Apresentamos nesse número o dossiê A cultura intelectual brasileira: trajetórias institucionais e intérpretes, no qual divulgamos trabalhos sobre as trajetórias institucionais de certos intelectuais reconhecidos como intérpretes do Brasil. A contribuição da história intelectual é fundamental para o estudo da história da história, pois, para compreendermos “o que o historiador faz quando faz história” – para usarmos os termos de Michel de Certeau – é preciso realizar uma contínua objetivação do sujeito objetivante, a fim de colocar esses agentes no interior de seus respectivos campos de produção, para além do “Eu” individual, enquadrando sua produção como “pano de fundo de uma comunidade [1]”.

Esse fundamento ontológico da história é um pré-requisito para construir uma história crítica, que faça o exercício contínuo de “autoanálise” tão próprio de uma história-problema. Portanto, analisar a historicidade da história-conhecimento – via história intelectual – é fazer o exercício de compreensão, análogo ao da teoria da ideologia e da sociologia do conhecimento, de perscrutar as visões de mundo que subjazem às produções intelectuais e institucionais de um autor pensado nas suas múltiplas determinações, [2], superando através desse pressuposto a retórica escolástica do “pensamento puro [3]”.

Os sete artigos que compõem esse dossiê respondem, à sua maneira, a essas problemáticas da história intelectual. Dentre os textos publicados, os três primeiros realizam análises de obras de dois autores considerados “pais da moderna historiografia e ciências sociais brasileira”: Sérgio Buarque de Holanda e Gilberto Freyre. iv O Prof. Dr. Diogo da Silva Roriz perscruta o debate intelectual entre o primeiro intérprete supracitado e Alfredo Ellis Jr., em Os projetos de escrita da história de Alfredo Ellis Jr. e Sérgio Buarque de Holanda: uma guerra de ideias no mundo dos letrados de São Paulo?, através de suas respectivas posições frente a questões como temporalidade e verdade, abrindo uma porta para a compreensão do mundo dos letrados no Brasil dos anos 1930 e 1940.

Em relação ao segundo intérprete supracitado, o Prof. Dr. Eliézer Cardoso de Oliveira, em Preâmbulos de “Ordem e Progresso”: Análise historiográfica dos elementos introdutórios e das notas de rodapé, desenvolve uma abordagem estético-retórica do seu livro, Ordem e Progresso, a partir dos seus elementos paratextuais, tais como prefácios, notas e índices; enquanto Renato Pereira Gomes, em Tradicional-regionalismo freyriano: a trajetória do intelectual do autor antes de “Casa Grande & Senzala” (1918-1926), busca preencher o vazio em torno dos estudos sobre o espaço social do jovem Freyre, em um período anterior à publicação de Casa Grande & Senzala, abordando o seu lugar no projeto tradicional-regionalista.

Em A utopia-nacional corporativista em “Populações Meridionais do Brasil”, Marcello Felisberto Morais de Assunção tece uma análise inovadora da obra Populações Meridionais do Brasil, de Oliveira Viana, a partir dos pressupostos teóricos do marxismo de João Bernardo; demonstrando como o intérprete representa, através desta produção intelectual, a consciência possível não de uma aristocracia retrograda, mas da classe social que foi efetivamente dominante no processo de consolidação do capitalismo nacional: os gestores. Por sua vez, o Prof. Dr. Sidney Oliveira Pires Júnior, no artigo intitulado Nacionalismo e projeto nacional em Mário de Andrade, evidencia o lugar de Mário de Andrade frente ao debate da “questão nacional” no modernismo brasileiro, a partir de sua obra literária, crítica, histórica e sociológica, problematizando os conceitos de nacionalismo e projeto nacional.

O Me. Felipe Azevedo Cazetta, em Trajetória intelectual do integralista Miguel Reale: do socialista liberal até a crítica ao liberalismo e socialismo, busca reconstituir a trajetória intelectual e institucional de Miguel Reale até a sua entrada para a AIB (Ação Integralista Brasileira). Fechando o dossiê, o Prof. Me. Thiago Lenine Tito Tolentino, em Autoria, história intelectual e reflexões sobre a “cultura intelectual brasileira”, trabalha questões fundamentais da história intelectual, sugerindo uma nova abordagem nas análises sobre os intelectuais brasileiros, substituindo a antiga noção de “pensamento social brasileiro” por “cultura intelectual brasileira”.

Além do dossiê, publicamos também mais quatro artigos. No primeiro, intitulado A teoria da história em Walter Benjamim: uma construção entre “História e coleccionismo: Eduard Fuchs” e as “Teses sobre o conceito de história”, o Prof. Me. Raimundo Jucier Sousa de Assis e a Prof.ª Veridiana Domingos Cordeiro apresentam ao leitor uma discussão sobre a concepção da teoria da história cunhada por Walter Benjamin. No segundo, intitulado Interpretar o passado, projetar o futuro: a enciclopédia mágica de Valêncio Xavier, o Me. Rodrigo Gomes de Araújo estabelece uma relação entre o conceito de consciência histórica de Jörn Rüssen e os livros Meu 7o dia (1999) e Minha mãe morrendo e o menino mentido (2001), de Valêncio Xavier. No terceiro, intitulado Considerações acerca da análise de rede social nas sociedades de antigo regime, a Prof.ª Dr.ª Fernanda Fioravante explora a aplicação da noção de rede social na análise das sociedades de Antigo Regime. No último, intitulado Circuito comunicacional: uma reflexão dialética do cinema na perspectiva da história social, Guilherme de Almeida Américo e Lucas Braga Rangel Villela refletem sobre uma nova proposta teórico-metodológica acerca da relação entre História e Cinema sob o prisma da História Social.

Na seção Resenhas, o Prof. Me. Francisco Gleison da Costa Monteiro aborda questões epistemológicas contidas no livro Novos Domínios da História (2012), organizado pelo recém-falecido Prof. Dr. Ciro Flamarion Cardoso e pelo Prof. Dr. Ronaldo Vainfas, que se constitui em uma atualização do livro Domínios da História (1997), referência nas discussões sobre teoria e metodologia da História e nas áreas das Ciências Humanas e Sociais. Na segunda resenha, sobre o livro Horizonte da Política: questões emergentes e agendas de pesquisa, organizado pelo Prof. Dr. Adrian Gurza Lavalle, o Prof. Willian dos Santos Martins evidencia a importância das discussões contidas nessa produção para a compreensão do processo de renovação da história política iniciado nos anos 1970 até os seus desdobramentos contemporâneos.

Na seção de entrevistas, conversamos com o sociólogo alemão que é referência internacional em Weber, o Prof. Dr. Wolfgang Schluchter, sobre os debates em torno da relação entre Weber e o conhecimento histórico, dentre outros assuntos pertinentes à área de atuação do historiador. Por fim, o Décimo Número dispõe também de um vídeo contendo a palestra Temporalizando a Humanidade – O Humanismo no Pensamento Histórico, ministrada pelo Prof. Dr. Jörn Rüsen no dia 7 de outubro de 2010, no auditório da Faculdade de História da Universidade Federal de Goiás. Agradecemos a todos que contribuíram com esta publicação e ao caro leitor pelo interesse e pela credibilidade depositada em nosso trabalho.

Notas

1. GOLDMANN, Lucien. Ciências humanas e filosofia. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1972, pg. 22.

2. ARRUDA, José Jobson de Andrade. História e Historiografia. In: Historiografia Luso-Brasileira Contemporânea. São Paulo: EDUSC, 1999, pg. 12.

3. Sobre a crítica ao “pensamento puro”, tão própria a uma certa história intelectual de origem filosófica, ver: BOURDIEU, Pierre. Meditações Pascalinas. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001.

iv CANDIDO, Antônio. O significado de raízes do Brasil. In: HOLANDA, Sérgio Buarque. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das letras, 2004.

Os diretores.


Diretores. Apresentação. Revista de Teoria da História, Goiânia, v.10, n.2, dez, 2013. Acessar publicação original [DR]

Acessar dossiê

Deixe um Comentário

Você precisa fazer login para publicar um comentário.