História e Correspondência: “vestígios de estranha civilização”?

(…) “Sábios em vão

Tentarão decifrar

O eco de antigas palavras Fragmentos de cartas, (…)

Vestígios de estranha civilização” (…)

(Futuros amantes – Chico Buarque, Paratodos, 1993)

Em um mundo de comunicação instantânea possibilitada pelas tecnologias da informação e comunicação, talvez soe estranho o interesse de historiadores pelas correspondências em seus mais variados estilos e épocas. Distância e ausência são, até os dias atuais, motivos para a efetivação do ato de escrever cartas, de se corresponder. As cartas, como os e-mail’s e mensagens enviadas por aplicativos como o whatssap, movem-se entre a presença e ausência, ao mesmo tempo em que à distância, mantemos os vínculos. Forma utópica da conversa, registro particular do mundo, a troca de cartas, cuja origem se perde na antiguidade, atingiu o auge na Europa Ocidental, como forma de escrita pessoal, durante os séculos XVIII e XIX, e como consequência do processo maciço de alfabetização.

Cartas são necessariamente escritas para um destinatário, seja uma única e particular pessoa, seja um conjunto maior de leitores, conhecido ou não pelo remetente que, por sua vez, também pode ser um indivíduo ou um coletivo. De maneira geral, cartas são escritas para serem lidas por certa pessoa, selando um “pacto epistolar” abarcando assuntos variados e até íntimos e um pouco secretos. Nesses casos, elas podem ser cuidadosamente guardadas pelo destinatário, como um bem de valor afetivo incomensurável, como um “objeto de memória”. Contudo, não é incomum que, justamente pelas mesmas razões, elas sejam destruídas (até a pedido do remetente) ou sejam mantidas a distância de qualquer outro leitor, como se uma aproximação indevida pudesse implicar invasão de privacidade, não importando a distância decorrida entre o momento da escrita da carta e o da leitura efetuada.

A concepção desse dossiê surgiu a partir de nossos interesses em articular História e Correspondência, por ser este um campo em que temos atuado, por considerarmos bastante profícuo para a compreensão da produção Intelectual. Campo que vem sendo bastante praticado, sobretudo contemporaneamente, na academia a partir da disponibilização dos acervos privados de intelectuais que mantiveram a prática epistolar. No entanto, ressalte-se que a prática epistolar pode ser localizada já nas sociedades do antigo Oriente Próximo, na Grécia Helênica, no império Romano, no medievo romano-germânico, etc. Há, sem dúvida, uma vasta documentação que se apresenta ao historiador interessado em produzir biografias privadas, intelectuais, políticas, dentre as muitas outras dimensões que este tipo de fonte congrega.

Assim, o dossiê teve como objetivo maior juntar artigos e pesquisadores que focalizem o contato entre História e correspondência, propondo-se, portanto, a explorar os múltiplos aspectos da correspondência, a partir dos resultados de investigações que aprofundem o uso dessa fonte como objeto da produção historiográfica.

O primeiro artigo que compõe o dossiê, “Meu caro freguês dos domingos”: cartas de Monteiro Lobato a Anísio Teixeira, de autoria de Emerson Tin, aborda a leitura da correspondência mantida entre Monteiro Lobato e Anísio Teixeira nos permitindo não apenas reconstruir as relações de admiração e afeto mantida entre esses dois importantes intelectuais da primeira metade do século XX, mas também refletir sobre o papel da imprensa na história do Brasil, a partir da reconstrução do curioso caso “Miss Brasil”, narrado por Lobato a Anísio Teixeira.

O segundo artigo “Cumpro meu destino de porteiro-apresentador neste Nordeste”: a correspondência de Luís da Câmara Cascudo e José Américo de Almeida (1922-1978), Giuseppe Roncalli Ponce Leon de Oliveira busca demonstrar que Cascudo, mesmo tendo estabelecido uma rede de sociabilidade intelectual “modernista”, não deixou de estabelecer contatos com uma rede de sociabilidade intelectual “regionalista”. Embora a respectiva correspondência com José Américo de Almeida não estabeleça um circuito fechado de diálogos e ideias, é possível, por intermédio de um cotejamento minucioso das fontes, remontarmos aspectos dessa experiência e de sua relevância para a formação intelectual de Luís da Câmara Cascudo.

O terceiro artigo, Acuidade miraculosa do poeta nada: Câmara Cascudo entre cartas, ensaios e poemas, Marcos Silva problematiza a condição ensaísta de Luís da Câmara Cascudo nos campos de literatura e cultura com maior atenção para sua poesia e correspondência. Este texto comenta o estudo de Dácio Galvão sobre a Poesia de Câmara Cascudo presente no corpo da correspondência estabelecida com Mário de Andrade e realça seus diálogos com aqueles outros gêneros textuais.

No quarto artigo, Entre amigos: diálogo epistolar entre Vingtun Rosado e Raimundo Nonato da Silva Paula Rejane Fernandes e Hélia Costa Morais exploram e analisam a correspondência trocada entre os intelectuais Jerônimo Vingt-un Rosado Maia e Raimundo Nonato da Silva. Por meio das correspondências, as autoras acreditam que podemos ler a respeitos das pesquisas que vinham realizando e, principalmente, sobre as formas como os dois intelectuais mobilizavam forças para publicar suas obras e o modo como a troca de cartas auxiliou neste processo.

No quinto artigo, O Governo provisório de Getúlio Vargas e as lideranças políticas do Rio Grande do Sul e de São Paulo (1930-1932) Antônio Manoel Elíbio Júnior, pretende discutir as articulações das elites políticas do Rio Grande do Sul e de São Paulo, durante o Governo Provisório de Getúlio Vargas, arregimentadas em torno do Partido Republicano Riograndense – PRR, Partido Libertador – PL, Frente Única Gaúcha – FUG, Partido Republicano Paulista e Frente Única Paulista – FUP. Após a “Revolução de 1930” as lideranças políticas destes dois estados procuraram mobilizar inúmeros artifícios e estratégias para viabilizar suas demandas e interesses junto ao Governo Vargas. Assim, o que se analisa, principalmente a partir das correspondências trocadas pelas elites partidárias, são os embates acerca da participação das alianças na esfera de poder do executivo federal.

O sexto artigo, Para Serem Atendidas: cartas ao Interventor Magalhães Barata, Pará (1930-1935), escrito por Michele Rocha da Silva apresenta como diversos segmentos sociais, pela ótica de seus efeitos, em diálogo com o Governo, vivenciaram a experiência política em seu cotidiano frente às propostas reformistas da primeira Interventoria de Magalhães Barata (1930-1935) no Pará. Para tanto, investigou-se as cartas que homens e mulheres enviavam ao Interventor. Com bases nos suportes teóricos da história social e cultural, essa pesquisa buscou compreender que ideias, crenças, valores, identidades culturais, próprios dos missivistas e construídos em meio as suas experiências e vivências culturais, econômicas e políticas, foram fatores determinantes para a reinterpretação do discurso do Governo de Intervenção e, nos limites de suas possibilidades, permitiram a negociação com o mesmo.

No sétimo artigo, Dos Leitores: cartas ao jornal “O Estado de São Paulo” (1961-1964), Vitor Arzani Martins busca a problematização das correspondências entre público leitor e jornal ao passo que discute os procedimentos metodológicos para a análise deste tipo de fonte. Levanta hipóteses acerca da seleção, publicação e diagramação das cartas e seus significados, bem como problematiza a veracidade de tais documentos.

No oitavo artigo, Escritos e deslocamentos Literatura epistolar no processo de e / imigração portuguesa (São Paulo-Portugal 1890-1950) Maria Izilda Santos de Matos investiga a presença dos e / imigrantes portugueses em São Paulo (1890 e 1950). Entre várias questões abordadas, buscando recuperar as redes constituídas, as sociedades de saídas e de acolhimento, os preparativos para viagens, desejos de reunificação familiar e sensibilidades envoltos nesse processo. O texto encontra-se assentado numa ampla documentação epistolar, as cartas analisadas foram localizadas na antiga Hospedaria dos Imigrantes (atualmente depositadas no Arquivo Público do Estado de SP-APESP) e em Arquivos Distritais portugueses.

No nono artigo, Cartas e descobertas: o território paulista nos escritos de Taunay (1865-1866), Airton José Cavenaghi analisa a produção epistrográfica de Alfredo de Taunay (1865-1866), durante sua jornada na região do conflito da Guerra do Paraguai, quando atravessou o território da Província de São Paulo. Procura compreender os aspectos narrativos e etnográficos desta produção textual, associando-a as percepções do caminho e ao território da jornada, a recepção recebida nos lugares de hospedagem, bem como a análise e recuperação de narrativas associadas aos processos constituintes do setor de serviços de hospitalidade, nesse momento histórico específico. Além disso, apresenta a relação entre a produção das narrativas de Taunay, associando-a a outras produções documentais de outros personagens, presentes ou não, nas suas narrativas originais.

No décimo artigo, Comunica-me as ocorrências da casa: o Padre Ibiapina e as minorias segregadas do século XIX, Noemia Dayana de Oliveira e João Marcos Leitão Santos a luz das categorias de instituições e minorias oferecem importante chave analítica para compreender processos socioculturais do Nordeste do século XIX. Principalmente a partir da intervenção do padre Ibiapina que geria as Casas de Caridade através de cartas, como se evidencia de forma mais precisa nas correspondências dirigidas a irmã superiora Demásia de Pocinhos / PB. Ao recolher essas cartas e observá-las amiúde os autores problematizam as relações institucionais travadas entre o idealizador desse projeto expressivo em termos sociais e culturais, além da significativa extensão territorial, e as mulheres responsáveis pela organização e manutenção desses espaços. Igualmente, interroga-se o discurso do padre que se direciona a defesa dos pobres e miseráveis, sem perder de vista a importância de colaborar para a transformação do cotidiano de muitos homens e mulheres em situação de pobreza que caracterizava a sociedade do Nordeste oitocentista.

O último artigo que compõe o respectivo dossiê, Carta a Proba, de Santo Agostinho, Marinalva Vilar de Lima analisa a carta-resposta de Agostinho a Proba; cujos temas, da valorização da beatitude, da felicidade, da vida bem-aventurada, do cuidado com as ilusões provocadas pela riqueza material, pelos deleites e pelos desejos carnais, constituem a base de sua argumentação. Carta que, a priori, foi destinada à viúva Proba, mas que posteriormente integra o hall da produção agostiniana em sua vontade de edificação e defesa do credo cristão, projetando a “vida eterna” em detrimento da “vida no tempo”.

Por fim os artigos aqui apresentados, nos mostra que caberá ao historiador decidir o que irá buscar nesses documentos, fazendo deles fontes ou objeto de História da Literatura, da Educação, da Cultura, etc. Ao consideramos as cartas como fontes de pesquisa, é nos solicitado todos os procedimentos de crítica documental que são usualmente empregados a toda documentação escrita, acrescida da preocupação baseada no seu caráter subjetivo anteriormente mencionado. As considerações feitas sobre essa dimensão da “escrita de si” remete à constatação que as informações nelas contidas serão sempre versões individuais ou coletivamente construídas sobre determinados fatos e acontecimentos. Esperamos que esta coletânea venha a estimular esse profícuo debate.

Giuseppe Roncalli Ponce Leon de Oliveira – Professor Doutor (Bolsista PNPD-CAPES / PPGH / UFCG

Marinalva Vilar de Lima – Professora Doutora (UAHis / PPGH / UFCG)


OLIVEIRA, Giuseppe Roncalli Ponce Leon de; LIMA, Marinalva Vilar de. Apresentação. Mnemosine Revista, Campina Grande – PB, v.8, n.3, jul / set, 2017. Acessar publicação original [DR]

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