OLIVEIRA FORMOSINHO, Júlia; PASCAL, Christine (Orgs). Documentação Pedagógica e avaliação na educação infantil: um caminho para a transformação. Tradução de Alexandre Salvaterra; revisão técnica Júlia Oliveira-Formosinho, Mônica Appezzato Pinazza, Paulo Fochi. Porto Alegre: Penso, 2019. Resenha de: WILMSEN, Lilibeth. Conjectura, Caxias do Sul, v. 25, 2020.

As organizadoras da obra: Júlia Oliveira Formosinho e Christine Pascal, são pesquisadoras portuguesas, que contribuem para discussões importantes, que integram inclusive a educação no Brasil, principalmente na área da infância. Essa obra foi escrita por catorze autores: Júlia Oliveira- Formosinho, Christine Pascal, Andreia Lima, Cristina Aparecida Colasanto, Donna Gaywood, Elizabeth Fee, Hélia Costa, Inês Machado, Joana de Sousa, João Formosinho, Maria Malta Campos, Sara Barros Araújo, Sue Ford, Tony Bertram. Inicialmente, a obra foi publicada na Língua Inglesa e, nessa versão, teve tradução de Alexandre Salvaterra, com a ajuda de revisão técnica de Júlia Oliveira-Formosinho, Mônica Appezzato Pinazza e Paulo Fochi.

Júlia Oliveira Formosinho1 é uma pesquisadora sobre pedagogias de infância, aprendizagem infantil, documentação pedagógica e avaliação.

Assim, seus estudos, centrados mais na infância e nos fazeres pedagógicos que a circundam, buscam uma visão de pedagogia-em-participação, teoria que desenvolveu junto a João Formosinho. É consultora do Projeto Brasileiro sobre Centros de Educação Infantil Integrados da USP, professora convidada da Universidade Católica Portuguesa em Lisboa e no Porto. Foi professora na Universidade do Minho. É diretora do Centro de Pesquisa da Associação Criança. Membro da direção da European Early Childhood Education Research Association (EECERA) e coordenadora de edições especiais da sua revista (EECERA Journal).

Christine Pascal2 é diretora do Centre for Research in Early Childhood (CREC). Foi professora no Ensino Fundamental em Birmingham de 1976 a 1985, antes de adentrar a área universitária. Atualmente, é presidente da EECERA, trabalhou em projetos de governo do Reino Unido, para apoiar políticas públicas para a primeira infância. Entre 2000 e 2010 atuou como Conselheira Especializada em Primeira Infância no House of Commons Select Committee on Education. Em 2001, foi reconhecida como OBE pela Ordem do Império Britânico por seus serviços prestados às crianças.

O livro organizado por Júlia e Christine é subdividido em três partes: (1) contextos e princípios; (2) abordagens e técnicas; (3) retratos de práticas: estudos de caso. Oportuna organização para o conceito de pedagogia que trazem no prefácio da obra, onde destacam que a triangulação interativa entre ações, teorias e crenças é que constituem o movimento da pedagogia, viabilizando uma práxis ética.

A primeira parte coloca a ideia dos escritos em desconstruir a disseminação da pedagogia transmissiva, que foi praticada em escola de massas e caracterizou a educação tradicional no século XX. Os autores problematizam a fragmentação dos currículos, e escolas em massa que padronizaram temporalidades e espaços. Organização essa que visava uma pedagogia transmissiva, ou seja, que o professor, detentor do saber, transmitia conhecimento ao aluno. Por isso, as crianças eram vistas como tábulas rasas. Assim, servia-se uma educação para formar uma homogeneidade. Assim, as discussões seguem para dois autores que contribuíram para repensar essa pedagogia transmissiva, e compreender outras possibilidades: Dewey e Freire. Primeiramente Dewey ganha espaço nas discussões, revelando o potencial de ideias sobre a escola ser espaço de aprender a viver. Além disso, são apontadas as contribuições de John Dewey para a educação voltada às experiências, com participação ativa dos estudantes no processo de ensino e aprendizagem. Por sua vez, Paulo Freire é mencionado na sua interpretação da pedagogia transmissiva, como opressão do sistema de ensino. Apresenta-se o conceito bancário de educação que é discutido por Freire como uma pedagogia tradicional e transmissiva.

Dessa forma, salientam-se obras importantes e as ideias da pedagogia da liberdade e evidencia-se o diálogo como contribuição importante para a ideia do desenvolvimento das pedagogias participativas. Assim, por meio de discussões e uma tabela, os autores contrapõem a pedagogia transmissiva da pedagogia participativa, elencando algumas concepções que divergem:

Quadro 1 – Comparativo das pedagogias transmissivas e pedagogias participativas

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Fonte: Elaborado pela autora a partir da obra, mais especificamente nas páginas 17, 18 e 19.

Dado esse quadro-síntese das ideias principais que divergem as duas pedagogias, todo o livro se detêm em trazer minúcias da pedagogia participativa, em prol da educação com qualidade para a infância, principalmente. Por isso, há uma problematização da visão de Educação Infantil voltada ao assistencialismo, aos cuidados e à preparação para a inserção ao Ensino Fundamental. Assim, o livro vai apresentar a Pedagogiaem- Participação, perspectiva pedagógica situada na família das pedagogias  participativas. Essa perspectiva construída por João e Júlia Formosinho tem como essência a criação de ambientes pedagógicos, nos quais interações e relações sustentam no cotidiano atividades e projetos conjuntos, permitindo que a criança e o grupo construam e sejam protagonistas de suas aprendizagens. Apontam a Educação Infantil como um espaço democrático, para formação de seres humanos livres e colaborativos – tanto adulto como criança. Esse contexto democrático é contextualizado pelos direitos humanos, em especial das crianças, o direito de aprender. Esse direito de aprender é motivado na identificação da criança pelos seus interesses, desejos, motivações. E, assim, os escritos abordam especificidades dessa pedagogia, apontando para eixos pedagógicos: ser/estar; pertencer e participar; exploração e comunicação; narrativa das jornadas de aprendizagem. Esses eixos, apresentados e esmiuçados asseguram o ser e estar em um ambiente de pluralidades e diversidades de identidades, que proporcionam interações e relações para as crianças. Além disso, confere intencionalidade à conectividade e ao pertencimento, nos quais as crianças aprendem a desenvolver laços e sentimento de pertença. A exploração e comunicação permitem anunciar uma pedagogia de aprendizagem experiencial, em que se faz, se experimenta, se comunica, através das diferentes linguagens (nessa abordagem Malaguzzi serve como fonte de inspiração). As narrativas infantis dão suporte a uma pedagogia que dá sentido e significado às aprendizagens. Ou seja, me permito aqui, elucidar, através de um esquema, a estrutura da pedagogia em participação:

Figura 1 – Pedagogia-em-participação

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Fonte: Elaborado pela autora a partir da obra.

A segunda parte do livro compreende conceitos técnicos e abordagens para fazer uma coleta de informações com qualidade para subsidiar a avaliação. Enunciam-se diversas possibilidades metodológicas para a coleta de informações, de acordo com uma pedagogia participativa. As opções fornecidas ganham um caráter em comum ao perceber todas que são exploradas pelos descritos: a escuta e o olhar atento às explorações e experimentações infantis. Seja a criança que experimenta nas suas relações, com o corpo, com o objeto, com o mundo, as possibilidades se engajam em que o professor torne esse movimento visível para reflexão e para contextualizar seus processos e resultados pedagógicos. A obra sugere análise documental, diálogos reflexivos, instrumentos de observação, imagens e gravações de áudio, questionários e enquetes, diários.

Com essas opções e descritos de avaliação em processo, as reflexões deixam claro que a avaliação deve reconhecer a complexidade da experiência das crianças e do ato educativo. Assim, busca-se apresentar um modelo de avaliação holística, que é orientada pelos contextos, processos e resultados.

É um processo participativo, que busca a contribuição de profissionais, das crianças e das famílias. Dessa forma, em um dos capítulos, apresenta-se a documentação pedagógica. Expressão essa, de discussões contemporâneas no âmbito de educação das infâncias, que está visando um material que dá suporte à visibilidade da criança que aprende. Assim, coloca em evidência a documentação pedagógica como um estudo dos processos e das realizações da aprendizagem das crianças, que sustenta a monitoração da qualidade e avaliação pedagógica. As reflexões sobre documentação pedagógica apontam que ela precisa revelar as aprendizagens e o desenvolvimento infantil para servir as crianças e famílias, mostrando-se democrática e participativa, que envolva as crianças na construção. Que, respeite a aprendizagem holística das crianças, que apoie a jornada de aprendizagem individual e de grupo.

A documentação é uma forma de avaliação fundamentada nos registros de aprendizagem de cada criança, contextualizada por narrativas delas, anotações do professor, fornecendo uma história contada sobre essa criança que aprende.

Por fim, na terceira parte, o livro apresenta sete estudos de caso, que poderiam aqui ser demarcados um a um, mas que, demonstram práticas de pesquisa e avaliação, construídos nos princípios da pedagogia participativa. Acredito que a obra seja um convite para pensar em uma avaliação com contexto e embasada numa teoria com fundamento e coesão.

Traz reflexões contemporâneas da avaliação e da imagem de criança, questionando com referenciais atuais como Malaguzzi, mas também com autores que fizeram rupturas de paradigmas, como Paulo Freire e Dewey.

Dessa forma, aprofunda as reflexões que são questionadas histórica, social e politicamente sobre as culturas de infância e de escola. Um caminho para a transformação, como anuncia o título da obra, pode ser tomado como reflexão final do que fica ao findar a leitura e as diversas linguagens que se fazem presentes na obra. As figuras, os quadros, comparativos, as fotos, anotações, os desenhos infantis trazem um caráter simbólico e de significado para o leitor e pesquisador. O professor é agente de transformação, precisamos refletir sobre as práticas e concepções que circundam nossas escolas, a fim de promover um trajeto mais verdadeiro para a criança protagonista.

Notas

1 Informações da obra analisada, não há registros públicos sobre idade e origem específica da autora.

2 Informações da obra analisada, não há registros públicos sobre idade e origem específica da autora

Lilibeth Wilmsen – Pedagoga. Mestranda em Educação no PPGEDU – UCS. E-mail: [email protected] Orcid ID: https://orcid.org/0000-0002-8783-6438

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