Histórias ambientais do clima e as baixas temperaturas: perspectivas diante do antropoceno | História Unisinos | 2022

Greta Thunberg Foto Michael CampanellaGetty ImagesVeja
Greta Thunberg | Foto: Michael Campanella/Getty Images/Veja

A história ambiental produzida, tematizada e difundida no e a partir do Brasil tem sido extremamente exitosa. O número de pesquisadores aumentou exponencialmente na mesma medida em que a relevância dos temas ambientais invadiu as sensibilidades sociais e as vozes daqueles que clamavam por relações sustentáveis ou amigáveis com a natureza têm sido minimamente ouvidas. Passando ao largo dos temas clássicos de mobilização social pelo meio ambiente como o desmatamento e a poluição, o clima parece não ter ainda formado um horizonte de trabalho para muitos especialistas envolvidos na arena da história ambiental, pelo menos no Brasil – de onde escrevemos. Em que pese a centralidade desse tema na discussão internacional – representado, principalmente, pela criação, em 1988, do Intergovernmental Panel for Climate Change da ONU e pelo tratado Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima de 1992 e replicado pelas frequentes conferências das partes (COPs) – e na agenda do ativismo (vide o sucesso do movimento Fridays for Future de Greta Thunberg, por exemplo), o clima não logrou alterar significativamente as pesquisas na seara da História. Em geral, a relação climática com a sociedade se manteve no interior das ciências climatológicas, sem que ela assim propusesse um diálogo com conceitos e temas-chave da análise histórica como, por exemplo, colonialismo, gênero, migrações, capitalismo, etc.

Isso é ainda mais surpreendente quando pensamos nas tênues relações e distinções entre climatologia histórica e a própria história ou historiografia do clima. De modo geral, e aqui sublinhando Mark Carey (2012), argumenta-se sobre a ênfase cultural e qualitativa da última, que se abre, assim, mesmo às perspectivas indígenas e/ou não ocidentais do clima; a climatologia histórica, por outro lado, teria se conformado sobre as bases quantitativas das ciências climatológicas do eixo norte do Atlântico, “traduzindo” as complexidades atmosféricas de modo universal e por intermédio de uma crescente rede de infraestruturas e máquinas que, hoje, compreendem desde simples barômetros até satélites lançados na órbita da Terra (Mauelshagen, 2018; Brönnimann et al., 2020).

A percepção da culturalidade do clima se reflete, nos últimos anos, especialmente nas discussões sobre o conceito de Antropoceno, que saltou da análise meteorológico/geológica mundial e está a inundar as ciências sociais e humanas. Oriundo de Paul Crutzen e Eugene Stoermer, que, no ano 2000, cunharam o termo, o Antropoceno se apresenta ora como uma ponte entre a natureza e a cultura (Trischler, 2017), ora como um desafio ao edifício da compreensão histórica da humanidade (Chakrabarty, 2009). Sua ideia básica consiste na constatação de que efetivamente os seres humanos conquistaram o poder de alterar o ciclo geológico da Terra, invertendo a equação dos elementos condutores da vida no planeta; tal narrativa, que legitima o curso da civilização ocidental nos últimos séculos, tem sido criticada, e, por isso, a pluralização do antropoceno deve estar na pauta de pesquisas (Acker, 2020). Por outro lado, as humanidades indígenas reclamam suas históricas relações de cuidado com a biodiversidade e o clima e, por isso, demandam a isenção discursiva de suas cosmovisões em relação ao cataclismo climático do Antropoceno (Barca, 2020); além disso, e assim dizem certas lideranças como Ailton Krenak (2019), os povos indígenas experimentam a existência mantendo o clima e a casa comum e, portanto, não devem figurar como elementos da mudança geológica.

Nesse espírito propusemos o dossiê com a intenção de levantar a questão do clima para além de um viés da climatologia histórica. Através da experiência do frio, buscamos promover a história do clima na América Latina, principalmente interessados em entender como as sociedades e naturezas latino-americanas se relacionaram com as baixas temperaturas do continente. O frio surge como um elemento de qualidade, que, a despeito de poder ser mensurado climatologicamente, detém a possibilidade de revelar aspectos culturais, sociais e econômicos de extrema importância, chancelando, assim, a guinada para a história do clima. Porém, de todo modo, como os artigos indicarão, a construção da climatologia na América Latina não se fez de modo uniforme, e inúmeros aspectos de sua capilarização e legitimidade restam acobertados. Ela, aliás, permitiu a construção de relevantes documentos para uma fiel reconstrução dos parâmetros climáticos no continente.

O recurso ao tema das baixas temperaturas também objetivou questionar uma preestabelecida e antiga suposição sobre a América Latina, que é, especialmente, relevante para a identidade brasileira: a tropicalidade climática. A tropicalidade da América Latina aparece frequentemente como um tema naturalizado e que responde por antigas concepções naturais e sociais, algumas delas, inclusive, oriundas do período colonial. Ao pautarmos a discussão climática pela temperatura fria, intencionamos nos engajar na discussão do conceito de tropicalidade, que toca muito especialmente as sensibilidades europeias sobre os mundos colonizados. Outrossim, em países como Brasil, Argentina e Chile, a expressão das fronteiras no sentido longitudinal ofereceu para classes políticas e grupos de interesse as possibilidades para a emergência de fronteiras climáticas e sociais que caminharam de mãos dadas com temas como a modernização econômica, migrações, escravismo, etc. Colonialismos climáticos internos como o do clima subtropical no Brasil (Relly, 2022) ou da tropicalidade no Caribe (Monzote, 2018) ensejaram distintas expressões tecnológicas e econômicas, que se manifestaram em diferentes projetos agrícolas, por exemplo (Klanovicz, 2014).

Pensar as múltiplas implicações do ‘clima’, do ‘climático’ e noções correlatas na escrita da história significa considerar desdobramentos, fontes e abordagens que dialogam com dimensões teóricas e materiais. Isso inclui a leitura de interações ecológicas e simbólicas de humanos e as materialidades das temperaturas, da governança de processos ligados a eventos climáticos ou ainda os papéis da política, das máquinas, instituições e saberes sobre o tema.

Os artigos apresentados neste dossiê correspondem a um esforço de criação de agenda de pesquisa. Claiton Marcio da Silva, em A agricultura científica e a quimera da racialização na modernidade: uma genealogia global e uma percepção subtropical aborda a dimensão técnico-racial da elite agrícola de neoeuropeus ‘aclimatados’ nos subtrópicos, o que teria lhes garantido a posse da terra e sua posição como articuladores de uma conexão global de alimentos após a ditadura civil-militar-empresarial. A percepção subtropical do território sulino, o controle técnico das baixas temperaturas no inverno e a relação destes aspectos com a construção de territórios racializados permeiam a própria ideia de agricultura científica nestes espaços. Esta, ao conjugar sua origem epistemológica em latitudes temperadas com uma produção agrícola controlada por indivíduos social e racialmente identificados com climas amenos, legitimou-se simbólica e materialmente enquanto esforço de modernização e expansão.

Já Eduardo Pedro Gallardo Martínez se debruça sobre a meteorologia como campo institucionalizado de saber, no artigo Historia de la meteorología en la Norpatagonia chilena: la estación meteorológica ‘Juan Kalt Bode’ (1935-2012). Para ele, a expansão do estado nacional por meio do paradigma da modernização foi marcada pelo protagonismo transnacional chileno-alemão na meteorologia, com profundas ligações com a modernização da atividade agropecuária chilena. Gallardo Martínez defende que a percepção de climas amenos no espaço austral chileno teria andado conjuntamente com as tecnologias de intensificação dos sistemas agrícolas nesta região, legitimando assim o corpus científico oriundo do norte global em suas pretensões de previsibilidade e controle, mas simultaneamente sinalizando as possibilidades das nações do sul – neste caso, o Chile – em pautar igualmente tal desenvolvimento sob estruturas transnacionais.

Janaine Trombini e Luís Fernando da Silva Laroque, em ‘La terra nuova’: fatores climáticos e os imigrantes italianos e seus descendentes no Vale do Taquari, Rio Grande do Sul, Brasil, discutem fatores climáticos e a ‘semelhança’ do clima com as terras de origem dos imigrantes italianos e/ou descendentes no Brasil. Os autores deixam entrever que os fatores climáticos desempenharam um papel central na “aclimatação” de imigrantes italianos na região norte do Rio Grande do Sul, e as percepções climáticas advogadas por esse grupo, de certa forma, foram elementos de protagonismo dos mesmos na condução da vida econômica e social das colônias italianas sulinas. Assim, subentende-se a expansão e o manejo da uva e do milho, culturas vinculadas a precisos elementos atmosféricos e vetores globais de tradução climática na era das grandes migrações.

José Luís Ribas Miranda aborda, em O jogador: o guano como estratégia de reinserção do Peru nos mercados internacionais, 1849-1876, a construção do crédito peruano a partir da concessão desse fertilizante natural. Seguindo a senda da história econômica, mas permanecendo próximo ao debate das bases creditícias e financeiras do Peru, Miranda joga luz sobre as relações entre clima e finanças, uma vez que entende o guano – produto extraído dos excrementos de aves marinhas, usado no século XIX e XX como fertilizante nos campos europeus e estadunidenses, e dependente da baixa pluviosidade que a corrente de Humboldt (a mais fria do planeta) provoca na costa do Pacífico da América do Sul – enquanto um ativo ecológico-climático do Peru no sentido de fundamentar as estratégias deste país nos mercados de capital mais relevantes do mundo.

O artigo Pelo Nacional e o Racional: a política da pesca argentina e brasileira para o Atlântico Sul (1919- 1941), de Bruno Biazetto, compara Brasil e Argentina em meio a seus processos de transformação econômico-política, onde o controle do Atlântico Sul foi construído como elemento principal para a demonstração de superioridade regional. Neste espaço aquático – e esta é uma das grandes novidades deste artigo, qual seja, o deslocamento das discussões econômicas e climáticas da terra para o mar –, tido por atores da época como uma possibilidade de reedição dos exitosos sistemas pesqueiros do Atlântico norte e parte dos esforços – principalmente da Argentina – de ocupação e efetiva colonização de suas regiões austrais frias, conceitos políticos como corporativismo, nacional-desenvolvimentismo e conservadorismo são explorados sobre o pano de fundo da construção de mecanismos estatais e institucionais para a exploração econômica dos mares frios da porção leste-meridional da América do Sul.

Tendo, assim, delineado os contornos desta apresentação e visto que escrevemos no outono de 2022 (hemisfério sul), ou seja, na soleira invernal, convidamos e desejamos uma excelente leitura, lembrando aos leitores e leitoras de portarem seus agasalhos e bebidas acalentadoras.

Referências

ACKER, Antoine. 2020. A Different Story in the Anthropocene: Brazil’s Post-Colonial Quest for Oil (1930–1975). Past & Present, 249(1):167-211. doi: 10.1093/pastj/gtz069ch

BARCA, Stefania. 2020. Forces of Reproduction. Cambridge, Cambridge University Press. 80 p. ISBN 9781108878371.

BRÖNNIMANN, Stefan et al. 2020. Instrumental Meteorological Records before 1850: An Inventory. Bulletin of the American Meteorological Society, 101(1):43-47. doi:10.1175/BAMS-D-19-

CAREY, Mark. 2012. Climate and History: A Critical Review of Historical Climatology and Climate Change Historiography. WIREs Climate Change, 3(3):233-249. doi:10.1002/wcc.171.

CHAKRABARTY, Dipesh. 2009. The Climate of History: Four Theses. Critical Inquiry, 35(2):197-222. doi:10.1086/596640.

KLANOVICZ, Jó. 2014. Apple Orchards in Southern Brazil: An Environmental History. In: F. UEKÖTTER (org.), Comparing Apples, Oranges, and Cotton: Environmental Histories of the Plantation. Frankfurt, M., New York, NY, Campus-Verlag, p. 221-238. 272 p. ISBN 9783593500287.

KRENAK, Ailton. 2019. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo, Cia das Letras. 46 p. ISBN 978-85-5451-420-4.

MAUELSHAGEN, Franz. 2018. Climate as Scientific Paradigm – Early History of Climatology to 1800. In: S. WHITE; C. PFISTER; F. MAUELSHAGEN (org.), The Palgrave Handbook of Climate History. London, Palgrave Macmillan UK, p. 565-588; Imprint: Palgrave Macmillan, 2018. 656 p. ISBN 1137430206.

MONZOTE, Reinaldo Funes. 2018. The Greater Caribbean and the Transformation of Tropicality. In: J. SOLURI; C. LEAL; J. A. PÁDUA (org.), A Living Past: Environmental Histories of Modern Latin America. New York, Berghahn, p. 45-66. 297 p. (The Environment in History: International Perspectives, 13).

RELLY, Eduardo. 2022. Imigração alemã, ciência imperial e a tradução/ colonização de ecologias locais do clima subtropical na América do Sul. Fronteiras: Revista Catarinense de História, 1(39):119-136. doi:10.29327/253484.1.39-6.

TRISCHLER, Helmuth. 2017. El Antropoceno, ¿un concepto geológico o cultural, o ambos? Desacatos. Revista de Ciencias Sociales, 54: 40-57.


Organizadores

Eduardo Relly – Friedrich-Schiller-Universität Jena, Alemanha. E-mail: [email protected]  ORCID: https://orcid.org/0000-0001-5196-7332

Jó Klanovicz – Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro), Laboratório de História Ambiental. Bolsista CNPq-Pp2. E-mail: [email protected]  ORCID: https://orcid.org/0000-0002-5110-9028


Referências desta apresentação

RELLY, Eduardo; KLANOVICZ, Jó. Apresentação. História Unisinos. São Leopoldo, v.26, n.2, p. 186-188, maio/ago. 2022. Acessar publicação original [DR]

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