Migrações e Fronteiras Amazônicas / Fronteiras – Revista de História / 2017

Nos últimos anos, a região amazônica tem se destacado como um campo de estudo em expansão, fruto do interesse de pesquisadores e pesquisadoras que têm se ocupado com temáticas amazônicas consolidadas e emergentes, bem como com populações originárias ou recém-chegadas à região. O interesse deve-se também às mudanças em curso na região, as quais obviamente estão relacionadas com as outras regiões do Brasil, com os países amazônicos vizinhos e com a comunidade internacional. A região amazônica é a maior área com cobertura vegetal na América do Sul. Nela vive a maior parte da população indígena brasileira e é falada a maioria das línguas indígenas. O Polo Industrial de Manaus consolidouse como um dos principais centros econômicos da América Latina. A Amazônia é, pois, uma verdadeira fronteira interna, cultural, social, econômica e ecologicamente falando. As migrações que se destinam para lá são marcadas, assim, por encontros e desencontros humanos, pois afeta constantemente a vida das comunidades assentadas há mais tempo no local e não poucas vezes ocasiona outras migrações.

Este número especial da Fronteiras – Revista de História do PPGH-UFGD, que ora apresentamos, propôs reunir algumas dessas pesquisas que analisam esses fenômenos sociais nos últimos anos. Este número, portanto, reúne um dossiê interdisciplinar com o objetivo de contribuir para o conhecimento da construção de fronteiras étnicas, culturais, sociais, econômicas e geográficas da Amazônia.

A partir da análise de um conjunto de fontes que descrevem os primeiros anos de ocupação do Médio Rio Purus, o primeiro artigo aborda historicamente a constituição da última fronteira do expansionismo luso-brasileiro na Amazônia. Dando maior enfoque ao povo Apurinã, o artigo descreve os primeiros anos de contato entre a sociedade não indígena e os povos indígenas da região. Para além de uma análise que toma os povos indígenas apenas como vítimas, o autor pretende trazer à tona a agência indígena presente no processo.

O segundo artigo foi escrito a três mãos e aborda as técnicas e processos de extração de ouro na bacia do Rio Madeira e a migração de garimpeiros para a região vinculada a cinco ciclos econômicos de exploração aurífera artesanal. Trata-se de uma história social da migração e ocupação de um espaço amazônico motivada pela mineração desde a primeira metade do século XVIII. Os autores, nesse sentido, descrevem os processos e a tecnologia empregada na prospecção do ouro e as condições sociais e econômicas que motivam a migração e os resultados dessa migração e exploração aurífera.

O terceiro artigo é a contribuição de uma autora venezuelana sobre os povos indígenas fronteiriços e a questão da segurança nacional e o desenvolvimento regional. Segundo a autora, os povos indígenas da zona fronteiriça da Venezuela (Colômbia, Brasil e Guiana) têm vivido sob o espectro da resistência frente a constantes invasões de seus territórios, roubo de suas terras ancestrais, violação de seus direitos, exploração ilegal de recursos naturais e toda sorte de humilhações. Além disso, eles têm que lidar com as forças armadas dos diferentes países já que vivem num espaço de fronteira. Apesar disso, a partir do marco legal da Constituição Venezuelana, a autora defende a importância dos povos indígenas como guardiões da fronteira. Para ela, eles contribuem sistematicamente para os processos de defesa nacional ao serem zonas vivas fronteiriças.

Reconstruindo parte da trajetória de vida de três indígenas do Alto Rio Negro que migraram para a cidade de Manaus, o quarto artigo problematiza a questão da migração de indígenas para as cidades. A autora reconstrói, assim, as trajetórias desses indígenas perguntando-se quais motivações pessoais e sociais os teriam levado a empreender a migração. Nesse processo, sobressaem-se os aspectos sociais expressados como dever, como força histórica atrativa e como deslocamento compulsório. No entanto, para a autora, para além dessas forças externas que expulsam e atraem as populações indígenas, o deslocamento para Manaus também pode significar a possibilidade do exercício de uma alteridade radical, ou seja, como um desafio para vivenciar e domesticar o mundo não indígena.

O quinto artigo aborda o processo por detrás da elaboração da logomarca do Polo Industrial de Manaus, a garça em pleno voo. Fazendo uma análise semiótica do símbolo e utilizando-se do conceito de imaginário amazônico, os autores descrevem a criação dessa logomarca como um processo que privilegia uma visão da natureza em detrimento do ser humano. Ao utilizar um símbolo da fauna amazônica, os criadores optaram pelo imaginário da Amazônia selvagem, da terra vazia, como vazio demográfico atrativo que deve ser domesticado. Esse imaginário, portanto, desconsidera as populações que ali viviam e vivem. Assim, para os autores, o projeto dessa logomarca deixa de fora vários setores da sociedade e também esconde o próprio fracasso do modelo econômico que prometia a elevação do nível de riqueza do Amazonas aos patamares do Sul e do Sudeste do Brasil.

O sexto e último artigo deste dossiê apresenta a resistência das mulheres ribeirinhas da região do Médio Solimões. Com um olhar feminista e a partir dos referenciais teóricos da educação popular, a autora vai analisando o processo de organização social dessas mulheres para constituírem-se enquanto sujeitos da sua história. Ao resgatar outras formas de pedagogia e de processos de ensino e aprendizagem presentes no cotidiano dessas mulheres, a autora traz ao público acadêmico um universo sobre o qual não tem sido dada muita atenção.

Na seção Artigos Livres a Fronteiras publica dois trabalhos. O primeiro é o artigo Territorialidade e Biografia: ao redor de Tia Eva, de Myleide Meneses Oliveira Machado e Josemar de Campos Maciel. A autora e o autor destacam que n investigação da história das comunidades quilombolas no Brasil, urge redimensionar conceitos como “identidade” e “territorialidade” mostrando que as comunidades produzem ressignificações, em suas relações com o espaço num sistema de representação político territorial. Assim, focalizam na Comunidade Quilombola São Benedito, no Estado de Mato Grosso do Sul, cidade de Campo Grande, formada no início do século XX. O artigo explora teoricamente o autoreconhecimento e identificação da Comunidade, com formas próprias de organização social, ocupando e usando territórios e recursos como condição para sua ancestral reprodução cultural, social, religiosa e econômica, negociando conhecimentos, inovações e práticas com a tradição e na sua inserção no município de Campo Grande.

O segundo artigo livre intitula-se Política y Desarrollo: una mirada desde los jóvenes universitarios de Unespar, Brasil, das seguintes autoras e autor: Olga Alicia Gallardo Milanés, Cristina Satiê de Olivera Pátaro e Frank Antonio Mezzomo. A pesquisa tem como objetivo problematizar o papel de jovens estudantes da Unespar (Universidade Estadual do Paraná) como agentes de desenvolvimento, buscando compreender suas percepções sobre política e desenvolvimento, valorizá-los a partir da diversidade de suas concepções e verificar a influência do contexto em suas ideias. Foram utilizadas abordagens qualitativas e quantitativas, a partir da metodologia de Investigação Apreciativa. Os resultados da pesquisa evidenciam que a participação política dos estudantes se dá principalmente por formas não convencionais, e que os mesmos apresentam uma ampla visão de desenvolvimento, reconhecendo a inter-relação entre as dimensões econômica, política, social e ambiental, embora atribuam relevância aos recursos econômicos, entendendo-os como suporte para alcançar as garantias sociais.

Por fim trazemos três resenhas. Uma do livro de Benedict Anderson, intitulado Sob três bandeiras: Anarquismo e imaginação anticolonial, nessa ocasião resenhado por Fábio Luiz de Arruda Herrig; outra do livro de Marcio Luiz Carreri, intitulado O socialismo de Oswald de Andrade: cultura, política e tensões na modernidade de São Paulo na década de 1930, ora resenhado por Eduardo Martins; e a terceira do livro As Universidades e o Regime Militar: cultura política brasileira e modernização autoritária, resenhado por Tiago Alinor Hoissa Benfica.

Agradecemos às pessoas que responderam à chamada para o dossiê, ao corpo de pareceristas e aos colegas responsáveis pela Fronteiras. Sem mais delongas, esperamos que este dossiê, em conjunto com os demais artigos livre e resenhas possa ser de fato uma contribuição para colocar a região amazônica no campo do debate acadêmico. Boa leitura!

Rogério Sávio Link – Doutor em História pela UFRGS, Doutor em Teologia pela Faculdades EST

Cândida Graciela Chamorro Argüello – Graciela Chamorro Doutora em Antropologia pela UNIMARBURG, Doutorado em Teologia pela Faculdades EST.

(Organizadores do Dossiê)


LINK, Rogério Sávio; ARGÜELLO, Cândida Graciela Chamorro. Apresentação. Fronteiras: Revista de História. Dourados, v. 19, n. 33, Jan. / jun., 2017. Acessar publicação original [DR]

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