Para os historiadores, e não apenas para os historiadores da literatura, pelo menos desde meados do século XX, a obra literária foi alçada, assim como a obra de arte, os falares, os gestos e outros fenômenos e objetos culturais, à condição de fonte para a construção do conhecimento histórico. É certo que a presença da literatura na escrita historiográfica antecede ao grande movimento de renovação da História iniciado por essa época. Não há de se estranhar a presença da literatura em textos de orientação marxista e mesmo em clássicos do positivismo. Mas, da observação dos trabalhos publicados ao longo das últimas cinco décadas, depreende-se não apenas o crescimento em importância do uso da literatura como fonte histórica mas, também, mudanças significativas no tratamento dessas fontes e na definição das matérias que, por meio delas, se anunciam como objetos de investigação.

A literatura fez-se fonte privilegiada de um amplo campo de saber em favor do qual militam – e compartilham fontes e métodos de abordagem – historiadores, filólogos e outros pesquisadores do campo das letras, em um esforço conjugado, voltado para a descrição das obras literárias, para a enunciação de seus caracteres linguísticos e valores estéticos, para a identificação de fórmulas literárias que se mantêm no tempo, para o enfrentamento das questões pertinentes ao fenômeno da autoria e das representações sociais.

Do ponto de vista metodológico, a utilização da literatura como fonte demanda o discernimento sobre os conceitos e métodos de abordagem ofertados pela filologia, pela antropologia, pela sociologia, às vezes pela psicologia, pela história da arte, da literatura, da filosofia, da música e de outros campos da história, a partir dos quais a história social e cultural desenvolve os seus próprios instrumentos de análise. Por outro lado, aos pesquisadores impõe-se situar frente aos inúmeros conceitos de uso corrente, como ideologia, mentalidades, representações, imaginário etc.

O conhecimento histórico acumulado sobre épocas e lugares precisos, ou abarcando grandes regiões e períodos, tem se revelado indispensável aos estudiosos da literatura, mesmo àqueles que buscam desvelar caracteres próprios a autores, obras e movimentos literários. E, mais recentemente, tem se revelado imprescindível para aqueles que se debruçam sobre a tarefa de desvendar os modos individuais e coletivos de recepção das obras literárias.

Ao historiador, especificamente, a pesquisa deve conduzir à construção – e transposição para a escrita historiográfica– de discursos sobre realidades históricas, nas quais as obras literárias e as tendências classificadas como movimentos literários têm origem e nas quais se difundem.

Dois problemas se apresentam, entretanto, para os historiadores da literatura: o primeiro refere-se à própria noção de realidade histórica que se busca elucidar; o segundo diz respeito à relação entre a literatura e essa suposta realidade histórica, à qual se pretendeu, durante muito tempo, atribuir uma concretude ou subordinar aos esforços de reflexão teórico-abstrata, mas que, hoje, se revela multifacetada, cambiante conforme os determinantes espaço-temporais e as leituras que dela fazem os agentes do fazer historiográfico.

É indiscutível que a literatura traz importantes informações sobre essa suposta realidade histórica, não como um espelho a refletir as estruturas e movimentos da sociedade, mas como um dos seus elementos constitutivos. Como representação social, a produção literária permite elucidar aspectos importantes da vida material, dos conflitos e formas de sociabilidade, das formas de pensamento, dos valores e padrões de conduta de uma determinada configuração histórico-geográfica.

Outros problemas são reportados por aqueles que têm se debruçado sobre a tarefa de escrita da história a partir das fontes literárias: as dificuldades de acesso às fontes; as barreiras à interlocução face às eventuais diferenças de língua e de linguagens; as alterações estéticas e ideológicas e, também, materiais, que afetam os documentos e que se refletem nos modos de recepção individuais e coletivos dos textos. Outrossim, é imprescindível reconhecer que sobre a produção literária pesam a origem, formação e linguagem individual do autor; as convenções estéticas do seu tempo, às quais ele está mais ou menos subordinado; também, os valores sociais e culturais próprios aos grupos que lhe patrocinam e aos que lhe servem de audiência. São inúmeras as possibilidades de abordagem que estão a exigir teorias e métodos distintos. Enfim, faz-se necessário refletir sobre a especificidade da literatura entre as diversas formas de expressão cultural, particularmente nas sociedades em que o acesso à leitura de textos escritos, predominantes nos estudos de história literária, está restrito a uma ínfima parcela da população.

É sobre esse complexo conjunto de problemas que se estrutura o presente dossiê temático, dedicado às relações entre literatura e história. Abre a sessão o artigo intitulado “Sacrifício e lealdade no campo de batalha”, de autoria do Prof. Elton Oliveira Souza de Medeiros, coordenador do Núcleo de Estudos Interdisciplinares das Ilhas Britânicas: Antiguidade e Medievo. A partir do conceito de mito-história, o autor analisa as apropriações, no século XIX, do poema A Batalha de Maldon, que tem por tema a batalha, ocorrida em 991, entre anglo-saxões e vikings e que foi difundido, à época de sua elaboração, como instrumento de afirmação dos modelos heroicos e de organização da vida social anglo-saxônicos.

O artigo de Adriana Zierer, professora de História Medieval da Universidade Estadual do Maranhão, tem por título “Entre o Paraíso e o Inferno: os sonhos n’A Demanda do Santo Graal” e versa sobre as representações dos espaços do além-túmulo na versão portuguesa da Queste del Saint Graal, novela de inspiração bretã. Difundida em Portugal, no século XIII, com o título A Demanda do Santo Graal, a história individualiza os personagens em conformidade com seus vícios e virtudes e faz ver, por meio deles, dos relatos dos seus sonhos, as características dos espaços extraterrenos, em consonância com os ensinamentos da Igreja.

É também da literatura de cavalaria de expressão portuguesa que trata o artigo de Ana Márcia Alves Siqueira, professora da Universidade Federal do Ceará, “O simbolismo do cavaleiro andante entre Literatura e História”. Em uma perspectiva temporal mais ampla, que remonta ao século XIII e se estende ao século XX, a autora propõe analisar a imagem do cavaleiro andante, de viés salvacionista, como paradigma da identidade nacional portuguesa.

O artigo seguinte, de autoria de Roberto Silva de Oliveira, professor da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, tem por título “A vida e a obra de Dante Alighieri na perspectiva de Giovanni Boccaccio e Leonardo Bruni”. O texto tem por proposta fazer um estudo comparativo das abordagens de Boccaccio e Bruni sobre os fatos que marcaram a vida e a obra do poeta, de modo a destacar os interesses e condicionantes sociais e pessoais que, em contextos distintos, resultaram na elaboração do Trattatello in laude di Dante e do Della vita, studi i costumi di Dante.

De autoria do professor Geraldo Augusto Fernandes, da Universidade Federal do Ceará, é o texto “Uma leitura controversa de texto antigo no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende”. O artigo versa sobre os critérios de escolha e utilização de versões de uma mesma fonte e sobre as leituras possíveis que resultam dessas escolhas.

O dossiê se encerra com o texto “Escrita e infância nas estórias de Luandino Vieira: uma leitura de Luuanda”, de Zoraide Portela Silva, professora da Universidade do Estado da Bahia. O artigo trata do hibridismo linguístico e cultural de Luandino Vieira, especialmente nos seus escritos em que figuram como personagens centrais as crianças dos musseques angolanos. A autora propõe refletir sobre as relações entre o bilinguismo e as configurações específicas da dominação colonial portuguesa em Angola.

Rita de Cássia Mendes Pereira – Professora da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb) Doutora em História Social pela Universidade de São Paulo (USP) E-mail: [email protected]


PEREIRA, Rita de Cássia Mendes. Apresentação. Politeia: História e Sociedade, Vitória da Conquista – BA, v. 13, n. 2, 2013. Acessar publicação original [DR]

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