Os artigos aqui apresentados foram submetidos ao Dossiê História e Ciência. A intenção inicial das organizadoras foi a de agregar produções de historiadores que abordassem a temática, mesmo que não atuassem exclusivamente na área de história da ciência e da medicina. Os textos recebidos demonstraram que há um bom número de pesquisas sendo feitas na área e que os assuntos relacionados à temática do dossiê deixaram de ser marginais. Além disso, foi possível constatar não apenas uma grande diversidade de temas explorados pelos pesquisadores, como também de abordagens teóricas e metodológicas nos trabalhos, o que aponta para uma saudável vitalidade dos programas de pós-graduação e dos centros de pesquisa brasileiros e internacionais.

As questões tratadas nos artigos que compõem o presente número da revista História Unisinos se enquadram nas atuais tendências e vertentes de tratamento da temática, e que podem ser constatadas nas principais revistas de história e de história das ciências e da medicina nacionais e internacionais.

A ordem de apresentação dos artigos obedece, primeiramente, o critério de afinidade temática, e, secundariamente, o da delimitação temporal. O primeiro grupo reúne, assim, trabalhos que tratam da circulação de práticas científicas e médicas e da apropriação de conceitos e ideias. Estes artigos contemplam análises embasadas no já clássico debate sobre alteridade e “invenção” do “outro”, acrescidas de reflexões sobre circulação, circularidade e apropriação das ciências e da arte médica.

O artigo de Thomás Haddad demonstra como o jesuíta Jacome Fenicio relatou costumes e crenças dos “índios orientais”, sobretudo, as cosmologias hindus, visando a sua crítica e refutação. Para o autor, a astronomia europeia teve papel central na construção da identidade “ocidental”, sendo inegável a contribuição jesuítica na conformação deste pensamento sobre a cultura indiana.

André Nogueira estabelece um diálogo entre as práticas de cura ilegais das Minas Gerais no século XVIII e a medicina douta. O autor mostra uma assimetria nesse diálogo, devido à repressão às práticas ilegais tanto por parte da Igreja, quanto das autoridades civis. Há alguns pontos de semelhança e convergência entre as diferentes terapêuticas abordadas, porém, há também fortes diferenças, principalmente, as referentes à presença de práticas africanas crioulizadas no universo das práticas ilegais.

Marília de Azambuja Ribeiro, a partir das discussões travadas sobre a natureza da luz, no século XVII, reflete sobre a prática científica da Companhia de Jesus em Portugal. Esse artigo se inscreve na vertente historiográfica recente de reavaliação da atuação dos jesuítas na construção da chamada ciência moderna e de um suposto isolamento de Portugal neste contexto.

O texto de Bruno Martins Boto Leite analisa concepções médicas de Estêvão Rodrigues de Castro, relacionando-as com o debate filosófico e médico europeu em curso na Europa seiscentista. As definições de epidemia e de contágio propostas pelo médico português são, desse modo, referidas às discussões sobre atomismo e física pneumática. O autor demonstra como, no século XVII, medicina e filosofia natural devem ser consideradas em conjunto.

Os trabalhos reunidos no segundo tópico retomam, apresentando novos enfoques, um tema caro ao campo da História da Ciência e da Tecnologia, qual seja o de explorar o papel de saberes na expansão imperial do século XIX e na formação das nações americanas. Abrindo a seção, Claudio Llanos e José Antonio Gonzáles avaliam o peso que as descrições de regiões do Chile, patrocinadas pela Royal Geographical Society of London, tiveram na formulação da política britânica para a região Sul do Oceano Pacífico.

Em seguida, o artigo de Maria Rachel Froes da Fonseca, que tem como objeto a Escuela Nacional Preparatoria do México, ao mesmo tempo em que explora o processo de institucionalização das ciências, avalia as relações estabelecidas entre a instituição e o processo de formação do Estado. O trabalho é parte de pesquisa mais ampla que pretende uma comparação com a experiência do Império do Brasil.

O texto de Karoline Viana Texeira faz uma análise das descrições dos sertões enunciadas por Francisco Freire Alemão, demonstrando como elas estavam inseridas num projeto mais amplo de escrita da História do Brasil veiculado por Carl Von Martius, onde os elementos da natureza apareciam como chave interpretativa e se sobrepunham aos marcos históricos. Fechando essa sessão, Karoline Carula explora o tema da sociabilidade dos cientistas que atuavam na cidade do Rio de Janeiro em finais do século XIX, contemplando os espaços públicos voltados para a vulgarização da ciência na capital.

Os dois artigos que compõem a terceira parte do Dossiê apresentam análises que valorizam o uso de artefatos de ciência e tecnologia para a construção e comprovação de seus argumentos. Tatiana Roque e Gert Schubring, por meio de uma análise de textos clássicos da História da Matemática, exploram o papel do uso da régua e do compasso na construção da geometria euclidiana. Em seguida, Bruno Capilé e Moema Vergara se detêm nas inovações técnicas e científicas introduzidas a partir do uso do fototeodolito no contexto dos trabalhos de demarcação de fronteiras entre o Brasil e a Argentina, no início do século XX.

Fechando o Dossiê, encontram-se os artigos de Yonissa Marmitt Wadi, Claudia Castelo, Monique de Siqueira Gonçalves e Sônia Maria de Magalhães, que abordam tanto a formação de acervos documentais – vinculados ou não a instituições de pesquisa científica –, quanto chamam a atenção para a importância do acesso e da divulgação de fontes e de pesquisas, que, ao recorrerem a novas metodologias de análise, contribuem para a revisão da literatura existente.

Coerentemente com o proposto pelas organizadoras, o Dossiê História e Ciência reúne contribuições de historiadores das ciências bastante especializados, que trabalham com referências bibliográficas específicas e questões próprias, mas também de historiadores que têm incluído temas afetos às ciências e à tecnologia entre seus objetos de estudo. Em comum, os artigos apresentam abordagens que rejeitam a ideia de que existe progresso científico necessário, cujo sentido seria único e previsível, convergindo, igualmente, quando consideram que as ciências e a tecnologia não constituem um campo neutro e apartado das demais esferas da vida em sociedade.

Eliane Cristina Deckmann Fleck

Heloisa Meireles Gesteira

Lorelai Brilhante Kury

Organizadoras do dossiê


FLECK, Eliane Cristina Deckmann; GESTEIRA, Heloisa Meireles; KURY, Lorelai Brilhante. Apresentação. História Unisinos, São Leopoldo, v.18, n.1., janeiro / abril, 2014. Acessar publicação original [DR]

Acessar dossiê

Deixe um Comentário

Você precisa fazer login para publicar um comentário.