The Plantation Machine: Atlantic Capitalism in French Saint-Domingue and British Jamaica | Trevor Burnard e John Garrigus

The Plantation Machine: Atlantic Capitalism in French Saint-Domingue and British Jamaica expõe, por meio de uma história comparada, as similaridades entre São Domingos e Jamaica. A obra, escrita por Trevor Burnard e John Garrigus, – ambos especialistas em Jamaica e São Domingos, respectivamente – mostra como as possessões caribenhas se assemelhavam em sua configuração social e econômica, mesmo que administradas por uma França absolutista e por uma Inglaterra parlamentarista. Escrita a quatro mãos, o livro é o que se tem de mais atual na bibliografia recente sobre as histórias dessas duas colônias e tem aquele ar clássico de uma produção acadêmica que marcará época na bibliografia atual e futura sobre o sistema mercantilista atlântico.

O recorte cronológico escolhido pelos autores cobre o período de 1740 a 1788, momento de acelerado crescimento da produção açucareira nessas duas colônias. Os autores também identificam Jamaica e São Domingos como integrantes de suma importância para suas metrópoles na integração econômica global e sua inserção no funcionamento do Capitalismo Atlântico do século XVIII.

Segundo Burnard e Garrigus, o Capitalismo Atlântico é caracterizado particularmente nas relações entre França e Inglaterra, domínios caribenhos nos quais o complexo de plantation obteve um desenvolvimento que sem equivalentes contemporâneos nas colônias rivais dos outros reinos europeus. O termo plantation machine é por eles empregado justamente para designar esta máquina protoindustrial cheia de braços e vertentes, que se preocupava, sobretudo, com a otimização do tempo (BURNARD, GARRIGUS, 2016, p. 3). O rígido funcionamento desse mecanismo mostra a função primária da colônia: gerar acumulação de capital para a metrópole.

No livro também podemos ter acesso aos detalhes da vida social, política e econômica de São Domingos e da Jamaica por meio do exame de uma ampla documentação que aponta para o chão comum entre elas. A obra é estruturada em três partes: o entendimento da sociedade, explorado nos capítulos 2, 3 e 4; a construção da branquitude e do racismo nas colônias, explorada nos capítulos 5, 6 e 7; e, por fim, as consequências mais amplas dessas políticas raciais segregacionistas e também da Guerra de Independência dos Estados Unidos, explicitadas nos capítulos 8, 9 e 10.

Os autores iniciam a obra demonstrando como a rentabilidade do tráfico negreiro nas colônias foi decisivo para a acumulação de capital para a França e a Inglaterra. No capítulo 2, “The Plantation World”, vemos como as relações das colônias eram complexas com suas metrópoles e como a busca incessante pelo lucro subvertia a visão que os próprios europeus tinham de seus conterrâneos americanos. Esse vínculo dialético entre metropolitanos e colonos é explicitada sobretudo nos momentos em que os autores trabalham tanto as questões raciais em São Domingos e na Jamaica quanto a subsequente criação de aspectos legais de segregação entre brancos e negros. Enquanto a classe, na colônia francesa, tinha um peso maior do que a raça, na colônia inglesa a relação de certo modo se invertia: a cor era fator determinante para a escala de hierarquização social. Seja como for, em ambas foram criadas leis para evidenciar e manter a estrutura da sociedade colonial. Esta abordagem das relações de classe e o racismo decorrido delas reforça parcialmente o argumento de Eric Williams, em sua clássica obra Capitalismo & Escravidão: a necessidade econômica gerou o preconceito racial e as leis necessárias para legitimá-lo (WILLIAMS, 2012, p. 50). Esse exemplo de “birracialização” nos domínios francês e inglês, no entanto, ilustra como funciona a metodologia de Burnard e Garrigus, segundo a qual as colônias são tratadas como unidades isoladas que não se condicionam mutuamente.

Burnard e Garrigus nos apresentam detalhes de eventos importantes que aconteceram nos continentes americano e europeu. Tais fenômenos provocaram o progresso das relações de São Domingos e da Jamaica com a França e a Inglaterra. No capítulo que trata da Guerra dos Sete Anos, os autores mostram como o conflito mudou drasticamente a gerência das metrópoles europeias com suas colônias caribenhas e como a primeira guerra de dimensões continentais da Era Moderna foi a responsável pela longa prosperidade econômica da colônia francesa. Surgem então novas questões para a França e Inglaterra: os britânicos tinham um território maior para manter, defender e explorar, enquanto os franceses queriam beneficiar-se ao máximo do pouco que lhes restara e ainda criar políticas que aumentassem a lealdade de seus colonos a Versailles. Para maximizar os lucros e aumentar a produção agrícola, era preciso investir no tráfico negreiro ainda mais, o que poderia trazer um crescimento no número de insurreições. Novas questões que os colonos britânicos e franceses teriam que aprender a lidar.

O quinto capítulo, “Dangerous Internal Enemies”, trata das rebeliões e revoltas de cativos tanto em São Domingos quanto na Jamaica. Nele somos apresentados ao caráter político da religião dos escravizados. Além de um fator de disciplina escravista, a religião permitia uma vida social ao negro que era negada pelos senhores. Esta socialização criou laços que logo foram percebidos pelos colonos como uma construção de ações políticas contra as ações escravistas. Os senhores, então, começaram a criminalizar a religião dos negros para evitar que os escravizados se unissem e se articulassem como um grupo de risco nesses locais. Apesar da Revolta de Tacky, acontecida em 1760 na colônia britânica, ter sido mais violenta (e isso é reconhecido por Burnard e Garrigus), ambos preferem mais detidamente estudar o caso dos venenos de Macandal que assolou e inflou o desespero dos colonos em São Domingos nos anos de 1757-58. Essa escolha se justifica, segundo os autores, por já haver uma bibliografia extensa sobre o caso jamaicano, deixando um leque interessante de pesquisa sobre o acontecimento no território francês.

O caso de São Domingos mostra que os escravizados perceberam um poder até então desconhecido: como sua religião era estranha aos senhores, estes acreditavam que a crença dos negros era envolta em uma tenebrosa e perigosa misticidade. A partir do medo dos colonos diante do assustador número de mortes ocorridas à época – de negros e brancos– os escravos perceberam que poderiam usar deste temor para conseguir para si algumas vantagens.

Os autores logo explicitam que a verdadeira causa da morte de tantas pessoas foi um fungo mortal que existia na farinha importada da América do Norte, base da dieta de escravizados e brancos. Isso foi suficiente para que o imaginário do colono francês fosse de tal forma remoldado a ponto de os próprios senhores usarem os métodos mais cruéis e violentos em interrogatórios e até em punições para confirmarem uma suspeita que depois se mostrou infundada. Era preciso disciplinar o negro para que ele não se revoltasse novamente, mas, acima de tudo, essas medidas serviam como uma ilusão dos senhores sobre uma situação que eles já não mais dominavam: o crescente número de escravizados que cada vez menos estavam sob seus controles.

Com as novas políticas surgidas devido a necessidade de reforçar a hierarquização social, as duas colônias possuíam ideologias raciais em que só os descendentes europeus “puros” eram considerados cidadãos. Entretanto, na colônia francesa, o número de mestiços e negros livres com um importante capital advindo do café – que após a Guerra dos Sete Anos, se torna uma força primária na colônia – era considerável. Diferente do açúcar, que exigia um bom capital para investimento em mão de obra escravizada, grandes extensões de terra e um maquinário engenhoso, o café possibilitava um investimento bem menor e uma pequena quantidade de terra, que facilitava a incursão de pequenos proprietários em sua produção. A lealdade dos colonos brancos franceses estava estremecida pela força da indústria cafeeira entre os mestiços e negros livres. Mesmo que este não seja um ponto observado por Burnard e Garrigus, mais adiante será demonstrado como a questão cafeeira e as relações raciais decorridas dela são de suma importância para entender a Revolução do Haiti.

Na Jamaica, a solidariedade entre os brancos ganhou uma importância fundamental após a Revolta de Tacky. Uma vez que as leis raciais reforçavam os laços entre os colonos e excluíam os cativos, a exemplo da lei promulgada em 1761 que impedia o negro livre de possuir terras, tornando-se bastante eficazes na colônia inglesa, o problema dos colonos com a metrópole se tornou outro: o monopólio que esta tinha sobre o açúcar jamaicano e as taxas que dele decorriam. Por conta disso, os senhores jamaicanos até se tornaram simpáticos à causa da Guerra de Independência dos Estados Unidos, pois as treze colônias da América do Norte começaram sua luta por causa da insatisfação com a política metropolitana, tal qual acontecia no Caribe britânico.

Burnard e Garrigus entendem, em sua análise sobre o conflito norte-americano, que as colônias caribenhas não estavam presentes em sua gênese e que só participaram deste processo quando ele já havia começado. No entanto, vale lembrar que com o fim da Guerra dos Sete Anos a reconfiguração dos territórios ultramarinos se fez necessária e as ações das metrópoles em São Domingos e na Jamaica foram parte do combustível que fez eclodir a insurreição norte-americana. A Inglaterra agora tinha um território maior para administrar, enquanto a França precisava lidar com a perda da maioria de suas colônias americanas, ao mesmo tempo que desejava recuperá-las. Ao término da guerra, acontecido em 1763, o vitorioso Reino Unido estava altamente endividado. Para tentar estabilizar a economia da metrópole, diversas políticas de aumento de carga tributária, cobrança de taxas e imposição de novas leis nas colônias britânicas foram tomadas. A insatisfação dos colonos norte-americanos – até então relativamente autônomos por causa da pouca interferência britânica na administração local antes da Guerra dos Setes Anos – diante desta política foi inevitável, além de um importante estímulo para o início do conflito que resultou na independência do território na década de 1780.

O caso francês também contribuiu para a guerra de independência dos Estados Unidos. A França precisava lidar com a perda de suas colônias americanas sem corromper a receita que antes lhe era regular. Para tanto, foram iniciadas uma série de reformas quanto à administração e exploração mais intensa das possessões ultramarinas a fim de garantir uma boa lucratividade e não impactar negativamente nas contas do Estado. Somado a isto, estava o desejo francês de recuperar sua antiga hegemonia além-mar, atrelada à constante competição com a Inglaterra pela soberania das colônias ultramarinas e também pela liderança política dentro do continente europeu. Essas condições levaram a França a ser uma das principais aliadas dos Estados Unidos durante seu processo de soberania.

O conflito, iniciado em 1775 e encerrado em 1783, selou a independência dos Estados Unidos e teve um impacto direto nas relações econômicas de São Domingos e Jamaica. As extintas treze colônias britânicas estavam livres para comercializar legalmente com a colônia francesa – o que praticavam antes via contrabando – e assim, aumentar seus lucros e eficácia econômica. Entretanto, a Jamaica sofria pela perda deste mercado por causa de sua condição de colônia britânica; os tempos áureos estavam acabando. Além disso, a independência norte-americana permitiu duas novas possibilidades para as colônias: 1) a descoberta de que uma colônia podia deixar essa condição e se tornar uma nação livre e 2) uma crítica à escravidão que em São Domingos e Jamaica antes não existia. Esta é uma das partes mais interessantes da obra, uma vez que demonstra como estes fatos influenciaram no status quo da época e geraram uma literatura abolicionista que ganhava cada vez mais força, germinando nos pensamentos metropolitano e colonial uma ideia que criminalizava a escravidão.

O discurso de liberdade crescente em São Domingos viu no café um aliado importante e fundamental para o sucesso da Revolução Haitiana. Burnard e Garrigus escolhem, no entanto, não explorar esta correlação, principalmente, por causa do corte cronológico estabelecido no livro. A partir desta preferência, os autores dão a entender que a revolução escrava na colônia francesa foi puramente casual e não exploram os fatores internos que esclarecem porque este levante aconteceu em São Domingos e não na Jamaica.

Todavia, segundo Michel-Rolph Trouillot, em seu artigo “Motion in the System”, o café esteve na base da insurreição que tornou São Domingos independente da França. Com a perda do valor econômico relativo do açúcar e o aumento do público consumidor de café em escala global, a colônia francesa dominou o mercado cafeeiro, chegando a monopolizar cerca de 60% (TROUILLOT, 1982, p. 337) da produção mundial deste produto. Este fenômeno não aconteceu com a mesma intensidade na Jamaica, pois não havia espaço para a produção cafeeira e também devido ao fato de que o império britânico decidiu investir no chá ao invés do café.

Trouillot também mostra, em detalhes, como a situação interna de São Domingos alimentou os ares de revolução. O mercado de café era dominado por dois grupos majoritários: mestiços e negros livres – que, desde o Code Noir de 1685, não eram impedidos de possuir ou investir na colônia, o que gerou um número proeminente de famílias negras economicamente ativas na região – e colonos brancos franceses que investiram na ilha após o Tratado de Paris (1763). Em contrapartida, havia também um grupo minoritário de brancos já residentes em Saint-Domingue que não possuíam suas plantações de cana-de-açúcar, mas que viviam e tiravam seu sustento através do complexo açucareiro (TROUILLOT, 1982, p. 349). Com a expansão do café em detrimento do açúcar, os conflitos internos entre colonos brancos, estrangeiros e negros aumentaram, uma vez que o plantio deste novo insumo também estava condicionando, influenciando o sistema-mundo vigente à época. Estas relações entre França e Inglaterra e suas colônias caribenhas carecem de mais espaço no livro de Burnard e Garrigus. Ao decidirem-se pela história comparada por meio de estabelecimento de paralelos estritos, os autores não apresentam ao leitor uma perspectiva maior do interessante processo de condicionamento mútuo entre as metrópoles europeias e seus domínios americanos e a influência direta desses fatores no funcionamento do Capitalismo Atlântico.

O fato de não analisar a Revolução Haitiana também é uma escolha clara e consciente dos autores da obra. Um ponto a se destacar do raciocínio de Trouillot é que o sentimento de humanidade do escravizado era determinado pelo comprometimento da colônia com o sistema capitalista: quanto maior esse comprometimento, menor era a humanidade do escravizado, pois esta era um impedimento para a busca do lucro (TROUILLOT, 1982, p. 375). Os fatores internos de São Domingos são fundamentais para entender a razão da revolução ter acontecido na colônia francesa e não na inglesa. Dessa forma, a construção do racismo e da solidariedade racial entre os brancos, como fatores que deveriam sobrepor a relação de classes, geraram na colônia francesa uma inquietação fundamental para a revolta e a consequente independência do Haiti em 1804.

Jamaica e São Domingos, portanto, tinham uma mesma estrutura colonial e eram integradas por causa disso, mas evoluíram de maneiras diferentes e desiguais. Explorar a importância cafeeira em São Domingos e a revolução escrava de 1791 seria um entrave à elaboração do principal argumento de Burnard e Garrigus sobre as similaridades entre as duas colônias caribenhas.


Resenhista

Roberta Angélica Quirino Pinto


Referências desta Resenha

BURNARD, Trevor; GARRIGUS, John. The Plantation Machine: Atlantic Capitalism in French Saint-Domingue and British Jamaica. Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 2016. Resenha de: PINTO, Roberta Angélica Quirino. Revista Outrora. Rio de Janeiro, v. 3, n. 1, p. 130 – 134, jan./jun. 2020. Acessar publicação original [DR]

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