KOROL, Claudia. Feminismos populares: Pedagogías y políticas. Ciudad Autónoma de Buenos Aires: El Colectivo; Editorial Chirimbote; America Libre, 2016. Resenha de: PAULA, Thaís Vieira de; GALHERA, Katiuscia Morena. Feminismos plurais: a América Latina e a construção de um novo feminismo. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v.27, n.2, 2019.

Lançado em 2016, na Argentina, com o apoio da Fundación Rosa Luxemburgo e com fundos do Ministério Federal de Cooperação Econômica e Desenvolvimento da Alemanha, o livro é resultado de diversos âmbitos de esforços coletivos. Pautado no feminismo latino-americano, expresso livremente e a partir de experiências plurais concretas, a obra compila escritos organizados por Claudia Korol a partir de diversas organizações de base. Em comum, o livro e as organizações de base têm a preocupação com a vocalização de experiência de mulheres do Sul Global. A partir de feminismos populares na América Latina e, em menor medida, de outros países do Sul, vozes subalternizadas de movimentos de mulheres locais, comunitárias, populares, bolivarianistas, indígenas e de luta pela terra, dentre outras pautas, são mobilizadas.

São diversas as correntes feministas que permeiam o livro: há, por exemplo, tanto o feminismo liberal que percebe na aprovação de leis pelo Congresso o processo acertado de conquista de direitos, quanto o feminismo construtivista que pauta a necessidade do entendimento do contexto cultural e como influencia na construção social do objeto. Há, ainda, feministas que bebem de diversas correntes para montar sua ação: o caso da feminista marxista que se apoiou no Congresso para o avanço de direitos de pessoas transexuais, ou seja, a militante se apoiou em repertórios políticos dos feminismos liberais e dos transfeminismos, embora se identifique como marxista.

De antemão, importa elucidar que, apesar de não ser anti-intelectual, o compêndio definitivamente não é academicista: “No son un relato para entendidas, sino una práctica rebelde, y una teoría que se amasa en los comedores populares” (Claudia KOROL, 2016, p. 16). A teoria é a prática, a metodologia se baseia na escuta e a epistemologia se constrói a partir de e em ambientes populares.

Como resultado, e em um esforço de conceitualização talvez inútil para fins academicistas, se poderia classificar o livro dentro do Feminismo Latino-Americano: “Un feminismo sembrado en los movimientos populares” (KOROL, 2016, p. 16). Esse mesmo feminismo tem como premissas: o diálogo não hierárquico; a interação a partir dos níveis micro (pessoas, famílias e vizinhanças) e meso (comunidades, vilas, Estado), ainda que em diálogo com o nível macro (culturas civilizacionais, empresas multinacionais e outros organismos do global) e a universalidade de experiências.

A universalidade de experiências das feministas latino-americanas e populares não toca necessariamente na máxima ocidental “o pessoal é político”, atribuído ao contexto de Women’s Liberation da segunda onda do feminismo, especialmente nos Estados Unidos, em fins da década de 1960. Nesse contexto, argumentou-se que questões como sexo, aborto e divisão do trabalho doméstico não seriam desimportantes ou do âmbito exclusivamente privado, isto é, afirmava-se que questões de foro íntimo são comuns a todas as mulheres. Portanto, a experiência do pessoal/privado/íntimo é sim dotado de política. Embora o pessoal como político não seja negado para as feministas latino-americanas e populares (pelo contrário, é explicitamente abordado como ocorre na seção “Feminismos populares. Las brujas necesarias en los tiempos de cólera”), se questiona outros loci de poder e partir de outras experiências de gênero, como o judiciário, as empresas multinacionais, os governos autoritários e de direita, a desigualdade de renda e de acesso à terra, as ditaduras, a violência sexual, sempre a partir da perspectiva popular: “somos protagonistas de la feminización de las resistencias populares” (KOROL, 2016, p. 18).

A partir de suas experiências de gênero, as mulheres do livro também questionam culturas verticalizadas, autoritárias, caudilhescas, hegemônicas e individualistas que são resultado, inclusive, do capitalismo colonizado e patriarcal, ainda nas palavras de Claudia Korol (2016). Ao questionar-se o colonialismo, as feministas latino-americanas e populares questionam também o conhecimento racionalizado, substituindo-o por uma pedagogia feminista lúdica, afetiva, artística, a dança, o canto e diversas perspectivas ideológicas emancipadoras.

Ainda, é importante destacar que no livro valores sociais hegemônicos expressos também na linguagem são também endereçados: no lugar d’O Homem como sujeito universal da história até o século XIX, campesinos e campesinas, trabalhadorxs, ou formas neutras em gênero, como “pessoas ativistas” são relatadas como sujeitos plurais e protagonistas das histórias. Quanto à sua estrutura, o livro é dividido em três partes: “Aprendizajes compartidos”, “Textos generadores” e “Voces desobedientes”.

Em “Aprendizajes compartidos”, feministas de diversos coletivos descrevem as lutas contra as lógicas de acumulação de empresas transnacionais que empregam mulheres por oferecerem mão de obra mais barata e flexível; abordam afeminização das imigrações devido à busca de trabalho; apontam para a desigualdade frente aos homens, bem como do acesso desigual à terra e ao crédito; afetação majoritária em mulheres pelas mudanças climáticas e insegurança alimentar; tratam sobre a falta de atenção sanitária; das crises econômicas mundiais; do judiciário que não provê instrumentos de defesa para mulheres indígenas. A proposta dessa seção e do livro, porém, não é oferecer a perspectiva de poder unilateral dos processos de colonização-globalização: há emancipação de mulheres populares na ação pública, através de instrumentos como arte e educação popular, envoltas em temas como direitos reprodutivos, econômicos, sociais em organizações como coordinadora, estados comunais, redes de apoio e cuidado.

A segunda parte da coletânea guia-se na explanação a respeito da construção do feminismo entre os espaços da militância e da academia e aponta de forma objetiva a maneira com que essas duas experiências se complementam. Nessa seção demonstra-se a militância entre os espaços públicos e privados e a luta das mulheres militantes e profissionais na utilização dos aparatos burocráticos e legislativos em favor de avanços e contra os retrocessos no que tange às esferas dos direitos reprodutivos, educacionais e identitários. São, portanto, denunciadas as tendências masculinizadoras das áreas de vida comum da sociedade, proveniente de uma cultura patriarcal naturalizada que perpetua as desigualdades de gênero e impossibilita o desenvolvimento de realidades que não estejam inseridas nas categorias binárias.

Pautas como as questões de saúde, educação, acesso à justiça, maternidade, emprego e combate à violência são analisadas a partir das lentes de gênero e da construção de uma cidadania que não se resume apenas no direito de eleger e ser eleita, mas no acesso de maneira equânime a todas as instâncias de direito a partir da horizontalização das relações entre as diversas categorias do feminino e do masculino que estão presentes na sociedade analisada.

A terceira parte do livro, “Voces desobedientes”, é dedicada a entrevistas com feministas proeminentes do Sul Global alocadas em diversos espaços de luta, entre os quais estão: moradia, direito à terra, ativismo trans, direito à identidade e luta de povos originários. Essas entrevistas têm como objetivo caracterizar a luta pela construção de um feminismo desenvolvido coletivamente, bem como o protagonismo feminino em espaços antes masculinizados, ressignificando, assim, o papel das/os diversas/os atrizes/atores nos espaços de militância. Essas mulheres de luta fazem parte das margens “da periferia” global e construíram sua luta nos limiares das sociedades em que estão inseridas na luta comunitária, muitas vezes direcionadas por mulheres, que crescem nas margens e mantêm laços indiscutíveis com as comunidades nas quais atuam.

“Voces Desobedientes” é, portanto, também permeado por experiências feministas diversas. Por exemplo, a migração de ideias feministas da Europa para a Argentina na década de 1980 foi um dos processos que tocou a algumas feministas no país: experiências anarquistas e direitos humanos são exemplos que ilustram essa trajetória. A atuação de Bertha Cáceres, militante ambientalista hondurenha, assassinada, é relembrada. A violência institucional sobre mulheres indígenas sob a análise teórica do feminismo comunitário é desenvolvida a partir da experiência de uma mulher maya k’iche que teve seu caso transitado e julgado sem o direito de entender o que estava acontecendo, seja pela língua, seja pelas tecnicidades de um processo jurídico ocidental. O livro é finalizado com a entrevista de Vandana Shiva, que ressalta a importância do controle de sementes para a vida na terra.

Como conclusão geral, pode-se afirmar que o livro retrata a pluralidade de lutas de feministas do Sul Global, com especial foco na América Latina. Isso ocorre devido à formação social e econômica latino-americana. Há, ao mesmo tempo, influências eurocentradas, de povos originários e cosmopolitistas sobre pautas que vão do campo à cidade, de comunidades originárias à Organização das Nações Unidas.

O livro apresenta algumas limitações em seu debate, na medida em que se pode dizer que há certa tônica binarista e heteronormativa, por exemplo quando se faz avançar o direito de mulheres, mas não o de homens transexuais. Por fim, embora as experiências relatadas no livro possam ser replicadas para outros lugares da América Latina e/ou tragam, efetivamente, experiências que possam ser replicadas justamente por serem latino-americanas e sul-globalistas, a área em que o livro foi concebido, realizado e majoritariamente desenvolvido é argentina.

Recomendamos o livro para pessoas interessadas em feminismos na América Latina e especialmente na Argentina. Estudiosas/os de gênero, feministas, militantes, ativistas, pesquisadoras/es e pessoas interessadas em políticas públicas, em especial, se beneficiarão de sua leitura.

Referências

KOROL, Claudia (Comp.). Feminismos populares: Pedagogías y políticas. Ciudad Autónoma de Buenos Aires: El Colectivo; Editorial Chirimbote; America Libre, 2016. [ Links ]

Thaís Vieira de Paula – Doutoranda em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Mestra em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais e graduada em Relações Internacionais pela mesma instituição. Pesquisa gênero, feminismos e relações internacionais com ênfase no feminismo crítico e feminismo decolonial, focando suas análises em movimentos sociais de mulheres indígenas, América Latina, organizações internacionais e direitos humanos. E-mail:[email protected]

Katiuscia Moreno Galhera –  Pós-doutoranda em Sociologia pela Universidade Estadual de Londrina e doutora em Ciência Política pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), foi visiting scholar/ faculty member na Universidade da Pensilvânia (Penn State University/PSU, Estados Unidos), ambas ligadas à Global Labour University (GLU). Pesquisa especialmente trabalho e gênero na América Latina. Atualmente desenvolve pesquisas sobre trabalho escravo e infantil, gênero, Objetivos de Desenvolvimento Sustentáveis e movimentos sociais em cadeias globais de valor. E-mail: [email protected]

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