A História seja considerada como ciência ou arte, ou algo entre uma e outra, não pode deixar de ser posta em si no tempo de sua tessitura. Malgrado diga-se que ela possua por objeto um tempo passado, cabe considera-la em todas as suas perspectivas, afinal trata-se de um sujeito que analisa no presente indícios de um passado à sua e outras temporalidades que, por sua vez, será em narrativa lida, apropriada e criticada por sujeitos em um tempo que não se fecha em si. Neste ínterim, expõe-se a complexa constituição da matriz disciplinar enunciada pelo teórico alemão Jörn Rüsen em sua Razão Histórica2. É neste caminho que se constrói este Dossiê sobre “História, narrativa e usos do passado”. Por compreender a história como problematizadora de uma série de questões, em diferentes tempos e espaços; por entender a necessidade de refletir sobre sua escrita e os sujeitos envolvidos; por compreender com Rüsen, na obra citada, que o cotidiano do historiador é a base para reflexão do seu exercício; por compreender a estreita relação entre a História e a vida prática das pessoas; por compreender, enfim, as diversas possibilidades de escrita e de usos que podem ser feitos do passado.

Por todas estas questões, são propostas as reflexões que seguem nos artigos, cabendo, no entanto, uma salvaguarda: a de que, acerca das reflexões sobre a História, narrativa e usos do passado não se limitam ao aqui elencado, mas sim esta é uma fração pequena de áreas tão profícuas à reflexão, por parte de filósofos e historiadores e que estão ganhando espaço entre pesquisadores brasileiros e de diversos países. Feitas essas breves contextualizações, cabe iniciar pelas contribuições dos intelectuais que construíram esta miríade temática, congregando profissionais da UFMS, UniCEUMA, UNIVERSO, UDF, UnB, UFRJ, UFMA e UFPI. A iniciar por uma história que é explicada em desenvolvimento e com uma finalidade, em detrimento da realização do Espírito, portanto plena de intencionalidades em seu devir. Assim podemos perceber as formas da razão associadas à historicidade em Hegel propostas por Delmo Mattos e que denotam, no século de Hegel, uma perspectiva bastante apropriável para o Estado de Direito, logo a serviço da ordem política e de uma elite que usufrui de fato do devir da História no contexto.

Neste sentido, mas em outra linguagem, Diogo Pereira da Silva nos traz à tona a música de Mozart que, na perspectiva apresentada mostra um passado apropriado em uma ópera desejante de representar “uma alegoria velada do monarca reinante, cuja Corte havia comissionado a composição da Ópera para um determinado festejo – como Coroações, Onomásticos, Jubileus, Bodas” conforme diz o autor. Para além do exemplo em questão, o material serve de instrumento para reflexões de outras produções musicais do século XVIII dentro do mesmo gênero que se apropriaram de um passado greco-romano. No âmbito filosófico e literário, Renato Nunes Bittencourt evoca Nietzsche e Eça de Queiroz para pensar o conhecimento histórico e a consciência histórica, no sentido de suas utilidades, benefícios ou malefícios ou, como o próprio autor diz, “benefícios e malefícios decorrentes do uso do conhecimento histórico na condução da vida individual e da consciência social”. De fato, cabe pensar sobre a presença do conhecimento histórico na vida prática das pessoas e nos níveis de consciência a serem percebidos acerca do mesmo. Em uma perspectiva prática, em relação à Educação e movimentos populares, Wellington Lima Amorim e ainda Maria Aparecida Alves da Costa que mostra a própria ação de sujeitos no ato de empoderamento ao buscar definir seus papéis sociais em prol de uma Educação de qualidade. Neste sentido, a apropriação de ideias, o embate e engajamento caracterizam, no plano social, o plasmar de ações humanas no tempo e espaço que anseiam por construir sua própria história e mudar a ordem do estabelecido, criando expectativas em um horizonte de histórias não privilegiam classes subalternas.

E, nos contextos mais variados, não apenas a literatura, a música, a filosofia, a educação ou mesmo as ações humanas denotam apropriações, releituras e usos do passado. A figura do historiador não aparece imune a formas de leitura e as opções teóricas, metodológicas, perspectivas acerca das fontes históricas e construções narrativas são permeadas de concepções de verdade (entre ciência e arte), subjetividades e projeções / construções de identidades e alteridades. Neste caminho os autores Fábio Libóreo, Daniela Scheinkman Chatelard, Rita de Cássia Oliveira e Roberto Nunes Bittencourt problematizam diversas possibilidades e contribuem para uma profícua reflexão das relações entre passado e presente em diversas temporalidades com as quais trabalham os pesquisadores. Espaço aberto e palavras escritas, ficam as contribuições para problematização das áreas que dão nome a este dossiê, com o saboroso gosto de dever cumprido, concomitante à sensação de que a tarefa está incompleta. Gosto este e sensação esta que advém da consciência de que o dizer do poeta Antonio Machado, no tocante à Teoria e Metodologia da História, é uma sentença válida: “Caminante, no hay camino, se hace camino al andar.”3 Portanto, sempre haverá reflexões, caminhos, opções e temas a se tornarem objeto de interesse dos historiadores, basta que estes os construam como tais.

Notas

1. Razão histórica: teoria da história: fundamentos da ciência histórica. Brasília: EdUNB, 2001.

2. MACHADO, Antonio. Poesias Completas. Madrid: Publicaciones de la Residencia de Estudiantes, 1917.

Leandro Hecko – Doutor em História pela Universidade Federal do Paraná e Professor Adjunto do Curso de História da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, campus de Três Lagoas – MS. E-mail: [email protected]


HECKO, Leandro. História, narrativa e usos do passado. Revista Expedições, Morrinhos, n6, n.2, 2015. Acessar publicação original. [DR].

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