PAVIANI, Jayme. Platão & a educação. Belo Horizonte: Autêntica, 2008.1. Resenha de: RECH, Gelson Leonardo. Conjectura, Caxias do Sul, v. 16, n. 3, Set/dez, 2011.

A obra Platão & a educação, do professor Jayme Paviani, é uma obra na qual o autor articula o pensamento educacional de Platão, um dos filósofos mais importantes do Ocidente. O livro integra a coleção “Pensadores & Educação” da Editora Autêntica com o objetivo de apresentar as ideias de renomados e significativos autores do pensamento educacional.

O livro, de caráter introdutório à leitura de Platão sob a perspectiva educacional, está organizado em 17 pequenos capítulos nos quais se articulam os diversos diálogos de Platão percorrendo as relações desses com a questão educacional e, no fim é completado por mais quatro capítulos com “Comentários aos Diálogos” (Ménon, Protágoras, República e Leis) seguido de “Textos Selecionados” que abordam a temática educacional, além de uma rica e sintética “Terminologia” e “Cronologia” que situam sobretudo os neófitos. A despeito da ressalva do próprio autor sobre a “falta de tempo para me dedicar melhor aos detalhes” (p.8), temos uma publicação acessível a estudantes dos cursos de licenciatura, a pesquisadores e professores, com esmerada redação que busca, além de apresentar o pensamento do filósofo, estabelecer relações com a atualidade – traço digno de nota – dirigindo-se a todos que queiram iniciar a leitura de um clássico da filosofia.

O fio condutor é a pergunta: qual é a ideia de educação em Platão? No trajeto da resposta, Paviani enfatiza a necessidade de contextualizar Platão dentro da cultura grega, que o influencia e é influenciada por ele.

Critica, assim, as histórias gerais da filosofia, da ciência e mesmo das artes e das religiões que são escritas de modo compartimentado e raramente fornecem uma visão de conjunto. Reiteradas vezes e intencionalmente, situa o leitor sobre os elementos culturais e históricos que permeiam o pensamento platônico, bem como retoma elementos já apresentados nos capítulos anteriores, valorizando a visão sistemática do pensamento platônico e suas múltiplas e mútuas relações.

Nesse sentido, salienta que é impossível entender a educação em Platão sem compreender o processo maiêutico, a opinião (doxa), a opinião verdadeira, a ciência (episteme), a retórica, o diálogo, o conhecimento sensível, a imortalidade da alma, a metempsicose, a virtude, a dialética, a mímesis, a tripartição da alma, enfim, sem ver o conjunto da obra e seus 35 diálogos completados por uma coletânea de cartas, seis pequenos diálogos apócrifos, o contexto da educação dos sofistas e o anterior a eles.

Não obstante a crítica que Platão faz aos sofistas, ele reconhece a importância de seu ensino na educação grega. Paviani aponta que a filosofia de Sócrates e a de Platão apresentam-se como uma verdadeira proposta educacional, uma proposta nitidamente contrária aos ensinamentos retóricos dos sofistas. Salienta a importância da maiêutica socrática, que tem seu fundamento na ideia de reminiscência, sobejamente tratada no Fédon, Fedro, Teeteto, Ménon e na República. A relação entre maiêutica e teoria da reminiscência não é secundária, mas estreita e decisiva. Destaca que antes de Platão a educação não era problematizada e com ele todo o sistema é posto sob suspeita. Aliás, Platão enfrenta os sofistas introduzindo, nas atividades didáticas e pedagógicas, a dimensão ética.

O diálogo socrático é visto como um procedimento pedagógico rico, dialético, que tem como meta final alcançar a virtude ou a excelência humana (areté) que possuem relação direta com a episteme, o mais alto grau de conhecimento possível. Paviani enfatiza a relação com e a influência direta de Sócrates sobre Platão e o aprendizado desse com relação à educação moral. Claro está para Platão que a educação tem como meta atingir a virtude e a busca da melhoria dos cidadãos, bem como a construção de um Estado ideal, cujos governantes necessitam da educação filosófica – tema sobejamente tratado na República e nas Leis, diálogos que apontam ser a educação um dever do Estado.

Paviani aborda a questão da possibilidade de a virtude ser ensinada – famosa questão trabalhada no diálogo Protágoras. Conclui que a possibilidade de ensino da arete é, em última análise, a possibilidade da própria educação alcançada pela dialética.

A questão da estética também é cara a Platão, aspecto salientado por Paviani e sua especialidade. Na República, Livro X, elimina a poesia e a pintura por imitarem os objetos e por não expressarem as essências inteligíveis. Assim, as artes imitativas não promovem uma educação positiva, não atendem às condições jurídico-políticas e morais de um Estado justo, alicerçado no bem e na verdade, não obstante Platão tenha insistido na dimensão moral e política da arte. O Estado ideal requer um novo projeto educacional que pratique a ginástica para o corpo e a música para a alma, conforme as exigências da episteme.

Paviani destaca que, se na República Platão idealizava a figura do rei-filósofo, modelo do aprendizado moral e digno de governar a pólis, nas Leis, abandona a ideia de que os filósofos devem governar a cidade e assume um projeto político-pedagógico mais realista, fruto, talvez, de desilusões com a democracia e do mau comportamento de alguns de seus seguidores da academia. Assim, propõe uma reflexão de caráter mais jurídico sobre os aspectos educacionais, institucionais e as leis da melhor vida comum. No mesmo diálogo, Platão deixa claro que a educação, desde a infância, é treinamento na virtude. Para ele, formar um indivíduo simplesmente para a conquista de dinheiro e de vigor físico é sinônimo de má-educação. Também não se emprega adequadamente o termo educação, quando se procura apenas a habilidade mental e não a sabedoria e a justiça. A educação verdadeira consiste, primordialmente, na aquisição que a criança faz da virtude, da excelência humana.

O amor (eros) também é abordado por meios do dialógo Banquete. Platão recomenda que eros se torne amor à sabedoria. Por isso, o amor pode ser ligado às questões do uno e do múltiplo, das ideias e do mundo sensível, do ser e do aparecer, do bem e da justiça, do belo e da verdade, da opinião e da ciência. O amor, em Platão, passa a ser um problema pedagógico, uma questão de conhecimento, salienta Paviani.

Os diálogos de Platão combinam, com clareza e elegância, argumentos racionais, exposições dialéticas e narrativas de mitos e alegorias. Mas os mitos platônicos não se confundem com os mitos gregos: eles têm algo particular; são recursos quase didáticos para expressar o sentido que o rigor da dialética ou da escrita não pode dizer.

Paviani encerra a parte mais sistemática de sua exposição com a famosa Alegoria da Caverna e a riqueza de suas imagens, carregada de pressupostos epistemológicos, éticos e políticos. A alegoria representa os diferentes níveis de realidade (o mundo dos sentidos, das crenças, da fé perceptiva, da opinião e o mundo inteligível, das essências, das ideias imutáveis e eternas, centralizadas na ideia de bem) e as diferentes etapas da educação do filósofo, do homem de ciência, daqueles que, orientados pela sabedoria e pela virtude, podem governar as cidades-Estados.

Em sua exposição, não deixa de citar diferenças entre Platão e Aristóteles, ícones do pensamento grego, quando, por exemplo, faz a distinção entre conhecimento sensível e inteligível e entre mundo das ideias e mundo empírico, e outros pensadores como Parmênides, Descartes e Freud. Sua clareza se revela página a página na articulação dos inúmeros diálogos não poupando críticas ao egrégio filósofo, inclusive identificando alguns conceitos nem sempre bem-explicitados em seus textos como mímesis, psique e pólis.

Por fim, para quem deseja ler Platão, sua obra e suas implicações na contemporaneidade e na educação, esse livro é uma ferramenta fundamental e acessível.

Nota

1 Jayme Paviani, nascido em 1940, é licenciado em Filosofia, Bacharel em Direito e Ciências Sociais, Doutor em Letras, com estudos de Pós-Doutorado em Pádova, Itália. É referência no estudo de Platão no Brasil com várias obras publicadas destacando-se Escrita e linguagem em Platão (1987), Filosofia e método em Platão (2001) e Platão e a República (2003)

Gelson Leonardo Rech – Mestre em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e professor na Universidade de Caxias do Sul (UCS).

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