A elite do atraso | Jessé Souza

Como tem sido escrita a História brasileira? Qual é o paradigma hegemônico que preside os nossos intelectuais na construção de nosso passado? Quais são as raízes do nosso atraso social? Quais seriam as interações entre os intelectuais e os membros da elite política e econômica? São em torno destes questionamentos que se debruça Jessé Souza em seu livro A elite do atraso: Da escravidão a Bolsonaro.

Jessé José Freire de Souza é um jurista, sociólogo, escritor, professor universitário e pesquisador brasileiro da área de Teoria Social. Nascido em Natal, em 1960, desde a década de 1980, quando concluiu sua formação em Direito pela Universidade de Brasília, tem se dedicado a estudar a construção do pensamento intelectual brasileiro. Possui Mestrado em Sociologia pela UnB (1986), Doutorado na mesma área pela Universidade de Heidelberg (1991), Pós-Doutorado em Filosofia e Psicanálise pela New School for Social Research (1994/95) e Livre Docência pela Universidade de Flensburg (2006). Assumiu em 2015 a presidência do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) tendo sido exonerado no ano seguinte após o golpe de Estado.

Sua obra está dividida em três partes, nas quais trata do nosso passado escravista, especialmente a partir de nossa historiografia; a formação das classes sociais e seus antagonismos; e por fim “a corrupção real” e as falácias da grande mídia e das classes dominantes para manipulação da grande massa popular.

Em sua nota preliminar intitulada O racismo de nossos intelectuais: O brasileiro como vira-lata o autor argumenta que “o poder é uma questão central de toda sociedade”, e por poder compreendemos não apenas a posse do dinheiro – produto das convenções sociais do mundo moderno – como também o monopólio das ideias intelectuais. Dessa forma, justifica que a construção de uma elite todo-poderosa que domina o Estado só existe para que não vejamos a “elite real” que está nos bastidores da política. Em sua obra, o objetivo do autor é reconstruir os principais elementos da gênese escravista e demonstrar sua influência ainda hoje (SOUZA, 2019, p. 14). O argumento central desse trabalho é provar que, mesmo após a passagem do paradigma do racismo científico para o culturalismo, existe a manutenção da ideia de inferioridade do povo brasileiro em detrimento dos europeus e norte-americanos, norteado a partir da noção de “modernização” (SOUZA, 2019, p. 16-17). A explicação lógica para esse estado de coisa é que, quem domina atualmente, seja economicamente ou politicamente, deve calçar-se na ‘ciência’ e em seus postulados.

Em sua primeira parte, batizada de A escravidão é nosso berço, o argumento central defendido é que nossa historiografia, sobretudo, a tradição iniciada com os estudos culturalistas de Gilberto Freyre, naturalizou a ideia de “modernização” e legitimou a subalternidade do povo brasileiro. Outro autor abertamente criticado é Sergio Buarque de Holanda (considerado o pai do liberalismo conservador brasileiro) e suas ideias de “homem cordial” – inferior e desonesto – e de “patrimonialismo”, onde os agentes a frente do Estado são encarados como “vilões” do povo, a fim de esconder os principais dilapidadores e rapinadores de nossas riquezas. Além desses personagens, somam-se a figura de Roberto da Matta, especialmente a partir de seu conceito de “jeitinho brasileiro”.

Em sua segunda parte, denominada As classes sociais do Brasil Moderno, mesmo criticado severamente, de acordo com Souza, um dos primeiros intelectuais que mais avançou na compreensão real do Brasil foi Florestan Fernandes, entretanto, o erro deste último teria sido confundir “raça” e “classe”, o que invalidaria uma crítica social realmente satisfatória. O Estado moderno, mesmo iniciado a partir da vinda da família real para o Brasil em 1808, ganhou substância somente a partir de 1930 com o projeto do Estado Novo de Getúlio Vargas, onde o “liberalismo econômico” recebeu os seus maiores incentivos (SOUZA, 2019, p. 118-119). Segundo o autor:

[…] O liberalismo entre nós não surge como demanda de setores burgueses ciosos de garantir espaços de autonomia e ação contra uma ordem estamental e elitista. Dá-se aqui precisamente o contrário. O liberalismo passa a ser o ideário do “mandonismo privado” (SOUZA, 2019, p. 119).

Uma das mais interessantes considerações feitas por Souza é que, no Brasil, a “elite real” alinha-se com a “classe média” e a partir dessa associação é formado o pacto antipopular, esse mesmo acordo, firmado desde a Revolução Constitucionalista de 1932, justificaria, em partes, a aversão ao PT e as políticas de reparo social implementadas nos últimos anos. A mais significativa herança do pacto antipopular firmado entre a classe média e a elite real seria a crítica moral ao patrimonialismo e o repúdio ao populismo, tendo como principal veículo a mídia de grande alcance, especialmente a televisão. Além das dinâmicas do pacto, interessa ao intelectual natalense a violência simbólica defendida e perpetrada pelas elites econômicas, sobretudo, a manipulação ideológica da grande massa popular empobrecida e explorada ao longo de nossa história.

Por fim, a terceira e última parte, designada como A corrupção real e a corrupção dos tolos, trata da espoliação e exploração por parte da “elite real” da população e das classes trabalhadores e desempregadas. É nesse momento que o autor discute com mais profundidade as estratégias adotadas pela elite real, apoiada pela classe média, pela grande mídia e pelo judiciário contra o governo populista do PT. Se argumento central é que, a corrupção real não estava na gestão do Estado, como fomos levados a acreditar, pois, essa serviu apenas como bode expiatório para ocultar a verdadeira corrupção perpetrada pela pequena parcela de detentores das grandes fortunas.

[…] Foi isso que fez com que, quando a Rede Globo e a grande mídia conservadora chamaram seu público cativo – a fração protofascista da classe média – às ruas entre 2013 e 2016, quantidades significativas de pessoas das outras frações também reagissem ao apelo. Toda a manipulação política desses setores é marcada pelo prestígio da noção de patrimonialismo e, por consequência, da corrupção apenas da política, e nunca do mercado (SOUZA, 2019, p. 192).

Consoante ao autor, nessa esteira, além do ódio construído ao longo dos últimos anos ao governo do PT, também havia a aversão enrustida a figura do pobre, uma herança de nossa gênese escravista. O resultado desastroso desse embate de interesses entre as classes, colocado em curso pela operação Lava Jato, foi a eleição de Jair Bolsonaro, defensor máximo de um discurso fascista e apoiador de um regime autoritário e ditatorial.

Em linhas gerais, essa é uma brilhante investigação, rica não apenas pelo seu valor empírico, como também pela lógica metodológica. Todavia, acreditamos que, alguns pontos devem ser problematizados, a fim de enriquecer essa abordagem. O primeiro ponto, talvez o mais delicado de todo o trabalho, é a definição não historicizada de “culturalismo”. De acordo com Souza, a gênese do culturalismo brasileiro se dá com as proposições apresentadas por Gilberto Freyre em Casa Grande & Senzala, orientado, sobremaneira pela Antropologia cultural do estadunidense Franz Boas. Todavia, trazendo para o campo da História, o culturalismo adentrou os circuitos intelectuais brasileiros ainda na segunda metade do século XIX a partir de suas vertentes francesa e alemã, esta última, fazia distinção entre os conceitos de bildung e kultur. Ambas, mesmo sendo traduzidas como “cultura”, possuem uma sensível distinção, onde a primeira estava mais ligada a uma noção de construir cultura, como algo individual e singular, ou seja, interação entre o sujeito e a coletividade; e a segunda, por sua vez, estava diretamente ligada a ideia de coletividade, melhor dizendo, civilização material e simbólica de uma dada comunidade. Dessa forma, enquanto bildung estaria relacionada ao cultivo de si, kultur seria a totalidade das realizações mentais, artísticas e materiais de um povo, isto é, expressão do desenvolvimento social. As duas, entretanto, ao longo do tempo, passam a representar apenas uma ideia singular de “civilização”. O segundo ponto, delicado por sua própria natureza, é a ideia de que a intelectualidade brasileira nunca desenvolveu uma crítica satisfatória aos dogmas conservadores, sobretudo com relação as concepções de “classe” e “raça”, pois, uma simples investigação de nossas produções acadêmicas colocaria em xeque esta compreensão.

Por fim, gostaríamos de saudar o trabalho do nosso intelectual potiguar e fomentar a sua leitura crítica.

Raick de Jesus Souza – Mestre em História das Ciências e da Saúde pelo Programa de Pós-Graduação em História das Ciências e da Saúde pela Casa de Oswaldo Cruz/COC/FIOCRUZ; Graduado em Licenciatura Plena em História pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia – UESB; Professor voluntário do PRÉ-ENEM do Programa de Extensão Territorial do Departamento de Biotecnologia da Universidade Federal da Bahia – UFBA. [email protected].  https://orcid.org/0000-0002-2987-2924


SOUZA, Jessé. A elite do atraso. Rio de Janeiro: Estação Brasil, 2019. Resenha de: SOUZA, Raick de Jesus. Revista Trilhas da História. Três Lagoas, v.10, n.19, p. 222-225, ago./dez. 2020. Acessar publicar original [DR]

 

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