O que está em jogo? Em torno do futebol, da raça e da nação no Brasil: apresentação para uma história ausente

Há quem reclame sobre a necessidade de mais estudos de história intelectual na historiografia brasileira, de mais reflexões que deem conta dos processos que mobilizaram intelectuais, perspectivas teóricas e suas interpretações, um esforço que iria de campos de estudo como a questão agrária, passando por aquele da ecologia e meio ambiente, o da história das doenças e mesmo da história dos esportes, entre tantos outros. Quando surgem? Quais os seus principais e pioneiros intelectuais? Quais os diálogos teóricos propostos? Como se conectaram (ou não) com os debates contemporâneos da sociedade brasileira?

Muitas reflexões historiográficas, ao alinharem obras e autores, abriram mão de abordagens que pudessem apontar os termos dialógicos dos debates intelectuais – sempre amplos e multifacetados. O mundo acadêmico no Brasil produziu mesmo uma convenção sobre a existência de um pensamento social brasileiro, algo que não poucas vezes foi superdimensionado, supostamente definitivo e prospectivo. Nesse quadro, algumas influências e ideias foram destacadas, entre outras tantas abandonadas.

Interessante perceber como a música, o carnaval, o futebol, a capoeira, entre outros temas, ficaram banidos da historiografia brasileira até 30 anos. Começaram a interessar muito lentamente, inicialmente mais a antropólogos e sociólogos, só depois a historiadores. Durante muito tempo, na abordagem desses assuntos reinavam os jornalistas, mas não os acadêmicos.

Paradoxal, pois o carnaval e o futebol se transformaram, em meados do século XX, em símbolos da identidade nacional brasileira. Já a capoeira, nos dias de hoje, é considerada uma das maiores representações internacionais de cultura do Brasil. Ainda assim, só recentemente estes temas têm mobilizado pesquisadores acadêmicos para revolver seus processos históricos de surgimento, transformações e evocações sociológicas contemporâneas. Para muitos são símbolos (construídos) da nação e com uma história do tempo-presente ainda incompleta.

O que pensariam disto os explicadores do Brasil – intelectuais pioneiros, passando não só por Gilberto Freyre, Sérgio Buarque e Caio Prado, mas também Paulo Prado, Fernando de Azevedo, Raymundo Faoro, Celso Furtado, e outros? Para muitos destes, a sociedade escravista – colonial, patriarcal e patrimonialista – explicaria muito de um Brasil contemporâneo, desigual e hierarquizado. Mas como pensar a sociedade brasileira no pós-emancipação exatamente quando o futebol avança entre práticas, fábricas e personagens com diversas origens e identidades? Foi um longo processo no qual ex-escravos e seus filhos e netos foram transformados em “cidadãos de cor preta”, nomenclatura utilizada até praticamente o início dos anos 1940 em comícios políticos de setores conservadores, trabalhistas e mesmo comunistas.

No alvorecer do século XX, ideias em torno da identidade nacional, da cultura nacional e de outros símbolos envolventes foram manipuladas por intelectuais diversos. O futebol, um estrangeirismo para alguns, se transformaria em paixão, esporte de massa e envolveria milhares de adeptos e agremiações em pouco mais de duas décadas. O Brasil inventava-se numa modernidade que escolhia cores, rostos, corpos e identidades.

Nem sempre a associação entre nação e futebol – algo relativamente recente – apareceria nas interpretações clássicas. Mesmo outros campos de estudos – aqueles das relações raciais e da cultura negra – pouco avançariam na possibilidade de articular interpretações sobre o futebol e suas dimensões históricas e sociológicas. Foram assim intelectuais como Arthur Ramos, Edison Carneiro, passando por Florestan Fernandes e toda a geração da Escola Sociológica Paulista. O futebol poderia ser uma chave interpretativa para o Brasil, mas vários intelectuais não se aproximaram dela.

Por muito tempo, o futebol foi transformado num espaço sacralizado para os cientistas sociais. Podia ser admirado com quase ufanismo mas nunca investigado em termos sociológicos.

A obra de Mário Rodrigues Filho, O Negro do Futebol Brasileiro1, tem sido recuperada, embora ainda como leitura secundária, enquanto memória. Ela foi escrita num período de intenso debate sobre raça, racismo e cidadania, no cenário do pós-guerra, em meio aos debates da Constituinte de 1946 e quando, nos palcos do Rio de Janeiro, intelectuais negros – Abdias do Nascimento, Guerreiro Ramos e outros – criavam o Teatro Experimental do Negro e outras atividades como a Convenção do Negro Brasileiro (1945) e a Conferência do Negro no Brasil (1946), no Rio de Janeiro e São Paulo.

Enquanto isso, a organização de ligas desportivas, a criação de clubes e a presença cada vez mais marcante de negros e mestiços no futebol tinham mobilizado debates desde os anos 1930. Não poderia ser mais um tema de menor importância. O interessante é que no início dos anos 1950, a partir da proposta da Unesco de realizar uma grande pesquisa sobre as relações raciais na América Latina, surgiriam no Brasil vários estudos regionais, particularmente de sociólogos e antropólogos. O silêncio a respeito do futebol e o que ele simbolizava sobre imagens e símbolos em torno da raça e identidade nacional produziram estrondos, no que a obra de Mário Filho, em parte esquecida, tem ajudado a recuperar.

Ao contrário daquele momento, racismo e futebol, práticas e manifestações de xenofobia, estão hoje na pauta internacional. O esporte de massa – que reúne paixões, empresas multinacionais, mídias, debates de cidadania e (inter)nacionalismos – se confronta hoje com outras reflexões. Debates contemporâneos que evocam histórias, processos, experiências e interpretações. Também acadêmicas.

Imagem 1: O jogador negro pega a bola e a leva para a quina do gramado, a fim de cobrar um escanteio. O inusitado – lamentavelmente nem tão inusitado assim – ocorre: um torcedor atira uma banana no relvado. Num gesto de grande perspicácia, o futebolista descasca a fruta, a come e dá seqüência à partida. O público, em grande maioria a discordar do gesto absurdo do adepto, o saúda em uníssono.

As polêmicas mundiais que se seguem dão conta da dificuldade de tratar da questão das manifestações de racismo nos espaços de futebol, terreno, a princípio, de uma inversão da ordem, no qual se manifestam as mais diferentes facetas humanas, mesmo as mais extremadas, algumas que não podem mais ser toleradas.

Meses depois, são veiculadas repetidamente nos meios de comunicação as imagens do comportamento de uma parte da torcida de um grande clube do país num jogo realizado na região Sul do Brasil. Choca a naturalidade da adoção de procedimentos racistas, expondo mais uma vez a nervura aberta. Contrariamente ao que alguns insistem em afirmar, de forma explícita ou velada, o racismo ainda é uma mácula dolorosa na história desse país (e do mundo) que acaba por se manifestar naquele que é considerado o seu principal esporte, aquela modalidade que tem sido, pelo menos desde os anos 1930, mobilizada como uma das representações de uma suposta peculiaridade nacional.

A propósito, esses episódios de racismo, que grassam pelos gramados nacionais, contradizem mesmo essa construção identitaria. Se o futebol é uma das grandes representações de que a mistura relativamente pacífica de raças é uma das marcas da formação de uma cultura brasileira – na acepção freyreana expressa de forma mais explícita por esse autor no seu artigo “Foot-ball mulato”, publicado do Diário de Pernambuco, em 1938, fonte de inspiração para vários intelectuais que se debruçaram sobre o velho esporte bretão – como esse tipo de manifestação estaria a ocorrer? O único mérito desses episódios é, portanto, expor a fragilidade dessa compreensão, conclamando-nos a melhor refletir sobre as relações entre o mais querido esporte do Brasil, as questões raciais e os discursos sobre a nação.

A popularização do futebol em terra brasilis está relacionada à apropriação desse esporte pelas diferentes classes e grupos sociais, e isso se deu de maneira entrelaçada às questões da cor e raça. Se na fase inicial o futebol era predominantemente aristocrático, com o tempo essa prática desportiva foi apropriada pelos “de baixo”, levando progressivamente à passagem do amadorismo para o profissionalismo, o que possibilitou um aumento significativo da entrada e do sucesso de jogadores das classes populares em geral e de negros em particular. No entanto, não desapareceram do universo do futebol as crenças e práticas racistas que assumiram novas formas e se revitalizaram ao longo dos anos.

Vale frisar que a presença do negro nas lides esportivas não é um fenômeno recente. Foi mesmo um dos primeiros fóruns sociais em que gozou de certo protagonismo e destaque social, ainda que sempre enquadrado pelos limites dos estereótipos e preconceitos.

Imagem 2: Em dezembro de 1853, o célebre Francisco Otaviano, ao narrar as concorridas corridas de cavalos realizadas na Corte, se refere de forma distinta a alguns personagens que nelas tomaram parte. Sobre o gentlemen-rider Alba Carvalho, “aluno do quarto ano da escola de medicina” (Correio Mercantil, 9 dez. 1853, p. 1), sugere ter sido saudado como o grande herói do dia, ao vencer seis outros amadores, todos “trajando elegantes casacas verdes e montados em cavalos de sua propriedade” (Correio Mercantil, 11 dez. 1853, p. 1). Não pode fechar os olhos, contudo, para o fato de que “um demoninho bronzeado, como o amante de Desdemona, de quatro palmos de altura e trajado de azul, foi proclamado, ao som de estrondoso vivas, o primeiro jockey do Prado” (Correio Mercantil, 11 dez. 1853, p. 1): era Balbino (ou Albino), um negro ou pardo de cerca de 13 anos que ganhou as seis provas que disputou.

Na verdade, não podemos negligenciar o fato de que o esporte e as atividades físicas em geral foram claramente mobilizadas nas iniciativas de “branqueamento” da população brasileira. Consideradas como expressão civilizacional superior, supostamente contribuiriam para a “pureza” racial brasileira, devendo ser limitado, portanto, seu alcance ao grande conjunto da população, que não tomou conhecimento desse tipo de compreensão e, de alguma forma, tomou para si o direito de fazer e assistir os mais diversos esportes.

Há que se lembrar, da mesma forma, que a prática de esportes também foi um importante elemento de articulação de comunidades de estrangeiros no país, reunidos em clubes próprios que tinham em conta tanto relembrar algo de sua cultura de origem quanto prestar contas e exaltar a nova nação que os acolhia. Por todo o país, são inúmeras as agremiações de portugueses, italianos, espanhóis, franceses, britânicos, alemães, cujas iniciativas também contribuíram com a formação de uma cultura esportiva nacional.

Este dossiê aborda alguns aspectos da história do futebol brasileiro, desde quando não se suspeitava que a habilidade dos jogadores e as vitórias nesse esporte fossem vistos como um atributo inerente à nacionalidade. Retratando o Brasil em todas suas virtudes e mazelas, grandezas e misérias, o futebol é um domínio em que conflitos sociais, contradições raciais e dilemas nacionais são postos em evidência de maneira cristalina.

Trata-se, assim, de tema de enorme importância e o pequeno número de (excelentes) artigos que integra este dossiê é mais um indicador de que o assunto está a merecer mais atenção, e uma atenção mais cuidadosa, dos historiadores brasileiros. A trilha apresentada pelos autores que integram esta edição, sem sombra de dúvida, se constitui em um chamamento e um alerta acerca da necessidade de esforços mais contundentes.

Abrimos o dossiê com o artigo Futebol, nação e representações: a importância do estilo “futebol-arte” na construção da identidade nacional, de Filipe Fernandes Ribeiro Mostaro, Ronaldo George Helal e Fausto Picorelli Montanha Amaro. O debate muito brevemente aqui apontado nesta apresentação é analisado em profundidade pelos autores, uma contribuição para que melhor compreendamos determinadas ideias que se naturalizaram no senso comum a respeito dos significados do esporte bretão no Brasil.

Numa esteira semelhante, ainda que por caminhos distintos, “Diz-me como jogas e te direis quem és…”: estilos de jogar futebol em Pasolini, Freyre e DaMatta, de André Mendes Capraro, chama para o jogo novos personagens, esgrimindo a ideia de que também no cenário internacional a mobilização do futebol em construções identitárias guarda interessantes recorrências.

Em Entre o ethos aristocrático e o associativismo: futebol amador e competência esportiva na cidade de São Paulo (1920-1930), Diana Mendes Machado da Silva prospecta as diferentes construções de representações sobre o futebol em duas agremiações paulistanas, uma delas eminentemente ligada aos estratos socioeconômicos superiores, o Clube Atlético Paulistano, e outra herdeira de uma das mais pujantes experiências clubísticas nacionais, vivenciada nas várzeas da capital de São Paulo, a Associação Atlética Anhanguera.

Temos ainda uma nota de pesquisa de um dos organizadores deste dossiê. Petrônio Domingues nos apresenta os primeiros resultados de sua investigação sobre a trajetória da Associação Atlética São Geraldo, uma das que teve maior destaque entre as muitas agremiações de negros dedicadas à prática desportiva que se organizaram em São Paulo nas primeiras décadas do século XX. Sem dúvida, um fascinante objeto de pesquisa.

Embora o futebol seja uma prática desportiva importante no Brasil desde longa data, mobilizando interesses políticos, sociais, econômicos e culturais diversos e catalisando esperanças, sonhos e paixões de milhares de pessoas, inexistiam estudos em torno das intersecções do esporte bretão, raça e identidade nacional até por volta do início do terceiro milênio. Alguns ensaios aludiam ao assunto colateralmente ou então só de passagem, de forma genérica. Felizmente, esse quadro vem se alterando, porém ainda é possível observar algumas peculiaridades. Não se trata mais de negligenciar esse esporte como de suma relevância na vida do brasileiro, com seus signifi cados polissêmicos e sentidos entrecruzados, mas de reequacioná-lo na agenda dos historiadores. Assim, nosso desejo é que muitos outros dossiês e artigos sobre “Futebol, raça e nação no Brasil” venham à baila. O tema é urgente. Os historiadores não podem se eximir dessa responsabilidade.2

Notas

1. O livro do jornalista Mário Rodrigues Filho, O negro no futebol brasileiro, foi publicado originalmente em 1947 e reeditado em 1964, quando recebeu o prefácio de Gilberto Freyre e o autor adicionou mais dois capítulos e fez alterações em sua parte inicial.

2. Sem a pretensão de esgotar as referências bibliográficas sobre o assunto, ver Gordon Jr. (1995, 1996), Lopes (2004), Santos (2008) e Basthi (2014).

Referências

GORDON Jr., C. 1995. História social dos negros no futebol brasileiro: primeiro tempo. Pesquisa de Campo, 2:71-90.

GORDON Jr., C. 1996. História social dos negros no futebol brasileiro: segundo tempo. Pesquisa de Campo, 3-4:65-78.

LOPES, J.S.L. 2004. Classe, etnicidade e cor na formação do futebol brasileiro. In: C.H.M. BATALHA; F.T. da SILVA; A. FORTES (orgs.), Culturas de classe: identidade e diversidade na formação do operariado. Campinas, Ed. Unicamp, p. 121-163.

SANTOS, R.P. 2008. Futebol e racismo no Brasil. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, 439:131-147.

BASTHI, A. 2014. Breve reflexão sobre Pelé e a experiência negra no futebol brasileiro. In: F. CAMPOS; D. ALFONSI, Futebol objeto das Ciências Humanas. São Paulo, Leya, p. 115-127.

Victor Melo – Universidade Federal do Rio de Janeiro

Petrônio Domingues – Universidade Federal de Sergipe

Flávio Gomes – Universidade Federal do Rio de Janeiro


MELO, Victor; DOMINGUES, Petrônio; GOMES, Flávio. Apresentação. História Unisinos, São Leopoldo, v.19, n.3., setembro / dezembro, 2015. Acessar publicação original [DR]

Acessar dossiê

Deixe um Comentário

Você precisa fazer login para publicar um comentário.