Ruptura dos gêneros na literatura latino-americana | Haroldo de Campos

CAMPOS Haroldo de Ruptura dos gêneros na literatura latino-americana
Haroldo de Campos | Foto: German Lorca

CAMPOS Ruptura dos generos Ruptura dos gêneros na literatura latino-americanaEm Ruptura dos gêneros na literatura latino-americana, ensaio que integra o volume América latina em sua literatura, de 1979, Haroldo de Campos se vale de dois acontecimentos na história da literatura que culminaram no processo de destruição dos gêneros literários tanto aqui no Brasil como em outros países. O volume, resultado da iniciativa de um projeto da Unesco de estudar a cultura universal na especificidade de seus conjuntos culturais, definição conforme contracapa, conta, ainda, com contribuições de alguns dos principais nomes da crítica literária, como Antônio Candido, Antonio Houaiss, Lezama Lima, Emir Rodríguez Monegal, entre outros.

Sem mais delongas, na sequência de Haroldo de Campos, o primeiro acontecimento diz respeito a uma “crise da normatividade” que teria explodido no século XX, suscitada por vários estudiosos da problemática dos gêneros literários. Entre eles, Mukarovsky, um dos fundadores do Círculo Linguístico de Praga. Para Mukarovsky, a nossa tendência à delimitação literária dos gêneros se deve a uma forte influência do Classicismo. Leia Mais

Traduzione, transcreazione, saggi – CAMPOS (A-EN)

CAMPOS, Haroldo de. Traduzione, transcreazione, saggi. Tradução e organização de Andrea Lombardi e Gaetano D’Itria, Nápoles: Oèdipus/Fundação da Biblioteca Nacional, 2016. Resenha de MULLER, Fernanda Suely; BURNELLO, Yuri. Traduzione, transcreazione, saggi, Alea, Rio de Janeiro, v.19 n.2, may./aug., 2017.

A obra que ora vem a lume pela Editora napolitana Oèdipus, organizada e traduzida para o italiano por Andrea Lombardi e por Gaetano D’Itria, consiste na publicação de ensaios críticos de Haroldo de Campos na e para a Itália. Tal operação editorial objetiva tornar conhecida aos leitores italianos a faceta de crítico e teórico da literatura de um dos mais importantes intelectuais brasileiros do século XX, para além de sua relevância como poeta contemporâneo.

A produção lírica de Haroldo de Campos se tornou conhecida na Itália sobretudo através do poeta Lello Voce que, no ano de 2005, organizou o volume L’Educazione dei cinque sensi (CAMPOS, 2005), coletânea de poemas do escritor brasileiro traduzidos por Daniela Ferioli. Somando esforços àqueles de Lello Voce, Andrea Lombardi – docente de Literatura italiana na UFRJ – tem se dedicado a difundir com afinco todas as nuances da ligação haroldiana com a Itália, tendo especialmente como leitmotiv a produção crítica e poética feita a partir do diálogo entre a visão estético-linguística de Haroldo de Campos e a arte de escritores de língua italiana. Uma das primeiras incursões de Lombardi nesse sentido tinha sido a organização de um livro dantesco de Haroldo de Campos, intitulado Pedra e Luz na poesia de Dante (CAMPOS, 1998), cuja ideia central, de certa forma, é continuada pela editora italiana Oèdipus. Com efeito, Traduzione, transcreazione, saggi avulta ainda mais pelo fato de que muitas das questões oferecidas ao público italiano por Andrea Lombardi e Gaetano d’Itria têm como temática principal a difusão de autores do cânone italiano, como Dante, Giacomo Leopardi ou Giuseppe Ungaretti. O rigor de tal desafio intercultural é confirmado pela participação no volume de dois intelectuais italianos de renome, como Umberto Eco – cuja contribuição constitui um dos últimos textos antes do falecimento – e Piero Boitani, professor titular de Literatura comparada na Università “La Sapienza”, de Roma, que assinalam respectivamente a importância do volume na introdução e na contracapa da publicação.

Traduzione Transcreazione Saggi é composto por sete textos de Haroldo de Campos anteriormente publicados e republicados alhures em português. Aos textos haroldianos, somam-se um capítulo sobre observações acerca da particularidade de traduzir Haroldo de Campos – Nota del traduttore – e, por fim, um posfácio de Andrea Lombardi, no qual o organizador escrutina a atividade e as especificidades de Haroldo de Campos enquanto tradutor em Una condizione babelica – Haroldo de Campos traduttore.

Se na Introdução Umberto Eco relata as suas conexões estabelecidas com Haroldo de Campos desde o ano de 1962, o capítulo inaugural La nuova estética di Max Bense discorre sobre as ideias do filósofo e crítico alemão Max Bense acerca da distinção entre a informação documentária, informação semântica e informação estética, no bojo do experimentalismo artístico-concreto, do qual Max Bense fora protagonista – juntamente com Haroldo de Campos e os outros integrantes de Noigandres – em meados da década de 1960. É necessário destacar a tessitura de Haroldo de Campos concernente ao tema que é igualmente um dos pontos nevrálgicos de sua produção enquanto artista, crítico e intelectual, que transpassa as questões relativas aos limites de uma tradução concebida como equivalente ao texto de partida (por isso, justamente, o uso, desde o título, do adequado vocábulo transcreazione, em português, “transcriação”).

Com efeito, tanto no ensaio supracitado quanto no capítulo Della traduzione come creazione e come critica, Haroldo de Campos apresenta ao leitor propostas desafiadoras no que diz respeito às problemáticas encontradas ao traduzirem ou “transcriarem” de suas línguas maternas escritores como Guimarães Rosa ou James Joyce. O transcriador “babélico” (CAMPOS, 2016: 162) – para mencionar uma das definições que Andrea Lombardi fornece de Haroldo de Campos – não se limita a exemplos de escritores em língua portuguesa, mas analisa soluções possíveis, tais quais a interpolação de versos alheios ou os “arrevesamentos sintáticos” (CAMPOS, 2016: 39CAMPOS, 2013: 10)3, encontradas por críticos-tradutores como Ezra Pound, teórico do make it new, da tradução como re-criação, ou Manuel Odorico Mendes, autor de “traduções-transcriações”, que “na história criativa da poesia brasileira […] tem um lugar assegurado” (CAMPOS, 2016: 42CAMPOS, 2013: 11-12).

Sendo o primeiro capítulo a abordar a literatura italiana em si nessa compilação de Andrea Lombardi e Gaetano D’Itria, Ungaretti e l’estetica del frammento constitui uma espécie de resenha sobre o legado ungarettiano. Haroldo de Campos percebe uma certa “distinção” entre duas fases do poeta italiano, com particular atenção ao seu último período: o crítico sublinha justamente que o fragmentário se torna a “única forma possível de poesia no universo fraturado em que vivemos” (CAMPOS, 2016: 71CAMPOS, 1969: 87). Ao refletir que tal estética fragmentária se coloca como tema do fazer poético ungarettiano tanto pela constatação realizada a partir da leitura de alguma de suas obras – como Il Taccuino del Vecchio – quanto pela reiteração proposta pelo próprio autor em uma conferência proferida em 1966, o ensaio Ungaretti e l’estetica del frammento acaba instituindo uma ponte entre as soluções de Ungaretti e suas inovações expressivas – o “sentimento de surpresa” (CAMPOS, 2016: 73CAMPOS, 1969: 88), “o inesperado que punge” (CAMPOS, 2016: 73CAMPOS, 1969: 88) -, que tinham sido elaboradas no século XIX por Giacomo Leopardi, cujas propostas teóricas “seriam traduzíveis em termos da atual teoria da informação” (CAMPOS, 2016: 73CAMPOS, 1969: 88).

Extremamente pertinente se confirma a decisão dos organizadores ao escolherem, como ensaio sucessivo, uma intervenção de Haroldo de Campos especificamente dedicada a tal questão – provocativa na época, assim como ainda é nos dias de hoje; ou seja, o vanguardismo de Leopardi. Em Leopardi, teorico dell’avanguardia, à luz de uma possível “poética sincrónica” (CAMPOS, 2016: 77CAMPOS, 1969: 186), teorizada sob a influência de Roman Jakobson, Haroldo de Campos coaduna ao já citado poeta outros pares (Friedrich Hölderlin e Sousândrade), sublinhando pontos convergentes entre os três. Haroldo de Campos discorre igualmente sobre a dificuldade de sistematizá-los em alguma categoria precisa de análise, sem deixar de considerar, contudo, o papel de crítico exercido por Leopardi sobretudo em Zibaldone (e suas “antecipações” sobre alguns temas polêmicos como a oposição entre a linguagem da ciência e a linguagem da poesia). O autor arremata ainda o ensaio com uma proposta de tradução de uma das obras mais famosas de Leopardi, L’infinito.

Nos três capítulos subsequentes, Haroldo de Campos realiza uma incursão mais aprofundada nas sendas da literatura italiana, ao analisar aspectos fundamentais do principal expoente literário daquele país: Dante. Assim, como podemos inferir pelo próprio título, em Petrografia dantesca, o crítico abordará as rime petrose de Dante, considerando-as como o ápice da criação dantesca antes da Divina Comédia. As petrose representariam, para Haroldo de Campos, um momento-chave de realismo no repertório do poeta italiano. Todavia, o realismo de Dante sobre o qual Traduzione, transcreazione, saggi foca não têm nada de referencial: nada têm da consistência figural da mimesis auerbachiana nem da “homologia estrutural” de Lucien Goldmann. Haroldo de Campos se detém ao experimentalismo de alguns procedimentos das rime petrose, concluindo que “o realismo destes poemas acaba sendo, em última instância, um realismo de signos” (CAMPOS, 2016: 92CAMPOS, 1998: 22), celebrando, portanto, a materialidade dos significantes das rime petrose.

Já no quinto capítulo, Luce: la scrittura paradisíaca, Haroldo de Campos esmiúça aos leitores seu projeto de tradução-transcriação de alguns versos do Paraíso de Dante, nos quais o mesmo se preocupa com a “reconstituição da informação estética do original em português […], com o escopo de produzir um texto isomórfico em relação à matriz dantesca” (CAMPOS, 2016: 99CAMPOS, 1998: 67). Para completar a tríade dantesca, sem abandonar a vertente exegética semiótico-estruturalista, em Il Dolce Stil Novo: bossa nova nel Duecento, o crítico se volta ao frescor juvenil de Dante na Vita Nuova, analisando algumas de suas estratégias formais “precursoras” do modernismo e possíveis reflexos na produção de Thomas Stearns Eliot e Ezra Pound.

O derradeiro ensaio acerca da crítica haroldiana sobre a literatura italiana mais estilística e estruturalmente questionadora, Dal testo maccheronico al permutazionale tem como mote a antologia de literatura então recém-lançada e intitulada I Novissimi (GIULIANI, 1961). Ao abordar a produção dos poetas ali compilados (Elio Pagliarani, Alfredo Giuliani, Edoardo Sanguineti, Nanni Balestrini e Antonio Porta), Haroldo de Campos destaca a função da “poesia macarrônica” utilizada por alguns dos poetas, a qual assume no entendimento do autor uma função muito mais crítica e lírica do que puramente satírica, efeito ao qual muitas vezes o macarrônico é interligado.

As referências ao “permutacional” (CAMPOS, 2016: 131CAMPOS, 2013b: 137) remetem à cibernética, assim como muitas das categorias utilizadas por Haroldo de Campos na interpretação dos escritores italianos estudados em Traduzione, trascreazione, saggi reenviam o leitor à teoria da informação, à semiótica de Max Bense, à linguística estrutural de Roman Jakobson, ou seja, a fenômenos hermenêutico-culturais de enorme relevância histórica, apesar – em parte de suas premissas e conclusões – ultrapassados. Oportunamente, Andrea Lombardi, no seu posfácio, acaba atualizando muitas das visões haroldianas, colocando-as dentro de uma perspectiva pós-estruturalista ou no âmbito das mais recentes aquisições dos estudos da tradução. À guisa de conclusão, o que ainda permanece viva é a solidez das intuições críticas de Haroldo de Campos, uma vez abstraídas dos paradigmas teóricos dentro das quais foram concebidas.

No ano de 2005, Gianni d’Elia deu ao seu estudo L’eresia di Pasolini o subtítulo de L’Avanguardia della tradizione dopo Leopardi (D’ELIA, 2005), para indicar que a escolha de uma forma em aparência tradicional tanto por parte de Pasolini quanto, anteriormente, por parte de Leopardi, tinha como pressuposto uma opção de ruptura cultural. Em 2016, Carlo Ossola, titular da cátedra de Literaturas modernas no Collège de France, publicou uma monografia sobre Ungaretti, Ungaretti, poeta (OSSOLA, 2016), na qual elogia a poesia ungarettiana pela sua “responsabilidade cósmica da palavra poética, herdada de Leopardi, para que nós possamos acompanhar o caminho deste século perdido” (OSSOLA, 2016b: 28, tradução nossa). No final da década de sessenta, Haroldo de Campos já tinha percebido na poesia leopardiana a presença de uma “fratura ideológica entre o ponto de vista clássico e o romântico antes se configurar na linguagem no nível do significado que no do significante” (CAMPOS, 2016: 78CAMPOS, 1969: 186), bem como assinalara a metafísica leopardiana do inacabado como representante da “raiz autóctone da poesia ungarettiana” (CAMPOS, 2016: 71CAMPOS, 1969: 87). Essas são somente duas das numerosas intuições hermenêuticas presentes em Traduzione, transcreazione, saggi que constituem prova irrefutável que, muitas vezes, os grandes críticos sobrevivem aos seus próprios métodos.

Referências

CAMPOS, Haroldo de. Traduzione, transcreazione, saggi. Tradução e organização de Andrea Lombardi e Gaetano D’Itria. Nápoles: Oèdipus/Fundação da Biblioteca Nacional, 2016. [ Links ]

____. Transcriação. São Paulo: Perspectiva, 2013a. [ Links ]

____. A ReOperação do texto. São Paulo: Perspectiva, 2013b. [ Links ]

____. L’educazione dei cinque sensi. Tradução de Daniela Ferioli e organização de Lello Voce Pesaro: Metauro, 2005. [ Links ]

____. Pedra e Luz na poesia de Dante. Rio de Janeiro: Imago, 1998. [ Links ]

____. A Arte no Horizonte do Provável. São Paulo: Perspectiva, 1969. [ Links ]

D’ELIA, Gianni. L’eresia di PasoliniL’Avanguardia della tradizione dopo Leopardi. Milão: Effigie, 2005. [ Links ]

GIULIANI, Alfredo (Org.). I novissimi. Milano: Rusconi Paolazzi, 1961. [ Links ]

OSSOLA, Carlo. Ungaretti, poeta. Venezia: Marsilio, 2016a. [ Links ]

____. Universi e fantasmi. Il Sole 24 Ore, Milano, n. 328, 2016b. [ Links ]

Notas

1Por convenção, por se tratarem de textos originalmente escritos em língua portuguesa, optamos por fazer a citação direta das obras originais e indicar, respectivamente, o número da página da edição italiana (objeto da resenha) e o número da página da edição brasileira. Nas citações subsequentes, que apresentam igual estrutura, adotamos o mesmo procedimento.

Yuri Brunello. Possui graduação em Letras pela Università di Genova (Itália) e mestrado em Cultura e Sociedade pela Universidade Federal da Bahia. Doutorou-se pela Università “La Sapienza” de Roma (Itália), em 2012. Atualmente é professor Adjunto de Literatura Italiana do Departamento de Letras Estrangeiras da Universidade Federal do Ceará. E-mail: [email protected]

Fernanda Suely Muller – Possui graduação em Letras português-italiano pela UNESP e mestrado e doutorado na USP. Atualmente é professora Adjunta de Língua e Literatura Italiana do Departamento de Letras Estrangeiras da Universidade Federal do Ceará. E-mail: [email protected]

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