Aquela água toda | João Anzanello Carrascoza

Durante os processos de leitura e estudo do doutorado1, encantei-me com a literatura do escritor João Anzanello Carrascoza. E em consonância com o encantamento, o desejo de compartilhar com outras pessoas as delicadezas de suas narrativas aconteceu quase naturalmente. Como um rio querendo desaguar, como o autor mesmo conta em suas prosas sobre a vida.

Inicialmente escrevi sobre Aos 7 e aos 40, um belíssimo livro relançado em 2018 e que foi muito importante na definição de caminhos de minha pesquisa, que buscou, entre outras reflexões, afirmar a importância da vida na escola e como a vida reluz nos encontros escolares em muitas linguagens diversas, especialmente nos textos escritos dos estudantes. No livro, percebi o belo encontro de tempos que dançam em nossas subjetividades, nos compondo e recompondo nas estações da vida. É um brilho que reluz nas menores coisas. Leia Mais

Escritos de Liberdade: literatos negros, racismo e cidadania no Brasil oitocentista | Ana Flávia Magalhães Pinto

A narrativa sobre a circulação e experiências de homens negros livres, letrados, pensadores ativos na vida social no Rio de Janeiro e em São Paulo nas últimas décadas de vigência da escravidão é o tema predominante nessa obra, que teve sua origem no trabalho de pesquisa para o doutorado da autora, defendido na Universidade de Campinas em 2014. Agora vertida em livro e compondo o 46º volume da coleção Várias Histórias.

Marcada por um trabalho procedimental baseado na micro-história, a pesquisa é fartamente ancorada em um trabalho diligente e preciso sobre a documentação escolhida, explorada sob a autoridade de quem oportuniza ao leitor superar a visão, dominante em certa historiografia, de que se tratava de homens únicos e/ou isolados em sua geração e sociedade. Oferece-nos a autora desse livro a oportunidade de acessar, em sua proposta narrativa, uma prosopografia de negros brasileiros em atividade política e conexões urbanas, nas últimas décadas do século XIX, marcada pela “politização da raça a partir de escritos de liberdade (p.24). Leia Mais

História & Outras Eróticas | Martha S. SAntos e Marcos Antonio Menezes

O que pode um corpo sem juízo? Quando saber que um corpo abjeto se torna um corpo objeto e vice-versa? Não somos definidos pela natureza assim que nascemos Mas pela cultura que criamos e somos criados

Sexualidade e gênero são campos abertos

De nossas personalidades e preenchemos

Conforme absorvemos elementos do mundo ao redor

Nos tornamos mulheres – ou homens,

Não nascemos nada

Talvez nem humanos nascemos

Sob a cultura, a ação do tempo, do espaço, história

Geografia, psicologia, antropologia, nos tornamos algo

Homens, mulheres, transgêneros, cisgêneros, heterossexuais

Homossexuais, bissexuais, e o que mais quisermos

Pudermos ou nos dispusermos a ser

O que pode o seu corpo?

Jup do Bairro.

História & Outras Eróticas, organizado por Martha S. Santos, Marcos Antonio Menezes e Robson Pereira da Silva, é fruto de um esforço científico coletivo que extrapola a materialidade dos textos que compõe a obra. O troca-troca cultural entre arte e agenda política (MEIHY, 2020, p. 13) que nos chega, tem origem na realização do VI Congresso Internacional de História da Universidade Federal de Goiás, Regional Jataí. Desta feita, os louros pela excelência são creditados aos/às autores/as e estendem-se aos discentes e docentes do Curso de Licenciatura em História da referida universidade, bem como, à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) pelo investimento na produção científica brasileira. Leia Mais

Senhores do orvalho | Jacques Roumain

A obra “Senhores do Orvalho” foi publicada pela primeira vez em 1944, com o título original de “Gouverneurs de la Rosée”. Esse romance é considerado a obra de maior importância do escritor haitiano Jacques Roumain e um símbolo do movimento literário indigenista haitiano. Roumain nasceu em Porto Príncipe, capital haitiana, no ano de 1907 e é descendente da elite mulata do Haiti que concentrou poderes políticos e econômicos após a guerra que derrubou o rei Chistophe em 1820, substituindo os espaços ocupados pelos negros após a Revolução de 1804. Em consequência disso, o autor usufruiu de boas condições de estudos, que realizou quase que exclusivamente em países da Europa.

Roumain foi um importante personagem na militância política e na intelectualidade haitiana. Foi um grande personagem da resistência contra a ocupação e o controle estadunidense no país, entre 1915 e 1934. No mesmo ano do fim da ocupação, ele fundou o partido comunista haitiano, uma das primeiras organizações políticas deste viés no país. No âmbito intelectual, Roumain é reconhecido por participar de grupos literários como o indigenismo, que objetivava, através de sua literatura, libertar o país das estruturas que o tornavam politicamente frágil e criar uma visão favorável sobre o Haiti, rompendo com as escritas literárias realizadas pelos colonizadores ou controladas por seus paradigmas culturais e de visão de mundo. Por fim, o escritor também atuou em estudos na área da Etnologia, com objetivos de compreender melhor a situação da população negra e de seu país. Leia Mais

Literatura e Historia: testimonios y negaciones. Modos de significar el desborde y operaciones de exclusión / Diálogos / 2021

Filosofia e Historia da Biologia 27 Literatura e Historia
Moby Dick | Imagem: Letras In.Verso Re.Verso |

Los trabajos que se presentan en esta mesa redonda cuestionan, desde el análisis de producciones literarias específicas, los modos de representación de la realidad nacional con que los discursos oficiales escribieron su historia. Las nociones de desborde (Matos Mar, 2004) y negación (Kusch, 1975) en su relación dialéctica de oposición, contraste y tensión, estructuran las hipótesis de sentido que progresan, de manera fundamentada y certera, a lo largo de las investigaciones. De este modo, se hace evidente la manera en que el discurso historiográfico se asienta sobre parcialidades ideológicas que generan subalternidades. Sin embargo, por medio de una revisión atenta, concretamente desde la literatura y su específica habilidad de recrear imaginarios sociales, podríamos apropiarnos de los sentidos subliminales, de las voces silenciadas y de las identidades marginales que en ese espacio circulan.

La injerencia de la historia en la literatura, en consecuencia, hace visible la manera en que determinados sectores sociales hegemonizaban el poder de representación simbólica y excluían otras prácticas identitarias geoculturales. Nos referimos, concretamente, a esos colectivos que van a contramano del interés homogeneizador del Estado y generan, por esa cualidad intrínseca, malestar, incomodidad y rechazo. En este contexto, Domingo Ighina y Sabrina Rezzónico se encargan de mostrar cómo fueron operando los mecanismos discursivos e ideológicos de exclusión de esos sectores disidentes en la literatura argentina en el nacionalismo de la primera mitad del siglo veinte y en las nuevas configuraciones sociales motivadas por las transformaciones urbanas a finales del siglo XX y principios del XXI. No es casual que la novela de anticipación sea materia de análisis de sendas investigaciones ya que aquél género es ideal para describir imaginarios sociales y proyectar la crítica del presente hacia un futuro distópico. Leia Mais

O sertão de Oswaldo Lamartine de Faria: a biografia de uma obra / Gustavo Sobral

SOBRAL Gustavo e BULHOES Juliana Oswaldo Lamartine de Faria
Gustavo Sobral e Juliana Bulhões / Foto: Apartamento 708 /

SOBRAL G O Sertao de Oswaldo Lamartine de FAria Oswaldo Lamartine de FariaO sertão de Oswaldo Lamartine de Faria: a biografia de uma obra [2], escrito pelo jornalista Gustavo Sobral, é fruto do projeto Natal 420 anos, “enquadrado no Programa Municipal de Incentivos Fiscais a Projetos Culturais e patrocinado pelo Colégio CEI (Centro de Educação Integrada)”, comemorativo ao aniversário de fundação da cidade do Natal, capital do estado do Rio Grande do Norte (RN), na intenção de “registrar a história da cidade e o trabalho de grandes e significativos pesquisadores, deixando para as gerações futuras o registro de sua memória” [3]. Portanto, a obra se propõe – o subtítulo sugere – a uma história intelectual, motivada por uma oportunidade comemorativa.

Além do ensaio de Gustavo Sobral acerca do “desenvolvimento intelectual” do sertanista, principal conteúdo da publicação, o livro é composto também por um exaustivo levantamento bibliográfico, realizado pelas bibliotecárias da Biblioteca Central Zila Mamede da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (BCZM/UFRN), Tércia Marques e Margareth Menezes, das produções de e sobre Oswaldo Lamartine de Faria e sua obra; sendo encerrado com a justificativa e agradecimentos, onde o jornalista indica as fontes bibliográficas (livros, periódicos e correspondências dispersos em acervos públicos e privados diversos) e orais (parentes e amigos do círculo de sociabilidades do sertanista) a que teve acesso[4].

Gustavo Sobral introduz o ensaio com uma apresentação do autor/objeto. Em suma, um etnógrafo identificado com um discurso regionalista construído por memorialistas que, antes dele, se dedicaram a escrever sobre um espaço distinto: o sertão do Seridó! Seu empreendimento particular teria a função de “preservar a essência sertaneja” dessa espacialidade, comprometida, na segunda metade do século XX, pelos “elementos do progresso” (modernização). O folclorista Luis da Câmara Cascudo teria incentivado Oswaldo Lamartine nesta tarefa “documental e sentimental” devido à sua ligação privilegiada com a terra e com o homem do sertão, por sua descendência direta de uma “linhagem responsável por domesticar e povoar a região, formando assim uma cultura sertaneja”. Além de sua vinculação com o sertão, Oswaldo Lamartine teria ainda as habilidades requeridas devido à sua formação técnico-agrônoma, além do acesso aos canais (pessoais e institucionais) de publicação, em um contexto intelectual interessado pelos “estudos regionais” e “aspectos sociológicos do folclore”[5].

Após a apresentação introdutória da personagem, Gustavo Sobral empreende uma narrativa cronologicamente progressiva no intuito de apresentar agora as produções do sertanista e as experiências que as possibilitaram, intercalando discussões acerca dos aspectos formais (artigos, notas e ensaios), locais (experiências vivenciadas na Fazenda Lagoa Nova, e em centros culturais na cidade do Rio de Janeiro) e estilísticos da obra (o sertão como temática privilegiada, o vocabulário regionalista, o uso de recursos ilustrativos, o olhar bibliófilo sobre o livro), revelando gradativamente os procedimentos metodológicos (etnografia, questionários, certo padrão de organização e apresentação dos conteúdos, a diversificação das fontes, a correspondência com outros estudiosos como espaço de pesquisa), as influências intelectuais (folcloristas, sociólogos e historiadores de renome, além de memorialistas e artesões seridoenses), que conformariam, enfim, os principais atributos dos escritos de Oswaldo Lamartine de Faria. Dessa forma, Gustavo Sobral pretende ter mapeado o ambiente intelectual no qual ganha evidência o trajeto percorrido pelo sertanista potiguar.
O clima de louvação e homenagem prevalece no ambiente comemorativo desfavorecendo uma abordagem crítica acerca da produção historiográfica do sertanista. Portanto, aquela que seria uma das mais importantes funções características do fazer especializado de uma reflexão historiográfica é negligenciada pela abordagem adotada nesta “biografia bibliográfica”. Para o conhecimento histórico, a própria seleção do sertanista entre os nomes que merecem considerações da reflexão historiográfica já é, em si, uma homenagem, um gesto de respeito aos estudos desenvolvidos por Oswaldo Lamartine de Faria. Contudo, isto não elimina o compromisso crítico do historiador com a produção do conhecimento e da memória historiográfica.

Gustavo Sobral chega a apresentar os principais tópicos merecedores de problematização, aqueles propriamente referentes aos procedimentos de pesquisa e escrita do sertanista e aquele referente ao lugar de onde fala Oswaldo Lamartine de Faria, mas estes tópicos não foram devidamente explorados, tal como seriam operados pelo profissional em história. Ou seja, pensar mais profunda e criticamente sobre a vinculação de Oswaldo Lamartine de Faria à oligarquia pecuarista-algodoeira seridoense e a direta relação desta com a tessitura discursiva sobre o sertão do Seridó da qual o sertanista é adepto e reprodutor; refletir sobre as implicações ético-políticas – para a escrita da história – dos posicionamentos do sertanista nos embates de seu tempo (tradição vs. modernização); e analisar o rigor (ou a falta de rigor) teórico-metodológico na produção de conhecimento realizada pelo sertanista, investigando seu uso das fontes, problematizando o sentido explicativo construído para seus objetos, esmiuçando as funções narrativa e retórica dos recursos estilísticos utilizados na construção do seu texto.
Nascido e falecido em Natal/RN, Oswaldo Lamartine de Faria (1919 – 2007) foi um técnico-agrônomo que dedicou em torno de sessenta anos a pesquisar e escrever sobre os sertões, especialmente os sertões do Seridó – mesorregião central do Rio Grande do Norte. Seus escritos receberam o reconhecimento de intelectuais e literatos como Gilberto Freyre, José Lins do Rego, Câmara Cascudo e Rachel de Queiroz. Além de condecorações da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais (IJNPS) e da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras (ANRL). Trata-se, portanto, de um nome indiscutivelmente consagrado nos ambientes letrados, cuja obra, nos últimos quinze anos, tem recebido cada vez mais atenção da academia, tanto na área de Letras quanto em História.

Fora da academia, contudo, há tempos que o autor se tornou personagem corrente. O pertencimento a um grupo familiar das elites políticas e econômicas no Rio Grande do Norte da Primeira República lhe garante visibilidade pública desde cedo – basta uma rápida busca por seu nome na Hemeroteca Digital Brasileira [6] para o comprovar. Na maturidade, na ocasião de sua consagração literária, recebe a alcunha de “príncipe do sertão”, aludindo à linhagem genealógica dos colonizadores do sertão e ao “posto” de filho de um ex-governador de Estado (RN), deposto em 1930 pelo levante militar tenentista. Seu nome está vinculado a uma tradição historiográfica [7] da memória construída para a região do Seridó desde fins do século XIX, e relacionada àquela oligarquia, dedicada a homenagear “grandes homens” e “famílias tradicionais” responsáveis por dar a ver o Seridó como um espaço de tradições rural e patriarcal.

Apesar da identificação com a região, Oswaldo Lamartine nunca chegou a residir de fato no Seridó, suas vivências no sertão do Seridó se dão principalmente na infância e em visitas breves e esporádicas durante a vida adulta. O sertão que imortalizou em seus livros ganhou vida na biblioteca de seu apartamento, no Rio de Janeiro/RJ, onde residiu durante quarenta anos de sua vida.[8] Não é à toa o tom saudosista predominante em seus escritos, o sertão oswaldiano é de fato um sertão singular, que carrega marcas de experiências muito particulares, um sertão afetivo, escrito como espaço da saudade! Para muitos de seus comentadores, a vida que o escritor levou fora do estado será lida como um longo exílio, como uma consequência do golpe de estado sofrido pelo seu pai em 1930. A noção de exílio será mais um atributo a somar na construção da imagem de “príncipe do sertão”, destronado e forçado ao exílio, saudando “sua terra” à distância.
A monumentalização realizada sobre Oswaldo Lamartine de Faria não será desafiada no ensaio de Gustavo Sobral, mantém-se incólume, até mesmo reforçada. Grosso modo, o jornalista apresenta um pouco mais do mesmo sobre o sertanista e sua obra. Em termos de fontes, cabe chamar atenção à entrevista que o jornalista realiza com seu próprio tio, Theodosio Lamartine Paiva, que, por sua vez, é sobrinho de Oswaldo Lamartine de Faria. Apesar de ser um nome inédito na colônia de narradores que tomam o sertanista como objeto de depoimento, as informações não trazem maiores novidades para a pesquisa histórica. Suas memórias se voltam principalmente ao cotidiano da Fazenda Lagoa Nova, situada na região do Agreste potiguar, ambiente de importância para as experiências (profissional e de campo) de Oswaldo Lamartine de Faria, mas que já eram de conhecimento público. Outra fonte oral, o Pe. João Medeiros Filho, apesar de ser recorrentemente consultado para prestar depoimentos sobre o sertanista, oferece informações sobre personagens, eventos e instituições que podem ampliar o mapeamento do círculo de sociabilidades do escritor. Porém, a grande novidade desta publicação está no levantamento bibliográfico realizado pelas bibliotecárias da BCZM.

De fato, este levantamento se mostra um rico instrumento de pesquisa, ainda mais útil quando se trata de uma obra dispersa e relativamente pouco estudada.
Este breve comentário acerca da publicação do jornalista Gustavo Sobral serve para chamar atenção à necessária leitura crítica da produção do escritor Oswaldo Lamartine de Faria (e da própria personagem que se criou para este). A historiografia dos sertões continua em dívida quanto a um estudo biográfico histórico que tome o sertanista como objeto, ou de uma análise historiográfica que problematize devidamente a escrita da história praticada pelo mesmo, por isso a importância de uma pesquisa histórica profissional. A subjetividade da memória, a ficcionalização da história e a falta de rigor nas produções do sertanista são atributos que, se não problematizados, podem contribuir para a permanência de uma narrativa histórica realizada desde cima, desde a casa-grande do criatório seridoense, uma narrativa que promove certos sujeitos históricos e a invisibilização de conflitos sociais em detrimento de outros sujeitos. Portanto, o sertão posto no papel por Oswaldo Lamartine de Faria, o sertão idílico como imagina ter existido no passado, aquele “sertão de nunca mais”, deve ser cuidadosamente explorado pela perspectiva da história da historiografia, uma ótica que consegue colocar problemáticas próprias da crítica historiográfica, e que não se permita seduzir pela sofisticação narrativa, que ultrapasse a superfície dos ornamentos estilísticos, mas sem ignorá-los, muito pelo contrário, problematizando cada operação realizada pelo pesquisador/escritor.

Notas

2. SOBRAL, Gustavo. O sertão de Oswaldo Lamartine de Faria: a biografia de uma obra. Natal: Caravela Selo Cultural, 2018.

3. Ibid.

4. No sítio oficial do autor é possível ter acesso, em formato PDF, ao livro aqui resenhado, além de diversas outras publicações do autor voltadas para literatura, memória e história. Disponível em: http://www.gustavosobral.com.br/livros.php. Acesso em: 20 out. 2020.

5. SOBRAL, op. cit., p. 11 – 34.

6. BIBLIOTECA NACIONAL DIGITAL. Hemeroteca Digital Brasileira. Disponível em: https://bndigital.bn.gov.br/hemeroteca-digital/. Acesso em: 22 out. 2020.

7. Manoel Gomes de Medeiros Dantas (1867-1924), José Augusto Bezerra de Medeiros (1884-1971) e Juvenal Lamartine de Faria (1874-1956), pai de Oswaldo Lamartine de Faria.

8. No Rio Grande do Norte, o escritor morou na capital, Natal/RN, situada no litoral, e em Riachuelo/RN, situada na região Agreste do estado. Oswaldo Lamartine também residiu em Recife/PE, Fortaleza/CE, Lavras/MG e Barra do Corda/MA.

Eduardo K. de Medeiros – Mestrando / Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Caicó / Rio Grande do Norte / Brasil. E-mail. [email protected]


SOBRAL, Gustavo. O sertão de Oswaldo Lamartine de Faria: a biografia de uma obra. Natal: Caravela Selo Cultural, 2018. 200 p. Resenha de: MEDEIROS, Eduardo K. de. Um sertão no papel: o sertão literário de Oswaldo Lamartine de Faria. Outros Tempos, São Luís, v.19, n.21, p.357-361, 2021. Acessar publicação original. [IF].

História e literatura: abordagens interdisciplinares | Fabrício Antônio Antunes Soares e Ricardo Oliveira da Silva

O século XIX é fundamental para entender de que maneira a história se consolidou como ciência2, pois foi nesse período que o historiador passou a ser considerado um cientista, e, como consequência, foi nesse momento que a questão metodológica passou a ser uma preocupação. Dessa forma, o discurso do historiador deveria afastar-se do fictício e aproximar-se do real. Fabricio A. A. Soares discorre sobre isso:

A imaginação, ao longo do século XIX até meados do século XX, foi colocada no campo do irreal e, por decorrência das posições científicas da época, habitou ou tentou que ela habitasse apenas o campo da literatura. A “nova” ciência da história, então, passou a ser contraposta à imaginação, e seu corolário, a literatura, passou a ser tomado como representação do imaginável enquanto que a historiografia veio a ser interpretada como representação do real (SOARES, 2019, p. 25-26). Leia Mais

Poesia completa | Maya Angelou

A produção poética de Maya Angelou, recém-lançada pela editora Alto astral, constitui-se por mais de cem poemas onde a poetisa nos contempla com uma forma elevada da voz de uma das mulheres mais influentes da cultura e da literatura afro-americana. O que se designa como a voz e a vida de Maya Angelou alcança rapidamente o elo que torna algumas das vivências das mulheres negras estadunidenses um coro em uníssono. Tratarei aqui, nesta resenha, de alguns dos pontos em comum que podemos visualizar através da leitura de teóricas feministas negras como, por exemplo, Bell Hooks e Patricia Hill Collins.

É necessário ressaltar que muitos dos poemas que utilizarei aqui serão recortados visto que a poetisa apresenta uma característica preponderante relacionada ao desenvolvimento de poemas longos. Entretanto, essa característica não denota que a autora faça uso de uma linguagem tida como hermética, pelo contrário, sua poesia de versos livres almeja ser compreendida em sua própria naturalidade, a qual está intrinsecamente relacionada ao perceber-se e sentir-se negra em um país como os Estados Unidos. Nesse sentido, o poema Estados Unidos da América apresenta trechos como: “O ouro de sua promessa nunca foi extraído/O limite de sua justiça não está bem definido/Suas colheitas abundantes a fruta e o grão/Não alimentaram os famintos nem aliviaram sua dor profunda/Suas promessas orgulhosas são folhas ao vento/Sua orientação segregacionista é amiga da morte de negros/Descubra este país os séculos mortos choram (ANGELOU, 2020, p. 99)”. Leia Mais

Rules and Rituals in Medieval Power Games. A German Perspective – ALTHOFF (FR)

ALTHOFF Gerd Medieval Power Games
Gerd Althoff /

ALTHOFF G Rules and rituals in medieval power games Medieval Power GamesALTHOFF, Gerd. Rules and Rituals in Medieval Power Games. A German Perspective. Leiden (Brill Academic Publishers) 2019. 282p. Resenha de: HUFFMAN, Joseph P. Francia-Recensio, Paris, v.4, 2020.

This collection of 15 articles from the prolific opus of Gerd Althoff represents yet another effort to provide Anglophone scholars access to his seminal concept of »Spielregeln« or »rules of the game« in the power politics of the East Frankish-German realm during the Ottonian, Salian, and early Hohenstaufen dynasties (ca. 800–1200). The volume is therefore designed to provide some German-language historiography on the »pre-state society« of medieval Germany. Yet since three of the articles are previously unpublished English-language conference papers (Oxford in 2005, Durham in 2015, and Rome in 2016) and another three of the articles had already been published in English elsewhere, only nine (or 60%) of this volume’s articles are peer-reviewed Althoff scholarship newly available in English. And as in all such reprint editions of scholarly articles and conference papers, there is much redundancy, periodic thinly sourced assertions, and an ex post facto opportunity to address his critics.

Nonetheless, this volume is a welcome contribution. Gerd Althoff is a major German historian of the early Middle Ages whose generation of scholars developed a new perspective on German political history. As a whole, they overturned long-held certitudes about an easily discerned formation and disintegration of a medieval German Staat (nation state), and replaced this Deutsche Kaiserzeit historiography with one that »others« medieval German society. The early medieval German kingdom appears instead to be an unfamiliar »pre-state society« with mentalities, beliefs, customs, and institutions that are actually quite foreign to the modern world of nation states and national historiographies. Indeed, medieval German society followed entirely different political rules than today. From an Anglophone (and French) perspective, one could describe this as a German version of the »cultural turn«, in which politics are no longer understood through the lens of legal historians and their constitutional preoccupations but rather through the lens of social and cultural phenomena.

As Althoff himself recognizes in the preface, even this late-20th-century historiographical movement has become historical, being now increasingly overshadowed by new turns toward trans-cultural and global historiographies. Yet he rightly sees a common thread between his generation’s cultural turn historiography and the new post-cultural-turn historiography: both have replaced nationalistic concepts of history by rewriting parts of Germany’s national history as social and cultural formations. And so for Althoff the origins of the medieval German kingdom are not to be found in constitutions and legal codes, but rather in the cultural code of conduct – the »rules of the game« – for power politics and political communication among its monarchs, aristocracy, and princely churchmen1. The articles in this volume therefore serve as a retrospective reiteration of the Spielregeln thesis, illustrated with studies of various illustrative passages in medieval German chronicles and letter collections. The volume is ordered with the following themes:

Part I: Rules

Part II: Rituals

Part III: Gregorian Revolution

Part IV: History in Literature

Part I begins with a fulsome reiteration of the Spielregeln thesis. Though not as explicit »rules« in the sense of games like chess or a sport, medieval German noble society still maintained and implicitly understood a set of cultural norms for power politics and the public communication of that power. These norms were never fixed in written or governmental forms any more than clothing style or good manners or deportment; rather, they were taught and sustained in oral communication. Such Spielregeln were more important for the maintenance of order in medieval society than in contemporary western society, as the latter contains a comprehensive, written legal basis for political gaming (i. e. constitutions) which are fully sanctioned by the power of the modern nation-state. Medieval German nobles instead held their society together with rules that reinforced trust through rituals of kinship, friendship, and status affirmation (i. e. rank and honor). Such Spielregeln were adaptable enough to be used not only to resolve conflicts but also to extend into novel conundrums by a process of collective counsel and judgment. Finally, the historian can discern the Spielregeln through rituals, accounts of which survive in chronicle sources and letter collections. And though these accounts are literary constructions, Althoff fully embraces them as »reliable evidence« since his focus is on the cultural norms themselves instead of the factual veracity of the narrative accounts. Again, this is cultural history, not narrative political history of events2.

Part II considers the rules of the game themselves, best expressed in rituals serving as a vehicle for symbolic communication of political acts which maintained or restored public order. Rituals therefore did not so much illustrate already existing reality, but rather they created it themselves by their performance. Such public performances at court reinforced and protected the order of rank (e. g. seating at table, order in processions, proximity to those with power – political or sacral). The fusion of noble warrior culture and Christian values were thus expressed in the code of chivalry, filled as it was with ritual acts and gestures of virtue (e. g. humiliatioclementia) defined by the unspoken Spielregeln.

The articles in Part II catalog the core purposes inherent in the unwritten rules or code of Spielregeln: regulation of the use of violence (both royal and noble); regulation of royal mercy and restoration of friendship as a means of preserving noble rank; regulation of conflict resolution through satisfactio and deditio to restore wounded honor; regulation of secret and/or open colloquia through familiares who lobbied for peaceful solutions acceptable to all; the evolving regulation of bishops from mediators to arbitrators between monarch and nobility. In essence, the Spielregeln provided a means to resolve conflict and preserve rank in order to save the honor of all – both those whose honor had been wounded as well as the peaceful return of those who had wounded. A peaceful equilibrium within the nobility was the ultimate goal of the Spielregeln.

Part III provides studies of specific rituals themselves that inscribed the reality of the long-for peace and restoration of rank. These included participation in convivia (public feasting together) as moments of bonding and alliance fashioning through ritual gestures and non-verbal signs (from smiles to eye contact) as well as verbal negotiations; the ritual of surrender (deditio) with all its theatrical expression of self-accusation and pleading for mercy (e. g. rent clothing, arriving barefoot, sometimes carrying a switch or sword for punishment), prostration; the equally theatrical ritual of pardon after deditio with its raising up of the prostrate penitent (with varying degrees of mercy thereafter); rituals of clementia, misericordia, and iustitia preceding the coronation ceremony of a king; the ritual of gift-giving with theatrical expressions of both honor and reciprocity (we find here the origins of wrapped gifts). We are reminded that in all these acts and gestures, »He who dominated the rituals also mastered the scene« (p. 111). Indeed, Althoff rejects the social scientific analyses of Weber, Habermas, Cassirer and others that rituals were »empty«, »dim«, and »irrational« cultural expressions. Rather, he sees elaborate staging and scripting of rituals with specific, rational acts tailored to specific needs of the moment (though again, there are no surviving accounts of such pre-event staging or scripting negotiations behind the scenes). Just how staged or spontaneous a particular ritual act was still remains a debated point though, since its performance unavoidably allowed for personal agency and »upstaging« others.

Such public rituals took on the cast of legally binding events (not unlike a marriage), as an audience had witnessed the ritual and its attendant gestures, words, and acts. No need for written documentation here, though by the 13th century such was indeed sought as a memorializing of the ritual (e. g. alliances of amicitia). In spite of this development, Althoff still concludes that »Ritual behavior had the same function and created the same obligations as an oath or a written treaty« (p. 141). Such public rituals have the hegemonic power to enable cross-cultural communication, as evidenced by the Polish and Bohemian nobility; yet what seems to have been missed here is that these Slavic communities had recently been Christianized and so had learned cultural cues of Christian Saxons and Bavarians. Other non-Christian Slavic peoples were not invited to participate in such cross-cultural communication in an effort to bind ethnic communities together in alliances and marriages.

Althoff’s final article in this section addresses the critical issue of the ambiguity of symbolic actions. Though rituals and symbols can and were interpreted differently by observers, there is no evidence anywhere that medieval folk felt this ambiguity was a problem; indeed, ambiguity provided the space necessary to establish a broad enough consensus to enable peace and to restore broken bonds between the powerful. Only when written documents from the mid-12th century onward demanded increasing specificity was this interpersonal space of ambiguity compromised and a formal governmental negotiating process entered into the ambiguous space with notions of diplomacy as a conversation of government power.

Part IV takes a major departure from the core theme of the volume, with its focus made clear in the title »Gregorian Revolution«. Here Althoff provides three articles exploring and explaining the radical Gregorian agenda (a preoccupation of German historians since Gerd Tellenbach), from the use of biblical texts as justification for Gregory VII’s claims to obedience of all bishops and monarchs, to the appearance and contested resilience of said claims in subsequent canon law collections (the libelli de lite as the primary conduit), to subsequent papal use of Gregorian claims (again not entirely unchallenged) to justify papal use of violence on behalf of the Church »to pursue their interests« (e. g. to call crusades and to punish recalcitrant kings, schismatics, and heretics). How these articles advance the volume’s avowed study of German noble Spielregeln remains unclear except to give the volume the needed size for publication.

Equally puzzling, though more rewarding, are the articles in Part V. This concluding set of two essays were originally published in German literary studies. Here we see the by now obvious affinity of Althoff’s cultural history approach to chronicle and letter narratives with the narratological and poetics of literary scholars. In the first essay Althoff poses the question, »Do Poets Play with the Rules of Society?« and concludes that indeed they do for dramatic narrative or poetic purposes. Here he considers literary fiction like the »Ruodlieb« and the »Nibelungenlied« as a »broader source base« for historiographical purposes. In the second article he assesses the fictive poem of Duke Ernst and his violent breach of the Spielregeln in an attempt to assassinate a rather tyrannical version of the emperor Otto I.

Then Otto himself breaks the rules of the game by publicly repenting of his harshness toward the duke once Ernst returns seeking restoration after years away on a crusading pilgrimage. What is most salient in Althoff’s analysis, however, is not an analysis of the literary work itself, but his assertion that – in real history – this peculiar poem had been sponsored by the bishop of Bamberg in 1208 just after the actual assassination there of the Hohenstaufen king Philip (of Swabia) by Count Palatine Otto of Wittelsbach. The poem appears to have been an episcopal attempt to legitimate the regicide of a tyrant. The line between literary fiction and historical reality remains smudgy in this section of the volume.

The inclusion of literary fiction as a source for the historical study of unwritten Spielregeln in actual noble society begs the perennial question inherent in Althoff’s thesis. How do we know if the chroniclers of noble rituals have played with them in the same fashion as the poets, and for the same type of rhetorical or political effects? Are we in fact observing actual Spielregeln at work in rituals, or are we reading a literary representation of them by chroniclers with an ulterior purpose in mind? In this volume and generally in all his individual articles Althoff does not systematically present a set of codified political rules as a coherent subject of historical study, but he has instead presented them as evocative yet incompletely unpacked vignettes of intriguing themes.

To his credit, Althoff acknowledges the unavoidable conditional clause for his entire source analysis methodology: »if the representations of many [chronicle] authors are not totally misleading« (p. 115). He then addresses Johannes Fried’s same critique of his methodology (one of many disputes between the two historians over the years), by concluding: »After much discussion about this question I here and now contend, without repeating the arguments for the position, that little or nothing speaks for the assumption that the world of descriptions should be fundamentally different from the world of real customs of communication« (p. 115).

But elsewhere he concedes much less confidently, »It may be doubtful that the [chronicle] authors describe the scenes as they happened, although it is not possible to prove this one way or another. Nevertheless, the stories told by medieval authors can be used in our questions about the forms and functions of public communication, because the authors telling these stories had to consider the common rules and customs governing behavior if they wanted their contemporaries to believe them. […] On the whole, the description had to correspond to the usual practices of communication. These stories can be used for the investigation of these practices, but not for the history of events« (p. 142). So for Althoff’s cultural history, the method serves only a formal analysis of political rules with the goal being »to strive to regain the point of view from which medieval contemporaries looked at ritual. This is a necessary first step, after which we should of course add our own evaluation« (p. 142).

Whether historians, Anglophone or otherwise, will be satisfied with relying on chronicle and letter narratives as sources for a narrowly crafted cultural history of the social history of medieval political history will depend on the type of history they prefer to pursue. The Spielregeln thesis is a fascinating starting point for navigating parts further removed, yet the fundamental source analysis of the discipline of history is different in kind from analysis of literary fiction and for good reason. Yet the value of the cultural turn as found in the work of Gerd Althoff and his generation of historians has provided a signal service – most especially in German historiography – of separating medieval German history from the awfully destructive legacy of an intense nationalistic modern historiography centered on the German state. For helping provide this specific »German Perspective« we are in his debt and can appreciate the import of this volume in his honor. Still to be done is testing the Spielregeln thesis beyond medieval Germany through a comparative study of other European kingdoms and their noble societies and cultures, both before and after the dawn of administrative kingship in the 12th century.

[Notas]

1 His Spielregeln thesis first emerged in the last chapter of: Gerd Althoff, Verwandte, Freunde und Getreue. Zum politischen Stellenwert der Gruppenbindungen im früheren Mittelalter, Darmstadt 1990, translated into English by Christopher Carroll: Family, Friends, and Followers. Political and Social Bonds in Early Medieval Europe, Cambridge 2004. It was then more fully articulated in: Gerd Althoff,Spielregeln der Politik im Mittelalter: Kommunikation in Frieden und Fehde, Darmstadt 1997; 2nd ed. 2014 – a collection of eleven papers and conference papers delivered between 1989–1996. Althoff then explored the historiographical implications of Spielgregeln in medieval political chronicles in his monograph: Inszenierte Herrschaft. Geschichtsschreibung und politisches Handeln im Mittelalter,Darmstadt 2003. He also applied this Spielregeln thesis to his analysis of the emperor Otto III in his biography: Otto III., Darmstadt 1996 (Gestalten des Mittelalters und der Renaissance); translated into English by Phyllis G. Jestice: Otto III, University Park 2003.

2 This thesis has sparked a controversial international discussion, and many have been the objections to this loosely defined »know it when you see it« anthropological methodology. See for example: Johannes Fried, Wissenschaft und Phantasie. Das Beispiel der Geschichte, in: Historische Zeitschrift 263 (1996), p. 291–316; Philippe Buc, The Dangers of Ritual. Between Early Medieval Texts and Social Scientific Theory, Princeton 2001; Warren Brown, The Use of Norms in Disputes in Early Medieval Bavaria, in: Viator 30 (1999), p. 15–40; and id., Violence in Medieval Europe, Harlow 2011, p. 137–139.

Joseph P. Huffman – Mechanicsburg, PA.

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A Noite da Espera | Milton Hatoum

Estamos (re)vivendo tempos sombrios, no qual os direitos à liberdade de expressão estão sendo ameaçados. Falamos de ditadura, mas pouco lemos e discutimos sobre o quão perturbador foi esse período. A ficção A noite da espera, de Milton Hatoum, fala sobre esse intervalo obscuro da história do Brasil.

Hatoum nasceu em Manaus em 1952, aos 15 anos de idade mudou-se para Brasília onde morou com dois amigos em uma casa da W3 Sul e estudou no Centro Integrado de Educação Modelo (CIEM). Em Brasília, Hatoum começou a escrever poesias, participar de concursos literários e em 1969 teve pela primeira vez um de seus poemas publicado pelo jornal Correio Brasiliense. O amazonense já foi professor de Literatura da Universidade Federal do Amazonas e é considerado um dos grandes escritores brasileiros atuais. Ganhou três prêmios Jabuti e seus livros já venderam mais de 200 mil exemplares no Brasil, além de terem sido traduzidos para mais de oito países. Leia Mais

Manifestações de re-existência: a literatura em tempos de repressão | Literatura, História e Memória | 2020

“A América Latina está em chamas”, estampada em cartazes ou compartilhada pelas redes sociais, essa frase resumiu a soma de vários elementos que começaram a eclodir contemporaneamente no continente – a despossessão econômica gradativa das classes baixas e médias e a crescente concentração de renda nas mãos de um pequeno número de pessoas, o recrudescimento da violência policial contra comunidades periféricas e/ou manifestantes em protestos políticos, o enfraquecimento da democracia por meio de decisões judiciais e/ou criação de leis que contrariam explicitamente os princípios constitucionais, discursos políticos que incitam e/ou legitimam manifestações de ódio e violência social etc. Tal conjunto, não à toa, parece ecoar a dimensão espectral dos regimes totalitários que há algumas décadas assolaram o continente.

A literatura, sendo igualmente uma construção sócio-histórica, compartilha com a sociedade as condições materiais de existência; entretanto, visto ser também processo criativo, abandona a condição de ser meramente espelho social (CANDIDO, 2000) e se torna via de acesso para a compreensão, a denúncia e o rompimento de percepções automatizadas da realidade, torporizadas pelas reiteradas manifestações da violência social (GINZBURG, 2012) e dissimuladas por variados mecanismos ideológicos que negam a ferocidade nas relações com tantos “outros” intimidados, reprimidos, reificados e proscritos às margens (CHAUÍ, 2017). Além disso, a literatura também é um campo privilegiado para o surgimento de renovadas conformações estéticas, novas poieses a figurar, entre tantas relações, a articulação entre violência, repressão e sociedade. Leia Mais

Kentukis / Samanta Schweblin

Em uma das primeiras vídeo-chamadas que fiz com minha família em razão da pandemia de Covid-19, minhas tias pediram para que eu mostrasse minha casa. Moro sozinha, em um apartamento pequeno, e sou uma pessoa reservada; raramente convido pessoas a virem aqui e vídeo-chamadas eram incomuns. Até que então me encontrei arrastando o computador por diferentes cômodos, repetindo a frase “não notem a bagunça” para minhas tias e minha prima, então espalhadas entre Porto Alegre, Florianópolis, e Valencia, na Espanha. Partes dele também se tornaram visíveis às minhas instrutoras de Pilates e de Yôga, à minha terapeuta e a inúmeras outras pessoas com quem conversei dessa forma nesse meio tempo.

Não que eu não “exibisse” partes da minha casa na internet; no começo do ano, quando o novo coronavírus ainda era uma abstração que acometia outro hemisfério, um amigo entrou na minha sala pela primeira vez e disse:

– Ah! Essa mesa! – Porque minha mesa, entre outros recortes do apartamento, figura volta e meia em raros posts de Instagram.

Imediatamente antes das nossas vidas sociais (e profissionais, para alguns privilegiados) serem mediadas por telas, delays de áudio e a frase “Ih, travou”, puseram em minhas mãos o romance Kentukis, da escritora argentina Samanta Schweblin, publicado em outubro de 2018 e indicado ao International Booker Prize. Autora de outras seis obras, das quais a antologia de contos Pássaros na Boca e o romance Distância de Resgate encontram-se publicados no Brasil, Schweblin, motivada pelo diagnóstico da ausência da tecnologia na ficção contemporânea, aqui imagina uma nova forma de relação virtual. Na trama, o gadget do momento é um brinquedo de pelúcia com câmera e microfone, chamado kentuki, que leva a forma de diversos animais. Os usuários têm duas opções de uso: eles podem “ser” o kentuki, habitar o animal de pelúcia através de um tablet; ou “ter” o kentuki, comprar o animalzinho, ligá-lo e de pronto ter um estranho circulando pela casa. Os verbos “ser” e “ter” aqui não são usados despropositadamente: quem possui o aparelho é considerado seu “amo”. Para além disso, a conexão é única: em caso de dano ou de não carregamento da bateria, ela se desfaz permanentemente. O enredo segue múltiplas narrativas, em várias cidades do mundo, nas quais os personagens são kentukis, têm kentukis ou deparam com eles.

Através delas, se apresentam diferentes possibilidades desta forma de relação. O otimismo, quase reminiscente daquele relacionado à web 2.0, está encarnado em Marvin, um menino de Antigua, órfão de mãe e com um pai ausente, que quer “ser um dragão” e ver neve. Há também o igualmente promissor potencial de se mitigar a solidão, como é o caso da peruana Emilia, que ganha uma conexão do filho que vive em Hong Kong e que, transmutada em um coelho, passa a habitar um apartamento na Alemanha, sendo paparicada por uma jovem. Por outro lado, está ali a chance para o estabelecimento de relações de poder, como as que Alina, uma jovem sem rumo, vivendo no México, estabelece com seu corvo. Dada a vulnerabilidade dos aparelhos, que podem ser abandonados, destruídos ou ter seu direito de ir e vir cerceado por seus “amos”, surge em um dos arcos um incipiente movimento pela sua libertação. Também, como um desdobramento quase natural do capitalismo, aparece a compra em massa de conexões para que possam ser oferecidas experiências personalizadas, pois pelas regras, os usuários não têm poder de escolha a respeito de onde e com quem vão parar. É aí, justamente nessa falta de controle, que também moram os perigos.

Para além de ser uma reflexão sobre a nossa relação com a tecnologia e as formas com que nos apresentamos através dela, há um momento no romance em que se coloca uma questão singela, já aludida aqui, e que tem a ver, sim, com controle: a de que haveria dois tipos de pessoas no mundo – os que têm e os que são; isto é, aqueles que desejam ser vistos por outrem e aqueles que desejam ver. É necessário dizer que embora os aparelhos contenham tradutores embutidos de forma a permitir a comunicação dos amos com seus kentukis, estes só emitem ruídos condizentes com os dos animais que representam. Quem é, portanto, a princípio, é também totalmente passivo e anônimo. A princípio.

Essa dinâmica entre quem se expõe na internet e quem apenas observa existe desde que ela começou a possibilitar a interação imediata das pessoas com o conteúdo nela disponível e a formação de comunidades em torno de interesses em comum. Quando da leitura do romance, meu primeiro impulso foi o de comparar quem habitava kentukis com os lurkers de fóruns de internet: pessoas que apenas leem posts ou consomem o conteúdo produzido por dada comunidade sem realmente participar dela. Contudo, outros paralelos são possíveis, principalmente em relação ao anonimato e ao poder que esses anônimos supostamente passivos podem deter sobre quem está se expondo, algo que tem sido pauta nas redes sociais, principalmente em relação ao tratamento conferido às mulheres.

O romance de Schweblin é inquietante precisamente por imaginar um mundo aparentemente distópico – a própria imagem de inofensivos bichos de pelúcia sugere certo elemento macabro –, mas que é bastante plausível, dado o fato de que as fronteiras entre o que é público e privado têm-se tornado cada vez mais elusivas através das redes sociais, independente de nós agora em isolamento estarmos mostrando nossas casas, filhos, animais de estimação e até mesmo o interior de nossas geladeiras em reuniões de trabalho. Para além das opções do quanto nos expomos na internet, a vida privada ou uma versão dela é muitas vezes o principal conteúdo que muitos influencers produzem e, de modo geral, tem-se tornado cada vez mais rentável. Já nos dividimos em variados graus e, de certa forma, entre quem deseja ser visto e aqueles que desejam ver.

Renata Dal Sasso Freitas – Professora de Teoria da História no Curso de Licenciatura em História da Universidade Federal do Pampa, no Rio Grande do Sul, e pesquisa as relações entre a história e a escrita de prosa de ficção.


SCHWEBLIN, Samanta. Kentukis. Buenos Aires: Literatura Random House, 2018. Resenha de: FREITAS, Renata Dal Sasso. Sobre Kentukis, de Samanta Schweblin. Humanas – Pesquisadoras em Rede. 20 jul. 2020. Acessar publicação original. [IF]

Paganas patagônias | Oscar Barrientos Bradasic

La literatura de Oscar Barrientos Bradasic -escritor de origen croata y oriundo de Punta Arenas- se vincula estrechamente al territorio y paisaje magallánico, cuenta de ello da su producción narrativa asociada a las historias y aventuras de navegantes en los mares meridionales. En este sentido, Paganas patagonias (2018) no es la excepción, pues en la obra habitan lo fantástico, el humor y los imaginarios territoriales, añadiendo elementos que hablan de una modernidad austral, alejada cada vez más de la imagen romántica y parsimónica de antaño.

Oscar Barrientos posee un vasto recorrido en la literatura desde que publicó su primer poemario Espadas y tabernas en 1988 hasta la actualidad, es así que ha transitado la poesía, el teatro, la novela, la crónica, el cómic y el cuento, como sucede en el caso específico de Paganas patagonias. Asimismo, parte de su obra ha sido traducida al croata, en conjunto con la de otros escritores magallánicos como Ramón Díaz Eterovic (2010), Juan Mihovilovich (2007) y Eugenio Mimica Barassi (2006). Leia Mais

Mandarin Brazil: race, representation, and memory. | Ana Paulina Lee

A obra Mandarin Brazil , premiada como melhor livro em humanidades na seção Brasil pela Latin American Studies Association, é uma leitura importante para a compreensão das representações dos chineses na cultura popular brasileira. O livro remonta a construção e ressignificação dos estereótipos raciais associados ao imigrante chinês na literatura, na música e no teatro nos séculos XIX e XX. A obra extrapola o enfoque da historiografia nacional sobre os debates e as construções raciais em torno da imigração chinesa entre 1850 e 1890. Ana Paulina Lee (2018) priorizou a elaboração, reprodução e apropriação da chinesness , expressões culturais que elaboram conceitos e estigmas raciais referentes à China e aos seus habitantes. Essas imagens foram concebidas e apropriadas em meio a um intenso diálogo global fortalecido após a abolição do tráfico negreiro. Tais representações circulam dentro de uma memória circum-oceânica, um processo criativo por meio do qual a cultura da modernidade se inventa ao transmitir um passado que pode ser esquecido, recriado ou transformado em uma memória coletiva. Leia Mais

A imaginação educada – FRYE (RM)

FRYE, Herman Northrop. A imaginação educada.  Tradução de Adriel Teixeira, Bruno Geraidini e Cristiano Gomes. [Sn]: 2017. Resenha de: SILVA, André Luiz Silveira da; KARLO-GOMES, Geam.  Revista Memorare, Tubarão, v. 7, n. 1, jan./jun. 2020, p. 239-242.

Educar ou não a imaginação? Essa é uma das principais questões suscitadas por Herman Northrop Frye, crítico literário canadense de Quebéc, em A imaginação educada, obra que recebeu sua primeira tradução em português em 2017 por Adriel Teixeira, Bruno Geraidini e Cristiano Gomes.

Em seis capítulos, resultantes da transcrição de seis palestras originárias de um programa de rádio canadense na década de 1960, A imaginação educada se torna fortuna crítica para pensar o papel da literatura e da imaginação. Em seu escopo, desenvolve-se o olhar para a importância, papel, função e lugar da literatura e da imaginação na sociedade e na formação do ser humano crítico. E aponta ainda caminhos para uma educação da imaginação e formação crítica do leitor em tempos de popularização da educação.

Por meio de referências, metáforas e paráfrases, o autor busca construir sua tese: o mito e as imagens literárias dão forma, desde sua gênese, a todas as estruturas construídas por meio de palavras.

Para isso, Frye recorre sempre às grandes obras de consagrados poetas e romancistas e enfatiza a relevância do domínio da língua materna para a efetiva interação e troca de saberes. Tal pensamento se aproxima da tópica da pedagogia do imaginário, onde a imaginação mitológica é concebida como cosmos e a natureza se homo symbolicus estar no mundo num registro de demiurgia e de canto […] onde se perfila, se manifesta, se ultrapassa e se lê a nossa i Por meio dessa perspectiva, Frye desenvolve um método crítico de análise de obras literárias que se assemelha a uma investigação comparada destas produções; a ponto de revelar narrativas inspiradas na Bíblia e em obras clássicas ocidentais. Para ele, essas narrativas remontam o imaginário muito sua, tão absurda e impossível quanto a magia primitiva que ela p.69). Por isso, esse crítico se engaja em defesa do estudo da literatura, do ato de ler, falar e escrever, bem como, da educação da imaginação como forma de autoproteção do indivíduo e resistência às ltura de massa; educação que servirá para manutenção do homem na sociedade livre e que pode se tornar base para (re) formular as críticas frente às relações sociais e reações emocionais.

Nos primeiros capítulos, o autor nos apresenta a função social da literatura, defendendo que ela serve para mediar o mundo não humano e a nossa necessidade de humanizá-lo: dar nome às coisas, intelecto e emoção, na relação entre o mundo em que vivemos e o mundo que desejamos viver. Ela surge então como meio de expressão para os sentimentos que não conseguimos demonstrar somente dá uma experiência que nos estende verticalmente até as grandes alturas e as grandes profundezas do que a mente humana é capaz de conceber; até aquilo que corresponde aos conceitos religiosos de Céu Em capítulo posterior, o autor ainda distingue ciência e arte, explicando que a primeira surge do mundo, na maneira como ela se manifesta, enquanto a segunda se constitui de um mundo que queremos ter e explicar. A ciência cria uma construção mental por meio de um esquema que nos possibilita interpretar a experiência vivida. Já a arte, parte do mundo que construímos e não do mundo que vemos, seguindo da imaginação à experiência comum, buscando se construir tão verossímil quanto possível. Nesse ponto, o autor trata da relação sujeito-objeto-conhecimento e o papel da imaginação nessa construção, fundamental para relação e assimilação dos objetos socioculturais, palavras, sentimentos, esquemas e valores a eles atribuídos.

Em trechos de outra palestra, Frye comenta que há três linguagens que se interseccionam: a linguagem da conversa corriqueira, a linguagem do senso prático e a linguagem da imaginação. Ele ressalta que, por mais primitiva que seja a cultura, há nela uma linguagem, uma literatura. Para defender isso, o autor referenda constantemente o papel da imaginação como parte da tessitura essencial do ser humano. Para esse crítico, a imaginação não conseguiria operar em um mundo totalmente prático, pois haveria a necessidade de elaboração das imagens e sentimentos. Nesse sentido, uma maneira de expressá-los é a literatura tecida com a imaginação. Daí a necessidade e o parte, somos também parte do que conhecemos. O desejo de voar produziu o avião, mas não entramos afirmação conduz a seguinte reflexão: por meio da literatura, nós podemos apreender e criar, capacidades intrínsecas às nossas narrativas conscientes e inconscientes.

No todo, as percepções de Frye, diretas ou nas entrelinhas, são perspicazes. Como crítico literário, ressalta que o escritor imita muito a literatura a qual teve contato. Por isso, na criação poética, na imagística, o escritor absorve um aglomerado de mitos, o folclore e narrativas bíblicas, por meio de uma nova indumentária; podendo se manifestar em meio a diversos gêneros: tragédia, comédia, sátira, romance, entre muitos outros gêneros.

No que se refere ao tópico educacional constituinte do título da obra, o autor questiona o imortalizadas por escritores, comenta Frye. No decorrer dessas incursões, ele conceitua imaginário, ficção, mito e discorda da visão distorcida que se propaga quanto ao conceito de irrealidade (como sinônimo de mentira), provido do senso comum. Segundo Frye, o escritor usa uma imagem ou objeto do mundo ao seu redor e o transforma em símbolo, assumindo influência no contexto social. É nesse panorama em que a formação de uma mente imaginativa bem treinada se torna essencial para não – estabelecidas a serviços sociais de manutenção de um status quo.

No aparato para uma educação da imaginação, Frye defende que o incentivo à leitura da bíblia e as mitologias clássicas gregas deve ocorrer ainda na infância. Esse conjunto abarca praticamente todo o universo mítico e constructos sociais que ultrapassaram gerações e que são recontados sempre de novas maneiras. Nisso, o autor prossegue sugerindo uma estruturação de leituras e alerta que nada pode ser imperativo ou impositivo, apenas direcionado, respeitando os gostos e intenções de crianças e jovens.

Sobre a humana. E ressalta a habilidade que deve ter o professor com a formação literária ampla para conduzir todo esse direcionamento. Essa dimensão também nos aproxima ainda mais de uma pedagogia do imaginário. Nesse sentido, como afirma Teixeira, é por meio da metáfora que o ser humano adentra – p. 224).

Nos últimos capítulos surgem diversos questionamentos sobre a sociedade e a cultura. Para isso, Frye alerta o leitor com relação às traduções e a provável perda dos reais sentidos e significados das palavras. Ele acredita que a leitura na língua original e o estudo de outros idiomas são extremamente benéficos aos escritores, consumidores e críticos, pois, por meio deles, entramos em contato com outras estruturas gramaticais, construções e associações imagéticas das culturas escolhidas. O que também pode conduzir para uma nova forma de construção e reconstrução do conhecimento, que deverá extrapolar a visão fragmentada disciplinar do conhecimento.

No conjunto, A imaginação Educada não responde a todas as questões que se propõe, mas busca despertar o leitor para muitas indagações sobre a imaginação por meio da literatura. Ainda que concebida décadas atrás e voltada ao público de língua franco-anglófona, a obra ultrapassa tempo e espaço e se faz atual suscitando questionamentos sobre nossa condição de seres sociais, responsáveis por construir o conhecimento a ser perpetuado. Propositalmente, Frye nos alerta para a crítica do mundo, a fim de que nos posicionemos com liberdade de pensamentos; e que essa formação contribua para a er humano.

Referências

DUBORGEL, Bruno. Imaginário e Pedagogia. Brasil: Instituto Piaget, 1995.

FRYE, Northrop. A imaginação educada. Trad. Adriel Teixeira, Bruno Geraidini e Cristiano Gomes. Campinas, SP: Vide Edtorial, 2017.

TEIXEIRA, Maria Cecília Sanchez. Pedagogia do imaginário e função imaginante: redefinindo o sentido da educação. Olhar de professor, Ponta Grossa, v. 9, n.2, p. 215-227, 2006. Disponível:http://www.revistas2.uepg.br/index.php/olhardeprofessor/article/view/1461. Acesso em 19. maio. 2019.

Notas

1 O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior Brasil (CAPES) Código de Financiamento 001.

André Luiz Silveira da Silva – Graduado em Geografia. Universidade Federal de Pernambuco, UFPE, Brasil. Graduação em andamento em Pedagogia. Universidade de Pernambuco, UPE, Brasil. E-mail: [email protected]

Geam Karlo-Gomes – Doutor pelo Programa de Pós-Graduação em Literatura e Interculturalidade (UEPB). Professor do Programa de Pós- Graduação em Formação de Professores e Práticas Interdisciplinares (PPGFPPI), da Universidade de Pernambuco. Líder do ITESI – Grupo de Pesquisa Itinerários Interdisciplinares em Estudos Sobre o Imaginário. E-mail: [email protected]

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[MLPDB]

Haunting History: for a deconstructive approach to the past | Ethan Kleinberg (R)

Haunting History, livro publicado recentemente pelo historiador estadunidense Ethan Kleinberg explora os desafios que o diálogo com a desconstrução derridiana impõe à prática da história. O autor propõe que historiadores e historiadoras enfrentem as questões suscitadas por esse incômodo encontro, a fim de promover a persistente desconstrução da lógica de pensamento da história [1]. O livro chama a atenção pelas figurações narrativas empregadas por Kleinberg, que demonstra significativa preocupação com a íntima relação estabelecida entre forma e conteúdo da obra.

Ao mobilizar estórias de fantasmas, entre elas A Christmas Carol, de Charles Dickens, e The Legend of Sleepy Hollow, de Washington Irving, o livro ressalta o caráter espectral, fantasmático, indomável, desordenado e incômodo do passado. Diferencia-se por recorrer à literatura para refletir sobre o passado; ou seja, a literatura não opera como fonte empírica que diz sobre a sociedade que a produziu, mas como recurso provocativo, teórico e imaginativo. Essa estratégia permite trazer à narrativa um passado capaz de assombrar o presente como um espectro.

Em diálogo com um conto de Franz Kafka que versa sobre a construção de estruturas como a Grande Muralha da China e a Torre de Babel, Kleinberg lança indagações sobre as condições de averiguação do próprio passado. No conto, a Grande Muralha não foi construída de maneira contínua; algumas sessões foram construídas à princípio, espaçadamente, ao passo que as brechas deixadas foram preenchidas ao longo de séculos, de modo desordenado. O autor, então, pergunta ao seu leitor:

E se, de fato, algumas sessões da muralha nunca foram sequer construídas? E se mais tarde, com o tempo, passou-se a acreditar que essas lacunas eram partes faltantes da muralha que haviam sido destruídas, deterioradas, ou perdidas? [2]

A estória de Kafka sobre a Grande Muralha é ponto de partida para construção de uma interessante metáfora acerca da história. Há aqui a crítica a uma produção historiográfica que busca a produção de um snapshot do passado, tomado como reprodução fiel, ontológica, real. O autor coloca em cheque a capacidade do historiador – enquanto único e privilegiado observador – em distinguir e percorrer as lacunas presentes na grande muralha da história. Afinal, como diferenciar as partes construídas e perdidas daquelas que nunca foram sequer construídas? É possível dotar os “fatos históricos” de um caráter ontológico e separá-los das formas como foram representados narrativamente? Nesse sentido, Ethan Kleinberg confere ao passado um senso de mutabilidade que, se não espanta e assombra, certamente desestabiliza os parâmetros que regem a disciplina.

O primeiro capítulo do livro consiste em uma história intelectual [geist-geschichte] e uma história de fantasmas [geistergeschichte]. O autor narra a recepção da desconstrução pela historiografia estadunidense como uma história assombrada, cujo personagem principal – a desconstrução – age como um espectro que insiste em assombrar a prática disciplinar. Para isso, combinam-se recursos literários ligados às estórias de fantasmas e estratégias caras à história intelectual, de modo que convivem na narrativa, com pouca ou nenhuma cerimônia, atos de assombramento, conjuração, esconjuração e exorcismo, ao lado de citações de artigos, livros, entrevistas, resenhas, réplicas, e tréplicas. Os personagens são revistas, livros, acadêmicos, fantasmas, espectros e poltergeists. Forma e conteúdo convergem para apresentar a desconstrução como um fantasma incômodo, aceito por poucos, esconjurado por muitos, tratado por tantos como objeto de espantado ceticismo e culpado fascínio. Entre os fantasmas do período – giro linguístico, pós-modernismo, pós-estruturalismo, etc – a mais temida, a desconstrução, precisava ser exorcizada.

Como um poltergheist, a desconstrução fez sentir seus efeitos. Assombra os historiadores(as) precisamente na medida em que evidencia segredos tão bem escondidos da história: desnuda as escolhas autorais que participam da elaboração narrativa e argumentativa da produção historiográfica, põe em destaque a necessidade da imaginação para a prática da disciplina, evidencia as peripécias envolvidas no tratamento com a linguagem.

Para que a história entregue “verdade” descomplicada esse segredo [o espectro da revisão, a possibilidade de desconstrução] precisa continuar escondido, mas cada vez que o relato histórico de um evento é revisado, o próprio ato de revisão revela a instabilidade da verdade histórica e da possibilidade de recontar o que “realmente aconteceu”. [3]

O caráter fantasmático e incômodo da desconstrução se agrava na medida em que essa se torna um termo do senso comum que agrupava supostos “pós-modernos”, “pós-estruturalistas”, “relativistas”, além dos “desconstrucionistas” e de quaisquer historiadores(as) que com esses dialogassem. Em sua acepção mais popular, a desconstrução passou a ser conhecida como a “desestabilização de pronunciamentos autoritários” [4] , assumindo na academia estadunidense “o peso de uma posição política ou ideológica” [5] . A simplificação do modelo teórico derridiano contribuiu para que, mais tarde, em meio às nuvens de medo e à busca por verdades estáveis que sucedeu os atentados de 11 de setembro nos Estados Unidos, muitos se unissem para esconjurar o fantasma. A desconstrução foi associada à Heidegger, ao nazismo e até ao terrorismo, definido como expressão violenta do enfraquecimento de verdades universais como a liberdade e a vida. Será que isso foi suficiente para livrar-se de vez do fantasma?

A construção narrativa do primeiro capítulo evidencia a ausência de um número expressivo de historiadores(as) que utilizam a desconstrução como aporte teórico ou metodológico e, contraditoriamente, a presença de um “número desproporcionado de artigos atacando-a […] como perigosa para a prática da história” [6] . A abordagem desloca a oposição binária que enquadra presença e ausência como meros antônimos, enquanto a linguagem do conto assombrado subverte a forma como a história tem pensado e narrado as relações entre passado e presente. O passado está, presente e ausente, como um fantasma. Ou ainda, presenças e ausências operam juntas para assombrar o presente e a história.

Ethan Kleinberg emprega a desconstrução em uma crítica do “quadro epistemológico da história ortodoxa”, seu “próprio sistema ideológico, suas categorias de representação”[7] . Para isso, o terceiro capítulo examina autores como Chladenius, Dilthey e Droysen – ligados ao que se convencionou chamar historicismo – e demonstra que nem mesmo entre eles há consenso acerca da possibilidade de uma forma universal de acesso aos fatos históricos “tais como ocorreram”. O resultado é francamente irônico quando lido em contraste com o primeiro capítulo, que demonstra o quanto os historiadores contemporâneos – aqueles que afirmam ter superado os historicistas – continuam operando sob uma compreensão do passado embasada no que Ethan Kleinberg define como realismo ontológico.

Para o autor, a história disciplinar aborda eventos históricos como pontos fixados e imutáveis do espaço e do tempo. O passado é ontologicamente real, verdadeiro e ordenado, e mesmo que o acesso a ele seja sempre limitado, suas condições de verificabilidade estão condicionadas epistemologicamente. A revisão, portanto, é permitida porque compreendida como um aprimoramento epistemológico e metodológico que permitiria aproximar-se mais da verdade sobre o fato, mesmo quando há o reconhecimento de que o fato nunca será representado em sua totalidade. Ou seja, para o realismo ontológico, o passado segue sendo compreendido como algo que, “realmente”, “ontologicamente”, “é”.

No quarto capítulo, Ethan Kleinberg afirma que a abordagem do passado embasada no realismo ontológico está intimamente ligada às formas analógicas que conferiram bases materiais para a produção historiográfica, como o advento da escrita, da imprensa e da máquina de escrever. Essa história está ligada a um “teto analógico”, que percebe o passado como alcançável por meio do método e da atenção profunda. O rompimento com esse teto analógico pode abrir novas possibilidades à história. Nesse sentido, o autor sugere o advento da era digital e de uma nova forma de hiper-concentração em múltiplas mídias e plataformas guarda afinidades com a desconstrução. Essa nova forma de acessar, processar e interagir com a informação abre portas para que pesquisadores(as) possam se relacionar com o passado por meio de abordagens que presem pelo não-simultâneo, o contraditório, o múltiplo, o descontínuo e o instável, elementos fundamentais a uma abordagem desconstrucionista. Essa reconfiguração conclama a disciplina a um repensar do próprio tempo. No quadro delineado pelo autor, esse presente marcado por “heterogeneidade, emaranhamento, polissemia e contextos flutuantes” se relaciona diretamente com um passado que está também permeado destas características. As relações dos(as) historiadores(as) com o tempo passam a ser entendidas como uma posição iterativa, entrelaçada no tecido no passado a partir do presente. Essa última assertiva permitiria imaginar o estatuto do passado de outro modo, e posicionar a prática da história como um discurso/ato performativo, “uma interpretação que transforma a própria coisa que interpreta” [8].

Em suas últimas páginas, o autor argumenta sobre uma fantologia [hauntology] [9] do passado, a assombrar o ofício dos(as) historiadores(as), a tocar e afetar o presente independentemente das vontades daqueles que pretendem domá-lo ou expiá-lo. Se para Michel de Certeau [10], um dos objetivos da operação historiográfica era constituir túmulos escriturários capazes de enterrar os mortos e abrir espaço para os vivos, para Ethan Kleinberg, o passado não pode ser exorcizado por meio da escrita da história, mesmo pelo(a) mais exímio(a) historiador(a). O passado possui um “caráter fantológico” [hauntological], está, presente e ausente. Segundo o autor, esse só pode possuir qualquer status ontológico de forma latente e aporética, como uma contradição irresoluta, como um fantasma. Ainda, entre passado e presente há uma porosidade, caminhos possíveis a trilhar, que não podem ser encerrados por meio da história disciplinar e que delimitam – sempre de modo provisório – quais passados são imaginados como possíveis.

O livro torna-se mais provocativo quando lido em conjunto à atuação do coletivo #theoryrevolt, que no ano passado publicou o manifesto Theses on Theory and History. O texto assinado por Ethan Kleinberg, Joan Wallach Scott e Gary Wilder argumenta pela escrita de uma “história crítica” e pelo estabelecimento de uma nova relação entre teoria e história. Quando o livro é lido contra esse pano de fundo, ganham destaque as experimentações do autor ao longo da obra – que considero bem sucedidas –, sobretudo o modo como integram-se forma e conteúdo e o engajamento inovador com a literatura e a desconstrução. Afinal, nas palavras do #theoryrevolt,

A história crítica não aplica teoria à história, nem pede por maior integração da teoria nos trabalhos históricos como que vinda de fora. Ao contrário, ela busca produzir história teoricamente orientada e teoria historicamente fundamentada. [11] [grifo original]

Notas

1. Todas as traduções fornecidas ao longo do artigo são de responsabilidade da autora.

2. KLEINBERG, Ethan. Haunting History: for a deconstructive approach to the past. Stanford: Stanford University Press, 2017. p. 73.

3. KLEINBERG, Ethan. Haunting History: Deconstruction And The Spirit Of Revision. History and Theory. Theme Issue 46 (December 2007), 113-143. p. 143.

4. KLEINBERG, Ethan. Haunting History: for a deconstructive approach to the past. Stanford: Stanford University Press, 2017. p. 32.

5. Ibidem, p. 34.

6. Ibidem. p. 15.

7. JOAN SCOTT apud Ibidem. p. 36.

8. DERRIDA, Jacques. Specters of Marx. New York: Routlegde, 2006, p. 63.

9. Nesse caso, adotamos a tradução empregada por André Ramos e André Luan Macedo em entrevista com o autor publicada pela revista História da Historiografia. Cf: RAMOS, André. Ethan Kleinberg: Teoria da História como Fantologia [Entrevista]. História da historiografia, n. 25, dezembro. Ouro Preto: 2017. p. 193-211.

10. CERTEAU, Michel de. The writing of history. New York: Columbia University Press, 1988.

11. KLEINBERG, Ethan; SCOTT, Joan W.; WILDER, Gary. Teses sobre Teoria e História. Trad. Andre Freixo e João Ohara. p. 5. Disponível em: https://www.academia.edu/36775977/Teses_sobre_Teoria_e_Hist%C3%B3ria_TRADU%C3%87%C3%83O_. Acesso em 10/07/2018.

Lídia Maria de Abreu Generoso – Mestre em História pela Universidade Federal de Ouro Preto. Atualmente é doutoranda em História pela mesma Universidade com bolsa da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). E-mail: [email protected]  ORCID: https://orcid.org/0000-0002-8130-1950


KLEINBERG, Ethan. Haunting History: for a deconstructive approach to the past. Stanford: Stanford University Press, 2017. Resenha de: GENEROSO, Lídia Maria de Abreu. A história e o fantasma da desconstrução. CLIO – Revista de pesquisa histórica. Recife, v.38, n.1, p.548-553, jan./jun. 2020. Acessar publicação original [DR]

Bram Stoker e a Questão Racial. Literatura de horror e degenerescência no final do século XIX | Evander Ruthieri da Silva

Proponho analisar o livro Bram Stoker e a Questão Racial. Literatura de horror e degenerescência no final do século XIX (2017), livro de estreia do jovem historiador Evander Ruthieri da Silva, e que teve como base sua dissertação de mestrado defendida na Universidade Federal do Paraná (UFPR). Nele Ruthieri faz um trabalho primoroso de história social dos intelectuais, nos mostrando as redes de sociabilidade em que Bram Stoker circulava, a articulação entre seu projeto literário e o seu projeto intelectual.

Queremos com essa análise colocar em evidência essas categorias (redes de sociabilidade, circulação e projeto literário), apontando como hipótese o uso intuitivo delas, em outras palavras, evidencia que seu intento será ir além das simples verbalizações que dará novas possibilidades de ver o mundo literário. Gostaríamos de apontar nesse texto os caminhos escolhido pelo autor como uma possibilidade de pensar a história dos intelectuais a partir da relação autor-obra-leitor. Isto me permitirá, com mais liberdade, imaginar e compreender as formações discursivas que circulam nesse período, bem como aferir o movimento das categorias mencionadas acima. Leia Mais

Literatura e suas fronteiras: do local e do global | Literatura, História e Memória | 2019

A Revista de Literatura, História e Memória tem o prazer de abrir o seu vigésimo quinto número com as reflexões em torno da Literatura e suas fronteiras: do local e do global.

Para dar início às discussões, o texto “La (im)posibilidad del diálogo en la tierra de nadie: el problema de la frontera en Texas, de Carmen Boullosa”, de Claudia Macías, analisa as possibilidades e os limites do diálogo entre raças e culturas no romance de Boullosa a fim de mostrar como a obra questiona os fatos históricos a partir do problema da memória coletiva frente à memória manipulada proposto por Paul Ricoeur. Leia Mais

A arte de contar histórias – BENJAMIN (AF)

BENJAMIN, Walter. A arte de contar histórias. Org. Patrícia Lavelle. Trad. George Otte, Marcelo Backes e Patrícia Lavelle. São Paulo: Hedra, 2018. Resenha de: CHIARA, Jessica Di. O filósofo e o contista Walter Benjamin. Artefilosofia, Ouro Preto, n.26, jul., 2019.

Há pelo menos 50 anos o público universitário brasileiro vem entrando em contato com os textos filosóficos, os escritos críticos e ensaísticos de Walter Benjamin e as disputas interpretativas que se geraram em torno do pensamento do autor. Lido e assimilado e m diversas áreas do conhecimento, sobretudo nos cursos de filosofia, comunicação, letras, educação, história e sociologia, transcorridas mais de cinco décadas desde as primeiras abordagens, podemos dizer que já é bem sedimentada e ampla a tradição de comentadores da obra de Benjamin no Brasil.1 Contudo, mesmo em um solo fértil e produtivo, diante de uma obra estamos sempre diante de um mistério: mesmo se a lemos tantas e tantas vezes. É por esse motivo que a nova edição de reunião de escritos de Benjamin organizada por Patrícia Lavelle, “A arte de contar histórias”, contribui para a fertilidade do solo dos estudos benjaminianos por aqui. O livro inaugura a Coleção Walter Benjamin da editora Hedra, cuja intenção é somar-se às iniciativas já existentes e que s e destacam pela efetiva contribuição para o desenvolvimento da recepção da obra de Benjamin em português. Além de propor uma nova tradução anotada do ensaio clássico sobre o contador de histórias “ Der Erzähler ” (que no Brasil é amplamente conhecido pela tradução de Sérgio Paulo Rouanet como “O narrador. Considerações sobre a obra de Nikolai Leskov”), 2 o livro reúne e nos apresenta a pouco conhecida produção ficcional de Benjamin, trazendo para o público leitor brasileiro o conjunto de seus contos, alguns inéditos em português, e algumas peças radiofônicas, além de textos híbridos.

A nova tradução do ensaio, realizada por Patrícia Lavelle e Georg Otte, é atenta às alterações e diferenças entre as versões alemã e francesa. Como a nota dos editores contextualiza e informa, a versão alemã foi escrita entre março e julho de 1936 para a revista “Orient und Ok zident”, na qual foi publicada em outubro do mesmo ano, e é provável que entre 1936 e 1939 Benjamin tenha trabalhado numa versão francesa para o mesmo ensaio, que não chegou a ser publicada, pois a revista a que se destinava o texto em francês (Europe) par ou de circular antes disso. A versão francesa seria então publicada apenas postumamente, em 1952, no “Mercure de France”.3 A escolha em traduzir “ Der Erzähler ” por “O contador de histórias” acompanha aspectos sobretudo da recepção francófona (com conteur), mas também da anglófona (com storyteller).4 Contudo, parece decisivo para a escolha da presente tradução, além da pertinência etimológica,5 o amparo biográfico: a partir do trecho de um bilhete escrito pelo próprio Benjamin em francês, em dezembro de 1939, e destinado ao filósofo alemão exilado como ele em Paris, Paul Ludwig Landsberg, que tinha consigo já a versão alemã. No bilhete, Benjamin diz, ao enviar uma cópia da versão em francês, o seguinte: “Voilà ‘le narrateur’ (mais il faudrait bien plutôt traduire: Le conteur)”. 6 Ou seja: “Eis ‘o narrador’ (mais seria preciso de preferência traduzir: O contador de histórias)”. 7 Se o próprio ensaísta em seu trabalho de tradução do alemão para o francês atesta que a palavra “ conteur ” expressa melhor ou com mais precisão aquilo que o substantivo alemão “ Erzähler ” significa no contexto do ensaio, a tradução para o português, uma língua neolatina assim como a francesa, dá crédito à intuição benjaminiana. De todo modo, não deixa de ser inusitada a relação entre o título traduzido (“ le narrateur ”) e o bilhete com a sugestão de tradução (“le conteur”), ambos assinados por Walter Benjamin, que parece ter duvidado de si mesmo após o trabalho da tradução. Mas o livro “A arte de contar histórias” não se restringe a apresentar uma nova tradução do clássico ensaio sobre o papel da arte tradicional de contar histórias, e Marcelo Backes soma-se a Lavelle e Otte no trabalho de tradução dos textos ficcionais. Este é dividido em quatro partes, que são acompanhadas de uma nota de apresentação da coleção escrita pelos editores Amon Pinho e Francisco Pinheiro Machado e de um posfácio assinado por Lavelle. A primeira parte, intitulada “Ensaio”, abriga a nova tradução do ensaio sobre o contador de histórias. Já a segunda parte, “Contos”, traz ao todo dezesseis contos escritos por Benjamin ao longo das décadas de 1920 e 1930 (com prevalência da produção na última década), em sua maioria inéditos em língua portuguesa. Na terceira parte, intitulada “O contador de histórias no rádio”, temos acesso a quatro peças radiofônicas escritas pelo autor e filósofo alemão que foram transmitidas durante a década de 1930, com exceção da peça “No minuto exato”, que teria sido publicada no Frankfurter Zeitung, em 6 de dezembro de 1934, sob o pseudônimo de Detlef Holz. A quarta e última parte do livro, de nome “Conto e crítica”, abriga quatro textos híbridos publicados em jornais. Uma tal divisão do livro poderia indicar um viés de leitura que parte da teoria sobre a arte de contar histórias para a sua aplicação em contos e peças, sugerindo para quem leia os textos ficcionais encontrar neles traços dos conceitos e reflexões que são apresentadas no ensaio de abertura. Ler assim o livro ora organizado e os escritos de Benjamin seria, melhor dizendo, não lê-lo, pois desconsidera a novidade que a leitura dos textos ficcionais benjaminianos solicita. Ao contrário, é possível ler essa proposta de organização como um caminho que vai da filosofia à literatura, de maneira a, por fim, trazer textos onde essa divisão mesmo já não faz sentido.

De tom marcadamente nostálgico e bastante crítico a ainda jovem modernidade técnica, o ensaio sobre o contador de histórias apresenta a figura arcaica, o que vale dizer aqui pré-moderna, do contador de histórias como a imagem que caracteriza um tipo de arte que carrega em sua própria forma a memória de uma organização social comunitária, em que a transmissão de experiências se organizava mediada pelo trabalho artesanal, era apreendida e transmitida a partir de um mestre e compartilhada por uma comunidade. Ou seja, a arte de contar histórias carregaria consigo, em sua forma oral (e encarnada nas figuras do ancião, do mestre ou do viajante estrangeiro), a lembrança e a potência de uma organização social pouco mediada pela técnica moderna, índice para Benjamin nesse ensaio de uma modernidade bárbara, que fragmentou, sobretudo no século XX, não só o trabalho e o processo produtivo com máquinas e linhas de produção, mas os próprios indivíduos em sua subjetividade e vida social nas grandes cidades e na experiência da Primeira Grande Guerra Mundial. Vale dizer que Benjamin também associa o declínio ou desaparecimento do contador de histórias ao surgimento de uma nova forma de arte, a do romance como gênero narrativo, que tem em “Dom Quixote” se u marco, mas que irá se desenvolver sobretudo a partir do século XVIII. A invenção da imprensa produz ainda, depois do romance, a informação, que desassocia a narrativa e dispensa o contador porque explica tudo. O contador de histórias seria aquele capaz de encontrar na riqueza da experiência transmissível a matéria de sua arte e preservar da experiência sempre algum mistério que não é totalmente dito. Contudo, Lavelle ressalta, apesar do tom nostálgico pelo diagnóstico decaído do teor da experiência media da pela técnica Benjamin, “ao evocar [com a figura do contador de histórias] o arcaísmo da narrativa que se inscreve na tradição oral […] tem o projeto de construir uma nova forma, profundamente moderna”. 8 Para a filósofa e tradutora, Benjamin não tematiza a narração tradicional apenas teoricamente (como o público brasileiro até agora tinha acesso pelos ensaios e textos críticos sobre o tema), mas também através de uma produção ficcional de contos e peças radiofônicas nos quais “as estratégias tradicionais da arte de contar histórias são mobilizadas, discutidas e ironizadas”.9 Tais procedimentos são bastante explícitos, por exemplo, em contos como “A sebe de cactos” e “O segundo eu”, em que certo efeito de choque causado pela evocação nostálgica do contado r de histórias e sua arte acontece concomitantemente à denúncia dessa mesma nostalgia através do recurso à ironia do contista moderno no modo como este se utiliza das formas narrativas tradicionais, às quais claramente está interditada a ele uma adesão substancial.10 Em “A sebe dos cactos”, por exemplo, vemos o desenrolar de uma história contada vinte anos depois de ocorrida: a do primeiro estrangeiro que chegou à ilha de Ibiza, o irlandês O’Brien. O estrangeiro, um homem experiente e viajado, antes de chegara Ibiza vivera alguns anos de sua juventude na África, e é a partir dessa experiência em outro continente e de suas consequências que o conto se desenvolve. Circulava entre os habitantes de Ibiza a história de que O’Brien havia perdido para um amigo sua única e valiosa propriedade: uma coleção de máscaras negras que havia adquirido com nativos em seus anos pelo continente africano. O amigo usurpador teria morrido em um incêndio de navio, levando consigo para sempre a tal coleção. A história era famosa entre todos os moradores da ilha, porém ninguém sabia ao certo suas fontes. Certo dia, O’Brien convidou o narrador para uma refeição e, depois de concluída a refeição, o estrangeiro decidiu-se por mostrar algo ao narrador: sua coleção de máscaras negras, exatamente a mesma que havia naufragado, segundo era sabido por todos, com o amigo desleal. O narrador nos descreve assim a cena de encontro com as máscaras:

Mas eis que ali estavam penduradas, vinte ou trinta peças, no quarto vazio, sobre parede s brancas. Eram máscaras de expressões grotescas, que revelavam sobretudo uma severidade levada ao cômico, uma recusa completamente inexorável de tudo que era desmedido. Os lábios superiores abertos, as estrias abobadadas que haviam se tornado a fenda das pálpebras e sobrancelhas pareciam expressar algo como asco infinito contra aquele que se aproximava, até mesmo contra tudo o que se aproxima, enquanto os cimos empilhados dos adorno na testa e os reforços das mechas de cabelos entrançadas se destacavam como macas que anunciavam os direitos de um poder estranho sobre aquelas feições. Para qualquer dessas máscaras que se olhasse, em lugar nenhum sua boca parecia destinada, como quer que fosse, a emitir sons; os lábios grossos e entreabertos, ou então bem cerrados, eram cancelas instaladas antes ou depois da vida, como os lábios dos embriões ou dos mortos. 11

Após a descrição, O’Brien conta ao narrador como reencontrou cada uma daquelas peças. As janelas de sua casa davam para uma sebe de cactos enorme e bastante velha e, nu m dia de lua cheia, ao tentar dormir, sua cabeça foi tomada por lembranças e pela luz da lua, o que fez com que visse, como uma aparição, penduradas na sebe de cactos, as imagens das máscaras que havia perdido. Como que tomado pelo sono e pela visão, passo u dias inteiros esculpindo as máscaras que via, e assim produziu todas aquelas que estavam na sala e que o narrador podia ver também. Ou seja, o estrangeiro havia rememorado as máscaras e, a partir de seu trabalho, reproduzido artesanalmente cada uma delas em madeira. Depois disso nunca mais o narrador do conto e o estrangeiro se viram, pois logo em seguida O’Brien morreu. Anos mais tarde, diferente da visão que fizera O’Brien esculpir uma a uma as máscaras perdidas, o que faz o narrador do conto rememorar uma tal história é ter se deparado, certo dia, com três máscaras negras numa vitrine de um comerciante de arte em Paris. O conto termina assim: “Posso”, disse eu, voltando-me para o diretor da casa, “parabenizá-lo de coração por essa aquisição incrivelmente bela?” “Vejo com prazer”, foi a resposta, “que o senhor sabe honrar a qualidade! Vejo também que o senhor é um conhecedor! As máscaras que o senhor com razão admira não são mais do que uma pequena amostra da grande coleção cuja exposição estamos preparando no momento!” “E eu poderia pensar, meu senhor, que essas máscaras certamente inspirariam nossos jovens artistas a fazer suas próprias tentativas interessantes.” “É o que eu espero, inclusive!… Aliás, se o senhor se interessar mais de perto pelo assunto, posso fazer com que cheguem até o senhor, do meu escritório, os pareceres de nossos maiores conhecedores de Haia e de Londres. O senhor haverá de ver que se trata de objetos de centenas de anos. De dois deles eu diria até que de milhares de anos.” “Ler esses pareceres de fato me interessaria muito! Eu poderia perguntar a quem pertence essa coleção?” “Ela pertence ao espólio de um irlandês. O’Brien. O senhor com certeza jamais ouviu seu nome. Ele viveu e morreu nas Ilhas Baleares.” 12 Aquele que escreve agora o conto é alguém que anda pelas ruas e galerias de uma grande cidade, a Paris do começo do século XX, e que tem a capacidade de, mesmo em meio à atenção difusa e distraída que a percepção nas grandes cidades produz, consegue transformar o choque de um encontro furtivo na rememoração de uma experiência.

O filósofo italiano Giorgio Agamben pensa, no ensaio “O que é o contemporâneo?”, que uma tal questão pode ser caracterizada por aquilo ou aquele que “mantém fixo o olhar no seu tempo, para nele perceber não as luzes, mas o escuro”, 13 e que vê esse escuro do seu tempo “como algo que lhe concerne e não cessa de interpretá-lo”.14Pensando o contemporâneo como intempestividade – retomando assim a proposta nietzschiana presente nas Considerações Intempestivas –, a exigência de “atualidade” em relação ao presente é pensada não nos termos de uma sincronicidade, mas sim de uma desencontro com este. “Pertence verdadeiramente ao seu tempo, é verdadeiramente contemporâneo, aquele que não coincide perfeitamente com este, nem está adequado às suas pretensões”. 15 Essa não-coincidência entre tempo e pertencimento não significa que o homem contemporâneo, nos termos agambenianos, seja um nostálgico. Pelo contrário, um homem pode não concordar com os rumos de seu tempo e saber que lhe pertence irrevogavelmente, sendo o caráter contemporâneo pensado aqui como uma singular relação com o próprio tempo. Esse parece ser o caso dos escritos teóricos e ficcionais de Benjamin presentes no livro “A arte de contar histórias”. Seus contos, como podemos ler na cena que encerra “A sebe de cactos”, abordam ao mesmo tempo em que parecem promover uma relação entre o arcaico e o moderno que talvez seja da ordem de “um compromisso secreto”, como nos diz Agamben, “e não tanto porque as formas mais arcaicas parecem exercitar sobre o presente um fascínio particular quanto porque a chave do moderno está escondida no imemorial e no pré-histórico”. 16 A reelaboração dos objetos rituais africanos na pintura cubista de Pablo Picasso, marcada então pelo que veio a se chamar primitivismo, encontra afinidades com a fragmentação dos corpos mutilados pelas máquinas de guerra, frutos da civilização técnica. As vanguardas da primeira metade do século XX irão produzir, assim, uma nova forma de arte que circula em galerias mundialmente, e que pode ter sido exposta pela primeira vez em alguma galeria parisiense como aquela que o narrador de “A sebe de cactos” passeia. Aprendemos também com o contista Walter Benjamin a pensar não a partir de dicotomias, mas sim por imagens dialéticas: a modernidade técnica e sua relação tensa com a tradição como aquilo que pode condenar e salvar o destino dos homens e das civilizações.

Notas

1 Sobre a recepção de Benjamin no Brasil Cf., por exemplo, PRESSLER, Günter Karl. Benjamin, Brasil. A recepção de Walter Benjamin, de 1960 a 2005. Um estudo sobre a formação da intelectualidade brasileira. São Paulo: AnnaBlume, 2006.

2 BENJAMIN, W. “O narrador. Considerações sobre a obra de Nicolai Leskov”. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Trad. Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1994. (Obras escolhidas, vol. 1).

3 Cf. a nota editorial presente em BENJAMIN, Walter. A arte de contar histórias. São Paulo: Hedra, 2018, p. 19.

4 Cf. PINHO, A.; Pinho MACHADO, F. P. “Sobre a Coleção Walter Benjamin” In: BENJAMIN, Walter. A arte de contar histórias. São Paulo: Hedra, 2018, p. 13.

5 O verbo zählen em alemão significa “contar”, no sentido de “fazer conta”, “enumerar”, e há uma gama de termos ligados ao verbo que engendram um campo semântico próprio ao universo contabilístico. Em relação ao mesmo campo semântico do verbo zählen deriva o verbo erzhälen, que também significa contar, contudo, por meio de palavras, no sentido de relatar um enredo ou uma história. De onde, por fim o sentido de “Erzähler” como contador de histórias.

6 Conforme indicação da nota dos editores “Sobre a Coleção Walter Benjamin”, Cf. BENJAMIN, Walter. Gesammelte Briefe, vol. VI. Edição de Christoph Gödde e Henri Lonitz. Frankfurt a. M.: Suhrkamp, 2000, p. 367.

7 Cf. PINHO, A.; MACHADO, F. P. Op. cit., p. 13

8 LAVELLE, Patrícia. “O crítico e o conta dor de histórias” In: BENJAMIN, Walter. Op. cit., p. 267.

9 Id.

10 Ver LUNAY, M a r c. “ P r e f a c e ”. I n: B E NJA M I N, Walter. N’oublie pas le meilleur et autres histoires et récits. Apud LAVELLE, Patrícia. Op. cit., p. 267.

11 BENJAMIN, Walter. “A sebe dos cactos”. In: A arte de contar histórias. Op. cit., pp. 85-86.

12 Ibid, pp. 89-90.

13 AGAMBEN, Giorgio. O que é o contemporâneo? e outros ensaios. Trad. Vinícius Nicastro Honesko. Chapecó: Argos, 2009, p. 62.

14 Ibid., p. 64.

15 Ibid., pp. 58-59.

16 Ibid., p. 70.

Referências

AGAMBEN, Giorgio. O que é o contemporâneo? e outros ensaios. Trad. Vinícius Nicastro Honesko. Chapecó: Argos, 2009, p. 57.

BENJAMIN, Walter. A arte de contar histórias. Org. Patrícia Lavelle. Trad. George Otte, Marcelo Backes e Patrícia Lavelle. São Paulo: Hedra, 2018.

__________. Gesammelte Briefe, vol. VI. Edição de Christoph Gö dde e Henri Lonitz. Frankfurt a. M.: Suhrkamp, 2000.

__________. N’oublie pas le meilleur et autres histoires et récits. Trad. Marc de Launay. Paris: L’Herne, 2012.

PRESSLER, Günter Karl. Benjamin, Brasil. A recepção de Walter Benjamin, de 1960 a 2005. Um estudo sobre a formação da intelectualidade brasileira. São Paulo: AnnaBlume, 2006.

Jessica Di Chiara-Possui Graduação (2015) e Mestrado (2018) em Filosofia pela Universidade Federal Fluminense e atualmente é doutoranda em Filosofia pela PUC-Rio. É autora de artigos publicados em livros e revistas acadêmicas, estudando a relação entre pensamento e forma sobretudo a partir da filosofia de Theodor W. Adorno. Também atua como curadora no coletivo A MESA, que promove exposições em galeria própria no Morro da Conceição, Rio de Janeiro. Integrante do grupo de pesquisa Arte, Autonomia e Política, da PUC-Rio. E-mail: [email protected]

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Narradoras del Caribe hispano – CENTENO AÑESES (REF)

CENTENO AÑESES, Carmen. Narradoras del Caribe hispano. Río Piedras, Puerto Rico: Publicaciones Gaviota, 2018. 134 p. Resenha de: ORSANIC, Lúcia. Voces feministas y disidentes en el Caribe hispano. Revista Estududos Feministas, Florianópolis, v.27, n.2, 2019.

Los aportes intelectuales de Carmen Centeno Añeses han sido muy relevantes para la inserción de Puerto Rico en el mapa de la crítica literaria. Su fluidez tanto en el campo académico como de divulgación científica queda demostrada por una serie de publicaciones en terrenos diversos, que van desde libros de carácter académico y artículos en revistas especializadas hasta trabajos de índole ensayístico, mayormente publicados en periódicos puertorriqueños y cubanos. Pese a la variedad de los temas que ha abarcado a lo largo de su vasta trayectoria, la escritura de Centeno Añeses es coherente en cuanto a sus intereses: los derechos humanos en general y los derechos de las mujeres en particular, la descolonización de Puerto Rico, la importancia del ensayo puertorriqueño en materia de independencia, el lugar de las mujeres en la tradición ensayística local, los discursos patriarcales que han dominado la historia de la literatura y la crítica literaria, la educación, entre otros temas.

Su más reciente libro, Narradoras del Caribe hispano, dialoga en cierta medida con una publicación inmediatamente anterior, Intelectuales y ensayo (2017). En este sentido, Narradoras… podría ser visto como una continuación de su labor interpretativa desde una perspectiva feminista. Si entre los intelectuales que trataba en su obra anterior, Centeno Añeses había hecho hincapié en la importancia del ensayo femenino y feminista en Puerto Rico – a través de figuras como Nilita Vientós Gascón, Áurea María Sotomayor y Marta Ponte Alsina -, ahora se adentra en el análisis narratológico de una serie de escritoras caribeñas, extendiendo el hilo feminista que las (nos) une y reúne en torno a una serie de prácticas contrahegemónicas. Y aunque no aparece explícitamente el término sororidad en las páginas de las Narradoras…, Centeno Añeses deja entrever que eso es lo que la mueve, dando lugar a una polifonía femenina pero sobre todo feminista.

Como bien señala la autora, “el auge de la escritura femenina se ha producido en las últimas décadas como fruto del interés de diversos sectores sociales y el surgimiento de variados actantes globales” (Carmen CENTENO AÑESES, 2018, p. 9). Así, las temáticas abordadas por las escritoras se han ido abriendo camino paulatinamente y ya no se limitan al mundo doméstico; sino que incursionan con paso firme en la política, en la memoria y en la historia, llevando a cabo la subversión de una tradición narratológica anclada en la dominación patriarcal. Centeno Añeses pretende romper este sesgo, con una mirada lúcida que repasa a aquellos que fueron célebres en el mundo literario, quienes fueron objeto de lectura y de análisis: son nombres masculinos y masculina es también la crítica que se ha hecho en torno a ellos. Esto no significa que no haya habido mujeres escribiendo a la par pero no fueron ellas quienes recibieron los metadiscursos más “relevantes y estridentes” (CENTENO AÑESES, 2018, p. 10); esto estaba reservado para el mundo de los hombres. Frente a los renombrados Alejo Carpentier, Gabriel García Márquez, Carlos Fuentes y Mario Vargas Llosa; la autora trae a las contemporáneas Ángeles Mastretta, Laura Esquivel, Isabel Allende y Ana Lydia Vega. Sienta a la mesa pesos pesados como Judith Butler y Luce Irigaray, y continúa con Cristina Rivera Garza y Rosa Beltrán. Reconoce que las escritoras caribeñas pasan desapercibidas en el canon; con excepción de nombres como Rosario Ferré, Julia Álvarez y Josefina Báez. Las latinoamericanas Gioconda Belli, Cristina Peri Rossi y Diamela Eltit mostraban deseos de desprenderse de las nociones androcéntricas, que las oprimían con la fuerza de un corset. Y en Puerto Rico, al lado de las ya mencionadas, hay que añadir las voces de Olga Nolla, Nemir Mattos Cintrón y Liliana Ramos Collado como los primeros intentos de deconstrucción narrativa del papel tradicionalmente asignado a la mujer. Asimismo, las cubanas Luisa Campuzano y Zayda Capote han hecho aportes en materia de crítica feminista, así como también destacado los nombres de sus compatriotas: Aida Bahr, Mylene Fernández Pintado, Reina María Rodríguez, Laidi Fernández, Lourdes González y Ena Lucía Portela. Finalmente, entre las narradoras dominicanas, la autora señala a Ángela Hernández, Carmen Imbert Brugal, Ligia Minaya y Rita Indiana Hernández.

A la luz de este historial, Centeno Añeses analiza el tema de la memoria y su vínculo con la literatura en textos de las puertorriqueñas Magalí García Ramis, Marta Aponte Alsina y Mayra Montero. Esta última también es estudiada por la autora a propósito de la negritud y la no occidentalidad. La escritora ruso-cubana Anna Lidia Vega y la puertorriqueña Ana María Fuster Lavin constituyen el corpus para analizar la sexualidad femenina, la violencia y la locura. La cubana Lourdes de Armas interesa por su abordaje del marxismo y la poesía, en el contexto matrimonial de la protagonista. Luego, Mayra Santos Febre es retomada por Centeno Añeses, a propósito del giro espacial, la cibercultura y el tiempo; y Yolanda Arroyo Pizarro, desde la sexualidad, la ecología y la política. Finalmente, la santería, la transexualidad y el ecologismo de Rita Indiana culminan el rosario de voces disidentes que integran las Narradoras…

De los dos párrafos anteriores se comprende que leer la obra de Centeno Añeses supone un verdadero catálogo de las voces femeninas disidentes. Exige hacer un repaso concienzudo de la historia de la literatura latinoamericana y caribeña, tomar nota de todos y cada uno de los nombres propios que aparecen relevados y leer. Antes que nada, leer. Traspasar los umbrales en los que nos ha encerrado la universidad, la academia y hasta el propio mercado editorial para conectarnos con otros relatos, con otras voces, con otras formas de narrar. Centeno Añeses se revela como una lectora voraz y consciente, voraz y crítica, voraz y contrahegemónica. La misma voracidad que durante siglos pesó en la mujer de forma negativa, y la colocó en el lugar arquetípico de la lujuria por parte de la iglesia, es ahora la que hay que recuperar. Mujeres peligrosas son las que leen, más aún las que escriben. Centeno Añeses encarna las dos: lee vorazmente para escribir con la misma voracidad. Y nos tiende el hilo para conectar a unas mujeres con otras – las que leen y las que escriben -, a fin de recuperar la hermandad femenina de otros tiempos, resguardada en los aquelarres. Encendamos otra vez el fuego. Somos muchas.

Referências

CENTENO AÑESES, Carmen. Intelectuales y ensayo. San Juan: Publicaciones Gaviota, 2017. [ Links ]

CENTENO AÑESES, Carmen. Narradoras del Caribe hispano. Río Piedras, Puerto Rico: Publicaciones Gaviota, 2018. [ Links ]

Lucía Orsanic – Doctora en Letras por la Universidad Católica Argentina, donde se desempeñó como docente e investigadora con Dedicación Especial, en las categorías Junior y Senior, para el Departamento de Letras, entre 2009-2017. Posee un Máster en Estudios Medievales Hispánicos por la Universidad Autónoma de Madrid, donde obtuvo la Beca con cargo al Fondo Social de Estudiantes de la Universidad Autónoma de Madrid. Fue becaria de la Fundación Carolina en la Escuela de Lexicografía Hispánica de la Real Academia Española, en Madrid. Ha publicado diversos artículos académicos en revistas especializadas, particularmente a propósito de la teratología y la zoología literarias; además del libro La mujer-serpiente en los libros de caballerías castellanos. Forma y arquetipo de lo monstruoso femenino (Madrid, La Ergástula, 2014); y Un cuento para Irupé: El león sin melena (Buenos Aires, Casa de Gatos, 2016). Es miembro fundador y editora en Ediciones del Flamboyán (San Juan, Puerto Rico). E-mail: [email protected]

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