Compor um dossiê tendo por objeto a história do mundo rural e movimentos sociais é oportunizar um espaço de reflexão, discussão e divulgação de problemáticas da história pretérita e atual. O referido dossiê centra a investigação em três eixos temáticos: o mundo rural, a propriedade da terra e os movimentos sociais. Eles possibilitam discutir as temáticas, as metodologias e as teorias de estudos e pesquisas por meio da relação entre história agrária, história da agricultura, ocupação e apropriação da terra, conflitos fundiários, movimentos sociais, fronteiras agrárias e políticas, relações socioculturais e grupos sociais rurais. A perspectiva que aproxima e aglutina esses estudos é a do mundo rural e dos movimentos sociais latino-americanos e brasileiros, em interação com os demais territórios. Busca-se interface entre história, antropologia, geografia, sociologia rural e direito, procurando discutir as várias realidades rurais, na perspectiva do regional, em seus múltiplos desdobramentos.

Atualmente, constata-se a ampliação do debate acadêmico acerca do “mundo rural” e dos “movimentos sociais”, refletindo o estado da arte da pesquisa nas diferentes áreas do conhecimento. Em parte, essa ampliação é motivada pelas mudanças de cenário, isto é, do que era aceito e reconhecido como espaço rural e urbano, natureza e cultura, organizações sociais e processos sociais, mobilidade demográfica e territorialização, espaço e região, sistemas e processos produtivos, fronteiras agrícolas e ambientais, trabalho e trabalhador. Tais mudanças são fruto da dinâmica do processo histórico, que traz consigo permanências, rupturas e resistências, as quais foram produzidas com a participação de inúmeros movimentos e organizações de luta por uma sociedade que desnuda, reflexivamente, os valores e as práticas que constituem o núcleo central do capitalismo, enquanto sistema econômico e força civilizadora.

Este dossiê reúne artigos sobre o mundo rural e os movimentos sociais, de maneira geral, tendo por matriz orientadora a história social. Assim, articulados entre si e abarcando diferentes temas de pesquisa, tais como povoamento, populações indígenas, movimentos sociais e violência, colonização e ciclos econômicos, propriedade da terra e legislação agrária, agronegócio, ocupação do espaço, mundos do trabalho, entre outros, os artigos revelam o avanço do debate historiográfico e contribuem com a ressignificação da dimensão social na História, procurando contemplar, com base em novas abordagens, novos conceitos, métodos e técnicas de pesquisa, diversas possibilidades interpretativas da dinâmica dos processos sociais nos quais os grupos interagem, disputam, delineiam e transformam a organização social.

O artigo de autoria de Antonio Escobar Ohmstede discute a violência como um ato possível de ser constatado, portanto, investigado, não somente nos movimentos sociais, em termos de ação prática de conflitos abertos, mas também em documentos que expressam manifestos de rebeldes da vida cotidiana.

Nessa perspectiva, mas trilhando a investigação de questões estruturais que impactaram no processo de criação e distribuição da riqueza e, em muitas situações, levaram a movimentos e conflitos sociais, Juan Luis Martiren estuda, comparativamente, a evolução dos ciclos de acúmulo e distribuição da riqueza em colônias agrícolas no Brasil e na Argentina.

A questão da posse da terra e da propriedade, na contemporaneidade dos debates e das políticas de reforma agrária que não consideraram a sucessão, ou seja, o processo geracional, é estudada por Ana Luísa Micaelo. Por intermédio de uma análise etnográfica das casas num assentamento rural da Zona da Mata de Pernambuco, a pesquisadora busca compreender como os assentamentos lidaram com essa situação.

Márcia Motta e Marina Machado discutem a problemática atual da propriedade da terra, mas o fazem em uma de suas matrizes pretéritas. O estudo contempla o debate teórico e jurídico do conceito controverso de enfiteuse (ou aforamento), bem como as concepções sobre a riqueza assentada na propriedade da terra, entre as últimas décadas do século XVIII e as duas primeiras décadas do século XIX.

Ainda referente ao século XIX, Marcio Antônio Both da Silva trata da face agrária da Revolução Federalista nas matas do Rio Grande do Sul (1893-1895). O pesquisador analisa fontes produzidas por sujeitos partícipes da revolução, buscando discutir os variados significados que expressavam a condição social e as situações então experimentadas pelas populações rurais que viviam na região.

Próximo a esse recorte temporal e espacial, Guinter Tlaija Leipnitz demonstra como, no município de Uruguaiana, o longo processo de controle sobre a propriedade de gado foi marcado pela normatização e regulação, por meio das Posturas Rurais, da detenção, da produção e do comércio dos rebanhos, em especial de origem bovina.

Encerrando o dossiê, Arlene Renk e Silvana Winckler discutem o contexto histórico e social da formação dos principais conflitos no oeste catarinense, como possibilidade de construir a biografia da pequena propriedade e de seu lugar nos conflitos agrários, no referido espaço.

Não é demasiado lembrar que, cada vez mais, as fronteiras territoriais, fundiárias e socioeconômicas tornam-se fragilmente tênues, da mesma forma, o conhecimento sobre elas. Na guisa dessa afirmação, estão os demais artigos que compõem o número desta edição, tratando de confrontos conflituosos ocasionados por questões econômicas, de ocupação do espaço e transformação do território, de políticas de promoção de biocombustíveis alternativos, de processos de trabalho, relações políticas e seus agentes.

No artigo Utilisation du foncier agricole à des fins de culture de Jatropha dans le Bassin arachidier sénégalais: une démarche controversée et des gains pas à la hauteur des attendus du programme, o debate é centrado na cadeia produtiva da Jatropha no Senegal, evidenciando as estratégias desenvolvidas, dentre elas, os efeitos no espaço de produção, as condições de vida dos agricultores e os riscos da redução de culturas tradicionais.

Em Quando os laços de amizade e solidariedade são rompidos: questões de disputa e medição de terras e posse de animais, são analisados alguns confrontos cotidianos e episódios conflituosos ocasionados por questões econômicas envolvendo alemães, seus descendentes e nacionais em São Leopoldo, entre 1846 e 1871.

Em A ocupação do espaço e a transformação do território: um estudo sobre a posse de terras em Sant’Ana de Paranaíba (MT) no século XIX, a análise recai sobre a posse de terras, a partir de inventários post mortem e de contratos de compra e venda.

Agradecemos àqueles que contribuíram com seus artigos e esperamos que esta edição da revista História – Debates e Tendências atenda às expectativas dos seus leitores e que os artigos ora publicados possam fomentar discussões e servir de ponto de partida para outras investigações sobre as temáticas abordadas.

Desejamos proveitosa leitura aos interessados na história do mundo rural e dos movimentos sociais!

Ironita A. Policarpo Machado – Universidade de Passo Fundo.

João Carlos Tedesco – Universidade de Passo Fundo.

Márcia Maria Menendes Motta – Universidade Federal Fluminense.

Organizadores


MACHADO; Ironita A. Policarpo; TEDESCO, João Carlos; MOTTA, Márcia Maria Menendes. Editorial. História – Debates e Tendências, Passo Fundo- RS, v. 17, n. 2, jul / dez, 2017. Acessar publicação original [DR]

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