A historiografia contemporânea já vem enriquecida pelo menos a três décadas por estudos no campo da cultura escrita. Cada vez mais a literatura, a imprensa, o livro, os intelectuais, entre outros elementos relacionados ao letramento, têm mostrado que as sociedades fizeram uso das atividades do intelecto como ferramentas de poder, reinvindicação, inserção e afirmação de experiências ao longo da história.

Desta feita, o presente número da Embornal – Revista Eletrônica da ANPUH-CE se ateve ao exercício das “práticas letradas” ou as ações cotidianas de letramento, compreendidas como aquelas realizações em torno da difusão das ideias e visões de mundo e de sociedade.

Trata-se da leitura e dos leitores, da impressão e circulação dos livros, revistas e jornais, dos debates realizados nas associações e grêmios literários, científicos e filosóficos, bem como, da produção intelectual ordinária que são as experiências, práticas e realizações do saber letrado [1].

Estes são territórios de lutas, embates e disputas por exercício de poder e capital simbólicos [2].

Em geral, os artigos que ora se apresentam compõem a produção científicas realizada no seio do eixo de pesquisa “Práticas Letradas” [3] do grupo “Práticas Urbanas” [4] (GPPUR-DGP/ CNPQ).

Fruto dos debates em comum entre os eixos “Práticas Letradas” e “Governamentalidade e Dispositivos de Controle Social” do GPPUR, em torno das ideias políticas, da imprensa e dos intelectuais, o artigo “Os Ecos do Discurso Liberal nos Domínios da Precariedade Estrutural: o Jornal Libertador e a Defesa da Liberdade na Província do Ceará”, assinado pelo Professor Érick Assis Araújo e Francisco Paulo Mesquita, traz a discussão em torno dos temas debatidos na imprensa abolicionista cearense, sobretudo, o que o que fora tratado no jornal abolicionista Libertador.

O texto “‘Uma República na Esquina das Trincheiras’. Cidade, Imprensa e Política na Construção do Regime Republicano em Fortaleza (1889 – 1892)”, por Gleudson Passos e Taynara Rodrigues dos Anjos, trata da circulação de ideias em torno do modelo republicano, entre os órgãos de imprensa que disputavam o público leitor da cidade de Fortaleza, palco de conflito entre as facções políticas do período.

“A ‘Soberania da Lei’: A Função Civilizatória do Direito nas Práticas Letradas dos Bacharéis da Academia Cearense (1894-1914)”, texto que leva a pena do Professor Allyson Bruno Viana e Lucas Araújo Gomes Frota, aborda a inserção dos intelectuais de Fortaleza na virada entre os séculos XIX e XX, quando estes se ocuparam da produção intelectual em torno de uma racionalidade das leis que deveriam reger o país, durante os primeiros anos do regime republicano.

O artigo “Sob o Domínio da Oligarchia que Opprime, Rouba e Envergonha”: A Atuação Letrada Denunciativa de Antônio Sales através da Obra O Babaquara, da autoria do Professor André Brayan Lima Correia, retrata a inserção intelectual junto ao debate político no início do século XX.

Da Professora Rafaela Gomes Lima, o texto “‘Aqui publicam-se livros’: os Intermediários da Literatura na Fortaleza do final dos Oitocentos” faz alusão ao mercado livreiro e aos círculos de leitores na capital cearense aos fins do século XIX.

“Os Pedreiros Livres do Império: Em Defesa da Humanidade na Imprensa Cearense (1873 – 1875)”, assinado pelo Professor Paulo Freire Sá, analisa o papel da maçonaria na cidade de Fortaleza, através do jornal Fraternidade em combate às ideias ultramontanas do jornal Tribuna Catholica.

“‘Os Frutos do Progresso’: Análise de Rachel de Queiroz sobre as transformações urbanas promovidas pela modernização conservadora” é o artigo da Professora Lia Távora Moita, a respeito da escrita de Rachel de Queiróz, sobre os seus posicionamentos em torno da urbanidade vivenciada nos anos de ditadura civil-militar instalado no Brasil, entre 1964 e 1985.

O texto “‘A Vitória da Verdade’: Histórias e ‘Posse’ da Verdade em Sobral”, assinado pelo Professor Thiago Braga Teles da Rocha, alude aos combates pela história e pela memória, das apropriações discursivas e narrativas em torno da cidade de Sobral, a partir das referências do Bispo Dom José Tupinambá da Frota.

Por fim, o artigo “‘Pedrada em casa de marimbondo’: Práticas Letradas, Capitalismo e Civilização no livro O Canto Novo da Raça”, do Professor Thiago da Silva Nobre, traz uma reflexão sobre o exercício das práticas letradas em torno da experiência urbana pela qual passava a cidade de Fortaleza, no início do século XX.

Que os leitores e as leitoras se sintam convidados a trilhar por esses caminhos da pesquisa que têm as práticas letradas como possiblidade de investigação no campo da pesquisa histórica.

Boa leitura!

Notas

1. Sobre “Práticas Letradas” ver CHARTIER, Roger (Org). Práticas da Leitura. – São Paulo: Estação Liberdade, 1996. Ver também: CHARTIER, Roger. História Cultural. Entre Práticas e Representações. – Lisboa: Difel, 1994.

2. BOURDIEU, Pierre. Poder Simbólico – Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998.

3. O eixo temático “Práticas Letradas e Urbanidades” tem produção científica no âmbito da pós graduação através das dissertações de mestrado defendidas e/ ou em andamento no Mestrado Acadêmico em História/ MAHIS-UECE pelos discentes Roberta Kelly Maia (2013), Ariane Bastos (2013), Rafaela Gomes (2014), Paulo Freire Sá (2016), Thiago da Silva Nobre (2017), Lia Mirelly Távora Moita (2017) e Thiago Braga Telles da Rocha (2017). Alguns projetos foram amparado por agências de fomento com os seguintes bolsistas de Iniciação Científica: Thiago Nobre, Danielle Almeida, Taynara dos Anjos (PIBIC-CNPQ); Ariane Cordeiro, Albertina Paiva, Tessie Reis (PROVIC-UECE); Francisco Cavalcante Neto, Jéssica Cardoso, Irlas Prata, Thaís Medeiros, Daiane Silva (FUNCAP); Rafael Pinheiro, Victor Dantas e Rubens Sousa (PRAE/ UECE).

4. O grupo de pesquisa “Práticas Urbanas” (GPPUR-DGP/ CNPQ) abrange os seguintes eixos temáticos: “Governamentalidade e Controle Social”, “Ética, Hábitos e Costumes”, “Produção e Consumo de Bens Domésticos” e “Práticas Letradas e Urbanidades”.

Gleudson Passos Cardoso

Organizador

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