Este número da Projeto História parte de um pressuposto aparentemente incontornável: as relações entre história e esporte são antigas e amplamente reveladoras dos receios e sonhos de cada cultura. Por isso, a importância do seu estudo é inegável.

Entretanto, é relativamente recente a profusão de pesquisas históricas sobre as atividades de esporte e lazer. Conforme a entrevista aqui publicada do historiador Georges Vigarello, desde as últimas décadas do século passado, o tema adquiriu uma relevância inusitada dentro dos meios acadêmicos, dando lugar a teses, eventos, revistas científicas e livros que abordam desde a história das práticas esportivas tradicionais, até aquelas inventadas ou modificadas na época contemporânea.

De fato, compreender as relações entre história e esporte tornouse um dos grandes desafios para a pesquisa acadêmica. Diferentes pesquisadores dedicaram-se a questionar os significados e as funções culturais dos jogos e competições esportivas, mas também das experiências lúdicas, distantes dos estádios e clubes profissionais. É quando as referências clássicas de autores como Norbert Elias e Marcel Mauss foram consideradas à luz das novas maneiras de conceber o corpo e os meios de comunicação de massa, o desempenho físico e a técnica esportiva.

Cada vez mais amplamente, portanto, a investigação das atividades esportivas possibilitou a construção de uma história das emoções e de uma história do corpo, mas também contribuiu para renovar o entendimento das relações entre os gêneros, os países e as culturas. O tema “esporte” favoreceu, cada vez mais, a análise dos meandros do poder político e do funcionamento das instituições que o asseguram. E ainda, proporcionou subsídios para o entendimento sobre como a ciência e a técnica modificaram o espaço natural e a rotina das cidades, as noções de rendimento físico e de saúde, especialmente no decorrer dos dois últimos séculos.

Mas esta história, como tantas outras, é complexa e nem sempre evidente ao primeiro olhar. Este é o eixo central do presente número da Projeto História: mostrar o quanto a relação entre história e esporte é rica em problemas e, portanto, desencadeadora de temas essenciais ao entendimento da época contemporânea. Nesse sentido, o artigo do pesquisador alemão Hans Ulrich Gumbretcht, aqui publicado, evidencia o quanto os estilos esportivos são reveladores da história de cada país mas, também, de suas ambiguidades e da riqueza cultural que os caracteriza. Na entrevista realizada com o historiador Georges Vigarello, a história do esporte diferencia-se de uma análise dos esportes, embora ambas se complementem mutuamente. Especialista em história do corpo, Vigarello ressalta o lugar do heroísmo valorizado na atividade esportiva atual, assim como a importância do estudo sobre os esportes entre os historiadores.

A complexidade do tema envolve, também, a relação entre esporte e escrita. Entre a cultura dos gestos e a história dos jogos há um vínculo histórico cuja riqueza foi explorada pelo sociólogo e antropólogo português, Nuno Domingos, em seu artigo sobre o futebol em Moçambique colonial. Nele, pode-se observar como, em contextos coloniais, o futebol funcionou como um espaço para “negociar a modernidade”. Já no Brasil, o futebol pode ser repensado a partir de uma disputa entre raças e segundo as rivalidades entre nações, tal como mostra o artigo de Sérgio Settani Giglio, Marcel Diego Tonini e Katia Rubio, intitulado “Do céu ao inferno”. Defendendo a tese de que “o futebol é o grande ritual brasileiro”, o artigo de Martin Curi estuda etnograficamente as manifestações durante a Copa das Confederações em 2013.

Certamente o futebol é um dos esportes que, especialmente a partir do último século, mais chama a atenção dos povos e dos meios de comunicação de massa. No artigo dos pesquisadores franceses Jean Jacques Courtine e Claudine Haroche, a presença das multidões nos estádios, evocadora do antigo medo das massas ignaras, remete o leitor aos textos de Gustave Le Bon mas, igualmente, o faz refletir sobre a invenção de um “novo homem dos estádios” globalizado. O futebol possui portanto uma história densa, cujas tensões nem sempre são lembradas nos momentos espetaculares dos grandes triunfos e derrotas. Fábio Franzini revela algumas articulações históricas entre o Brasil político, militar e futebolístico. Dentro dessa complexidade esportiva, existem ainda os bastidores do jogo. O artigo de Hirata e Freitas Júnior mostra algumas das tensões ocorridas na tramitação Lei Pelé e as trajetórias de sua institucionalização.

Além do papel preponderante do futebol nas sociedades contemporâneas, existem jogos e esportes que também revelam sua rede de tensões históricas e de simbolismos essenciais para a compreensão de cada cultura. O artigo de Estefania Fraga e Felipe Marta privilegia o estudo da tradição das artes marciais segundo uma pesquisa junto a imigrantes japoneses em São Paulo. Investigação original, que mostra o quanto uma atividade física expressa os desígnios de uma cultura e de uma trajetória imigratória.

Entretanto, os séculos XIX e XX foram pródigos em “esportivizar” uma série de experiências que, durante anos, existiam em forma de festas e brincadeiras. O texto de Douglas da Cunha Dias e Carmen Lúcia Soares exemplifica o quanto algumas experiências nas águas de Belém do Pará passaram a ser vistas como “esportes”, dignos de uma cidade que, no começo do século passado, voltava-se a “domesticar a natureza”, segundo os pressupostos de uma burguesia florescente. Além disso, algumas das primeiras experiências esportivas brasileiras foram rigorosamente analisadas por Victor Andrade de Melo, que trabalha com diferentes fontes de pesquisa e discute as representações esportivas na capital do Império brasileiro, numa época em que já existiam agremiações esportivas, corridas de cavalo e regatas.

Ao alinhavar o curso da história à experiência do futebol, do remo, das artes marciais, das corridas e junto de uma miríade de atividades próximas ou totalmente infiltradas pelo esporte, fica claro que o gosto por torcidas e estádios não nasce pronto. Muitas vezes uma modalidade esportiva tem origem

em jogos educativos informais, noutras, ela brota da gratuidade de brincadeiras antigas, cujas bordas escapam para o lado das disputas por mais espaço, ou simplesmente por um tempo mais elástico, dentro do qual é aberta a possibilidade de risos e, sobretudo, do convívio coletivo.

Denise Bernuzzi de Sant’Anna

Estefania K. Fraga


FRAGA, Estefania K.; SANT’ANNA, Denise Bernuzzi de. Apresentação. Projeto História, São Paulo, v. 49, 2014. Acessar publicação original [DR]

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