Lima Barreto: triste visionário | Lilia Moritz Schwarcz

Creio ser desnecessário apresentar a renomada escritora Lilia Moritz Schwarcz, autora de muitas obras no campo das ciências humanas. Iremos nos limitar a dizer que é uma pesquisadora com formação em História e Antropologia que, ao longo de suas pesquisas, tem contribuído sobremaneira com o debate acerca das relações raciais no Brasil. O livro O Espetáculo das Raças é um exemplo cabal do que estamos falando.

O objeto de nossa resenha, o livro Lima Barreto: Triste Visionário, publicado pela conceituada Editora Companhia das Letras, no ano de 2017, discorre sobre o escritor negro Afonso Henriques de Lima Barreto, mais conhecido como Lima Barreto.

A obra está dividida em 17 capítulos, nos quais encontraremos aspectos da vida pessoal do autor — muitos deles, revelados a partir de terceiros, ou seja, de seus personagens —, bem como pessoas que fizeram parte do seu convívio, como, por exemplo, Clara dos Anjos. Os capítulos perpassam a experiência traumática da dependência do álcool, uma das mazelas que, tanto ontem como hoje, recai sobre a população negra em virtude da “praga da escravidão”, quando a água ardente era usada como forma de “motivação” ao trabalho dos escravizados. O mundo hermético dos intelectuais (dos doutores) e as dificuldades em adentrar seu circuito fechado são revelados desde a estrutura da escola até o começo de seu trabalho intelectual. A política, tanto no sentido lato como no estrito, o falso moralismo e as relações de classe, raça e de gênero também estão presentes no cotidiano do subúrbio e da capital da jovem República, a cidade do Rio de Janeiro.

Não nos alongaremos falando de cada capítulo da obra em específico, mas, de modo geral, o leitor encontrará capítulos de história social ao longo da obra: mentalidade, ideologia, política e seus bastidores, disputas de poder, intrigas e questões relativas ao moralismo vigente na época, além do debate acerca da relação entre o público e o privado e as representações do funcionário público, em uma República eivada de práticas e títulos advindos da Monarquia. Enfim, o leitor encontrará um capítulo da História do Brasil republicano, a partir da então capital da República (Rio de Janeiro) e suas adjacências. Uma história contada, não diretamente por Lima, que a viveu, mas, por meio dos seus diversos personagens.

Na introdução, Lilia Schwarcz justifica o título da obra. A tristeza de Lima não é apenas por conta das agruras que a vida lhe ofereceu, mas também por sua tenacidade: “[…] triste é quem não desiste, é teimoso, não se deixar vencer.”. E completa: “[…] visionário, já que jamais desiste de planejar o seu futuro, o de seu país e dos seus próximos”.

Para a tessitura da obra, a autora serviu-se das mais variadas fontes e bibliografias, fazendo uma interseção entre as diversas disciplinas das ciências humanas: Antropologia, História, Literatura, Comunicação, Geografia, Sociologia etc. Podemos dizer que Schwarcz desenvolveu uma arqueologia das diversas obras de Lima Barreto, evidenciando a relação entre o escritor e sua obra. Como diz a autora, uma relação entre criador e criatura, que nos remete à tradicional interrogação: a vida imita a arte, ou a arte imita a vida? Diríamos que a obra, de certa forma, responde esse pretenso dilema; no caso de Lima Barreto, “isto e aquilo”.

Afirmamos que Lilia desenvolveu uma arqueologia de Lima Barreto porque ela mergulhou profundamente na obra, desvendando a relação do autor, da sua época e de seus personagens. Pode-se evidenciar as disputas políticas, as tensões étnicas e raciais em um País onde os egressos do cativeiro e seus descendentes sentiam, na pele, o “fardo” de ser descendente de africanos. É preciso dizer que a experiência de Lima Barreto não foi única; ele representa inúmeros afrodescendentes que passaram por situações similares. Seus personagens vão além de representações de indivíduos, e podem ser considerados categorias sociais. “Dissecando” o autor Lima Barreto a partir de seus diversos personagens, Schwarcz evidencia muitos sujeitos anônimos que não ficaram no passado e que, muitas vezes, cruzam nosso cotidiano sem que nos demos conta disso.

Ao lermos a obra, é possível reinventar uma época. Não seria demais afirmar que a autora nos remete à Ítalo Calvino (1990): “a cidade não conta o seu passado, ela o contém […]”. Lilia contou a história da trajetória de Lima Barreto contida em seus personagens, daí a necessidade de desenvolver uma arqueologia, como já dito, desvelando o conteúdo social das obras do escritor.

Por meio da obra de Lilia Schwarcz, é possível captar as ideologias que circulavam na sociedade em relação à população descendente de africanos — sobretudo aos ex-escravizados — e perceber como essas ideologias, lentamente, transformaram-se em mentalidades (aliás, mentalidades que perduram até os dias atuais), reverberaram na vida de Lima, tornando-se narrativas, e foram denunciadas por Barreto. Sem dúvida alguma, à sua maneira, Afonso Henriques foi um crítico mordaz do seu tempo: preconceito, racismo, “falcatruas políticas”, colonialidade e falso moralismo são alguns dos temas-alvo de suas considerações.

Na obra, destaca-se o contexto em que estava inserido o escritor: a transição do Império para a República, do trabalho servil para o trabalho livre, da obsessão para uma modernidade que se anunciava como a “redentora” de todas as mazelas, inclusive das “mazelas raciais”. Foi nessa sociedade que Barreto teve que se fazer um visionário, sendo “um negro no mundo dos brancos” — para usar a expressão do sociólogo Florestan Fernandes (1972) — e mais, um negro que visava a ascender socialmente por meio dos estudos. Cada um de seus passos lhes fazia lembrar de suas origens, colocando-o na condição de outsider. Os diversos personagens de Lima, analisados por Lilia, apontam nessa direção.

Ao longo das mais de 500 páginas, a autora, como já referido anteriormente, utilizou-se de bibliografia e fontes diversas, das quais ressaltamos as fontes iconográficas que revelam aspectos que, muitas vezes, as palavras não são capazes de reproduzir. Nesse sentido, as imagens não são meras ilustrações; por meio delas, a autora estimula o leitor a se colocar no lugar de Lima Barreto, no seu tempo. As imagens, somadas aos registros colhidos de seu diário, dão-nos a medida certa de um Lima triste e visionário.

A imprensa, responsável tanto pela divulgação dos acontecimentos como pela formação de opinião, marcou demasiadamente a trajetória de Lima, sobretudo porque ele trazia um estilo que, muitas vezes, era visto de forma enviesada devido à linguagem mordaz e ao aço das palavras que cortavam como lâmina, cujo endereço alguns conheciam; ou seja, a “carapuça lhes servia”.

Não poderíamos deixar de discorrer acerca da metodologia utilizada pela autora na afortunada, mas também áspera, tarefa de escrever sobre Lima Barreto, seu tempo e sua obra. Lilia metamorfoseou-se em detetive; cada sinal, cada marca deixada pelas pisadas de Lima foram objeto de sua atenta investigação. Em um diálogo interdisciplinar, sobretudo entre a História e a Antropologia, e com uma linguagem acessível, tanto ao público acadêmico como aos leitores em geral, a autora reconstruiu a trajetória de Afonso Henriques, desde o mais íntimo do seu cotidiano à sua vida pública. O paradigma indiciário, preconizado pelo historiador Carlo Ginzburg (1989), foi o norteador do processo investigativo, que também incluiu exploração a campo por lugares onde Lima passou e viveu, confrontando o passado com o presente, ou melhor, estabelecendo uma relação entre passado e presente. Esta foi, em nossa opinião, outra característica relevante da obra: a possibilidade de fazer uma conexão do passado com o presente ao ler Lima, tendo como fio condutor a temática racial. O que mudou e o que permaneceu no âmbito das relações raciais do tempo de Barreto em comparação com os dias atuais? Há mudanças, é certo, mas também há permanências, resistências obstinadas que o leitor atento é capaz de captar nas vozes dos personagens de Afonso Henriques de Lima Barreto, agora mediados pela pesquisa exaustiva de Lilia Moritz Schwarcz.

Referências

SCHWARCZ, Lilia Moritz. O Espetáculo das Raças: Cientistas, Instituições e Questão Racial no Brasil (1870–1930). São Paulo: Cia. Das Letras, 1993.

CALVINO, Ítalo. As Cidades Invisíveis. São Paulo: Cia. Das Letras, 1990.

FERNANDES, Florestan. O Negro no Mundo dos Brancos. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1972.

Ginzburg, Carlo. Mitos, Emblemas, Sinais. Morfologia e História. São Paulo: Cia. Das Letras, 1989.

José Bento Rosa da Silva – Possui graduação em História pela Fundação do Polo Regional do Vale do Itajaí (1985), mestrado em História pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1994) e doutorado em História pela Universidade Federal de Pernambuco (2001). Atualmente é professor associado da Universidade Federal de Pernambuco. Tem experiência na área de História, com ênfase em História da África, atuando principalmente nos seguintes temas: África – história – diáspora, abolição – escravidão – trabalho, cidade – memória – porto, escravidão. Vinculado ao Centro De Estudos Africanos da Universidade do Porto (Portugal- 2002/2016) como investigador doutorado. Estágio pós-doutoral na Université Jean Jures – Mirail I (Toulouse- 2014-2015). Vice-coord. do Instituto de Estudos da África na Universidade Federal de Pernambuco (2016-2017). Membro do Núcleo de Estudos de Identidades e Relações Interétnicas da Universidade Federal de Santa Catarina.


SCHWARCZ, Lilia Moritz. Lima Barreto: triste visionário. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. Resenha de: SILVA, José Bento Rosa da. Escritas do Tempo. Pará, v. 2, n. 4, p. 340-343, mar./jun. 2020. Acessar publicação original [DR]

 

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