A outra história: por uma narração alternativa das lutas de libertação nos PALOP | Tempo e Argumento | 2021

Independencia de Angola
Agostinho Neto, liderança do MPLA | Arte sobre foto reprodução – MST

Quando lançámos a ideia de uma publicação sobre a história “alternativa” nos PALOP (Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa) tínhamos um sentimento ambivalente: por um lado, estávamos certos de que havia muitos autores com material interessante para ser publicado; por outro, a situação que se vive hoje na maioria desses países nos deixava sérias dúvidas de que pudéssemos conseguir fechar um dossiê de uma revista tão prestigiada como a Tempo e Argumento ao abordar este assunto. Com efeito, nossas esperanças, assim como nossas dúvidas acabaram se confirmando: se, por um lado, recebemos vários textos – alguns dos quais tiveram de ficar de fora, como sempre acontece em processos científicos seletivos -, que depois compuseram este dossiê, por outro é preciso reparar que não há nem um texto, entre os que foram aqui publicados, da autoria de investigadores cuja principal pertença institucional está numa universidade ou centro de pesquisa em África.

Não se trata de uma coincidência, mas sim da confirmação da relevância do tema que resolvemos propor, ao lançar este dossiê: o revisionismo historiográfico aplicado à história da libertação dos PALOP. “Revisionismo” é um termo que, historicamente, tem levantado imensas polémicas. E – queremos esclarecer desde já – o revisionismo proposto como linha orientadora deste dossiê não tem nada a ver com o postulado por autores que procuraram reescrever a história negando ou minimizando tragédias como o holocausto judaico ao longo da segunda guerra mundial (MATTOGNO, 1985; NOLTE, 1999), ou valorizando a experiência colonial das potências europeias (FERGUSON, 2004). Pelo contrário, o nosso posicionamento se aproxima muito a quanto Adorno escrevia a propósito das tentativas de remoção, por parte dos alemães, do seu passado mais recente, ligado ao nazismo e ao Holocausto (ADORNO, 1995).

Mesmo na história dos PALOP é necessária, hoje, uma releitura de um passado que constitui a base identitária e o imaginário coletivo estratificado da memória histórica desses países. Mais uma vez, o nosso posicionamento não é negacionista: ou seja, ninguém quer descurar o mérito, por parte de grupos mais ou menos extensos de cidadãos africanos dos PALOP, de ter lutado contra o colonialismo português durante 10-15 anos, até a obtenção das independências nacionais. Entretanto, existem lacunas, imprecisões, até mentiras que a historiografia oficial construiu em volta desse movimento de libertação que devem ser revisitadas, aprofundadas e, se necessário, revistas.

Um exercício, o da revisão historiográfica com base em fontes fidedignas, nada simples, sob vários pontos de vista, principalmente no contexto africano. Aqui, o entrelaçamento entre narração histórica e atores e ideias políticas continua muito forte, tão que as academias públicas desses países, com diferenças consideráveis entre um e outro caso, dificilmente têm havido a coragem e a necessária serenidade historiográfica para enfrentar tal assunto. Dai, as margens para debater em liberdade sobre um passado tão glorioso quanto recente ficaram reduzidas, de forma que vias alternativas para perceber o complexo processo de formação dos Estados nacionais dos PALOP não foram percorridas, ou, se o foram, ficaram marginalizadas, e seus autores com elas.

É deste processo de desconstrução que o dossiê aqui apresentado se ocupa: um processo que deve partir de uma base histórica sólida (as fontes, orais ou escritas), para desafiar o desenho historiográfico oficial que, geralmente, não convence, justamente por causa do uso e tratamento muitas vezes político das fontes. Os casos de 27 de maio de 1977 em Angola, ou da morte de opositores tais como Joana Simeão ou Uria Simango em Moçambique, ou até a morte de Amilcar Cabral são talvez os exemplos mais claros de tal situação, ficando suas memórias negligenciadas na narrativa oficial nacional.

A dificuldade que a academia desses países demonstrou em se relacionar com o seu complicado passado deu azo a iniciativas de indivíduos que sempre estiveram fora do mundo da pesquisa oficial, mas que demonstraram a vontade de testemunhar uma perspectiva historiográfica diferente, em muitos casos mediante a narração de experiências diretas. É claro que, nestas circunstâncias também, o rigor historiográfico impõe a verificação apurada das fontes, mesmo as “alternativas”, que se trata, de frequente, de narrações subjetivas, e que o material recolhido nem sempre é aceitável do ponto de vista científico. Porém, tais grupos informais, movimentos, plataformas online deram uma contribuição ímpar para abanar o sossegado panorama académico dos PALOP, mais virado para celebrar as efemérides das respetivas histórias nacionais, do que para refletir criticamente em volta delas.

Foi a partir dessas bases que apresentamos o presente dossiê. Como dito anteriormente, as leituras que aqui se fazem das várias histórias nacionais representam vias alternativas e, portanto, ainda relativamente incipientes e até provocativas, relativamente ao que foi escrito até agora por parte da historiografia oficial. Conseguimos, com tal perspectiva, cobrir todos os PALOP, como demonstram os artigos aqui publicados. Os primeiros quatro representam estudos-países, ou seja, dão uma ideia geral da complexidade historiográfica dos movimentos de libertação dos PALOP. Se trata de textos sobre Angola, da autoria de Nuno Vidal, Guiné-Bissau (e Cabo Verde), da autoria de Arnaldo Sucuma, Moçambique, de Luca Bussotti, e São Tomé e Príncipe, escrito por Augusto Nascimento.

A tais quatro textos se acrescentam mais três não menos importantes e interessantes, que dizem respeito a aspetos mais específicos da fase histórica dos países aqui tratados. No primeiro, Luís Bernardino faz um historial da formação das Forças Armadas Angolanas; no segundo Angela Lazagna dá uma leitura crítica da figura de Viriato da Cruz e no terceiro Laura António Nhaueleque faz uma reflexão, com base em documentos inéditos, de como a congregação italiana dos católicos missionários Combonianos lidou com Moçambique logo antes e depois da obtenção da sua independência.

Temos consciência de que este dossiê irá despertar críticas por parte da historiografia oficial e de seus defensores; assim como será positivamente apreciado por parte de quem ficou de fora da narração oficial em cada um dos PALOP. Entretanto, se assim for, o objetivo será alcançado, pois, neste momento histórico, ainda mais importante do que estabelecer uma verdade incontestável é ajudar os investigadores, principalmente africanos, a debaterem sobre temas relacionados com a formação da nação e do nacionalismo nos PALOP.

Antes de terminar com uma derradeira palavra, vale a pena, como penúltima consideração, ressaltar o contributo, dado pelos diferentes textos dos autores reunidos neste número, para o alargamento dos debates académicos sobre a historiografia africana recente. Textos que farão, provavelmente, de abrepistas para o tratamento de temas tabus ou, simplesmente, descuidados ou esquecidos, construindo conhecimentos novos e aprofundando questões de pesquisa até então pouco discutidas em revistas de historiografia em língua portuguesa. Esperemos que outros contribuos seguiráo os trilhos aqui apontados.

Vamos concluir com uma pequena nota de satisfação: de sete artigos, dois foram escritos por mulheres, uma brasileira e uma africana. Isso também é um sinal de que a academia, mesmo em assuntos complicados como o aqui abordado, está enriquecendo-se da contribuição e da sensibilidade feminina, necessária para o progresso da história africana.

Referências

ADORNO, Theodor. O que significa elaborar o passado. In: Educação e emancipação. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995, pp. 29-49

FERGUSON, NIALL. Empire. London: Penguin Books, 2004

MATTOGNO, Carlo. Il mito dello sterminio ebraico. Introduzione storicobibliografica alla storiografia revisionista. Monfalcone: Sentinella D’Italia, 1985

NOLTE, Ernst. Controversie: nazionalsocialismo, bolscevismo, questione ebraica nella storia del Novecento. Milano: Corbaccio, 1999.


Organizadores

Luca Bussotti – Doutor em Sociologia do Desenvolvimento pela Universidade de Pisa (Itália). Professor Associado Visitante na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Investigador no Centro de Estudos Internacionais do ISCTE-IUL (Lisboa). Recife, PE lattes.cnpq.br/8659437222936712 E-mail: [email protected]  orcid.org/0000-0002-1720-3571

Marc Jacquinet – Doutor em Economia pela Universidade Técnica de Lisboa (UTL). Docente da Universidade Aberta (UAb). Lisboa – PORTUGAL cienciavitae.pt/portal/CC11-51FD-F4CE E-mail:  [email protected]  orcid.org/0000-0003-1157-060X


Referências desta apresentação

BUSSOTTI, Luca; JACQUINET, Marc. A outra história: por uma narração alternativa das lutas de libertação nos PALOP. Tempo e Argumento. Florianópolis, 13, n. 34, set./dez. 2021. Acessar publicação original [DR]

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