EVARISTO, Conceição. Poemas da recordação e outros movimentos. Belo Horizonte: Nandyala, 2008. 72 p. (Coleção Vozes da Diáspora Negra, v. I). Resenha de: ALÓS, Anselmo Peres. O lirismo dissonante de uma afro-brasileira. Revista Estudos Feministas v.19 n.1 Florianópolis Jan./Apr. 2011.

A estreia de Conceição Evaristo nas letras brasileiras foi relativamente tardia, remontando aos inícios dos anos 1990, quando começa a colaborar em periódicos literários. Um dos principais meios nos quais Evaristo publica é a série Cadernos Negros, fundada pelo grupo Quilombhoje Literatura, coletivo de escritores fundado em 1980 com o objetivo de discutir e aprofundar a experiência afro-brasileira na literatura, incentivar o hábito da leitura e promover estudos, pesquisas e diagnósticos sobre literatura e cultura negra. Em 2003, a escritora publica o seu primeiro livro individual, Ponciá Vicêncio, romance que logo chamou a atenção da crítica, particularmente pela maneira com que a autora articula a reflexão sobre questões de gênero, raça e classe social. Três anos depois, Evaristo publica Becos da memória. Ainda que, em termos de publicação, este seja o segundo romance de Evaristo, a escrita dessa narrativa remonta à década de 1980. Tal como a própria escritora assinala, o livro se encontrava pronto desde 1988, mas acabou ficando no fundo da gaveta, adormecido. Chegou-se a cogitar uma publicação através da Fundação Cultural Palmares, ainda em 1988, mas “o livro já havia se acostumado ao abandono. E só agora, quase 20 anos depois de escrito, acontece sua publicação”.1

Em seu mais recente livro, Poemas da recordação e outros movimentos (2008), aparecem os motivos da diáspora negra, da autoria feminina e da construção da identidade negra como temas recorrentes. Em seu exercício de expressão, o lirismo dos poemas de Evaristo trabalha explicitamente no sentido de instaurar uma retórica da resistência, dando especial atenção ao desmantelamento dos estereótipos em torno do negro e da mulher (e mais especificamente, da mulher negra) no imaginário brasileiro. Tal como já afirmou Eduardo de Assis Duarte, as constantes temáticas da obra de Conceição Evaristo a inserem em um continuum de autores afrodescendentes, para os quais as questões étnico-raciais não são apenas um aspecto da realidade brasileira a ser incorporado em sua escrita, mas uma experiência constitutiva de suas subjetividades, signo indelével da diferença corporificado por tais autores:

A vertente inaugurada por Maria Firmina dos Reis, contemplando o resgate de uma memória coletiva apagada pelo discurso colonial, terá seqüência, em seus diversos matizes, na prosa afro-brasileira: passa por Cruz e Souza e por Lima Barreto; por Ruth Guimarães e por Carolina Maria de Jesus; e deságua em autores contemporâneos, tais como Oswaldo de Camargo, Geni Guimarães, Conceição Evaristo e tantos outros.2

Há uma tensão dialética entre a busca pela própria voz e a resistência ao silêncio histórico imposto aos afrodescendentes no Brasil. Como alternativa para enfrentar esse silêncio secular, Evaristo realiza uma arqueologia afetiva, escavando nas memórias familiares elementos que permitam ao sujeito poético afirmar-se no mundo, ao mesmo tempo que reconstitui as suas origens e concretiza sua identidade. Na temática abordada em seus poemas, Evaristo retoma o princípio matrilinear da organização social, presente em muitos grupos étnicos bantos, como possibilidade de estruturar a genealogia de sua própria voz, tal como se pode vislumbrar nesses versos do poema “Da mãe”: “A brandura de minha fala / na violência de meus ditos ganhei de mãe, / mulher prenhe de dizeres, / fecundados na boca do mundo. / […] / insisto, foi ela / a fazer da palavra / artifício / arte e ofício / do meu canto / da minha fala” (p. 32-33). A oralidade encontra-se com a busca pelas origens, e o papel dinâmico da mulher negra emerge nesse contexto através da metáfora da mulher “prenhe de dizeres”, detentora das memórias coletivas de seu povo, como escreve a autora em “Vozes-mulheres”: “[a] voz de minha mãe / ecoou baixinho revolta / no fundo das cozinhas alheias / debaixo das trouxas / roupagens sujas dos brancos / pelo caminho empoeirado / rumo à favela” (p. 10).

Na continuidade desse percurso pelos meandros de um passado silenciado, surge a voz do eu lírico, a qual ecoa “versos perplexos / com rimas de sangue / e fome” (p. 10). A voz da filha do eu lírico agrega “as vozes mudas caladas / engasgadas nas gargantas” que a antecederam. Todavia, “[n]a voz de minha filha / se fará ouvir a ressonância / o eco da vidaliberdade” (p. 10). Mais do que restaurar as heranças africanas através da construção de uma genealogia matrilinear, essa genealogia subverte o histórico de silêncio racista e patriarcal, ao mesmo tempo que assegura, no eco da vida-liberdade da última mulher negra mencionada no poema, uma afirmação de resistência e de espaço conquistado.

No projeto poético de Conceição Evaristo, ganha destaque a preocupação de construir uma identidade afirmativa para a mulher negra, cujo papel nas cadeias produtivas do imaginário nacional foi apagado em função dos resquícios da herança escravocrata do Brasil. É o que se pode vislumbrar neste fragmento do poema “Eumulher”: “Antes – agora – o que há de vir. / Eu fêmea-matriz. / Eu força-motriz. / Eu-mulher / abrigo da semente / moto-contínuo / do mundo” (p. 18). Nesses versos, o eu lírico projetado pela autora reconhece a mulher como sujeito ativo na construção de sua história, tanto a individual quanto a coletiva. Para tanto, a autora coloca em paralelo a participação das mulheres no mundo social ao referenciar funções como a manutenção da vida (através das imagens da fêmea-matriz e do abrigo da semente) e as forças de produção material e simbólica (em função das metáforas cristalizadas nas imagens da força-motriz e do moto-contínuo do mundo).

A maternidade, uma das constantes temáticas nos poemas de Evaristo, poderia ser lida como um deslize rumo a uma concepção essencialista do papel da mulher na sociedade contemporânea. Contudo, vale lembrar que, historicamente, o direito das mulheres negras ao exercício da maternidade foi historicamente apagado em função da objetificação das mulheres pelo patriarcado escravocrata brasileiro. Insistir nessas imagens configura um deliberado exercício de recuperar, através das memórias e da enunciação poética, a performance de uma função social que durante um longo período da história foi interditada às mulheres afro-brasileiras, como afirma Sonia Maria Giacomini:

Para que a escrava se transformasse em mãe-preta da criança branca, foi-lhe bloqueada a possibilidade de ser mãe de seu filho preto. […] a escrava transformada em ama-de-leite conhece, na negação de sua maternidade, a negação de sua condição de mulher. Por paradoxal que pareça, é sua fisiologia feminina – capacidade de lactação – que a contrapõe à realização de sua potencialidade materna.3

A trajetória da escrita poética de Conceição Evaristo faz ainda com que o/a leitor/ a aventure-se em um universo lírico marcado pela resistência feminina em relação à submissão, seja ela com relação às dinâmicas do poder na seara do gênero, seja com relação ao pertencimento étnico-racial. “Fêmea-fênix” textualiza essa postura disruptiva de resistência das mulheres afro-brasileiras: “Deserto-me eu mulher e não temo / sei do cativante vazio da miragem, / e quando o pavor / em mim aloja, não temo o medo, / sei que posso me fundir ao só, / e em solo ressurgir inteira / com o corpo banhado pelo suor / da faina” (p. 30). O eu lírico, declinado no feminino, não sucumbe diante das situações adversas que geram pavor e medo, ou mesmo perante o cansaço da faina. Ao contrário disso, toma consciência da sua capacidade de ressurgir inteira tal qual a fênix, “que tem o poder, depois de se consumir em uma fogueira, de renascer de suas cinzas”.4 Tal qual a fênix que renasce das próprias cinzas, o eu lírico afirma: “posso me lançar ao fogo / e da fogueira me sair inunda, / com o corpo amigado pelo odor / da chama” (p. 30).

Prosseguindo na tentativa de autodefinição, o eu lírico aventura-se em um processo de escrever-se e de escrever o outro, como no poema “Menina”: “Menina, eu queria te compor em versos, / cantar os desconcertantes mistérios / que brincam em ti, mas teus contornos me escapolem. / Menina, meu poema primeiro, / cuida de mim” (p. 22). Dedicado à sua filha Ainá, esse poema estabelece um diálogo no qual o eu lírico confessa, simultaneamente, o desejo de (d)escrever a filha em seus “desconcertantes mistérios”. Tal projeto, no entanto, não é levado a cabo, uma vez que o sujeito instituído pela escrita poética necessita, antes disso, cumprir a escrita de si mesmo. Em um gesto retórico que ecoa postulados foucaultianos da escrita e do cuidado de si, Evaristo aponta que o devir do sujeito só é possível nesse gesto dialógico de contato intersubjetivo.

Em vez de subsumir a memória coletiva das mulheres afro-brasileiras em uma narrativa fundacional de veio nacionalista, tal qual o projeto do romantismo oitocentista brasileiro, Evaristo insiste na demarcação das especificidades. Em vez de dar vazão ao primado do pluribus unum, que vê no nacionalismo uma metanarrativa capaz de abrigar pacificamente as diferenças e de apagar o legado histórico de expropriações vivenciadas pelas mulheres afro-brasileiras, a poesia de Conceição Evaristo textualiza as dores do passado, em um projeto poético que busca a identidade sem abrir mão das suas especificidades de mulher afro-brasileira.

Notas

1 Conceição EVARISTO, 2006b, p. 10.
2 Eduardo de Assis DUARTE, 2006, p. 308.
3 Sonia Maria GIACOMINI, 1988, p. 57-58.
4 Jean CHEVALIER e Alain GHEERBRANT, 1996, p. 422. CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos. Rio de Janeiro: José Olympio, 1996.

Referências

DUARTE, Eduardo de Assis. “O bildungsroman afro-brasileiro de Conceição Evaristo”. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 14, n. 1, p. 305-308, jan./abr. 2006.         [ Links ]

EVARISTO, Conceição. Ponciá Vicêncio. Belo Horizonte: Mazza, 2003.         [ Links ]

______. Becos da memória. Belo Horizonte: Mazza, 2006a.         [ Links ]

______. “Conversa com o leitor: da construção de becos“. In: ______. Becos da memória. Belo Horizonte: Mazza, 2006b. p. 10.         [ Links ]

GIACOMINI, Sonia Maria. Mulher e escrava: uma introdução histórica ao estudo da mulher negra no Brasil. Rio de Janeiro: Vozes, 1988.         [ Links ]

Anselmo Peres Alós – Instituto Superior de Ciência e Tecnologia de Moçambique.

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