Este número da revista Tempo Amazônico é dedicado ao estudo do patrimônio histórico. A historicidade e a polifonia da noção de patrimônio serão, desde o início, problematizadas. A recente “vaga patrimonial”, com sua ambição de tudo preservar, mesmo aquilo que é mais contemporâneo e fluido, foi analisada como índice de um novo regime de historicidade na entrevista concedida por Jacques Revel e Sabina Loriga. Estes historiadores problematizam diversos aspectos das modernas práticas de patrimonialização, que não são protagonizadas apenas pelo Estado e pela Unesco, mas também por associações, empresas do setor turístico e outros. Neste inventário, Revel e Loriga recorrem a uma constelação de experiências muito diversas, levando-nos a viajar de Paris a Ouidah (cidade localizada no sul do Benin), de Berlim a Varsóvia e além…

Nos artigos do dossiê, os museus ganharam destaque. Bruno Brulon analisa os caminhos e descaminhos da musealização no Ocidente. Segundo o autor, esse conceito foi sendo atualizado ao longo do tempo na medida em que se mantinha comprometido com a necessidade humana de transmissão da cultura e que se via “atravessado pelas particularidades inerentes ao contexto histórico”, pois o museu cria um discurso a partir de códigos que devem ser acessíveis aos especialistas que o organizam e ao público que o visita. E tal prática discursiva, desde o século XVIII até o período mais recente, esteve fortemente comprometida com o projeto de criação de identidades nacionais, destaca Brulon.

Mariana Ramos de Morais, por outro lado, ressalta que a política de patrimônio no Brasil não se restringiu às normas estabelecidas no âmbito federal, pois estados e munícipios aí também têm instituído processos de patrimonialização. Analisando o tombamento do terreiro de candomblé Ilê Wopo Olojukan (ocorrido no ano de 1995, em Belo Horizonte, a capital de Minas Gerais), a autora nos lembra da pressão feita pelo movimento negro no sentido do reconhecimento do caráter multi-racial da cultura brasileira. Ela também destaca que, concomitantemente, postulava-se a reafricanização e a dessincretização do candomblé, em uma “busca continuada por elementos religiosos de origem africana que teriam sido perdidos e a rejeição do sincretismo afro-católico no candomblé”, no que o terreiro Ilê Wopo Olojukan não estava engajado. De toda sorte, a comunidade-terreiro assumiu, durante o processo de tombamento, ser o candomblé uma religião de resistência negra e ser o Ilê Wopo Olojukan um “espaço onde se inscreve a memória ancestral africana por meio do axé ‘plantado’”, valores caros ao movimento negro que participou do tombamento. Mariana Ramos de Morais, portanto, enfoca e elucida fricções identitárias que amiúde estão presentes nos processos de patrimonialização.

O artigo de Maria De Simone Ferreira dedica-se ao estudo de caso de dois museus regionais criados no âmbito do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) após o tombamento incomum das ruínas de seus antigos prédios: o Museu das Missões e o Museu de Arqueologia de Itaipu. Apesar da distância cronológica e geográfica que esses dois museus guardam entre si – o Museu das Missões data de 1940 e localiza-se em São Miguel das Missões (RS) e o Museu de Arqueologia de Itaipu foi criado em 1977 no Município de Niterói (RJ) –, os dois partilham da singularidade de serem os únicos casos dentre os 29 museus do órgão federal de preservação cujo formato de museu conservou o caráter interpretativo suscitado pelos remanescentes arquitetônicos do passado. A autora nos convida, a partir dessas ruínas-museus, a acompanhar as discussões no plano das políticas institucionais do Iphan acerca dos critérios de restauração dos monumentos tombados, de criação de museus, de aquisição de acervo, assim como de preservação do patrimônio arqueológico.

Portanto, os três primeiros artigos do dossiê abordam por meio de objetos de estudo diferentes a questão da patrimonialização. Já os dois artigos seguintes, ao esquadrinharem diferentes acervos, apontam para as potencialidades dos documentos históricos aí guardados, bem como chamam nossa atenção para os procedimentos críticos necessários à inclusão de tais fontes no campo operatório do historiador. Neste sentido, Cecília Maria Chaves Brito Bastos e Telma Maria da Fonseca Brito Marino apresentam um inventário do patrimônio eclesiástico guardado pela Cúria Diocesana de Macapá (capital do Amapá). Elas situam o processo de organização deste acervo no movimento plurissecular de institucionalização dos arquivos eclesiásticos brasileiros. Jornais, cartas pastorais, fotografias e livros de tombo foram consultados com o intento de se detectar os fios e os rastros de uma história local (a amapaense) que em muitos aspectos precisa ser mais bem estudada.

Analisando a Coleção de Numismática do Museu Histórico Nacional, Paula Moura Aranha e Pedro Colares Heringer abordam as de moedas enquanto fontes históricas – o que possibilita um estreito diálogo com o artigo anterior. Veículos de comunicação da ideologia da Coroa em uma sociedade quase totalmente analfabeta (aquela dos anos anteriores à Independência do Brasil), as moedas, argumentam os autores, nos permitem perceber importantes aspectos sociopolíticos do Reino Unido, tais como “a proximidade entre o Estado e a Igreja, a necessidade de difusão da imagem do regente, a escassez das cunhagens e a afirmação dos domínios territoriais”. Paula Moura Aranha e Pedro Colares Heringer destacam que, uma vez inseridas no contexto museal, as moedas adquirem novos sentidos e que os procedimentos técnicos da musealização (da seleção à exposição, passando pelo tratamento e catalogação) visam tornar tais objetos acessíveis, tornando possíveis novos estudos e percepções.

Os dois últimos artigos abordam questões candentes do âmbito da musealização. A museóloga Alejandra Saladino problematiza a recente complexificação da gestão dos acervos arqueológicos decorrente de fatores como o fortalecimento da chamada Arqueologia de Contrato (aquela resultante da exigência legal de licenciamento ambiental / arqueológico às grandes obras de engenharia) e o consequente crescimento em escala exponencial dos acervos arqueológicos. Saladino afirma que neste novo contexto é necessário que o museu explicite os critérios de seleção do material exposto, tanto científicos quanto políticos, o que significa “abdicar de apresentar ao visitante um discurso pretensamente neutro, objetivo, definitivo e acabado”. Outro desafio apontado pela autora é, no museu, tornar significativos objetos que foram deslocados para longe de seus contextos de origem. Isso implica na disponibilização de quadros de referências que ajudem o visitante a formular um diálogo entre passado e presente, no que tanto a Arqueologia Pública quanto a Sociomuseologia podem ajudar bastante.

Monique Magaldi fecha o dossiê com o texto que lança luzes sobre as novas problemáticas que a presença do virtual – no sentido filosófico do termo, ou seja, enquanto potencialidade ou o tornar-se outro modo de ser – para além do ciberespaço traz aos profissionais dos museus e ao campo da Museologia. A autora aponta que “o patrimônio virtual poderia se manifestar no âmbito da experimentação”. Para dar força a esta afirmação, ela analisa o trabalho desenvolvido em Salt Lake City (EUA), no Temporary Museum of Permanent Change, que promove um “constante processo de transformação, acompanhando e sendo modificado pelas mudanças sofridas em seu espaço”. Analisa também as atividades desenvolvidas na Experimentoteca de Física da Universidade de Brasília, onde o patrimônio virtual musealizado são as experiências realizadas no campo da Física. Os protótipos em exposição aí representam os processos ou experimentos.

Um complexo caleidoscópio de aspectos do patrimônio cultural é o que podemos encontrar por meio da leitura das próximas páginas. Os artigos nos instigam também a realizar novos estudos, pautados em um debate que aqui toca o âmago das práticas de patrimonialização e de musealização. A historicidade e a diversidade dessas práticas são postas em evidência e problematizadas a partir de contextos e objetos distintos. É essa mistura de profundidade no perscrutar e de profusão no inquirir (patrimônios de ontem e de hoje) que constitui a riqueza heurística deste dossiê.

Dois textos fecham este número da revista Tempo Amazônico. O primeiro é o ensaio de pesquisa de Francielly dos Santos Ramos de Sá, Gabriela Prestes Carneiro, Myrtle Pearl Shock e Bruna Cigaran da Rocha, que apresentam informações sobre a relação homem-animal relativas às antigas ocupações da Amazônia, a partir da análise de restos faunísticos da Terra Preta do sítio Mangabal, localizada ao longo do alto rio Tapajós (no município de Itaituba, sudoeste do Pará). O segundo é a resenha escrita por Danilo Mateus da Silva Pacheco e que apresenta e discute o livro Os mineiros da floresta, no qual o historiador Adalberto Paz, a partir de diversificada base documental, analisa as experiências dos trabalhadores do primeiro grande projeto industrial da Amazônia, a exploração do manganês do Amapá pela Indústria e Comércio de Minérios S.A (Icomi).

A todos, uma excelente leitura!

Sidney da Silva Lobato – Professor de História da Amazônia na Universidade Federal do Amapá (Unifap). Doutor em História Social pela Universidade de São Paulo (USP), com estágio de pós-doutorado em História na École des Hautes Études em Sciences Sociales (Ehess-Paris).

Maria De Simone Ferreira – Museóloga do Museu Histórico Nacional (Ibram / MinC) e doutoranda em História Social da Cultura na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio).


LOBATO, Sidney da Silva; Ferreira, Maria De Simone. Apresentação. Tempo Amazônico, Macapá, v.3, n.1, 2015. Acessar publicação original [DR]

Acessar dossiê

 

Deixe um Comentário

Você precisa fazer login para publicar um comentário.