A cultura material tem um recorte temporal e espacial. Por isso, no nosso trabalho, entenderemos cultura material ligada ao que denominamos de tradução do processo civilizador capitalista da segunda europeização no Ceará, entre os anos de 1860 e 1930. Trata-se, portanto, quando falamos de segunda europeização, dos encontros culturais entre os agentes europeus e os agentes locais da tradução daquele processo civilizador capitalista no Ceará. Encontros mediados pelas sociabilidades que as coisas propiciam. Três aspectos nos parecem importantes para apreendermos a tradução do processo civilizador capitalista, do ponto de vista da cultura material: as empresas e as coisas mediadoras dos encontros culturais; e os homens que, com suas relações, tanto materiais como afetivas, vão tecendo a paisagem específica do processo civilizador capitalista no Ceará. O que chamamos de tradução da civilização.

A definição de cultura material aqui é compreendida a partir da relação entre seu papel de consumo, função sígnica e a produção social dos indivíduos. Nessa perspectiva, que é também a de Marcelo Rede, “a cultura material é equacionada a um sistema de comunicação por meio do qual as sociedades criam e expressam conteúdos discursivos de modo semelhante ao que ocorre com os códigos verbais” (REDE: 2012, p. 138). Portanto, a cultura material, é a dimensão física da vida humana constantemente sujeita aos sentidos atribuídos nas interações sociais. Não se trata somente da ação do homem transformando as coisas, mas, sobretudo, das representações e das práticas que constituem a ação social e sua impossibilidade sem a existência das coisas. Trata-se, portanto, da ‘relação entre o homem e os objetos (sendo aliás o próprio homem , em seu corpo físico, um objeto material), pois o homem não pode estar ausente quando se trata de cultura” (PESEZ: 2005, p. 242) A cultura material é também temporalidade porque espelham as contextualizações. As coisas produzidas e consumidas no Ceará, no período do processo civilizador capitalista da primeira europeização, hegemonicamente portuguesa (1603-1860), são diferentes da segunda europeização, hegemonicamente inglesa, francesa e alemã (1860-1930). As coisas da primeira europeização são preponderantemente as da pecuária, cuja matéria-prima era a carne e o couro bovino. As coisas da segunda europeização estão ligadas ao algodão, ao ferro e, em seguida, a uma variedade de matéria prima decorrentes da Revolução Industrial. Ou seja, “longe de formar um cenário estático, também as coisas físicas têm uma trajetória, uma vida social com sucessivas mutações” (REDE: 2012, p. 147).

Depreende-se daí que trataremos de um contexto específico, o da “segunda europeização”, que encontra na produção do algodão sua matéria-prima e, em Fortaleza, sua centralização econômica, social, política e cultural, não deixando de fazer, porém, uma incursão no período anterior. A segunda europeização é a da chegada das primeiras empresas inglesas e francesas e, consequentemente, inauguração de um novo ambiente de produção e consumo no Ceará.

A nossa pesquisa sobre cultura material nos levou para duas categorias estratégicas: “processo civilizador capitalista” e “tradução civilizacional”. No que concerne à categoria “processo civilizador capitalista”, ela é, antes de tudo, um processo civilizador (ELIAS, 1993), uma experiência complexa (MORIN: 2012) dos investimentos do capital material e do capital simbólico (BOURDIEU: 2003), cujo investimento sobre a população (FOUCAULT: 1979) se constitui no modelo contextualmente hegemônico de bem-estar e estar bem no mundo. Este modelo, por sua vez, se alimenta e se retroalimenta dos encontros entre agentes das cultur as contextualmente hegemônicas e agentes das culturas em processo de tradução do processo civilizador capitalista. Por isso, tanto podemos pensar em termos de cultura material ou, como propôs Braudel, em termos de “civilização material”, “vida material”: os homens, os alimentos e as bebidas, as técnicas e as cidades (BRAUDEL: 1996).

A materialidade do processo civilizador capitalista, do ponto de vista de seus investimentos, é a organização do capital material e do capital simbólico na dimensão da economia- mundo (WALLERSTEIN: 2001), orientada pela produção de saberes que racionalizam a produção, o consumo material, as individuações e as interdependências necessárias para a internacionalização de sua mundialização (MICHALET: 2003). Assim, na contradição entre o racional e o irracional, os planos e as contingências definem a estética, elabora os códigos ético-espirituais e os direitos de contenção das exacerbações ego-narcísicas da acumulação de capital causadas pelo valor das coisas. Estes aspectos não trabalharemos aqui.

No que diz respeito a categoria “tradução da civilização”, para defini-la começaremos por afirmar que ela não reconhece explicações sobre o atraso do capitalismo brasileiro em relação ao norte-americano, inglês ou francês e, consequentemente, não incorpora as argumentações do atraso cearense comparado com outros estados do Brasil. Na história dos encontros culturais que aqui analisamos, concluímos que os hibridismos, a exemplo de mestiçagem, imitação, apropriação, acomodação ou aculturação, não são suficientes para dar contar dos trânsitos culturais, devido as “deformações” necessárias que o trânsito provoca tanto na tradução das ideias como na tradução dos usos das mercadorias, das coisas “civilizantes”. Vamos preferir utilizar a categoria tradução concordando com Burke que vê nele um termo neutro, “com associações de relativismo cultural. Esta foi de fato uma das razões de seu apelo original para os antropólogos” (BURKE: 2003, p. 58/9).

Por mais que se imite não conseguimos, e não é uma questão de desejo, sermos ou transpormos os modos de utilização das mercadorias exatamente como os franceses, os ingleses ou os norte-americanos o fizeram ou fazem. O processo civilizador é homogeneidade na diferença.

As historicidades das culturas “locais” deformam os “imperialismos”, as “culturas dominantes”. Se o processo civilizador capitalista é homogeneidade na diferença não é por uma questão de democracia, de alteridade, mas devido aos limites causados pelos trânsitos complexos entre as culturas contextualmente hegemônicas e as não-hegemônicas. A tradução é, nesse caso, uma “zona de intersecção cultural” com influências “para cima” (a mundialização do processo civilizador capitalista) e influências “para baixo” (traduções da civilização). Ou seja, a tradução da civilização é o processo civilizador capitalista agregado de suas “natividades” históricas. É a categoria que “tem a vantagem de enfatizar o trabalho que tem que ser feito por indivíduos ou grupos para domesticar o que é estrangeiro” (BURKER: 2003, p58). A tradução, numa certa medida, não seria a biografia das coisas que, no contexto de encontros culturais, mostra que “o que é significativo sobre adoção de objetos estrangeiros – ideias estrangeiras – não é a sua adoção, mas sim a maneira pela qual eles são aculturadamente redefinido e colocados em uso?” (KOPITTOF: 2008, p. 93).

Um dos aspectos importante da tradução cultural é a cultura material, as coisas, as mercadorias e sua propiciação de momentos e sociabilidades diversas. Da praça de compra e de venda ao consumo público, privado, do acordar ao deitar, do amor ao ódio, do repouso ao suplício as mercadorias estão lá. Elas não só fazem parte do que é mais visível, mas do que define o processo civilizador capitalista. Por isso, talvez, é que Igor Koppitof veja na mercantilização o processo de transformação do sistema em sua “totalidade”, pois uma “biografia econômica culturalmente informada de um objeto o encarará como uma entidade culturalmente construída, dotada de significados culturalmente específicos e classificada e reclassificada em categorias culturalmente constituídas” (KOPITTOF: 2008, p. 94).

O presente trabalho, portanto, trata de compreender o processo civilizador capitalista, da segunda europeização, a partir da tradução da materialidade da vida; do seu deslocamento da capital, Fortaleza, para as outras cidades do Ceará (Aracati, Crato, Sobral, Quixadá) e entender como essa materialidade se modificou enquanto transformou paisagens e relações sociais. Os encontros entre estrangeiros e população nativa foram se impondo sobre a persistente primeira europeização, da pecuária, e “atualizando” suas formas de produzir, consumir e “amar” a partir das influências europeias. Essas transformações causadas pelos agentes do “imperialismo informal” (estrangeiros e nativos) modificaram as práticas comerciais e industriais, o conceito de organização da espacialidade urbana, assim como dos materiais de construção (introdução do ferro, por exemplo), o ambiente do interior das casas (novos design dos móveis e dos objetos de higiene pessoal), das vestimentas, de bebidas (vinhos do porto, chapagnes francesas etc), de comidas (fois gras, manteiga inglesa etc). Esperamos que gostem tanto como nós que estudamos e trabalhos nestes temas.

Boa leitura.

Referências

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ELIAS, Norbert. O processo civilizador. Volume 2: Formação do Estado e civilização. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1993.

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WALLERSTEIN, Immanuel. Capitalismo histórico e civilização capitalista. Rio de Janeiro: Contraponto, 2001.

Antônio de Pádua Santiago de Freitas

Altemar da Costa Muniz

Ana Alice Miranda Menescal

Tito Barros Leal

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