Infância e infâncias no tempo presente, abordadas no singular e no plural, têm centralidade neste Dossiê cuja organização esteve a cargo das professoras Susana Sosenski, da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM) e Liliana Ruth Feierstein da Universidade de Humboldt de Berlim. Estas estudiosas reuniram pesquisadores e pesquisadoras desta temática que são aqui apresentadas em investigações que remetem a vários tempos e lugares. São contribuições de autores e autoras reconhecidos que vêm do México, Alemanha, Cuba, Espanha e do Brasil, as quais se apresentam em sete (7) artigos, que permitem conhecer e pensar tanto sobre este complexo e multifacetado processo da construção social da infância, como sobre os percursos desses sujeitos que se singularizam, hoje, como seres históricos e de direitos.

Para pensar e construir novas bases para a história da(s) infância(s) foi necessário retroceder no tempo cronológico para municiar‐se de recursos ao entendimento deste tempo presente e, nesta perspectiva, o primeiro artigo de autoria das Professoras Gisele de Souza e Andréa Cordeiro, da Universidade Federal do Paraná (UFPR) vai ao início do século XX para fazer reflexões sobre o papel simbólico da infância na modernização da América, tendo por base empírica os debates nos primeiros Congressos Americanos da Criança (1916‐1922), momento em que a educação da criança foi considerada como motor do desenvolvimento das nações e do continente americano.

Solidamente fundamentados e mantendo a centralidade da interpretação em documentos oficiais, a historiadora Sílvia Maria Fávero Arend, da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), analisa o debate acerca das relações de trabalho no campo da infância, adolescência e juventude durante a construção da Convenção Universal dos Direitos da Criança pelos países membros da Organização das Nações Unidas e Organizações Não Governamentais entre 1978 e 1989. Seu artigo traz, igualmente, informações sobre a presença desta normativa internacional na legislação brasileira para as crianças, adolescentes e jovens instituída no Brasil no ano de 1990. Na mesma clave temática, Paulí Dávila e Luis M. Naya, professores da Universidade do País Basco, na Espanha, analisam a representação da infância na América Latina a partir dos discursos elaborados pelo Comitê dos Direitos da Criança, entre os anos de 1990 e 2013.

Pesquisa de base etno‐histórico da professora Alma Durán‐Merk, mexicana, que trabalha na Universidade de Augsburg, na Alemanha, apresenta as construções e as experiências da infância em um contexto migratório, tendo como alvo o caso de crianças alemães vivendo no México (1900‐1933). O artigo, através da fineza das análises comparativas, conclui, especialmente, que a ascendência estrangeira não é, por si, garantia de uma infância transnacional. A escrita como catástrofe é analisada pela professora Andréa Gremels, da Universidade Goethe / Frankfurt. Neste artigo, ancorada nas atuais preocupações acadêmicas em delinear a emergência dos estudos sobre infância(s), ela reflete sobre duas obras de caráter autobiográfico produzidas em 2006 por escritoras cubanas que vivem nos Estados Unidos e que destacam a narrativa de suas infâncias entrelaçadas com o momento histórico de Cuba que ocasionou um movimento diaspórico nos anos de 1970.

Na tentativa de romper um certo silêncio histórico que oblitera a presença de crianças em manuais escolares, o artigo da historiadora Susana Sosenski propicia uma alentada reflexão sobre a importância do ensino de história da infância na escola para que as crianças possam aparecer como atores sociais e não apenas como sujeitos subordinados ao poder dos adultos.

Fechando o Dossiê, o historiador Humberto da Silva Miranda, da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) analisa, nas páginas do jornal Diário de Pernambuco entre os anos de 1964 a 1985, como o discurso de abandono das crianças e as políticas públicas de assistência foram construídas nesse período sócio‐histórico, estabelecendo uma conexão com a atuação da Febem em Pernambuco, instituição fundada no primeiro ano da Ditadura Civil‐Militar.

Compõem, também, esta edição dois (2) artigos de demanda contínua que produzidos no tempo presente são como finas contribuições para a compreensão dos fenômenos de nossa contemporaneidade. Neles se articula uma rede de pensamentos em que a teoria e a empiria são tecidas em narrativas problematizadas que transparecem na qualidade dos textos. Mora González Canosa, da Universidade Nacional La Plata, da Argentina, descreve as políticas de construção do peronismo, nos inícios da década de 1970, detendo‐se às estratégias discursivas das Forças Armadas Revolucionárias (FAR) para legitimar sua identificação com o peronismo a partir de uma perspectiva marxista cujo objetivo final era o socialismo. Já o artigo de Luisa Delgado de Carvalho estuda e preserva o arquivo pessoal de Astrogildes Delgado de Carvalho, educadora que atuou nas décadas de 1930 a 1980 no Rio de Janeiro, na educação infantil e na formação de educadoras dos Centros de Atendimento ao Pré‐Escolar (Capes), juntamente com a Organização Mundial para a Educação Pré‐ escolar / Brasil / Rio de Janeiro (Omep / BR / RJ).

Na seção de Entrevista, há o testemunho do Professor Igor Alexis Goicovic Donoso, da Universidade Nacional do Chile, que respondeu a questões sobre seu trabalho em História Política com ênfase em História da violência política, que foram levantadas pelas doutorandas de História da UDESC / SC, Cristina Iuskow e Juliana Miranda da Silva. A resenha que integra este volume da Revista foi elaborada pela doutoranda Marilane Machado (UFPR) e discute, entre biografia e história, o livro da Profª Mary del Priore intitulado: O Castelo de Papel: uma história de Isabel de Bragança, princesa imperial do Brasil, e Gastão de Orléans, conde D’Eu.

Reafirmar e refinar um conhecimento epistemológico sobre a(s) infância(s) em inúmeros percursos foi um dos objetivos perseguidos neste Dossiê em que leitores e leitoras encontrarão nos estudos, esperamos, uma verticalidade fina e uma horizontalidade densa.

À leitura e ao desejo de que ela possa enriquecer os universos dos sujeitos e da cultura.

Maria Teresa Santos Cunha

Luciana Rossato

Editoras‐ Chefe


CUNHA, Maria Teresa Santos; ROSSATO, Luciana. Editorial. Tempo e Argumento, Florianópolis, v.7, n.14, 2015. Acessar publicação original [DR]

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