O legado de bell hooks: Perspectivas críticas, radicalidade e políticas da futuridade/Abatirá – Revista de Ciências Humanas e Linguagens/2022

Em sua última publicação de ensaios,4 ao mencionar uma ação publicitária sobre sua obra, Remembered Rapture: The Writer At Work, de 1999, que a aborda como “uma escritora universal [que atinge] leitores e escritores em todo o lugar” (HOOKS, 2013, p. 190), bell hooks (2013, p. 190) salienta: “É assim que me vejo, uma escritora apaixonada por muitas paixões. E é manter essa perspectiva universal em mente que me inspira a escrever a partir das diferentes posições do self e da identidade que informam a minha vida, que me mantém escrevendo para além da raça”.

A noção de “escrever para além da raça” sempre esteve presente em sua obra e aparece em livros como Bone Black, Wounds of Passion e o já mencionado Remembered Rapture. A partir de uma leitura do conjunto de sua obra, percebemos que o movimento “para além da raça”, que hooks empreende com fôlego e motivação ao longo de quatro décadas, revela um anseio de construir um mundo onde as identidades e diferenças não articulem sistemas de opressão e dominação.

Nós, enquanto pesquisadoras, educadoras e organizadoras (e também autoras) deste dossiê, compartilhamos deste mesmo anseio. E, justamente por isso, é com imensa alegria que, no ano em que bell hooks completaria 70 anos, publicamos este dossiê, como celebração e convite para seguir pensando com, a partir e, vez por outra, em tensão com hooks. Composto por seis artigos, este número revela, também, a coletividade deste anseio por novas possibilidades de interlocução e reflexão. Neste caso, estamos construindo essas novas possibilidades em diálogo com bell hooks.

Em “A crise do amor na democracia burguesa: pensando com bell hooks numa perspectiva feminista”, Mayara Moratori Peixoto, Ingra Moratori Sobreira e Raquel Barbosa Moratori investigam as possiblidades de enfrentamento à democracia burguesa a partir das discussões que hooks realiza sobre amor. Nesse sentido, o artigo argumenta acerca da ética do amor como um ato de criação que pode fundar novas realidades.

Nesse mesmo sentido, “O amor como prática educativa revolucionária: o compromisso com uma docência amorosa” realiza esse diálogo, tão caro para hooks, entre amor e pedagogia. A partir dessa discussão, Marcelly Campos e Débora Cristina de Araujo compreendem que o amor é uma prática educativa revolucionária e argumentam a favor de uma docência amorosa.

Seguindo o debate sobre educação e pedagogia, “Com bell hooks, um aprendizado para o artivismo e a experiência vivida” e “A pedagogia engajada na construção da escola como comunidade”, partem da pedagogia crítica de hooks para elaborar análises sobre educação, comunidade e o espaço da sala de aula. Nesses textos, respectivamente, os autores Raisa Inocêncio; Francisco Mário Carneiro da Silva, Davison da Silva Souza, Gabriela da Silva Antunes apresentam uma possibilidade de leitura do artivismo e da pedagogia engajada a partir das categorias que o pensamento de hooks nos oferece.

Já em “A língua transgressora: os ensinamentos de hooks em diálogo com a Sociolinguística”, Ana Carolina de Souza Silva e Luís Augusto Ferreira Saraiva discutem a contribuição de hooks para os estudos da linguística. A partir das contribuições de autores como Lélia Gonzalez, Bispo dos Santos, Franz Fanon e Grada Kilomba, o texto pensa com hooks as possibilidades de subversão da língua e suas dinâmicas imbricadas.

Por fim, o texto “Para além das oposições binárias: oposicionalidade, afetabilidade e subjetividade negra radical”, assinado por Vinícius da Silva e wanderson flor do nascimento, discute a teoria da representação/crítica cultural de bell hooks, dando ênfase às categorias citadas no subtítulo. Trata-se de uma contribuição para as discussões do cinema e da cultura, bem como da filosofia, que focam na compreensão da construção de significados e modos de estar no mundo.

Todos os textos, de alguma forma, são unidos por um fio condutor que nos leva a um panorama do pensamento de hooks e nos dão elementos importantes para pensar alternativas e novas possibilidades – esses temas tão caros à nossa autora. Por fim, agradecemos a todas as submissões e esperamos que estes artigos contribuam para a difusão do pensamento de bell hooks, como uma apropriada homenagem a seu legado.


Nota

4 A obra em questão é Writing Beyond Race: Living Theory and Practice (Nova Iorque: Routledge, 2013). Após 2013, bell hooks lançou Uncut Funk, com Stuart Hall. Aqui, nos referimos à coletânea de ensaios e não aos diálogos publicados, embora a obra citada também contenha diálogos. Writing Beyond Race será lançado no Brasil em julho de 2022, com tradução de Jess Oliveira e prefácio de Alex Ratts, pela Editora Elefante – que tem realizado esforços para a publicação e difusão da obra de hooks no Brasil.


Organizadores

Vinícius Rodrigues Costa da Silva – Graduande em Artes Plásticas (UFRJ), alune do Programa de Formação e Deformação da Escola de Artes Visuais do Parque Lage (RJ) e autore de Fragmentos do porvir (Ape’Ku, 2022). E-mail: [email protected] https://orcid.org/0000-0003- 4128-1163

Luana Luna Teixeira – Doutora em Políticas Públicas e Formação Humana (UERJ), Pedagoga e Diretora de Ensino do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro (IFRJ) – Campus São João de Meriti. E-mail: [email protected] https://orcid.org/0000-0002-1796-7010

Wanderson Flor do Nascimento – Doutor em Bioética (UnB) e professor de Filosofia da Universidade de Brasília (UnB). E-mail: [email protected] https://orcid.org/0000- 0002-3250-3476


Referências desta apresentação

DA SILVA, Vinícius Rodrigues Costa; TEIXEIRA, Luana Luna; FLOR DO NASCIMENTO, Wanderson. Apresentação. Abatirá – Revista de Ciências Humanas e Linguagens. Eunápolis, v.3, n.5, p. 281-283, jan./jun. 2022. Acessar publicação original [DR/JF]

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