SAND, Shomo. The Invention of the Jewish People. Londres: Verso, 2009. 344 p. Resenha de: FUNARI, Pedro Paulo Abreu. A invenção do povo Judeu: Estudo sobre a construção moderna da nacionalidade.  Diálogos, v. 15, n. 1, p. 233-235, 2011.

Shomo Sand é professor de História Contemporânea na Universidade de Tel Aviv, Israel, autor deste livro, grande best-seller na sua versão original em hebraico, ganhador do prêmio Aujourd’hui, na França e cuja edição em inglês também foi muito difundida, tendo merecido numerosas resenhas, por nomes como Eric Hobsbawm e Tony Judt, entre outros. Sand destacou-se, nas últimas décadas, pelo estudo de temas centrais para entender o mundo contemporâneo, em particular, o papel dos intelectuais na formulação das identidades nacionais, questão da mais alta relevância para compreender a dinâmica da modernidade.

Nesta obra, não hesita as controvérsias, para tratar da invenção de uma identidade, a judaica, cujas características e contradições talvez parecessem por demais complexas e difíceis para outros estudiosos menos arrojados. Na esteira de Eric Hobsbawm, de Benedict Anderson e de outros pioneiros observadores da construção das identidades nacionais modernas, Sand procura mostrar que também a identidade judaica foi forjada em tempos modernos, tendo em vista, como nos outros países, a criar passados imaginários que substanciam relações políticas, econômicas, sociais e culturais da modernidade.

O volume inicia-se com um capítulo introdutório (p. 1-22) sobre os fardos da memória (burdens of memory), quando são apresentadas trajetórias de diversos indivíduos, cujas vidas se entrelaçam, às voltas com as contradições e conflitos resultantes dos embates entre escolhas identitárias individuais e as imposições nacionais. A partir desses relatos, o autor apresenta sua posição epistemológica e política, no item “memórias construídas”, ao refutar a noção de identidade essencialista e propugnar, de forma explícita, a diversidade e a democracia como princípios para o estado nacional, para qualquer estado moderno. Essa preocupação com a apresentação da fundamentação teórica e metodológica continua e aprofunda-se no primeiro capítulo, “forjando nações: soberania e equidade”, um estudo detalhado da literatura sobre a invenção dos conceitos que sedimentaram a criação da nação moderna: povo, um coletivo homogêneo, a nação, o mito étnico, tudo isso resultado da atuação da intelectualidade, tomada como príncipe (sensu Antonio Gramsci). Este capítulo, sem dúvida, constitui o cerne da obra, poi argumenta, de forma convincente e bem fundamentada, como não havia nada de natural, pré-existente ou inato na criação da nação. Sand ressalta o papel da educação primária nesse processo de invenção e contrasta os variados modelos, com destaque para as ideologias nacionalistas étnicas e autoritárias do que viriam a ser Alemanha, Polônia e Rússia. Este capítulo (pp. 23-63) vale por todo o volume e servirá de referência para os estudiosos do estado nacional em qualquer contexto histórico, cultural e geográfico.

A partir dessas bases epistemológicas, seguem-se 260 páginas de análise do nacionalismo judaico (p. 64-325), com um recuo ao início do século XIX e aos usos que se fez da literatura antiga e, em particular, de Flávio Josefo, não por acaso um autor judeu, mas de língua grega, inserido na prestigiosa linhagem da historiografia helênica, no momento mesmo que surgia a História com Leopold von Ranke, na década de 1820.

O Antigo Testamento era, nessa altura, um ator coadjuvante. Com o passar das décadas e com o crescimento do essencialismo e do racismo, ambos considerados à época como científicos, surgiram sentimentos e posições contraditórias entre os judeus que se dedicavam ao tema da nação judaica. Nas terras de língua germânica, onde mais prosperavam os intelectuais judeus, o anti-semitismo acentuava-se, e duas reações opostas se faziam presentes na nascente historiografia nacional judaica: a afirmação da especificidade e da diferença, de um lado; ou a valorização da nacionalidade circunstante, mesmo nas áreas de dialetos alemães, seguindo o modelo da emancipação francesa dos judeus e a constituição, em termos ideais, ao menos, de uma cidadania que transcendia a religião ou origem étnica. Em meio ao anti-semitismo no âmbito germânico, historiadores do porte de Theodor Mommsen, na década de 1880, assinavam manifestos contra a discriminação dos judeus.

As condições modernas levaram, muitas vezes, à substituição do rabino pelo historiador como provedor de modelos identitários, com a criação de conceitos que pudessem fazer frente, em primeiro lugar, ao racismo e às ideologias nacionalistas exclusivistas em muitos rincões da Europa Oriental (ou melhor, a leste do Reno), nas décadas conturbadas pelo nacionalismo. O conceito de exílio (galut, em hebraico) e o papel da Arqueologia nesse processo merecem atenção destacada, ainda que Sand considere que mesmo a produção arqueológica mais crítica e recente (e.g. Finkelstein e Silberman) padeça de uma visão anacrônica, ao proporem que o nação judaica foi inventada no reinado de Josias…pois não havia nação na antiguidade! Sand debate diversos temas, como o proselitismo judaico, tema controverso, mas central para o argumento do autor, pois ele considera que sempre houve conversões individuais e em massa às religiosidades judaicas. Tementes a Deus, simpatizantes, conversos, são abordados, em detalhe, tanto na Antiguidade, como nos séculos posteriores. Talvez o argumento mais controverso de Sand refira-se às teorias que foram desenvolvidas no interior da historiografia judaica que identifica as populações judaicas européias como conversos, enquanto os palestinos foram interpretados como os descendentes dos antigos judeus, que ali permaneceram e se converteram ao cristianismo e ao islamismo. O longo capítulo conclusivo (p. 250-313), Sand despe-se do manto diáfano da neutralidade historiográfica e volta-se para o presente e o futuro no Estado de Israel, em defesa de uma nação que rejeite identidades étnicas exclusivistas. Propugna, pois, uma nação aberta à diversidade e à inclusão, em um contexto nem sempre favorável a tais sentimentos acolhedores.

O livro de Sand representa um esforço sério e bem fundamentado de analisar um tema – a invenção da nação – de relevância universal, aplicado a um estudo de caso dos mais complexos e intricados. Nem sempre se precisa estar de acordo com as propostas interpretativas de Sand e o próprio autor não as apresenta, no geral, como verdades inefáveis, mas como possibilidades interpretativas a serem exploradas ou reconhecidas como válidas. Obra de referência, leitura obrigatória para os que se dedicam ao estudo do estado nacional moderno em qualquer contexto, merece ser lida com atenção e proveito.

Pedro Paulo A. Funari –  Professor do Programa de Pós-Graduação em História e coordenador do Centro de Estudos Avançados da Unicamp, Campinas/SP.

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