BRITO, Gilmário Moreira. Culturas e Linguagens em folhetos religiosos do Nordeste: inter-relações escritura, oralidade, gestualidade, visualidade. São Paulo: Annablume, 2009.  Resenha de: TRINDADE, Antonio Marcos dos Santos. Culturas e Linguagens em Folhetos Religiosos do Nordeste. Ponta de Lança, São Cristóvão, v.6, n.12, p.111-115, abr./out., 2013.

O livro Culturas e linguagens em folhetos religiosos do Nordeste, do professor baiano Gilmário Moreira Brito, publicado em 2009, mas apresentado primeiramente em 2001 como tese de Doutorado na PUC de São Paulo, é uma valiosa contribuição ao estudo da cultura popular do Nordeste. O autor, em sua longa e acurada pesquisa, rastreia a construção da religiosidade do povo nordestino como construção histórica, procurando identificar as tensões nas relações de encontro/confronto entre poder e cultura, que envolvem os diversos grupos sociais em disputas por princípios e valores religiosos que ganham significados sociopolíticos e culturais.

Assim, de um lado, as linguagens utilizadas pelo povo em suas práticas religiosas, manifestadas em múltiplas formas, orais, escritas, visuais e gestuais, e, por outro lado, os discursos da Igreja Católica, da Historiografia e de alguns folcloristas, representantes da cultura letrada, erudita e dominante, são confrontados, a fim de se revelar os lugares de fala de cada um. Para o professor Moreira Brito, a noção norteadora de sua abordagem da cultura popular é a de reelaboração/incorporação seletiva e mediação ativa, segundo as reflexões de Raymond Williams, Stuart Hall e David Harker. O historiador baiano procede, para tanto, da seguinte forma:

Questionando as compreensões do ‘popular’ a partir da ênfase na pluralidade de usos, entendimentos e apropriações, tentamos apreendê-los nas relações de confronto com o erudito, o dominante, o letrado, conforme discussões de Stuart Hall, ou pensando em termos de ‘incorporações seletivas’ e ‘criação ativa de significados’, seguindo as reflexões de Raymond Williams. (BRITO, 2009: p. 32).

O livro se estrutura em quatro capítulos. Apresenta um prefácio esclarecedor de José D’Assunção Barros e uma apresentação do autor, em que ele refaz a trajetória da pesquisa, desde seu Mestrado em História do Brasil em 1997, também pela PUC de São Paulo, quando estudou a oralidade e as mediações entre o escrito e o oral. Nessa introdução, ele revela suas motivações pessoais e intelectuais, ao se debruçar sobre os temas religiosidade e cultura popular, com o propósito de estabelecer interconexões entre História Social e História Oral.

No primeiro capítulo – Cultura popular e religiosa em registros letrados: folcloristas e estudiosos -, Moreira Brito mostra os encontros/confrontos entre a produção cultural do povo nordestino, em suas práticas social e religiosa, e os estudiosos e folcloristas que estudam essa produção, porém sempre referendados pela cultura oficial, letrada, dominante e erudita. O historiador baiano critica a atitude etnocêntrica desses estudiosos e folcloristas, ao estudar a obra de três autores, Pedro Calmon, Marck Curran e Sílvio Romero, cuja visão da cultura popular, a despeito da impressão de defesa e amor à cultura do povo que apresenta, é, no entanto, uma visão marcada pelo preconceito acadêmico e científico.

Pedro Calmon e Marck Curran, por exemplo, em suas respectivas História do Brasil na poesia do povo e História do Brasil em cordel, ainda que se utilizando, como suporte, da literatura de folhetos – ou literatura popular em versos ou ainda literatura de cordel, como também é chamada -, para escreverem uma História do Brasil que dê mais visibilidade, além da portuguesa, as duas outras etnias compositivas do povo brasileiro, os negros e os índios, como dizem pretender fazer, ainda assim esses autores constroem um discurso que, analisado e desconstruído por Moreira Brito, deixa ver o enfoque preconceituoso, ao avaliar a cultura popular a partir de comentários rápidos e superficiais e utilizando-se de considerações como “fanatismo religioso”, “incultura” “ignorância”, que são, segundo o professor baiano, “(…) veiculadas nas mídias letradas voltadas às prosas urbanas” (BRITO, 2009: p. 58). Nesse sentido, tais autores deixam ver seu lugar de fala e mostram que seus interlocutores são antes seus pares acadêmicos, do que o povo propriamente dito.

Passando para Sílvio Romero, Moreira Brito mostra que, a despeito do serviço que prestou ao estudo da cultura popular, coletando, catalogando, classificando, repertoriando e descrevendo, pioneiramente, esse autor, em seu livro A poesia popular no Brasil, apresenta grande preconceito em relação a essa mesma cultura que procura salvar do desaparecimento, sobretudo no que tange à religiosidade popular. Diz assim o historiador baiano:

Observamos destacados preconceitos em tratar de assuntos religiosos emergentes da oralidade, indicando que, para além de seus interesses científicos e evolucionistas, em direção à perspectiva de reunir, ordenar, classificar e selecionar folhetos, o autor considerava aquelas ‘expressões da religião’ inoportunas para letrados. (BRITO, 2009: p. 80).

Saímos do primeiro capítulo com o sentimento de gratidão a Sílvio Romero e seus pares, pelo que fizeram, com sua obra, pela cultura popular, mas saímos também despertados para sua atitude preconceituosa e para seu lugar de fala, que é o lugar da cultura oficial, culta, letrada e dominante. Portanto, saímos atentos à maneira irônica e até desrespeitosa com que esse autor se refere, por exemplo, a Antonio Conselheiro, líder que, para o povo se reveste de uma enorme importância, em termos de referência ética, moral e religiosa. O que o folclorista sergipano não consegue perceber em profundidade, devido a seu etnocentrismo.

No segundo capítulo – Em busca do verbo! Práticas religiosas na literatura de folhetos em prosa e verso – Moreira Brito disserta sobre as práticas religiosas oriundas do povo, em suas performances de apropriação seletiva, da catequese recebida da Igreja Católica. Através de publicações vindas de Portugal, como Breviários, Horas Marianas, Lunário Perpétuo e Missão Abreviada, o historiador mostra como a Igreja Católica procura conduzir a formação das práticas religiosas dos sertanejos que se encontram fora do alcance das jurisdições eclesiásticas. O professor Moreira Brito mostra também que a atitude do povo, ante essa campanha pedagógica da Igreja Católica, que vem desde a colonização, não é jamais passiva. Antes se faz por um processo de mediação ativa em que o povo incorpora seletivamente a leitura/audição/assistência dessas publicações, criando delas uma expressão e uma interpretação próprias, intimamente ligadas aos seus modos de vida. Esclarece o professor: “[…] é importante registrar que, ao serem incorporadas através de experiências vivenciadas, inspirações, evocações e prescrições alcançaram rezas, trezenas, festas, penitências, de maneiras diferenciadas” (BRITO, 2009: p. 99). Ou seja, através da seletividade no processo de incorporação/reelaboração.

No terceiro capítulo – Tradições de escritura e oralidade em textos bíblicos: disputas entre católicos e protestantes -, que é um desdobramento do anterior, Moreira Brito acompanha as disputas entre católicos e protestantes, vendo-as como campos de forças presentes na produção de práticas religiosas do povo nordestino.

Essas disputas, “justas oratórias”, “pelejas” ou “cantorias”, feitas através da literatura de folhetos por repentistas e poetas populares, em performances marcadas, além de pela leitura em voz alta de textos rimados e metrificados, também pela gestualidade da teatralização e pela visualidade das xilogravuras, ecoam um embate entre a Igreja Católica e o Protestantismo, que começou na Europa no século XVI e aqui se reatualizou. Nesses encontros/confrontos entre católicos e protestantes no nordeste, duas tendências são detectadas pelo historiador. Uma, a dos protestantes, na direção dos ensinamentos de Martim Lutero contra a Igreja Católica, tem na racionalidade exegética das Escrituras Sagradas sua referência exclusiva, na orientação de suas práticas religiosas. Outra, a dos católicos, tem como referência, em suas práticas religiosas, as tradições antigas advindas da oralidade e os ensinamentos da Igreja Católica. Porém, tais ensinamentos são, pelo catolicismo popular, incorporados seletivamente e reelaborados de acordo com os modos de vida interioranos e a mundividência nordestina, assentados em circuitos de tradições orais, distanciados dos centros urbanos, de onde a Igreja Católica exerce seu controle pedagógico, através de publicações e folhetos religiosos.

Cumpre observar aqui ainda a crítica empreendida pelo professor Moreira Brito a Raymond Cantel, o qual, segundo o historiador baiano, referenciado na sociologia de Gilberto Freyre em Casa-Grande & Senzala, ameniza, ao folclorizá-las, as tensões nas disputas de princípios e práticas religiosas do povo nordestino. Diz o professor:

Raymond Cantel ao concluir suas pesquisas sobre relações entre católicos e protestantes, (…) as considera apenas como queixas e lamentos, discursos públicos entoados por cantadores e folheteiros, construindo uma visão para disputas e princípios e práticas religiosas que não produziram tensões, coexistindo ‘sem maiores problemas’, dando (o estudioso francês) a perceber a existência de campos de forças que insiste em negar. (BRITO, 2009: p 186).

Finalmente, no quarto e último capítulo – Relações em linguagens oral, escrito, gestual e visual na literatura de folhetos religiosos – Moreira Brito trabalha as inter-relações entre as várias linguagens presentes nas práticas sociais do povo nordestino. Ele mostra as aproximações entre a xilogravura e a oralidade, bem como entre esta e a gestualidade.

Todas se entrecruzando e se imbricando na criação de práticas religiosas populares que revelam a incorporação de experiências ativas, mantidas entre o gravador de xilogravuras e o público consumidor de seus folhetos religiosos.

Essa capacidade comunicativa da xilogravura, em seu processo de reprodutibilidade técnica, que a espalha por variadas espacialidades/temporalidades, é vista pelo historiador como fundamental no nordeste na preparação do olhar e da percepção do sertanejo para outras formas de linguagem visual, como o cinema, por exemplo. Assim, diz o professor: “A xilogravura, na literatura de folhetos, foi produzindo, historicamente, uma percepção que, posteriormente, foi incorporada pelo cinema novo e pela literatura para construir outras linguagens literárias e fílmicas” (BRITO, 2009: p. 192).

A importância do gravador de xilogravuras é acentuada nas relações entre esses gravadores e seu público, constituído por grupos sociais nordestinos, quando Moreira Brito, amparado nas reflexões de Walter Benjamin, compara os gravadores com o narrador tradicional, geralmente anônimo e proveniente de circuitos de oralidade. As xilogravuras, semelhantes as iluminuras da Idade Média, cumprem desse modo, conforme nos faz saber o professor baiano, um papel midiático importantíssimo, enquanto suporte material de práticas religiosas populares.

Encaminhando para a conclusão esse belo e penetrante ensaio sobre a religiosidade na cultura popular, o historiador enceta uma análise das xilogravuras que ilustram os folhetos já minuciosamente trabalhados nos capítulos anteriores. Dotado de uma capacidade analítica invulgar, Moreira Brito revela os significados religiosos que atravessam esses folhetos. Significados que, embora ligados à tradição doutrinária da Igreja Católica, sofrem todo um processo de incorporação e reelaboração seletivas por parte da população dos interiores nordestinos que neles assentam seus valores éticos, morais e religiosos.

A publicação da tese de Gilmário Moreira Brito, Culturas e Linguagens em Folhetos religiosos do Nordeste, se constitui, assim, como uma contribuição fundamental para o estudo da cultura e da religiosidade populares.

Antonio Marcos dos Santos Trindade –  Mestrando em Estudos Literários pela Universidade Federal de Sergipe. E-mail: [email protected]

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[DR]

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