Parece claro a todos nós – como bem nos lembra E. Hobsbawn – que o olhar retrospectivo sobre os acontecimentos é a “arma final do historiador”. O distanciamento temporal dos fatos ocorridos permite-nos um entendimento dos mesmos sob uma perspectiva inalcançável à época em que ocorreram. E é exatamente este exercício que Jayme Ribeiro nos oferece em seu livro sobre a atuação dos comunistas brasileiros nas campanhas pacifistas dos anos 1950. Utilizando extensa pesquisa nos jornais comunistas (assim como nos da grande imprensa) e revistas – e uma boa base iconográfica – o pesquisador, professor e historiador carioca nos remete aos intensos anos 1950, em um momento solidamente marcado pelo recrudescimento da ameaça atômica e da possibilidade de destruição de toda a humanidade em uma guerra entre as superpotências. À sua maneira, os comunistas brasileiros se apropriaram desta conjuntura para lançar no país as bases de uma campanha que buscava mobilizar a militância – e a população de modo geral – em torno de uma suposta “crença no caráter pacifista da URSS”.

Ao nos depararmos com muitos dos livros que tratam do período da chamada “Guerra Fria”, salta aos olhos o caráter essencialmente político e ideológico na análise daquele momento histórico específico, como se tudo pudesse ser simplesmente reduzido a fórmula maniqueísta de capitalismo versus comunismo. Não resta dúvida de que estes componentes marcaram sobremaneira a “Guerra Fria”, mas um olhar excessivamente concentrado nestes aspectos faz com que deixemos em plano secundário acontecimentos e componentes outros que igualmente marcaram o período. Ao longo de seu livro, Jayme Ribeiro lembra-nos desta necessidade – e o fez logo nos capítulos iniciais – quando apresenta uma contextualização dos acontecimentos que levaram as campanhas pela paz no mundo inteiro, fornecendo o terreno sob as quais elas se assentavam. Mostra-nos o significado aterrorizante da bomba atômica na mente das pessoas, apresentando-a como capaz de – concretamente e efetivamente – causar uma destruição sem precedentes na história da humanidade. Começar sua exposição por este aspecto foi muito importante para fazer com que entendêssemos as razões que levaram milhares de pessoas no mundo inteiro – e particularmente no Brasil – a se mobilizar em torno das campanhas pacifistas dos comunistas.

Tendo deitado raízes no Brasil a partir da militância comunista, as “Campanhas da Paz” (ou “Movimento pela Paz”) encontraram – como era de se esperar – reação do governo brasileiro e de setores da imprensa. Decretado ilegal já no governo Dutra, o PCB seria sistematicamente atacado por órgãos do governo e da grande imprensa como expoente máximo da política expansionista da URSS. E, conseqüentemente, os movimentos pró-paz eram taxados como uma “guerra de nervos” que visava semear instabilidade no chamado “Mundo Livre”. A postura tanto do governo como da imprensa era compatível com a visão mais ortodoxa que se tinha da “Guerra Fria” no imediato pós-guerra, onde se trombeteava um suposto caráter imperialista e expansionista da URSS. Identificar as “Campanhas da Paz” como uma face desta política parecia uma excelente forma de denunciá-las e se constitui em elemento adicional na formação de um imaginário negativo do comunismo e da prática comunista no Brasil. A pesquisa de Jayme Ribeiro, portanto, ajuda a lançar mais luz sobre a atuação dos comunistas brasileiros nos anos 1950, recuperando um caso particular da atuação dos mesmos e a partir daí fornecendo terreno para a compreensão mais ampla da participação deles na sociedade e na política brasileira.

Como reação a perseguição que sofriam durante as “Campanhas” – e de modo a “salvá-las” –, os comunistas muitas vezes buscavam dissociá-las da URSS e do partido. E o faziam apresentando-as como portadoras de um caráter universal identificado com a “paz mundial”: como não se sensibilizar diante de tão elevado sentimento? E se isso não fosse o suficiente, os comunistas utilizaram uma formula interessantíssima de convencimento, na medida em que explicavam didaticamente a população os perigos associados a bomba atômica e a sua utilização. Em alguns casos os apelos eram tão dramáticos e enfáticos que parecia impossível não referendá-los: os norte-americanos mataram milhares de homens, mulheres e crianças com o bombardeamento atômico no Japão, e então, “você é contra este crime?” Dramatizações no rádio, distribuição de panfletos explicativos e simulações na imprensa do tipo “e se uma bomba atômica fosse lançada em sua cidade?” cumpriram um papel importante no preenchimento de uma relativa lacuna que existia na disseminação deste tipo de informação no Brasil naquele período. Jayme Ribeiro nos mostra que o papel de esclarecer a população coube majoritariamente aos comunistas, uma vez que a grande imprensa pareceu se eximir desta atribuição – pelo menos na escala com que os comunistas o fizeram.

Entendida dentro do contexto da tecnologia militar voltada para o campo atômico, ou seja, para o desenvolvimento de armas atômicas (e seus vetores), poderia se argumentar – como o foi feito na época – que as “Campanhas” eram apenas um reflexo do (e uma reação ao) relativo atraso científico no qual se encontrava a URSS em comparação com os Estados Unidos. Porém, vale salientar que a URSS chocou o mundo com a detonação de seu primeiro “petardo atômico” já em 1949, de modo que aquela explicação não é de todo verdadeira ou não encontra uma base muito concreta de sustentação. Na verdade, e por uma série de motivos, eram os próprios norte-americanos que nos anos 1950 denunciavam, contraditoriamente, um inexistente bomber gap e, posteriormente, no fim da década, um missile gap, ou seja, expunham o seu próprio (inexistente) atraso no campo de bombardeiros e mísseis. Pregar a revolução mundial e lutar pela paz, ao mesmo tempo, era também uma contradição e os partidos comunistas tiveram que enfrentar o desafio de “vender” as “Campanhas” pelo mundo. A década de 1950 (e a “Guerra Fria” de modo geral) foi um momento da história onde tudo parecia possível, onde contradições andavam de mãos dadas, e ao lidar com a questão das armas atômicas e da “Guerra Fria” Jayme Ribeiro afasta-nos das simplificações recorrentes quando estes temas são tratados.

Ao longo do livro, o autor nos mostra que as “Campanhas” encontraram um relativo respaldo na sociedade, servindo para manter os comunistas atuantes em sua luta – notadamente depois de decretada sua ilegalidade – por melhores salários e educação para os trabalhadores, a favor das nacionalizações, contra a participação brasileira na guerra da Coréia, dentre outras. E curiosamente, Jayme Ribeiro começa o livro exatamente narrando sua experiência com um dos muitos abaixo-assinados eletrônicos tão comuns atualmente – e coincidentemente um apelo à paz mundial: o conteúdo se mantém – apesar de que em um contexto totalmente diferente – enquanto a forma se modificou completamente. Na escolha dos documentos para o livro, o autor consegue transmitir o grau de envolvimento da militância comunista com as “Campanhas”, e esta é, em minha opinião, uma importante contribuição colateral do livro, pois mostra – principalmente para os mais jovens – que há sim “vida” sem internet ou redes sociais, e que o contato humano, o tête-à-tête, não pode e nem deve ser menosprezado.

A utilização de uma linguagem clara e direta é uma característica marcante da escrita de Jayme Ribeiro. A impressão que se tem ao ler o livro é que o autor se dirige a uma platéia, e que ele tem em mente, o tempo todo, que a mesma eventualmente pode apresentar dúvidas acerca do que ele narra. Até mesmo durante o diálogo com a historiografia especializada – e que alguns leitores não-especializados eventualmente consideram uma parte enfadonha da leitura –, o autor consegue dosá-la de modo a satisfazer a curiosidade dos leitores mais exigentes sem, no entanto, aborrecer àqueles que querem chegar logo “ao ponto”. Assim, e para dirimir quaisquer dúvidas do leitor, o autor escreveu um texto limpo, sem repetições e bem ordenado, onde todo o entendimento sobre o mesmo é ofertado ao leitor no próprio texto, sem necessidade, portanto, de nenhuma consulta prévia a um ou outro livro especializado: qualquer leitor minimamente versado sobre o contexto da história política do período se surpreenderá com esta faceta do movimento comunista brasileiro nos anos 1950. A impressão que se tem é que contamos durante a leitura com a companhia do Jayme Ribeiro, do nosso lado, o tempo todo: esta preocupação com o leitor é o que distingue os livros que serão avidamente consumidos daqueles que ocuparão apenas mais um espaço em nossas prateleiras já repletas de livros.

Tácito Rolim – Professor-assistente de História (UECE)/ Doutor em História (UFF).


RIBEIRO, Jayme Fernandes. Combatentes da Paz: os comunistas brasileiros e as campanhas pacifistas dos anos 1950. Rio de Janeiro: 7 Letras / FAPERJ, 2011. (Coleção Brasil Republicano). Resenha de: ROLIM, Tácito. Revista Sertões. Mossoró, v.2, n.2, 2012. Acessar publicação original [IF].

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