ASSIS, Arthur Alfaix. What is History for? Johann Gustav Droysen and the functions of historiography. New York: Oxford: Berghahn Books, 2014. Resenha de: SILVA, Walkiria Oliveira. Revista Brasileira de História. São Paulo, v.35, no.69, JAN./JUN. 2015.

A publicação de What is History for? Johann Gustav Droysen and the functions of historiography, de Arthur Assis, apresenta uma proveitosa discussão sobre a historiografia de Johann Gustav Droysen (1808-1884), importante historiador alemão do século XIX. Com base na análise da historiografia de Droysen, o autor oferece ao leitor um amplo panorama da historiografia alemã durante o século XIX, centrando-se nos debates sobre o historicismo, paradigma dominante no conhecimento histórico alemão oitocentista, e na reformulação do valor pragmático para a historiografia. Nesse sentido, a obra de Arthur Assis não se dirige somente aos especialistas e pesquisadores do pensamento de Droysen, mas a todos os estudiosos de historiografia alemã e geral, história intelectual e mesmo historiografia política, uma vez que destaca as influências políticas do pensamento daquele autor.

Arthur Assis é professor do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade de Brasília, onde se dedica às áreas de teoria e metodologia da história. Sua obra configura um aprofundamento das questões às quais se dedicou durante sua pesquisa de doutorado, defendida em 2009, na Universidade de Witten, com a orientação do professor Jörn Rüsen. A influência do pensamento de Rüsen não passa despercebida para um leitor familiarizado com o seu pensamento. Ao longo da leitura, o diálogo de Assis com o pensamento de Rüsen e Koselleck torna-se evidente. De Rüsen, também um estudioso do pensamento de Droysen, percebe-se o diálogo com sua teoria da história, da importância do conhecimento histórico para o desenvolvimento intersubjetivo da nossa capacidade de orientação no presente, tendo em vista preencher nossas carências de orientação. A importância de Koselleck aparece na sua compreensão do moderno conceito de história a partir da transformação da experiência do tempo aliada à gênese de um novo leque de conceitos sociopolíticos que emergiram diante de um conjunto de transformações a partir da segunda metade do século XVIII. Embora Assis possua outros referenciais teóricos, o diálogo com Rüsen e Koselleck é significativo e enriquecedor.

Organizado em quatro capítulos, o livro de Arthur Assis estrutura-se em torno de um objetivo geral o qual corresponde ao seu questionamento fundamental: mediante a derrocada da historiografia tradicional exemplar e a ascensão do conceito moderno de história, o autor busca analisar como a função pragmática da história é redefinida nas obras de Droysen. Nesse sentido, Arthur Assis objetiva compreender o fundamento epistemológico que une a concepção de historiografia moderna a seu valor tradicional. O objetivo do autor é evidente: compreender o pensamento de Droysen tendo em vista a reformulação e ressignificação da função pragmática da ciência histórica.

Aspecto muito notável da obra de Assis é articular a teoria da história de Droysen com suas preferências políticas. Como afirma o próprio autor na introdução do livro, essa articulação entre a teoria histórica de Droysen e a política é uma lacuna muito presente nos estudos sobre o historiador alemão. Ao analisar a reformulação do caráter pragmático da história no pensamento de Droysen, o autor buscou com afinco entender as contradições e tensões entre o pensamento histórico de Droysen e suas tendências políticas diante da turbulenta realidade política europeia, principalmente a alemã, ao decorrer do século XIX.

O primeiro capítulo, “Functions of Historiography until the mid-19 century”, cumpre um papel introdutório, porém não menos importante, para a discussão posterior sobre a reformulação do valor pragmático da historiografia. Partindo do conceito de “teoria exemplar da história” de George Nadel, o autor delimita o que entende por historiografia tradicional exemplar. Nesse sentido, a mais importante tarefa dos historiadores era “localizar no passado modelos atemporais de ação para serem imediatamente aplicados ou evitados no presente” (p.21).1 Com base nesse conceito, Assis constrói uma vigorosa análise das formas e funções que a exemplaridade assumiu desde a historiografia da Antiguidade, passando por autores como Políbio e Cícero, até o surgimento da concepção moderna de história na segunda metade do século XVIII, estendendo sua análise até o século XIX tardio. Chega a duas conclusões: a primeira diz respeito à importância inquestionável da função exemplar para o pensamento histórico ocidental, e a segunda afirma que, até o final do século XVIII, vários autores buscaram justificativas que poderiam comprovar ou substituir a teoria exemplar da história (p.35-36).

A partir da ascensão do conceito moderno de história e de uma nova percepção de tempo – a temporalização de Koselleck – a historiografia tradicional exemplar passa a ser vista como um problema para o aprendizado histórico, e novos caminhos para a revalorização do valor pragmático da historiografia são propostos. No segundo capítulo da obra, “The Theoretical Design of a New Justification”, Arthur Assis explica o conceito de “pensar historicamente” (“historical thinking”) de Droysen, base do método histórico e da reformulação da função pragmática da historiografia presente no pensamento do historiador alemão. O pensar historicamente, ou seja, a capacidade subjetiva de conectar em perspectiva o presente e o passado cognoscível, constitui a base da ciência histórica e delimita sua função (p.63). Nesse ponto, o autor enfatiza o efeito pragmático e o viés pedagógico da história em Droysen, pois o valor social da historiografia estaria em sua capacidade de despertar nos leitores o senso para a realidade (p.77). Aqui, o pensamento de Droysen é influenciado pelos ideais do neo-humanista Wilhelm von Humboldt para o qual uma das funções do conhecimento histórico era despertar o senso para a realidade, ou, em outras palavras, a capacidade para perceber as forças, as ideias que se encontram para além dos eventos históricos. Assis sublinha o caráter hermenêutico do método histórico de Droysen, pois junto à pesquisa factual havia uma ligação entre o passado, o presente e o próprio investigador. Droysen, como bem destaca o autor, foi um dos primeiros intelectuais a utilizar o conceito hermenêutico de compreensão como a principal especificidade metódica das ciências humanas.

Uma vez apresentada a função do conhecimento histórico em Droysen mediante a ressignificação do valor pragmático da história a partir da capacidade subjetiva do pensar historicamente, Arthur Assis inicia a segunda parte de sua obra. Nos capítulos 3 e 4 o autor procura atrelar o pensamento histórico de Droysen, tal como apresentado no capítulo 2, ao entendimento que o historiador alemão construiu do seu próprio presente. No capítulo 3, “Historical Thinking and the Genealogy of the Present”, Assis traça as aproximações entre o pensamento de Droysen e a filosofia da história de Hegel, ressaltando a importância do pensamento hegeliano para a concepção de história de Droysen. Assis afirma que para Droysen, assim como para Hegel e outros intelectuais alemães do século XIX, a ideia do processo histórico como a conquista da ideia de liberdade era fundamental. Para Droysen, interpretar a gênese do presente significava aplicar o seu método histórico – o pensar historicamente – para compreender o desenvolvimento da ideia de liberdade desde seu início até o tempo presente do historiador (p.104). O autor apresenta ainda o entendimento de Droysen sobre os processos políticos cujas consequências políticas haviam transformado o quadro político europeu, como a Revolução Francesa e a Guerra Franco-Prussiana. A compreensão de Droysen da genealogia de seu próprio tempo é explorada por Assis atenciosamente. O autor analisa a compreensão de Droysen sobre as tendências econômicas políticas e intelectuais de seu tempo, como o materialismo, o racionalismo, o positivismo e o capitalismo.

O último capítulo, “The Politics of Historical Thinking and the Limits of the New Function”, visa preencher a lacuna apontada por Assis em sua introdução, ou seja, apontar as tensões e convergências entre as preferências políticas de Droysen e a sua teoria da história. Segundo Assis, a partir de 1840 Droysen se preocupa consideravelmente com a formação e as transformações do Estado da Prússia, e as fronteiras entre a sua teoria da história e uma produção historiográfica motivada por suas preferências políticas começam a se confundir. A posição liberal-nacional de Droysen e sua posição congruente com a escola histórica do direito de Savigny são apresentadas e analisadas por Assis, que observa a íntima relação entre o pensar historicamente e o comprometimento político de Droysen.

Arthur Assis alcança o propósito fundamental de seu livro: analisar a proposta de Droysen à teoria exemplar da história, ou seja, o pensar historicamente. Ao apresentar as implicações políticas do pensamento de Droysen, o autor ressalta que toda teoria é sempre acompanhada das experiências históricas do próprio intelectual. Em tempos nos quais as discussões sobre a incerteza da cientificidade da história mediante análises pós-modernas crescem significativamente, o livro de Arthur Assis cumpre importante papel ao refletir e induzir o questionamento sobre as formas e as funções que o conhecimento histórico assume frente às experiências e transformações do tempo presente. Ao final da leitura, resta-nos questionar: o conhecimento histórico ainda nos ensina a pensar historicamente?

Walkiria Oliveira Silva – Doutoranda, Programa de Pós-Graduação em História, Universidade de Brasília (UnB). Brasília, DF, Brasil. [email protected].

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