campo de batalha, de autoria de Marcos Briel, somos agraciados por uma transcrição de notícia sobre a Guerra do Paraguai, impressa originalmente no periódico Diário do Rio e publicada nas folhas do jornal capixaba Correio da Victória em 20 de janeiro de 1869. A análise do documento, que é parte do acervo das coleções de microfilmes do Arquivo Público do Estado do Espírito Santo (APEES), bem como da Hemeroteca Digital Brasileira da Biblioteca Nacional, demonstra a circularidade das notícias no século XIX, como também identifica a rede existente entre intelectuais, redatores e periódicos daquele contexto, propiciando, assim, a divulgação de posicionamentos políticos, diferentes conceitos e transformações que envolveram a cultura política do período oitocentista por interlocução dos impressos.

Em suma, o dossiê Imprensa, intelectuais e circulação de ideias no Espírito Santo apresenta ao leitor uma compilação de estudos que percorrem a história da circulação da informação e dos impressos em território capixaba, levantando aspectos importantes da pesquisa histórica e arquivística, que contribuem de forma precisa para os estudos, em âmbito local e nacional, sobre a imprensa, a circularidade de ideias, projetos polí – ticos e práticas culturais.

Na segunda metade do século XIX, diversas modificações ocorreram na atividade tipográfica e, consequentemente, ampliaram o alcance dos periódicos. Subsidiada pelo desenvolvimento das estradas de ferro, sistemas de telégrafos e correios, as notícias passam a percorrer todo o país em maior velocidade e, assim, as ideias circulam e difundem novos conceitos e práticas, além de fomentarem as críticas políticas, sobretudo, as dirigidas à monarquia brasileira.

Notas

1 MCLUHAN, Marshal. A Galáxia de Gutenberg: a formação do homem tipográfico. ( The Gutenberg Galaxy: the making of typografic man) Trad. Leônidas Gontijo de Carvalho e Anísio Teixeira. São Paulo, Editora Nacional, 1977.

2 CHARTIER, Roger. A mão do autor e a mente do editor. São Paulo: Ed. UNESP, 2014.


Organizadora

Karulliny Silverol Siqueira – Professora de História no Departamento de Arquivologia na Universidade Federal do Espírito Santo e vinculada ao Programa de Pós-Graduação em História (PPGHIS-UFES).


Referências desta apresentação

SIQUEIRA, Karulliny Silverol. Apresentação. Revista do Arquivo Público do Estado do Espirito Santo. Espirito Santo, v.5, n.9, 2021. Acessar publicação original [DR]

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