Telecolaboração, ensino de línguas e formação de professores: demandas do século XXI | Fábio M. de Souza, Lelly C. H. P. Carvalho e Rozana A. L. Messias

Teletandem Telecolaboração
Colagem sobre Imagem “Teletandem – aprendizado colaborativo de línguas”.

SOUZA Colaborativo TelecolaboraçãoO que é e o que caracteriza uma prática telecolaborativa de Teletandem? Quais suas contribuições para o ensino/aprendizagem de línguas? E para a formação de professores? O livro “Telecolaboração, ensino de línguas e formação de professores: demandas do século XXI” se debruça nestas questões, a partir de trabalhos de professores com experiência nas áreas de Linguística Aplicada e de Educação. O livro foi organizado por Kelly Cristiane Henschel Pobbe de Carvalho, doutora em Letras pela UNESP (2004), Rozana Aparecida Lopes Messias, doutora em Educação pela UNESP (2009), e Fábio Marques de Souza, doutor em Educação, pela USP (2014).

Todos os autores possuem outros artigos publicados, orientações de pesquisas de mestrado e doutorado sobre Teletandem, que fogem ao escopo desta resenha. Ademais, atuam em suas respectivas instituições de ensino superior (UNESP/Assis e UEPB) como colaboradores/coordenadores de práticas de Teletandem. A obra em questão está dividida em seis capítulos e é indicada principalmente para aqueles interessados em conhecer um pouco mais sobre práticas de telecolaboração, intercâmbio virtual e Teletandem.

O primeiro capítulo, intitulado “Teletandem e internacionalização na universidade regional do Cariri (URCA)”, de autoria de Ludmila Belotti Andreu Funo, Rozana Aparecida Lopes Messias e Guilherme Mariano, aborda a implementação da prática de Teletandem na Universidade Regional do Cariri como estratégia para o favorecimento de programas voltados à internacionalização nessa instituição.

O capítulo subdivide-se em cinco partes: a primeira consiste numa apresentação das especificidades do processo de internacionalização na universidade estudada; na segunda, os autores apresentam que o projeto Teletandem URCA contou com quatro etapas de implementação, sendo elas: (a) formação de graduandos mediadores; (b) estabelecimento de parceria com universidade estrangeira; (c) gerenciamento das parcerias e; (d) início da formação de um banco de dados capaz de fomentar a pesquisa em Teletandem.

Já na terceira parte, discutem-se as diferentes modalidades de Teletandem e o modelo institucional não integrado adotado pela URCA. A quarta parte do capítulo, por sua vez, descreve o início das interações, a diferença entre sessões de orientação e sessões de mediação e a opção feita pelos autores “pela implementação de uma abordagem mista, com encontros virtuais e síncronos, via Zoom, e encontros presenciais no campus de Crato (URCA/ CE)” (FUNO, MESSIAS, MARIANO, 2020, p. 33).

Por fim, a quinta parte apresenta os instrumentos de coleta de dados propostos aos participantes desde o início do projeto, o processo de sistematização e criação de uma “Identidade Teletandem” própria para padronização dos dados. Nas considerações finais, os autores reforçam que o detalhamento do projeto não possui a intenção de ser uma receita, mas sim ilustrar uma prática positiva. Embora essa intenção seja mencionada, percebe-se que o trabalho possui um caráter bastante didático-pedagógico, ou seja, há uma preocupação em sistematizar as etapas de implementação do Teletandem. Percebe-se também que a implementação de práticas telecolaborativas via Teletandem em novos contextos ocorreu com a expansão do projeto para outras universidades em duas etapas: inicialmente de 2009 a 2013 e num segundo momento de 2017 a 2019 (FUNO, 2019).

O segundo capítulo, intitulado “Formação de professores de língua estrangeira (LE) em um contexto telecolaborativo”, escrito por Edson Luis Rezende Junior e Rozana Aparecida Lopes Messias, apresenta algumas reflexões sobre a formação de professores de espanhol como língua estrangeira a partir de interações de Teletandem entre a UNESP de Assis/SP e a UNAM, México.

Na introdução, os autores esclarecem o que entendem por Teletandem e sessão de mediação, sendo o primeiro consiste no encontro de “dois estudantes de nacionalidades diferentes [que] ensinam a sua língua nativa ou de proficiência e aprendem a língua do outro” e o segundo consiste em um auxílio na “reflexão sobre o processo de ensino-aprendizagem deflagrado na interação” (REZENDE JR, MESSIAS, 2020, p. 44).

Na primeira parte do capítulo, apresenta-se a etimologia da palavra tandem, o início do projeto com o E-tandem e, posteriormente, o Teletandem. Os autores também reforçam os dois papéis desempenhados pelos participantes, por um lado, o de aprendiz de uma língua estrangeira e, por outro, o de professor-tutor da língua em que se tem maior proficiência.

A segunda parte descreve a metodologia adotada e o instrumento de coleta de dados, que consiste na gravação das sessões de mediação e transcrição das mesmas. Já a terceira parte apresenta a discussão dos dados e os resultados do trabalho a partir das seguintes categorias de análise: (a) estratégias relacionadas à competência linguística; (b) questões de pronúncia e uso da webcam; (c) linguagem informal – gírias e formas simplificadas; e (d) variações na língua espanhola.

Por fim, percebe-se a necessidade de se aprofundar os eixos analisados, seja por meio de entrevistas, diários reflexivos e/ou participação e coleta de dados em outros grupos de Teletandem. Dessa forma, o artigo deixa brechas e sugestões para novas pesquisas e trabalhos na área de telecolaboração.

No terceiro capítulo, “Novos contextos de colaboração: perspectivas e desafios para a formação de professores”, Ana Cristina Biondo Salamão apresenta o Programa Brazilian Virtual Exchange (BRaVE-Unesp) que trabalha com o inglês como língua franca em atividades de intercâmbio virtual. Na primeira parte do capítulo, a autora apresenta o programa, seu início em 2018 e afirma que o objetivo do BRaVE é “fomentar uma modalidade de aprendizagem colaborativa online que promova o contato intercultural e o trabalho colaborativo entre alunos de graduação ou pós-graduação brasileiros e estudantes de diferentes instituições de ensino superior do mundo” (SALOMÃO, 2020, p.62). Diferentemente do Teletandem, apresentado nos dois primeiros capítulos, este programa não se destina a quem deseja aprender uma língua estrangeira, mas sim a quem já a possui e quer ter experiências de intercâmbio cultural/virtual.

Após a explicação e exemplificação do programa, na segunda parte do texto, passa-se aos questionários enviados aos professores e às transcrições de cinco apresentações dos projetos realizadas pelos participantes. Apresentam-se também os seguintes eixos de discussão: (a) necessidade de se incorporar a língua inglesa como pré-requisito; (b) dificuldade na comunicação oral por alunos brasileiros; (c) heterogeneidade dos grupos e; (d) dúvidas sobre termos específicos.

Na terceira parte, volta-se para a discussão do novo papel do professor de inglês a partir dos eixos discutidos, pois, segundo a autora, alguns dos problemas relatados resolveriam-se com estudos da área de Linguística Aplicada, tais como estratégias de comunicação, criação de glossários para fins específicos, atividades para facilitar, reter e aprofundar o conhecimento adquirido, entre outros. Desse modo, amplia-se a atuação do professor de inglês como orientador e mediador da aprendizagem em contextos telecolaborativos.

No capítulo seguinte, “Teletadem Integrado ao Curso de Letras – Espanhol: Desafios e Possibilidades”, os pesquisadores Rickison Cristiano de Araújo Silva e Fábio Marques de Souza pontuam que o Teletandem é uma ferramenta de muita relevância para a formação, ensino e aprendizagem de línguas estrangeiras.

Os autores objetivam com o artigo apresentar e refletir sobre a presença das práticas de Teletandem na Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) nos contextos de: pesquisa, extensão e ensino. As discussões têm início com as apresentações dos fundamentos teóricos da modalidade Tandem, Teletandem e seus princípios norteadores, tal como aparece no segundo capítulo do livro. O texto segue dividido em seis partes, sendo que, a primeira trata sobre o termo Tandem, como ele está inserido no ensino e aprendizagem de línguas, sua origem, difusão e prática no Brasil. Já a segunda, trata do surgimento do Teletandem, seu contexto de aprendizagem digital, como as interações acontecem, seus princípios e as fases (conversação sobre um ou mais temas, feedback sobre a língua e reflexão).

Na terceira parte é apresentada a trajetória do projeto Teletandem na UEPB, nos âmbitos da extensão, pesquisa e ensino. No que cabe à pesquisa e extensão, descrevem os projetos “INTERCULT: Aprendizagem colaborativa e intercultural de línguas via Teletandem” e o projeto “TELETANDEM UEPB”. No tópico seguinte, discutem a presença das tecnologias digitais no cotidiano, como elas afetam o contexto educacional e como podem ser aproveitadas de forma a contribuir para a formação docente, principalmente, pela prática do Teletandem.

A penúltima e última parte do texto discorrem sobre o Projeto Pedagógico do Curso de Letras da UEPB, reformulado em 2016, que inseriu o componente “Práticas de Intercâmbio Linguístico-Cultural via Teletandem”. Os autores descrevem como foi o processo de inserção, carga horária, objetivos, seu oferecimento pela primeira vez, problemas enfrentados, entre outras informações referentes ao novo componente curricular.

Por fim, as informações e experiências relatadas no artigo corroboram com as práticas de Teletandem e, principalmente, para as Universidades que pretendem incluir tais práticas em seus currículos. Uma vez que, os alunos passam a ver o Teletandem como uma atividade possível de ser realizada devido à carga horária flexível de interação/ participação. Outra experiência de implementação pode ser vista em Souza (2020).

O quinto capítulo, intitulado “As ações de Teletandem no processo de Ensino/Aprendizagem de línguas estrangeiras e na formação de professores”, escrito por Daniela Nogueira de Moraes Garcia, Nanda Eduarda Alfena Fioruci e Paola de Carvalho Buvolini Freitas, expõe a prática de mediação em telecolaboração realizada por uma aluna do curso de Letras da Unesp de Assis através do Teletandem.

A primeira parte, intitulada “Tandem e Teletandem”, apresenta a origem do termo Tandem, seus princípios e o que o torna mais atrativo ao estudante de línguas estrangeiras. Posteriormente, descreve o início do Teletandem pelo professor doutor João Antonio Telles (2009). Percebe-se aqui uma repetição no que corresponde à historicidade do projeto Teletandem, pois, a mesma foi retomada no segundo e no quarto capítulo. Por um lado, é interessante ao leitor para que se tenha uma visão holística do projeto, por outro lado, tal repetição torna a leitura do livro um pouco cansativa / enfadonha.

Além disso, é ilustrada uma das sessões de Teletandem e como elas têm sido conduzidas no Brasil (Unesp/ Assis) e em outros países parceiros. Após a ilustração, discorrem sobre a proposta de mediação, na qual os alunos expõem suas impressões sobre as interações e o mediador os orienta diante das dificuldades, aportando ideias e gerando reflexões com sugestões de assuntos para serem discutidos durante a interação.

Na “Metodologia” é apresentada a forma de pesquisa, coleta e análise de dados. São ilustradas as composições das parcerias: composição dos pares, número de participantes inscritos, nacionalidade dos mesmos, universidades, idade, línguas nativas dos pares, meios de comunicação, número de sessões, duração/formato da sessão e datas das sessões.

Ademais, as autoras relatam suas observações acerca de quatro interações e em como a proximidade entre os pares melhora a comunicação e as impressões acerca da experiência com o ensino e aprendizagem por intermédio das novas tecnologias.

Por fim, neste capítulo, pode-se perceber o quanto a falta do componente curricular que insere as práticas de Teletandem afeta o comprometimento dos alunos na participação durante as interações; fator também exposto no capítulo anterior, no qual os alunos estrangeiros (falantes nativos de língua espanhola) também faltavam com comprometimento nas interações.

O último capítulo, intitulado “Literatura em contextos de telecolaboração: uma experiência inicial”, escrito por Karin Adriane Henschel Pobbe Ramos e Kelly Cristiane Henschel Pobbe de Carvalho, relata uma experiência inicial de circulação de textos literários no âmbito do Teletadem, a fim de observar de que forma esse compartilhamento potencializa as interações. Assim, as autoras destacam a inserção da literatura num contexto de intercâmbio virtual/cultural como um meio potencializador da aprendizagem de línguas.

A primeira parte do trabalho, intitulada “Contextos de interação virtual”, aborda o Intercâmbio virtual e os estudos acerca desta área desde o principio até a atualidade. O tópico seguinte, “Metodologia: contexto e coleta de dados”, trata dos dados recolhidos por meio de interações de Teletandem Português – Espanhol que foram utilizados para desenvolver a discussão proposta pelas autoras. Já em “Discussão: um estudo de caso”, as autoras realizam uma análise a partir da interação de um aluno do 4ºano do curso de Letras – Espanhol. O aluno em questão levou o texto “Carioca”, do escritor contemporâneo João Doederlein. A partir disso, as professoras tecem observações e análises acerca da escolha e condução do aluno para com a interação.

Por fim, percebe-se que a inovação realizada nas práticas de Teletandem consiste em discutir as contribuições para a formação inicial docente de língua e literatura estrangeiras também por meio da telecolaboração. Assim, as pesquisadoras assumem uma perspectiva transcultural, ressaltam a função humanizadora da literatura ao apresentar as primeiras observações decorrentes do desenvolvimento do projeto.

Ao concluir o livro, nota-se que os capítulos poderiam estar agrupados segundo a temática dos capítulos, como, por exemplo, propostas de implementação (capítulos 1 e 4), reflexões sobre práticas de Teletandem (capítulos 2 e 5) e novas experiências telecolaborativas (capítulos 3 e 6). Acredita-se que tal divisão contribuiria com a leitura, uma vez que não há separação em partes. No entanto, ressalta-se a importância do livro tanto pela diversidade dos capítulos quanto por unir pesquisadores de diferentes partes do Brasil.

Referências

FUNO, L. B. A. Expansão do programa TTB: Parcerias em 2019. In: III Encontro de Pesquisas sobre Teletandem/ UNESP e I Seminário Internacional sobre Telecolaboração e Formação de Professores de Línguas, apresentação oral. Assis, São Paulo: UNESP, 2019.

SOUZA, Micheli G. de. Teletandem na UENP: primeiras experiências de implementação. Revista Aproximação, vol. 02, nº 03, p. 37 – 47, 2020.

TELLES, João A. [email protected]: um contexto virtual, autônomo e colaborativo para aprendizagem de línguas estrangeiras no século XXI. Campinas – São Paulo, Pontes Editores, 2009.


Resenhistas

Edson Luis Rezende Junior – Aluno do curso de Doutorado em Educação pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP) de Presidente Prudente (SP). Membro do grupo de pesquisa “Formação de Professores e Práticas de Ensino na Educação Básica e Superior”. E-mail: [email protected]

Ariadne Beatriz Ávila – Aluna do curso de Mestrado em Educação pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP) de Presidente Prudente (SP) e licenciada em Letras pela (UNESP) de Assis (SP)”. E-mail: [email protected]


Referências desta Resenha

SOUZA, Fábio M. de; CARVALHO, Kelly C. H. P; MESSIAS, Rozana Aparecida L. (Orgs.). Telecolaboração, ensino de línguas e formação de professores: demandas do século XXI. São Paulo: Editora Mentes Abertas; Campina Grande: EdUEPB, 2020. Resenha de: REZENDE JUNIOR, Edson Luis; ÁVILA, Ariadne Beatriz. Resenhando. Alfenas, v.3, n.3, 2021. Acessar publicação original [DR]

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