PÉREZ GÓMES, Angel I. Educação na era digital: a escola educativa. Trad. de Marisa Guedes. Porto Alegre: Penso, 2015, Resenha de: MENDES, Michel. Conjectura, Caxias do Sul, v. 22, n. 2, p. 394-400, maio/ago, 2017.

O que significa formar uma personalidade educada, capaz de enfrentar, com certa autonomia, o vendaval de possibilidades, confusão, riscos e desafios deste mundo globalizado, acelerado e incerto? Como superar o vazio de um conhecimento retórico que não serve para orientar a ação? É possível ter uma escola verdadeiramente educativa, que ajude cada indivíduo a se construir de maneira autônoma, sábia e solidária? Essas são algumas das provocações “guarda-chuvas” que modelam e orientam a obra de Pérez Gómes. O autor é de origem espanhola, nascido em Valladodid, cidade situada a noroeste da Península Ibérica, Doutor em Pedagogia pela Universidade Complutense de Madrid e Professor Titular na Faculdade de Ciências da Educação da Universidade de Málaga.

As provocações apresentadas na obra refletem a necessidade pessoal do autor de pensar e reconsiderar questões pertinentes à educação, as quais também são compartilhadas por inúmeros profissionais da área.

Pensar a educação na era digital, com o propósito de uma escola educativa, é o que propõe Pérez Gómes ao circular pela educação contemporânea, valendo-se de marcas histórias da educação como respaldo sociológicopedagógico para pensar a inserção da escola na era digital. Afinal, “a inovação educacional sempre é minoritária, marginal e efêmera. Por conseguinte, a instituição escolar permanece basicamente a mesma desde sua extensão à população em geral, no final do século XIX” (2015, p. 12), não acompanhando a ampla transformação vivida pela sociedade e suas instituições.

As dúvidas que percorrem os caminhos híbridos da educação, e, em sua maioria distantes dos objetivos e sonhos de quem nela adentra, podem ser contempladas pelo momento em que o autor se encontra, ao afirmar: Tenho a impressão de que estou me movendo sobre uma plataforma um tanto instável, sem forma, irregular e mutável, mas, de qualquer modo, bipolar; por isso não é fácil manter o equilíbrio. Um dos meus pés se encontra no território das ideias e práticas inovadoras, nas pesquisas em e sobre educação, psicologia, sociologia e neurociência cognitiva, assim como nas experiências pedagógicas cheias de esperança e sentido, marcando uma orientação e uma tendência complexa, porém rastreável, de otimismo com relação às surpreendentes possibilidades que se abrem para o desenvolvimento criativo e solidário de todos e cada um dos seres humanos. O outro pé se apoia em um território mais rochoso, firme, embora com rachaduras, de uma realidade escolar obsoleta, superada e criticada por todos, mas resistente à mudança e aferrada na defesa das tradições e dos modelos pedagógicos que, se alguma vez tiveram sentido, para mim pelo menos, questionável, certamente hoje já não têm. (2015, p. 11).

Nessa citação, é possível mapear as áreas que exercem influência no pensamento educacional do autor e, por sua vez da obra, como a psicologia, a sociologia e a neurociência cognitiva, além da educação como área de fundo, comportando-se como uma região de encontro em que seu objetivo é uma reflexão sobre a finalidade da escola na sociedade contemporânea, na era digital. Dessa forma, a metamorfose que envolve a transformação do espaço escolar demanda a compreensão de que “a capacidade de aprender o que necessitaremos amanhã é mais importante do que o que sabemos hoje”. (2015, p. 50).

As ideias contidas, nesse primeiro movimento de exploração da obra de Pérez Gómes, são ampliadas e apresentadas ao longo das 192 páginas e nove capítulos, divididos em duas partes, os quais sinalizam um caminho intenso de contribuições para a constituição de uma escola educativa. A Parte I é composta por quatro capítulos, enquanto a Parte II apresenta cinco capítulos.

Assim, seguem, em sequência, a Parte I e a Parte II, com seus respectivos capítulos: Parte I – Aprender a se educar na era digital O Capítulo 1 – “A era digital: novos desafios educacionais” – enfatiza a potência informacional e comunicacional que a era digital está proporcionando, o que gera, paradoxalmente, superinformação e desinformação, um volume infinito e fragmentado de informações. Por sua vez, tal volume acaba saturando os sujeitos, já que não possuem capacidade para organizar o montante informacional.

Outras importantes reflexões, nesse capítulo, situam o desafio da escola em adentrar na cultura digital e/ou ressignificar seus modelos pedagógicos, pois “a fronteira entre o escolar e o não escolar já não é definida pelos limites do espaço e do tempo da escola, existe muito de ‘não escola’ no horário escolar e há muito ‘de escola’ no espaço e no tempo posteriores ao horário da escola”. (2015, p. 28-29). Discute, ainda, a mutação cultural que está em curso, isto é, a “a perda de valor da profundidade como fonte de conhecimento” (2015, p. 21), a saturação social do eu e a onipresença da informação como traço definidor da informação digital. Portanto, “é o momento de redefinir o fluxo de informação na escola”. (2015, p. 29).

O Capítulo 2 – “Insatisfação escolar: a escola sobrecarregada” – realiza uma crítica ao sistema educacional, ao preparar máquinas, ao invés de humanos. Ao subordinar seu projeto epistemológico ao sistema fabril, a escola fragmenta e constrói sujeitos para um não momento humano, para uma não contemporaneidade, para a neutralidade das humanidades como componente constituinte de uma formação essencial.

Diante disso, as escolas entregam-se ao livre-jogo do mercado, não cumprem suas funções educativas e preparam os cidadãos para a linha de montagem das indústrias, e não, para o mundo. O conhecimento tornou-se uma moeda de troca, e não, um valor. Ademais, o autor afirma que o fracasso escolar é reflexo do distanciamento das reais e atuais necessidades do mundo – das crianças, dos jovens. “As crianças contemporâneas, na sua maioria, não fracassam na escola pelo nível de dificuldade de uma alta exigência escolar, mas pelo tédio e falta de interesse. A relevância se tornou o fator crucial para garantir a permanência dos indivíduos na escola”. (2015, p. 39-40).

No Capítulo 3 – “A construção da personalidade: aprender a se educar” – o foco recai sobre a aproximação da psicologia da neurociência como caminhos profícuos na construção social dos sujeitos em contextos de aprendizagem presencial e virtual, influenciados pela emoção, pelos sentimentos, pela cooperação e pelo aprender para o agora. “A aprendizagem, portanto, deve ser entendida como um processo duplo: de construção individual e de aculturação dentro de práticas sociais”.(2015, p. 49).

Outros aspectos relevantes desse capítulo voltam-se ao papel da plasticidade cerebral como mecanismo capaz de estabelecer ilimitadas conexões neurais e, assim, influenciar na aprendizagem e, consequentemente, na construção da personalidade, já que esses processos envolvem interação, diálogo, exposição. Miopia pedagógica, inconsciência cognitiva e neurônios-espelho são aspectos que enriquecem ainda mais a discussão proposta no capítulo.

O Capítulo 4 – “Uma nova racionalidade para a escola: aprender a se educar” – revela o papel da empatia na escola, na convivência com os outros, na diversidade, no auxílio para que os estudantes possam ser projetores de sua vida, de seus desejos e, com isso, de suas aprendizagens, conscientes da desordem do processo. “A empatia está, portanto, na base da construção moral dos intercâmbios humanos e, consequentemente, é o fundamento prioritário da tarefa educativa”.(2015, p. 72).

Para isso, a autonomia assume lugar de destaque nesse capítulo. No entanto, o autor afirma que a construção da autonomia não é uma das finalidades da escola, ela requer capacidades humanas que são deixadas de lado pelas instituições de ensino.

Para tal, Pérez Gómes propõe um “novo iluminismo” à escola. O rompimento com o velho e fragmentador pensamento cartesiano para uma base sustentada pela indissociabilidade do corpo e da mente, da razão e da emoção, da construção do conhecimento com os contextos sociais, com ênfase na interação, na riqueza cultural que a diversidade oferece e na compreensão de aprendizagem como um processo contínuo de construção, desconstrução e reconstrução.

Parte II – Ajudar a se educar No Capítulo 5 – “Uma nova cultura curricular: relevância e profundidade” – discute o currículo e a transposição necessária de suas estruturas descontextualizadas, centradas na quantidade, e não, na qualidade, na não construção da autonomia. Educação, socialização e conhecimento são conceitos relevantes, que permeiam as reflexões do capítulo.

Para o autor, uma escola que queira ser educativa deve iniciar sua transformação pelo currículo. Para isso, ele deve considerar todas as dimensões do desenvolvimento pessoal, reduzir, de modo drástico, suas prescrições centrais e oferecer uma construção aberta, de modo que seja menos extenso e mais profundo e que tenha as competências como um motivador à delimitação do marco referencial de conteúdos. A educação, dessa forma, “não é apenas um processo meramente formativo, mas pode ser considerada um caminho que transforma, a metamorfose do sujeito”.(2015, p. 101).

O Capítulo 6 – “Novas formas de ensinar e aprender” – entende a aprendizagem como um caminho de investigação, metacognição, cooperação, empatia e jogos em rede. Com isso, a aprendizagem passa por uma transformação, deixa de ser pautada pela fragmentação para ser considerada constante, motivadora e articulada.

O autor reforça, no capítulo, a importância de na escola ser criada “uma cultura de experimentação e um contexto de investigação, no qual a preocupação não é evitar os erros, mas corrigi-los e transcendê-los”.(2015, p. 114).

A cooperação como um dos caminhos para novas aprendizagens é onde recai a crítica do autor, pois o sistema familiar não incentiva e nem promove tal comportamento nos filhos, o que acaba criando barreiras e uma atmosfera que deve ser alterada no âmbito escolar: a competição.

No Capítulo 7 – “Avaliar para aprender” – o foco recai sobre a aprendizagem pela avaliação. O apresentado pelo autor é um esforço para que ocorra a saída do atual sistema de avaliação das escolas àquele que compreenda a escola como educativa, inserida no contexto digital.

Segundo o autor, “a questão-chave dentro da filosofia da avaliação formativa é: O que? Por quê? e Para que serve o que os alunos aprendem na vida escolar?” (2015, p. 133).

A avaliação é um processo diferente de um produto, deve ser a base para compreender se a formação está atendendo aos e os formando sujeitos autônomos e críticos, e não reprodutores de receitas. “Em vez de medir a uniformidade na aquisição de formas de pensamento de ordem inferior, o mundo contemporâneo e a era digital nos obrigam a investir na criatividade, no pensamento divergente de nível superior, na imaginação, na inovação e na invenção”. (2015, p. 138).

O Capítulo 8 – “A natureza tutorial da função docente: ajudar a se educar” – ressalta o papel do novo docente em uma mudança na maneira de pensar e agir do professor. “O ensino não é como a arte de pintar, mas como a arte de esculpir. Não envolve impor conhecimento, adicionar cores a partir de fora, mas ajudar a construir a partir de dentro, limpar resistências para formar uma imagem desejada, a personalidade eleita”. (GATTO, 2005 apud PÉREZ GÓMES, 2015, p. 145).

As competências desejadas para o novo professor seriam aquelas que promovem a investigação de modo a oferecer mais perguntas e menos respostas e que avançasse na formação inicial e continuada como percursos essenciais na qualificação do profissional e da escola educativa. Assim, “a formação de docentes poderia ser vista como um processo relevante de ‘metamorfoses’, de ‘transição’, um processo interno de reorientação e transformação pessoais, que aproveita e se baseia em aquisições e que conduz a uma mudança consciente”. (2015, p. 147-148).

No Capítulo 9 – “Novos cenários e ambientes de aprendizagem” – o autor discute o papel da escola na sociedade, da organização curricular e dos professores na construção do conhecimento e de competências necessárias à atualidade. Reforça a necessidade de romper fronteiras e construir contextos educativos na era digital, potencializando-se, assim, as práticas educacionais.

Ressalta-se que, em todos os capítulos da Parte II, as reflexões e fundamentações teóricas do autor são marcadas por diversos exemplos de experiências bem-sucedidas desenvolvidas em todo o Planeta e que são chamadas na obra de “práticas relevantes”.

Mediante o exposto, considera-se a obra – Educação na era digital: a escola educativa – um produto que ressalta uma demanda social-global, escrita de maneira clara e coerente com o que propõe, além de aproximar os textos entre os capítulos, o que reforça seu cuidado com o leitor em mantê-lo na teia das reflexões que ali se apresentam. Recomenda-se a leitura da obra para todos aqueles que trabalham, pesquisam e vivem o ambiente educacional, bem como àqueles que não estão diretamente ligados à educação, mas que torcem pelo seu sucesso, pela era digital como um potencial formativo, e que buscam tornar a escola e os demais instituições de ensino espaços que aproximem prazer e conhecimento e períodos de aula em momentos reais de vida.

Michel Mendes – Doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade de Caxias do Sul (UCS), vinculado à linha de pesquisa Educação, Linguagem e Tecnologia. Mestrado em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da UCS. Bolsista da Capes. E-mail: [email protected]

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