What is history for? Johann Gustav Droysen and the functions of historiography – ASSIS (RH-USP)

ASSIS, Arthur Alfaix. What is history for? Johann Gustav Droysen and the functions of historiography, Oxford: Berghahn Books, 2014. Resenha de: LOBO, Ana Lucia Mandacaru. A função da historiografia na obra de Droysen. Revista de História (São Paulo) n.176 São Paulo  2017.

What is history for? Johann Gustav Droysen and the functions of historiography, escrito pelo historiador Arthur Alfaix Assis, é fruto de seu trabalho de doutoramento na Universidade de Witten/Herdecke, na Alemanha. O autor por ele pesquisado, Johann Gustav Bernhard Droysen, um dos grandes nomes da historiografia alemã do século XIX, nasceu no dia 6 de julho de 1808, na pequena vila de Treptow, na Pomerânia, e faleceu em 1884, em Berlim. Criador da Escola Prussiana, estabeleceu referências metodológicas, teóricas e estruturais para a pesquisa em história. Em princípio, com algum respaldo na teoria hegeliana, posteriormente, diferenciando-se claramente desta, submetendo todo material das fontes a exames críticos e filológicos, no senso estrito dos termos. Dentre suas obras, destacam-se História de Alexandre, o Grande, publicada em 1833, que veio posteriormente a fazer parte do livro História do Helenismo, composto por dois volumes, tendo sido o primeiro deles publicado em 1836; História da Política Prussiana, composta por catorze volumes, publicados entre 1855 e 1886, e finalmente, Historik, livro em que apresenta os parâmetros e sistematização da pesquisa e do estudo históricos, e posteriormente, Grundriss der Historik, um resumo explicativo do trabalho anterior de imensa importância, no qual se expõem todos os níveis de procedimentos metodológicos da história enquanto disciplina e enquanto ciência, apresentando de maneira ordenada as diferentes formas de operação historiográfica, a saber: a heurística – Heuristik; a crítica das fontes – Kritik; a interpretação – Interpretation; e a exposição histórica – Topik ou Darstellung. Forma-se, assim, uma valiosa articulação entre metodologia e sistematização histórica, introduzindo no meio científico a ideia da função antropológica da história, excluindo definitivamente qualquer relação com aspectos teológicos.

Neste livro, A. A. Assis parte do princípio de que as formulações sobre teoria da história elaboradas por Johann Gustav Droysen possuem papel relevante no percurso intelectual que virá a culminar com a crítica histórica. Em pleno início do século XIX, suas ideias poderiam ser consideradas não apenas inovadoras como complexas, dado o dinamismo perceptual impresso no conceito de temporalidade, assim como de compreensão e interpretação de um fato histórico. O historiador passa a desempenhar um papel cada vez mais ativo no trabalho de escrita da história, e a percepção subjetiva torna-se parte do processo.

Partindo do pressuposto de que grande parte dos leitores desconhece a obra de Droysen, e com a intenção de resgatar a importância e o valor de seus escritos, o autor visa a situar o leitor dentro de um contexto pleno de especificidades: teorias, textos e conceitos entrelaçam-se ao panorama científico da época, às discussões teóricas dali decorrentes e a outros historiadores, outros métodos.

Breve e denso, assim podemos considerar este livro. Ao longo de quatro capítulos, o autor visa a analisar as funções da historiografia e o impacto do “pensamento histórico”, tal como proposto por Droysen, no mundo moderno. Esta análise intenta alcançar a ideia de uma redefinição conceitual da função da historiografia, sobretudo no âmbito didático: “a redefinição do valor prático da história”.(p.3)

À semelhança do busto de Jano, o autor inicialmente volta seu olhar para o passado, fazendo breves comentários acerca dos gregos Tucídides e Heródoto, para então deter-se na máxima ciceroniana historia magistra vitae enquanto ponto perene e vital dentro da história da historiografia – e mesmo da crítica histórica – embora questionável sobretudo aos olhos de Droysen. Além de Cícero, Diodoro Sícolo, Sima Guang e Flávio Josefo são também citados. E é neste momento que se abre o leque de ideias e conceitos de Droysen acerca da historiografia como veículo de compreensão e aprimoramento que, mormente, leva o ser humano a “pensar historicamente” – um conceito de grande envergadura dentro da obra analisada. Em seguida, apresenta ao leitor a visão futura, ou inovadora: o pensamento histórico permitiria ao ser humano compreender o tempo presente através da ação e da reflexão, sem que houvesse, necessariamente, a exigência de fixar-se no passado. Poderíamos dizer que seria algo próximo da reconstrução da já citada frase de Cícero na modernidade, acrescentando a ela, porém, certos aspectos mais dinâmicos e outros mais subjetivos.

O impacto da historiografia dentro da cultura, da sociedade ou da política, as definições da tarefa do historiador dentro de seu tempo, bem como os conteúdos descritivos e atributivos dessa atividade, explicitam-se como objeto e objetivo a serem elucidados pelo autor através da análise dos textos em questão.

Com este fim, uma enorme gama de citações extraídas das obras de Droysen é apresentada ao longo do livro. Em alguns momentos elas são absolutamente pertinentes e esclarecedoras, uma vez que ilustram o panorama então analisado pelo autor, fato que imprime no leitor certa intimidade com as ideias de Droysen. No entanto, ao mesmo tempo que se verifica o domínio que o autor possui sobre o tema – pois percorre um grande número de obras – percebe-se nitidamente o direcionamento do trabalho através da delimitação dos conceitos de história, de historiografia e da tarefa da história. Há uma mobilidade visível, inerente ao modo como o próprio Droysen estrutura sua obra: ora direciona suas ideias para o ser humano de modo geral, ora aos políticos e a política, resvalando em críticas à burocracia, e então retorna ao pensamento histórico, por vezes adentra em aspectos teológicos. Tal mobilidade termina, em alguns momentos, por delinear os conceitos pretendidos com certa ambiguidade, ou mesmo contradição, e tal fato poderia, como o autor bem chama atenção, esgotar da obra de Droysen os seus atributos. Entretanto, destaca-se exatamente o oposto, a saber, o quanto terminam por enriquecê-la.

Droysen nunca esclarece um determinado aspecto de sua teoria sem referirse a todos os outros: seus conceitos metodológicos e epistemológicos trazem implícitas as noções relativas à filosofia da história, seus argumentos didáticos implicam inferências éticas e religiosas, e assim por diante. Muitas vezes Droysen apresenta mais ou menos a mesma ideia usando diferentes termos-chave e introduzindo mudanças tangenciais a temas de maior importância. (p. 5)

Contrariando a facilidade com que os textos de Droysen são manejados, o modo como o historismo foi abordado pelo autor apresenta-se vago, disperso. Trata-se de um conceito de grande importância na estrutura do pensamento e da teoria da história em Droysen e, apesar disto, é apresentado de modo convencional e superficial. Sua complexidade é deixada de lado, e o autor esquiva-se de seus comprometimentos teóricos e das discussões que envolveram seu emprego dentro da história da historiografia. Alguns desses aspectos chegam a ser citados, mas sem qualquer análise mais profunda, apenas como elementos que apontam onde se localizariam tais questões. Seria muito mais enriquecedor para o leitor poder aceder, com objetividade, à tessitura das discussões que se formaram no final do século XIX: todo o desenvolvimento posterior relativo à teoria da história estará diretamente associado a suas raízes, ou seja, o historismo como referência para a construção do espaço da história enquanto ciência, permitindo diversas discussões, usos, questionamentos e ramificações: Ranke e sua reconstrução narrativa, Droysen e seus princípios científicos para uma metodologia da história, Wilhelm Dilthey, cuja influência kantiana será determinante em seu modo de pensar a história como ciência e interpretação cultural,1 Ernst Troeltsch e seu enunciado sobre a crise do historismo,2 Nietzsche, que considera irrelevante o movimento historicista,3 Benedetto Croce e seu historismo absoluto,4 Karl Popper e seu intento em distinguir historicismo e historismo, empregando ao primeiro a complexidade e retórica alemãs e, ao segundo, a visão e a percepção inglesas5 e, para além destes, toda a discussão atual proposta por Alexandre Escudier, Georg Iggers, Benedetto Bravo, Otto G. Oexle, Fulvio Tessitore, Ulrich Muhlack, Jörn Rüsen, os quais apresentam análises bastante diferenciadas sobre o historismo e seu valor para a teoria da história e da historiografia, as quais se entrelaçam muitas vezes com a noção de Bildung alemã, nos levando novamente ao trabalho desenvolvido por tanto por Ranke quanto por Droysen à sua época.

Apesar de não se deter ao compêndio das críticas e das discussões que envolvem o conceito de historismo, o autor não deixa de analisar alguns textos de teoria e metodologia da história, visando a reconstruir a ideia de “pensamento histórico” e os conceitos que daí se desdobram: interpretação, percepção da realidade, identidade e, finalmente, a própria concepção de Bildung.

Dentro da exposição de extremos que vão das ideias de Ranke às de Nietzsche, ou no extremo que vai do isolamento do fato histórico ao pragmatismo historiográfico, Droysen é posicionado entre um e outro. Por conta disto – dessa apresentação panorâmica da época e de seus diferentes autores – vários elementos são destacados com o objetivo de apresentar ao leitor certos aspectos da teoria da história que deles derivariam, e, com isso, as referências metodológicas e teóricas que fundamentaram as ideias de Droysen são expostas de modo mais detalhado: “fonte para orientação cultural, moral ou política, desde que deslocada para uma atmosfera devidamente temporalizada e historicizada” (p. 3).

A originalidade dos textos de Droysen sobre a compreensão da genealogia do tempo presente é um dos fios condutores para o desenvolvimento do livro. O autor se debruça sobre o conceito de helenismo – denominação e conceito cunhado por Droysen – não para compreender o helenismo em si, mas sim para analisar seu desdobramento dentro da obra de Droysen como um todo, com especial atenção à ideia de liberdade enquanto resultado de um prolongamento do processo histórico. Fundamentalmente, ao expor a importância dos conceitos de “pensamento histórico”, “compreensão” e “Bildung”, Droysen não apenas desenvolveu novos conceitos de metodologia e didática como também elaborou um potencial intelectual de defesa contra o então cientificismo da época. A postura crítica de Droysen, a qual enfatiza a importância do sentido de “Geist” e que se contrapõe ao materialismo histórico, é pormenorizadamente revelada: o materialismo histórico seria, aos olhos de Droysen, uma ameaça à liberdade, uma tentativa de privação da percepção da transcendência. Nesse processo, distinguem-se dois conceitos fundamentais da teoria, que seriam a “explanação” (Erklären) e a “compreensão” (Verstehen).

Droysen não rejeita o fato de que alguns historiadores se utilizassem de métodos quantitativos. Mas ele salienta que tais métodos possuem, na melhor das hipóteses, um valor auxiliar para a pesquisa histórica, haja vista que, sozinhos, jamais poderiam revelar a historicidade dos fenômenos investigados. (p. 129)

Quanto à História da política prussiana, composta por quatorze volumes publicados no período que vai de 1855, data do primeiro volume, a 1886, como último volume publicado como obra póstuma, trata-se de uma obra de grande envergadura, resultado do envolvimento pessoal de Droysen com a política da época e com a tentativa de aplicação do “pensamento histórico” para compreensão do então presente. A tarefa da história e do historiador não se encontrava vinculada apenas ao presente, como também aos componentes dinâmicos da vida comum, como bem explicita A. A. Assis:

Ele [Droysen] via a história como fundamento do direito, tanto constitucional quanto ordinário, e portanto, as normas jurídicas de uma nação não deveriam ser derivadas artificialmente de ideias abstratas, tais como a razão ou o direito natural, mas derivariam de seu próprio modo de vida histórico, seus usos e costumes. (p. 147)

A exemplaridade, premissa dos antigos, e a singularidade, característica da modernidade, refletem-se na intricada relação entre metodologia, didática, historiografia e ativismo político na Alemanha do século XIX.

O autor, Arthur Alfaix Martins, presenteia o leitor com um apêndice de grande valor para a pesquisa historiográfica, bem como para promover um melhor conhecimento da extensão da obra de Droysen. Trata-se de uma nota bibliográfica riquíssima em informações e comentários elucidativos a respeito de seu conteúdo.

Trata-se de um livro referencial para o (re)conhecimento da obra de Droysen enquanto teórico e pensador da história: nos deparamos com a análise e a compreensão do “pensamento histórico” como elementos constantes da escrita da história. A construção da teoria é apresentada com enfoque aos aspectos didático, histórico-filosófico e político – todos componentes daquilo que se estruturará como base para a construção do conhecimento histórico e sua metodologia. E mais interessante ainda é podermos acompanhar a exposição dessas ideias ao mesmo tempo que a incursão aos elementos subjetivos que permeiam a hermenêutica historiográfica se mostram plenos de atualidade. Como bem resume o autor, “a ação humana pode se beneficiar com o enriquecimento da capacidade individual de percepção da historicidade inerente às condições da ação no presente” (p. 181).

Cabe aqui também ressaltar a importância deste trabalho dentro do amplo quadro da ausência de publicações de história da historiografia em nosso país. As publicações dentro dessa área sempre foram escassas: as análises e as traduções de textos historiográficos e os estudos críticos são ainda pouco divulgados e valorizados. Esta obra, apesar de escrita em inglês, soma-se a importantes publicações recentes, fruto do sério empreendimento de historiadores como Estevão de Rezende Martins, como A história pensada: teoria e método na historiografia europeia do século XIX, publicada pela Editora Contexto; Lições de história: o caminho da ciência no longo século XIX, de Jurandir Malerba, publicada pela editora FGV; a coletânea de textos organizada por Manoel Salgado, intitulada Livro de fontes da historiografia brasileira, publicada postumamente pela editora da Universidade do Rio de Janeiro, as traduções comentadas do Manual de Teoria da História e de Fundamentos de Teoria da História, de Gervinus, ambos elaborados por Sara Baldus e Julio Bentivoglio e publicados pela editora Vozes. Trata-se, sem dúvida, de valiosas fontes textuais para a história da historiografia no Brasil.

Referências

ASSIS, Arthur Alfaix. What is history for? Johann Gustav Droysen and the functions of historiography. Oxford: Berghahn Books, 2014. [ Links ]

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NIETZSCHE, Friedrich. Vom Nutzen und Nachteil der Historie für das Leben. Leipzig: Verlag von E. W. Fritzsch, 1874. (Unzeitgemäße Betrachtung, stück II). [ Links ]

POPPER, Karl. The poverty of historicism. Economica, London, vol. 12, n. 46, 1945, p. 69-89. [ Links ]

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_____. Der Historismus und seine Probleme. Aalen: Scientia Verlag, 1961. (Gesammelte Schriften, stück IV). [ Links ]

1DILTHEY, W. Einleitung in die Geisteswissenschaften. [S. l.], [s. n.], 1883.

2TROELTSCH, E. Die krisis des historismus. Die Neue Rundschau, Berlin, [S. l.], n. 33, p. 572-590, 1922.

3NIETZCHE, F. Vom Nutzen und Nachteil der Historie für das Leben: Unzeitgemässe Betrachtung Stück II. Leipzig: Verlag von E. W. Fritzsch, 1874.

4CROCE, B. La storia come pensiero e come azione. Bari: Laterza, 1938.

5POPPER, K. The poverty of historicism. Economica, London, vol. 12, n. 46, 1945, p. 69-89.

Ana Lucia Mandacaru Lobo – Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em História Social da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo/USP, Doutora em História Social pela École Pratique des Hautes Études – Sorbonne, com reconhecimento pela USP e pós-doutoranda no Programa de Pós-Graduação em História Social da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo/USP. E-mail: [email protected]

What is History for? Johann Gustav Droysen and the functions of historiography – ASSIS (RBH)

ASSIS, Arthur Alfaix. What is History for? Johann Gustav Droysen and the functions of historiography. New York: Oxford: Berghahn Books, 2014. Resenha de: SILVA, Walkiria Oliveira. Revista Brasileira de História. São Paulo, v.35, no.69, JAN./JUN. 2015.

A publicação de What is History for? Johann Gustav Droysen and the functions of historiography, de Arthur Assis, apresenta uma proveitosa discussão sobre a historiografia de Johann Gustav Droysen (1808-1884), importante historiador alemão do século XIX. Com base na análise da historiografia de Droysen, o autor oferece ao leitor um amplo panorama da historiografia alemã durante o século XIX, centrando-se nos debates sobre o historicismo, paradigma dominante no conhecimento histórico alemão oitocentista, e na reformulação do valor pragmático para a historiografia. Nesse sentido, a obra de Arthur Assis não se dirige somente aos especialistas e pesquisadores do pensamento de Droysen, mas a todos os estudiosos de historiografia alemã e geral, história intelectual e mesmo historiografia política, uma vez que destaca as influências políticas do pensamento daquele autor.

Arthur Assis é professor do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade de Brasília, onde se dedica às áreas de teoria e metodologia da história. Sua obra configura um aprofundamento das questões às quais se dedicou durante sua pesquisa de doutorado, defendida em 2009, na Universidade de Witten, com a orientação do professor Jörn Rüsen. A influência do pensamento de Rüsen não passa despercebida para um leitor familiarizado com o seu pensamento. Ao longo da leitura, o diálogo de Assis com o pensamento de Rüsen e Koselleck torna-se evidente. De Rüsen, também um estudioso do pensamento de Droysen, percebe-se o diálogo com sua teoria da história, da importância do conhecimento histórico para o desenvolvimento intersubjetivo da nossa capacidade de orientação no presente, tendo em vista preencher nossas carências de orientação. A importância de Koselleck aparece na sua compreensão do moderno conceito de história a partir da transformação da experiência do tempo aliada à gênese de um novo leque de conceitos sociopolíticos que emergiram diante de um conjunto de transformações a partir da segunda metade do século XVIII. Embora Assis possua outros referenciais teóricos, o diálogo com Rüsen e Koselleck é significativo e enriquecedor.

Organizado em quatro capítulos, o livro de Arthur Assis estrutura-se em torno de um objetivo geral o qual corresponde ao seu questionamento fundamental: mediante a derrocada da historiografia tradicional exemplar e a ascensão do conceito moderno de história, o autor busca analisar como a função pragmática da história é redefinida nas obras de Droysen. Nesse sentido, Arthur Assis objetiva compreender o fundamento epistemológico que une a concepção de historiografia moderna a seu valor tradicional. O objetivo do autor é evidente: compreender o pensamento de Droysen tendo em vista a reformulação e ressignificação da função pragmática da ciência histórica.

Aspecto muito notável da obra de Assis é articular a teoria da história de Droysen com suas preferências políticas. Como afirma o próprio autor na introdução do livro, essa articulação entre a teoria histórica de Droysen e a política é uma lacuna muito presente nos estudos sobre o historiador alemão. Ao analisar a reformulação do caráter pragmático da história no pensamento de Droysen, o autor buscou com afinco entender as contradições e tensões entre o pensamento histórico de Droysen e suas tendências políticas diante da turbulenta realidade política europeia, principalmente a alemã, ao decorrer do século XIX.

O primeiro capítulo, “Functions of Historiography until the mid-19 century”, cumpre um papel introdutório, porém não menos importante, para a discussão posterior sobre a reformulação do valor pragmático da historiografia. Partindo do conceito de “teoria exemplar da história” de George Nadel, o autor delimita o que entende por historiografia tradicional exemplar. Nesse sentido, a mais importante tarefa dos historiadores era “localizar no passado modelos atemporais de ação para serem imediatamente aplicados ou evitados no presente” (p.21).1 Com base nesse conceito, Assis constrói uma vigorosa análise das formas e funções que a exemplaridade assumiu desde a historiografia da Antiguidade, passando por autores como Políbio e Cícero, até o surgimento da concepção moderna de história na segunda metade do século XVIII, estendendo sua análise até o século XIX tardio. Chega a duas conclusões: a primeira diz respeito à importância inquestionável da função exemplar para o pensamento histórico ocidental, e a segunda afirma que, até o final do século XVIII, vários autores buscaram justificativas que poderiam comprovar ou substituir a teoria exemplar da história (p.35-36).

A partir da ascensão do conceito moderno de história e de uma nova percepção de tempo – a temporalização de Koselleck – a historiografia tradicional exemplar passa a ser vista como um problema para o aprendizado histórico, e novos caminhos para a revalorização do valor pragmático da historiografia são propostos. No segundo capítulo da obra, “The Theoretical Design of a New Justification”, Arthur Assis explica o conceito de “pensar historicamente” (“historical thinking”) de Droysen, base do método histórico e da reformulação da função pragmática da historiografia presente no pensamento do historiador alemão. O pensar historicamente, ou seja, a capacidade subjetiva de conectar em perspectiva o presente e o passado cognoscível, constitui a base da ciência histórica e delimita sua função (p.63). Nesse ponto, o autor enfatiza o efeito pragmático e o viés pedagógico da história em Droysen, pois o valor social da historiografia estaria em sua capacidade de despertar nos leitores o senso para a realidade (p.77). Aqui, o pensamento de Droysen é influenciado pelos ideais do neo-humanista Wilhelm von Humboldt para o qual uma das funções do conhecimento histórico era despertar o senso para a realidade, ou, em outras palavras, a capacidade para perceber as forças, as ideias que se encontram para além dos eventos históricos. Assis sublinha o caráter hermenêutico do método histórico de Droysen, pois junto à pesquisa factual havia uma ligação entre o passado, o presente e o próprio investigador. Droysen, como bem destaca o autor, foi um dos primeiros intelectuais a utilizar o conceito hermenêutico de compreensão como a principal especificidade metódica das ciências humanas.

Uma vez apresentada a função do conhecimento histórico em Droysen mediante a ressignificação do valor pragmático da história a partir da capacidade subjetiva do pensar historicamente, Arthur Assis inicia a segunda parte de sua obra. Nos capítulos 3 e 4 o autor procura atrelar o pensamento histórico de Droysen, tal como apresentado no capítulo 2, ao entendimento que o historiador alemão construiu do seu próprio presente. No capítulo 3, “Historical Thinking and the Genealogy of the Present”, Assis traça as aproximações entre o pensamento de Droysen e a filosofia da história de Hegel, ressaltando a importância do pensamento hegeliano para a concepção de história de Droysen. Assis afirma que para Droysen, assim como para Hegel e outros intelectuais alemães do século XIX, a ideia do processo histórico como a conquista da ideia de liberdade era fundamental. Para Droysen, interpretar a gênese do presente significava aplicar o seu método histórico – o pensar historicamente – para compreender o desenvolvimento da ideia de liberdade desde seu início até o tempo presente do historiador (p.104). O autor apresenta ainda o entendimento de Droysen sobre os processos políticos cujas consequências políticas haviam transformado o quadro político europeu, como a Revolução Francesa e a Guerra Franco-Prussiana. A compreensão de Droysen da genealogia de seu próprio tempo é explorada por Assis atenciosamente. O autor analisa a compreensão de Droysen sobre as tendências econômicas políticas e intelectuais de seu tempo, como o materialismo, o racionalismo, o positivismo e o capitalismo.

O último capítulo, “The Politics of Historical Thinking and the Limits of the New Function”, visa preencher a lacuna apontada por Assis em sua introdução, ou seja, apontar as tensões e convergências entre as preferências políticas de Droysen e a sua teoria da história. Segundo Assis, a partir de 1840 Droysen se preocupa consideravelmente com a formação e as transformações do Estado da Prússia, e as fronteiras entre a sua teoria da história e uma produção historiográfica motivada por suas preferências políticas começam a se confundir. A posição liberal-nacional de Droysen e sua posição congruente com a escola histórica do direito de Savigny são apresentadas e analisadas por Assis, que observa a íntima relação entre o pensar historicamente e o comprometimento político de Droysen.

Arthur Assis alcança o propósito fundamental de seu livro: analisar a proposta de Droysen à teoria exemplar da história, ou seja, o pensar historicamente. Ao apresentar as implicações políticas do pensamento de Droysen, o autor ressalta que toda teoria é sempre acompanhada das experiências históricas do próprio intelectual. Em tempos nos quais as discussões sobre a incerteza da cientificidade da história mediante análises pós-modernas crescem significativamente, o livro de Arthur Assis cumpre importante papel ao refletir e induzir o questionamento sobre as formas e as funções que o conhecimento histórico assume frente às experiências e transformações do tempo presente. Ao final da leitura, resta-nos questionar: o conhecimento histórico ainda nos ensina a pensar historicamente?

Walkiria Oliveira Silva – Doutoranda, Programa de Pós-Graduação em História, Universidade de Brasília (UnB). Brasília, DF, Brasil. [email protected].