The Visible Hand of China in Latin America | Javier Santiso

Quando der errado, culpe a China! É uma fórmula de sucesso infalível. Aquecimento global? Culpa da China. Desemprego nos Estados Unidos e na Europa? Culpa da China. Inflação mundial? Culpa da China. Aumento nos preços do petróleo? Culpa da China. Aumento no preço dos alimentos? Culpa da China. Fracasso da Rodada de Doha? Culpa da China. Ditaduras na África? Culpa da China. Desindustrialização no Brasil? Culpa da China. Não há, enfim, problema no mundo para o qual não surja algum “especialista” com a resposta na ponta da língua: é culpa da China!

Até o que não é problema, se ocorre na China, é. Os chineses inventaram muitas coisas, da pólvora ao macarrão, mas não consta que tenham inventado a dublagem. Mas se utilizam esse recurso – que se usa no mundo desde a primeira película do cinema falado – para realizar a mais bela abertura dos Jogos Olímpicos de que se tem notícia nos tempos modernos, é um problema. E se a empresa de material esportivo do ex-atleta chinês que acendeu a tocha olímpica correndo na perpendicular pela borda do estádio aumenta seu valor na Bolsa de Xangai em US$ 30 milhões, é um problema. Se fosse a Nike ou a Adidas, aí tudo bem.

No verdadeiro “Fla-Flu” em que se tornou o debate a respeito do papel da China atual no mundo, onde uns só vêem vícios no que outros só vêem virtudes, é oportuna a contribuição de Javier Santiso, diretor e economista-chefe do Centro de Desenvolvimento da OCDE ao organizar esse livro. Escrito basicamente por especialistas europeus, têm o mérito de abordar a questão das relações comerciais com a China tendo como referência a América Latina, o que não é pouco, se levarmos em conta que a maioria das análises, mesmo dos especialistas latino-americanos, parte frequentemente da visão colonizada de que o que é bom (ou ruim) para os Estados Unidos é bom (ou ruim) para a América Latina.

São cinco ensaios em que se analisam os impactos do comércio e do investimento direto estrangeiro da China nos países da região. A conclusão geral do trabalho é que, no que diz respeito à América Latina, a China tem agido mais como um “anjo comercial” que oferece um amplo mercado para as commodities da região do que como “la bête noir” que rouba empregos e rebaixa a lucratividade dos concorrentes ocidentais.

Evidencia, ainda, uma questão relevante: pela primeira vez na história, o crescimento econômico da região deixa de estar acoplado apenas à dinâmica econômica dos Estados Unidos e da Europa, como ocorreu até o final do século XX e passa a contar com uma terceira turbina propulsora, o mercado asiático, e particularmente o mercado chinês.

Os autores, naturalmente, não desconhecem os riscos e já no prefácio do livro, Louka T. Katseli, diretor do Centro de Desenvolvimento da OCDE, alerta: “a grande questão política será como continuar a tirar vantagem dessa loteria chinesa e ao mesmo tempo evitar o risco de ser empurrado para o córner das matérias-primas, ao invés de aprofundar a integração na cadeia global de valor”.

Tal questão, contudo, é menos um problema da demanda chinesa por commodities da região e mais um problema de política local. Há, por exemplo, países exportadores de petróleo que são miseráveis, como a Guiné Equatorial, que ocupa a 127ª posição no ranking do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) da ONU e sequer tem água potável nas torneiras e outros, como a Noruega, que ocupa o segundo lugar no ranking global de desenvolvimento humano. O fato de ser rico em recursos naturais não é uma maldição em si mesma. Maldição é ter a riqueza concentrada nas mãos de poucos, não ter política industrial e de desenvolvimento, não ter um intelectualidade nacionalista e um projeto de nação, coisas que a China tem de sobra.

No que diz respeito especificamente às relações comerciais entre os países latino-americanos e a China, os estudos evidenciam que na grande maioria dos países da América Latina, as estruturas produtivas são bastante diferentes, de forma que as pautas de exportação entre os países da região são mais complementares do que concorrentes.

No primeiro capítulo, Eduardo Lora, mostra que o impacto comercial da China sobre a América Latina é fundamentalmente positivo, tanto diretamente, pelo aumento do volume de exportações, como indiretamente, pela melhoria dos termos de troca. Ao comentar tal fato Javier Santiso afirma: “A China parece mais como um “anjo comercial” e “uma mão amiga” ao se apresentar como um escoadouro para as commodities da região…O apetite chinês para os recursos naturais e produtos agrícolas parece uma boa notícia para a América Latina. Com US$ 50 bilhões de comércio e investimentos na América Latina em 2005, a China já é o seu maior parceiro”.

No capítulo 2, Jorge Blázquez-Lidoy, Javier Rodrígues e Javier Santiso analisam o impacto do comércio da China no mercados emergentes latino-americanos. Eles compararam a estrutura de exportação e importação da China com os países da região, por meio de uma base de dados de 620 produtos. Eles mostram que a Venezuela, Bolívia e Chile têm as estruturas mais complementares e, portanto, sofrem menos com a competição comercial chinesa; o Brasil, a Colômbia e o Peru encontram-se em uma situação intermediária e o países mais expostos à competição chinesa no mercado dos Estados Unidos são o México e os países da América Central.

No capítulo 3, Sanjaya Lall e John Weis chegam a conclusões similares. Para eles a estrutura de comércio da maioria dos países latino-americanos é mais complementar do que competitiva com a China e concluem que a China representa uma oportunidade única de comércio para a América Latina, mas que ela pode, contudo, colocar um sério risco ao seu desenvolvimento de longo prazo, pois uma elevada dependência em produtos intensivos em recursos naturais dificulta a elevação do nível tecnológico e a diversificação da estrutura produtiva.

No capítulo 4, Erneste López-Córdova, Alejandro Micco e Danielken Molina calculam a elasticidade da substituição de importações dos Estados Unidos, ou seja, a variação das importações norte-americanas dos países da América Latina frente a uma variação de preço das exportações chinesas. Concluem que uma valorização da moeda chinesa contribuiria substancialmente para aumentar a competitividade dos produtos latino-americanos no mercado dos Estados Unidos. No caso do Brasil, com o real supervalorizado frente ao dólar, tal conclusão chega a ser acaciana.

No capítulo 5, ao analisar o impacto da China sobre o investimento direto estrangeiro na América Latina, Alicia Garcia-Herrero e Daniel Snatabárbera concluem que a China não parece competir com os países latino-americanos por influxos externos de capitais e que é até mesmo possível que na próxima década a China contribua, ela própria, com influxos de investimento direto nos países da região. Ao analisar, entretanto, os impactos país por país em um período mais recente (1995-2001), concluem que o quadro muda um pouco na medida em que o investimento direto externo destinado à China parece ter obstruído o investimento direto em alguns países, nomeadamente o México e a Colômbia.

A emergência da China é uma espécie de grito de alerta para os países latino-americanos, os quais para fazer frente ao desafio chinês, principalmente no mercado dos Estados Unidos, precisavam investir principalmente em infra-estrutura de transportes para tirar vantagens da maior proximidade geográfica com o mercado norte-americano.

Os autores concluem, contudo, que para a maioria dos países da América Latina a China continuará a ser um “anjo comercial”, na medida em que ao exportarem matérias-primas, não só não sofrem concorrência da China como se beneficiam da elevada demanda chinesa por esses produtos.

No caso do Brasil, por exemplo, a China tornou-se o segundo maior mercado para as exportações brasileiras e o que cresce mais rapidamente. Observam, contudo, que apenas cinco commodities respondem por 75% das exportações brasileiras para a China. Não de se estranhar, portanto, que diante de uma ligeira redução do crescimento da economia chinesa em 2007/2008 e da despropositada valorização do real frente ao dólar, a balança comercial do Brasil com a China tenha se tornado negativa.


Resenhista

Luís Antonio Paulino – Professor do Departamento de Ciências Políticas e Econômicas. Faculdade de Filosofia e Ciências da Unesp de Marília.


Referências desta Resenha

SANTISO, Javier (Org.). The Visible Hand of China in Latin America. Paris: Development Centre Studies; OECD, 2007. Resenha de: PAULINO, Luís Antonio. Revista de Economia política e História Econômica. São Paulo, ano 05, n. 14, p. 167-171, agosto, 2008. Acessar publicação original [DR]

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