Há algumas décadas a historiografia dedicada às Américas, e especialmente à América Latina, tem experimentado uma diversificação de temas e enfoques que dialogam com os processos históricos vivenciados após o final de regimes ditatoriais e com as novas conformações políticas e econômicas do continente. Questões levantadas sobre temas capitais como o par público / privado, as demandas da sociedade civil, as dimensões constitutivas da cidadania, as diferentes abordagens de temas culturais explicitam uma premissa que nos parece basilar: a história é sempre escrita desde um presente! Um presente amplo, é verdade, capaz de reunir em si categorias que o complementam e, no mesmo passo, o definem, a exemplo da noção de espaço, de instituição, de tempo, de temporalidade etc.

Considerando tal pressuposto, temos a satisfação de apresentar este dossiê, cuja proposta contempla uma reflexão tão valiosa quanto necessária ao tempo presente. “Espaços públicos e circulação de ideias nas Américas”, tal foi tema oferecido como desafio aos autores que escreveram neste volume. De modo geral, buscamos com o conjunto “espaço público e circulação de ideias” a agência de diferentes grupos e os enfrentamentos que compuseram um repertório de indagações de domínio amplo e compartilhado – em suas concordâncias ou nas discordâncias, por meio do debate público perceptível em circunstâncias de maior ou menor liberdade, e mesmo nos períodos de interdições que marcaram a história do continente. Num mesmo golpe, visualizamos movimento (as circulações) e uma arena capaz de capturá-lo (os espaços públicos), ainda que instantaneamente, a fim de compreendê-lo, esmiuçá-lo.

O historiador Tulio Halperin Donghi já nos havia indicado uma chave de leitura importante para esse jogo entre circulações e suas apropriações. O “uso público da razão”, conforme ele notara, elabora-se com base em discursos mobilizadores e estruturadores das linguagens políticas, constituindo-se, portanto, em produto e produtor de significados heterogêneos. A pulverização entre diferentes audiências e identidades que podem ser reivindicadas por ideias que circulam em espaços públicos sugere outro exercício relevante, e que atravessa este dossiê: questionar premissas homogeneizantes e, ao mesmo tempo, reconhecer a variedade das pesquisas que consideram a existência de espaços públicos como o local privilegiado para a ação política, e que observam como a circulação de ideias ultrapassa fronteiras, criando significações distintas em cada época. Do legado colonial à emergência das nações contemporâneas, recuperando a ideia do letrado colonial de Angel Rama ou do letrado patriota do período das independências, por exemplo, há um vasto repertório de ênfases e questões próprias à formação das sociedades americanas, com seus traumas, fragmentações e pluralidades. Os paradoxos na construção do espaço público e da circulação de ideias exigem, ainda, questionar a idealização dos feitos da moderna cidadania na emergência das repúblicas ou mesmo dos grupos políticos que se organizaram em torno das questões da memória nos debates estabelecidos a partir do final das mais recentes ditaduras militares.

O leitor encontrará nas páginas desta edição de Territórios & Fronteiras um rol de artigos que desdobraram o tema proposto em muitas faces distintas e instigantes, oferecendo aos interessados em história das Américas reflexões originais. As boas vindas à discussão ficaram por conta de Pablo Piccato e seu artigo A esfera pública na América Latina: um mapa da historiografia, versão em língua portuguesa do texto publicado originalmente em 2010 na revista Social History. Além de propor uma revisão historiográfica criteriosa, Piccato nos convida a pensar sobre as implicações teóricas e metodológicas dos usos da categoria de “esfera pública”, e também a respeito das possibilidades de se fazer uma “história da esfera pública” no continente. Esfera pública e hegemonia; Habermas e Gramsci: tais são os pontos que balizam sua análise, aproximando-se muitas vezes, mas sem necessariamente se misturar.

Ao percorrer o texto de Pablo Piccato o leitor perceberá que os historiadores interessados no debate em torno da esfera pública na América se dedicaram majoritariamente ao período posterior às independências. A definição dos espaços da ação política, de outras linguagens e de novos atores nas repúblicas recém-independentes foi acompanhada de recorrentes investidas de cunho intelectual com vistas a construir sentimentos de pertença, laços nacionais. Um conjunto de análises sobre esse tema, enfatizando tempos e espaços distintos na América espanhola, é o que se encontrará nos três artigos que se seguem ao texto de abertura. Maria Elisa Noronha de Sá, em Por uma nova ordem de coisas: as reformas rivadavianas na década de 1820 na província de Buenos Aires, retoma as proposições de Reinhart Koselleck para examinar as experiências de tempo dos sujeitos envolvidos com os processos de emancipação política e construção do Estado-nação na Argentina dos anos 1820. Conceitos caros a intelectuais e políticos do século XIX, a exemplo de “revolução”, “nação”, “progresso”, “história”, consistem em vigorosas portas de entrada para a compreensão histórica na medida em que permitem aos historiadores acompanhar e interpretar as mutações semânticas pelas quais eles passam. Conceitos, linguagens, circulações, apropriações, modernização dos espaços políticos, formação dos estados nacionais: esses são alguns dos elementos em torno dos quais se organiza o referido artigo.

A circulação de ideias e linguagens pode ser observada em fontes menos exploradas no debate sobre o espaço público. A troca de cartas entre um soldado e seu irmão durante os anos 1862 e 1867, período em que no México materializaram-se os desejos de expansão de Napoleão III, é reveladora de apreensões e questionamentos abordados por Gabriela Pellegrino Soares em A correspondência de Augustin-Louis Frélaut durante a intervenção francesa no México (1862-1867). Como as populações indígenas teriam se movimentado ante a intervenção francesa no México? As respostas emergem do conjunto epistolar de Frélaut, juntamente com as possibilidades variadas de se pensar a circulação de bens, pessoas, ideias e as tensões que permeavam as relações entre os diferentes atores que se enfrentavam nos espaços políticos e intelectuais do México dos anos 1860. Se com o texto de Gabriela Pellegrino Soares vislumbramos a percepção “estrangeira” sobre os indígenas “mexicanos”, elaborada num momento em que se buscam as raízes históricas e nacionais do novo país, no artigo de Maria Helena Rolim Capelato, encontramos o tema da produção da identidade nacional e política, porém agora no Chile. Da emulação dos modelos europeus, própria do impulso modernizador verificado a partir das últimas décadas do século XIX, até a emergência de um pensamento conservador após o golpe de Pinochet, em 1973, acompanhamos a trajetória de uma proposta: a criação da identidade nacional chilena em três tempos. O ser chileno, argumenta Capelato, é criado e recriado em três chaves distintas: com a recuperação do mito de Diego Portales, um dos pais fundadores da pátria, nos anos 1920 e 1930; com a propagação de uma historiografia revisionista que pretendia responder às crises pelas quais passava a sociedade chilena de meados do século XX; e com um discurso conservador sobre a identidade, formulado nos anos da ditadura. A leitura desse artigo não deixa dúvidas: a história é sempre escrita desde um presente!

A noção de que a agência de diferentes grupos e os enfrentamentos nos espaços públicos, nas democracias ou nas ditaduras, integram o tema deste dossiê fica bem documentada no texto de Paulo Renato da Silva, A oposição na “literatura stronista” e a opinião pública na ditadura do general Alfredo Stroessner (Paraguai, 1954-1989). Enquanto notamos no Chile a construção de um discurso identitário, atrelado a um pensamento conservador, observamos no contexto paraguaio analisado as possibilidades de dissenso, interpretadas com base na análise da própria literatura stronista. Na disputa pelo controle do espaço e da opinião públicos, o enfrentamento indicava a necessidade de o discurso oficial reconhecer e se apropriar de princípios que eram identificados nas demandas da oposição, frequentemente representada na literatura simpática ao regime de Stroessner.

Se o tema do dossiê sugere um viés eminentemente político, há que se considerar que ele permite a problematização em outros âmbitos. Com o artigo de Beatriz Helena Domingues, acompanhamos de perto os modos pelos quais o historiador norte-americano, e brasilianista, Richard Morse leu e se apropriou dos escritos de Gilberto Freyre. Ou melhor: o modo como este se fez presente na obra daquele. A hipótese do artigo se cristaliza em seu próprio título: A presença de Gilberto Freyre na obra de Richard Morse. A familiaridade da historiadora com os escritos de Morse e seu entusiasmo ao perseguir as “matrizes freyrianas” no pensamento do brasilianista são reveladoras de uma operação historiográfica que dialoga com ideias e reapropriações de nomes basilares do debate cultural latino-americano. Em O cinema se alastra pela América Latina: repercussões do novo espetáculo, artigo assinado por Miriam V. Garate, a autora analisa uma série de escritores e cronistas de diferentes partes da América que abordaram a novidade que representava o cinema. As relações entre o espetáculo cinematográfico, pleno de efeito de realidade, e a vida cotidiana não demoraram a ser registradas por aqueles cronistas, que muitas vezes conceberam o cinema como um espaço de evasão do mundo real. Ou mesmo como “paliativos imaginários” antes a crueza da vida, publicizando experiências e a formação de uma audiência que traz questões originais na descoberta das sedutoras imagens audiovisuais

O artigo que fecha o dossiê recoloca o problema da circulação de ideias valendo-se de uma proposta metodológica conveniente à própria noção de “circulação”: a história Atlântica. Hereges nos mares de Deus. A ação de corsários como episódio das Guerras de religião no século XVI, de Luiz Estevam de Oliveira Fernandes, propõe ao leitor um retorno ao período colonial, para que se possam observar as trocas e circulações de ideias, nem sempre amistosas, entre representantes do catolicismo e de grupos reformistas. Tendo o Atlântico como palco, argumenta Luiz Estevam, piratas e corsários, os personagens principais dessa trama, tornavam-se algo além de saqueadores, ou de um entrave político e econômico às monarquias ibéricas: eles passavam a ser agentes disseminadores de ideias religiosas e, portanto, armas eficazes nas disputas pelas almas.

Agradecemos aos pesquisadores que integram o dossiê, ao Conselho Editorial da Territórios & Fronteiras e esperamos que cada um dos trabalhos apresentados, em suas reflexões e propostas peculiares, com seus enfoques e recortes, possa contribuir para a ampliação dos debates sobre o “Espaço público e circulação de ideias nas Américas”. Afinal, trata-se de um território do qual fazemos parte, mas que, por diferentes processos, ainda expressa uma ambiguidade de proximidade e distanciamento para grande parte dos pesquisadores brasileiros.

Boa leitura!

Os organizadores

Anderson Roberti dos Reis – Universidade Federal de Mato Grosso. E-mail: [email protected]

José Alves de Freitas Neto – Universidade Estadual de Campinas. E-mail: [email protected]


REIS, Anderson Roberti dos; FREITAS NETO, José Alves de. Apresentação. Territórios & Fronteiras, Cuiabá, v.7, n.1, jan / Jun, 2014. Acessar publicação original [DR]

Acessar dossiê

Deixe um Comentário

Você precisa fazer login para publicar um comentário.