Nesta edição (volume 09, número 14), a Revista Outros Tempos abre o debate com quatro instigantes áreas, a saber: cinema, teatro, literatura e história política. Usando uma escala de aproximação entre História, Antropologia e cinema Roseline Mezacasa analisa o filme boliviano “La Nación Clandestina” para discutir tensões e conflitos interétnicos que envolvem indígenas e não indígenas bolivianos. O foco é a relação entre a comunidade indígena Aymara e a não índia da Bolívia e o problema centra-se na permanência do colonialismo interno boliviano após os processos de independências. Aos conhecedores do filme, o artigo provoca a memória e estimula os sentidos na associação entre texto e imagem. Aos que ainda não assistiram ao filme, o texto incentiva pela leveza literária e profundidade analítica. Uma análise específica de uma comunidade indígena boliviana, mas nada restritiva. Para ambos, Roseline deixa um belo exercício de análise fílmica. Na segunda interlocução desse debate, Camila Maria Bueno Souza retira do teatro um substrato analítico para a História. Converge o diálogo entre o polonês Ziembinski e o crítico teatral Décio de Almeida Prado para refletir acerca do papel formador da crítica na década de 1950, chamando atenção para a historicidade da escrita e das encenações. Ainda contribuindo com as possibilidades históricas, Dorval do Nascimento se detém em uma obra de Nascimento Moraes para problematizar as relações entre campo literário e político. O agente no caso é um meio para uma reflexão a respeito das práticas e das circunstâncias que envolvem a produção e a atividade intelectual. O debate desta seção se encerra na perspectiva da história política com Maria Izabel Oliveira, Rodrigo Silva e Lucas Mariani Corrêa. A primeira faz uma analogia entre vida política e vida privada do monarca por meio do contextualismo linguístico e questiona um dos dilemas que envolvem o exercício do poder monárquico: a vida amorosa dos príncipes prejudicaria seu poder? O segundo autor centra sua discussão no processo de transferência da capital mineira. Finalizando a seção, Lucas Mariani se detém na Companhia de Viação São Paulo-Mato Grosso, na primeira metade do século XX para pensar a relação entre o processo de implantação da referida Companhia e as diretrizes políticas nacionais para a região.

O dossiê desta publicação trata dos Poderes Locais na América portuguesa. As atuais investigações historiográficas a respeito da temática proposta têm revelado que por trás da complexidade das relações locais está uma noção de poder ligado às ações, atividades, funções, pessoas e valores culturais (SHILS, 1970) que de alguma forma se circunscrevem a uma esfera institucional. É nessa perspectiva que os artigos dessa seção exploram assuntos tais como: as ações dos primeiros camaristas de São Luís na tentativa de consolidar o domínio português do território (Helidacy Corrêa); as atividades exercidas pela família Carneiro, na capitania de Pernambuco, Ceará e Rio Grande, para ascender socialmente e se manter no poder (Ana Lunara Morais); os discursos inacianos com vista a analisar as representações simbólicas que encerram os fundamentos escriturários das práticas missionárias (Roberta Lobão); as fugas de escravos e os debates entre autoridades ibéricas em torno da devolução de cativos na bacia platina (Hevelly Acruche) e, por fim, o dossiê encerra o debate sobre com uma reflexão sobre as estratégias utilizadas pela elite da capitania de São José do Piauí na instituição de seu poder (Rodrigo Fonseca). Com este dossiê, a Outros Tempos contribui para a ampla divulgação de pesquisas sobre os poderes locais em diferentes tempos e espaços na América portuguesa.

A partir deste número, a Outros Tempos trará aos seus leitores a seção Estudo de Caso, em substituição à seção Documentos. A proposta está bem explicitada no texto de Marcia Mello no qual a autora analisa o documento intitulado “Regimento que ha de guardar e observar o Procurador dos Índios do Estado do Maranhão”. Associando exercício de transcrição e de análise, a referida autora se detém no documento para examinar a política portuguesa traçada para os índios da América Setentrional. Por meio de duas resenhas, a Outros Tempos divulga a seus leitores as obras de Marcella Lopes de Guimarães e de Eduardo França Paiva, juntamente com Isnara Pereira Ivo e Ilton Cesar Martins que tratam, respectivamente, de assuntos teórico-metodológicos e de escravidão.

Por fim, convidamos nossos leitores a ler nossa entrevista com Maria Fernanda B. Bicalho, professora doutora coordenadora do Programa de Pós-graduação em História da Universidade Federal Fluminense, autora de diversos livros e artigos, especialista em História do Brasil voltada para o período colonial.

Cabe ainda uma ressalva: durante a produção deste e exemplar, a Revista Outros Tempos iniciou um novo projeto gráfico-editorial e no layout de nosso site com vista a dar mais suporte aos leitores na difusão dos textos. Assim, foram feitas algumas solicitações – apesar de não estarem contempladas nas normas de publicação até então vigentes – prontamente atendidas pelos autores deste volume. Tais inserções serão percebidas por nossos leitores e anunciam as reformulações pelas quais este periódico passa. Queremos publicamente agradecer a disponibilidade dos autores em colaborar.

Alan Kardec G. Pachêco Filho

Helidacy Maria Muniz Corrêa

Organizadores


PACHÊCO FILHO, Alan Kardec G.; CORRÊA, Helidacy Maria Muniz. Apresentação. Outros Tempos, Maranhão, v. 9, n. 14, 2012. Acessar publicação original [DR]

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